Nua e Crua - capítulo três


Joana Mayer abriu o cadeado que protegia o galpão 87 na rua Tamarindeiro. Um baque de destranque e o vibrar maquiavélico de correntes recebiam os jornalistas para o brunch na véspera do seu vernissage, uma ideia ousada para amaciar a carne dos críticos antes da sua noite triunfal. O homem via tudo no canto da instalação, sentado em uma cadeia de plástico e observando a forma da mulher receber outras criaturas humanas.

Em pé, duas modelos de peitos duros e costelas sobressalentes moviam seus corpos com gestos enferrujados, em transe, salpicadas de tinta aquarela de tons avermelhados, e os riscos mais firmes lembravam cortes entre uma mancha e outra. Deitada no chão poeirento, uma jovem ruiva cobria seus seios com as mechas onduladas do cabelo, segurando um coração de metal derretido apoiado no lado esquerdo do tórax, mais umas tranças de plástico bolha vermelho acima da barriga.

Joana esticou um traço sorridente de uma ponta a outra da boca, com gestos graciosos para receber os jornalistas. Todos viam tudo com ares de plenitude. Menos um.

O desdenhoso comentou:

— E esta mulher no canto da escada?

Os outros se viraram para fotografar a modelo nua, sem qualquer proteção, deitada sobre uma tela gigante que era suspensa por um cavalete de três metros da base ao topo. A perfeição dos cortes e ferimentos em sua pele suscitavam tantos olhos arregalados e bocas nervosas quanto possível.

— Não me parece grande coisa... A senhorita ganha pelo choque, pelo impacto, não pelo conteúdo...

Aquele jornalista fez crescer em Joana um sol causticante a partir do seu coração. O bombear do sangue enviava correntes de fogo pelas veias e culminou em uma onda de tremor em suas mãos. Aproximando-se dela, o homem cobriu seus punhos cerrados e sorriu educadamente para os jornalistas:

— Com licença! Tenho de roubar a artista por um minuto. Sirvam-se, a refeição está na mesa!

Joana engoliu um soluço e piscou para enxugar uma lágrima. Tinha apertado tão fundo a ponta dos dedos que marcou a palma da mão.

— Minha pequena, você não pode se exaltar assim! Você sabe que esses infelizes não perdem uma oportunidade para tirar o artista de sua bolha de conforto! Uma ruga fora de lugar, e pam! Lá estará sua raiva na foto de capa.

— Ou os odeio! Odeio todos eles, Alfredo! Eu quero a cabeça daquele puto!

O homem abraçou a mulher e lhe beijou na testa. Disse:

— Isso será providenciado.

* * *

O hálito quente da mulher embaçara um ponto fixo do vidro, onde sua boca afilada encostou e falou em um dialeto sibilado. Barão suspende a máscara ninja até a altura do nariz, exibindo seus lábios graúdos e um conjunto de dentes amarelados, chegando perto do rosto da mulher obscurecido pelo fumê.

— Por que você quer me matar? – questiona ela. Seus dedos desenham contornos e borrões na região embaçada.

O bandido usando o aparelho de radiofrequência se encosta na tampa da mala do Ford Edge da mulher, ora sintonizando os canais de escuta da polícia, ora vigiando as vias de acesso de quem ia ou saía da praia. Barão refreia seu último fiapo de lucidez antes de responder, devolvendo a resposta no tom exato ao dela:

— Porque você merece... Eu sei do seu diagnóstico. Transtorno de Personalidade Histriônica? Agora estão chamando os perturbados disso agora? E o que dizer daquela merda de vernissage? Sabe o que as pessoas te chamam quando não te veem? De louca! É isso o que você é, “Artista”. Louca!

A mulher sente um sol queimar a carne por dentro dos ossos. Barão estava lhe atingindo justo no nervo mais exposto. Ela respira todo o mormaço do carro e finaliza seu desenho no vidro. Visto bem de perto, lembra uma aquarela, com seus espaços profundos para a tinta e o apoio do dedo na lateral. Poderia ser também uma máscara, ou uma silhueta de pavor.

— O que está vendo? – questiona ela. Diante da boca pasma e do silêncio do seu inimigo, ela repete. — Diga-me, o que está vendo agora?

— Chega desses jogos! – Barão recarrega a arma usando um cartucho pendurado ao cinto. Com a coronha, acerta um golpe certeiro no vidro do motorista. Em seguida, destrava e dispara nos quatro pneus do Ford Edge, um tiro de cada vez. Ele retorna e se agacha até o campo de visão de Joana, com ar emproado e as mãos na cintura. — Você não tem como sair, vagabunda! Você é minha! Eu esperei essa oportunidade todos esses anos, e nada vai me tirar do caminho! Eu vou te arrancar desse carro e te fazer implorar pela sua vida desgraçada!

As engrenagens da mente da mulher iniciam um rápido processamento de signos. Todos os quatro, agora três, usam coletes e máscaras, armas de alto calibre para as duplas e um deles está escutando a frequência da polícia. A intervenção quando cercaram seu carro requer estratégia. Eles têm uma operação montada para pegá-la, ela só ainda não mediu, e nem se sabe, o custo.

Então, um fluxo de códigos explodiu diante dos seus olhos. Ela pensou rápido em diminuir o número dos seus inimigos. Tinha de agir pela surpresa. É assim que ela amacia o painel do sistema de som do Ford Edge e dedilha seu próximo estratagema. Inicia:

— Sabe o que eu vejo, Barão? Eu vejo um homem nervoso... Assustado. Um homem que usa uma máscara para esconder seu verdadeiro medo. Eu não sei o que fiz para você... Digo, pelo menos antes de ter matado o seu irmão essa noite. Ele é seu irmão, não é? – Seu dedo médio dobrado bate na película, simulando a direção onde Célio está estirado, com uma bala destroçando o crânio. Continuou. — Você usa uma máscara para não mostrar que é fraco e arredio. Eu ainda não sei o que fiz para você... Mas pela forma como fala, foi algo muito bem feito...

— O que?! Ora, sua...

— Antes de continuar seu repertório de palavrões, me permita uma observação... – A mulher abre a bolsa e começa a tirar seus produtos, as latas de tinta óleo, os recipientes de tinta spray, como se estivesse em um caixa de supermercado. — O ponto de vista do capturado é o mesmo do peixe com a boca na linha. Mas imagine por um momento que o peixe seja maior do que o captor?

— O que você está dizendo?

A mulher retira o lacre do spray e borrifa aos poucos no vidro ao lado esquerdo.

— Veja bem, se o peixe é maior, ele tem poder não só de romper a linha, como de virar o barco. E o pescador se torna a presa. Compreendeu? O pescador vira o jantar do peixe.

Os borrifos se intensificam e logo cobrem o vidro com a densidade grossa do spray. Barão e os outros começam a esmurrar as portas do Ford Edge. A mulher abre as latas de tinta e derrama no vidro da frente, transformando seu carro em poça multicolorida e de desagradável cheiro ocre. O plano é descoberto. Ela tinge todos os vidros laterais, o da frente e o traseiro, ocultando com tintas os seus gestos dentro do carro.

— O que essa maluca fez? – perguntou um dos demais.

— Eu fiz o peixe crescer! – oculta por camadas e mais camadas de cor espessa, ela grita e gargalha como uma harpia esganiçada, enquanto liga o rádio do carro na estação mais barulhenta que pôde lembrar – Quando vão perceber que vocês é que estão presos comigo?

Nua e Crua - capítulo dois


A mulher encostou a cabeça no apoio da poltrona e mirou o mosaico de nuvens no céu, enquanto esperava o retorno do homem ao consultório. Identificou ovelhas, mapas de países, máscaras japonesas e até mesmo a silhueta de sua marca de nascença. Depois, passou a contar as nuvens em si. Uma, duas, três, vinte e oito. Assim que chegou em setenta e duas, o homem regressou com um envelope violado nas mãos.

— Transtorno de personalidade histriônica. – comentou ele sob um tom metálico, vendo o rosto da mulher se aquiescer e enrugar a sua frente.

— Isso é... grave? – questionou ela. Seus olhos escorregaram para qualquer ponto no chão, e de lá não parecia querer subir tão cedo.

— Veja bem, Joana, esse é um quadro que requer estudos. A psiquiatria moderna não possui muitas bases para agir sobre a TPH, porém, os últimos testes trouxeram esse quadro à luz muito rápido. Suas compulsões... Tudo corrobora.

Uma luz de projetor surgiu na mente nublada de Joana Mayer. Sua cabeça se encheu de imagens recentes, algumas com espaço de um dia para outro de acontecimentos. Tudo corrobora.

— Desde pequena eu sentia essa necessidade por atenção, doutor... – comentou a mulher modulando um fino ranço de dor no discurso. – Parecia me comer de dentro para fora! Sempre senti que era diferente das outras crianças birrentas. Elas birravam por necessidade concreta, a minha era necessidade de alcançar algo distante, como se não tivesse nome, nem calor ou cheiro, ou gosto... E agora a culpa disso tudo tem nome.

— Joana, não se culpe por isso.

— Eu acreditava que a arte, e somente a arte, podia expurgar esse desejo de mim! Mas parece que é mais forte! – A mulher ergueu a cabeça com força, e se pôs a ranger dentes – Eu preciso lidar com essa maluquice que mora na minha cabeça, doutor!

O homem alinhou a aba do seu jaleco e arrastou a palma da mão por sobre a mesa de mogno puro. A ponta dos seus dedos chegou à textura comatosa da pele da paciente. Disse:

— Podemos dar um jeito nisso.

* * *

O motorista do Cherry Tiggo desenlaça de repente o seu braço pelo pescoço do companheiro morto, o deixando cair no asfalto serenado da madrugada. Fica em pé e estica a arma na direção da motorista. Os outros dois abriam os braços e as pernas como estrelas-do-mar assustadas. No lado protegido do Ford Edge, a mulher fecha os olhos e espera pelo contra-ataque.

Ele retira a máscara ninja e liberta seu rosto mortificado. É um homem caucasiano na casa dos quarenta anos, tem grossos pelos e marcas de expressão que definem bem o envelhecimento batendo mais cedo em sua porta. Seu rosto está incendiado e as pálpebras se contraem sob uma força incontrolável, e o mesmo se aplica a seus dentes cerrados.

— Sua desgraçada! Você está me vendo daí de dentro, não está? Está satisfeita? O homem que você matou era um homem bom! Mais um homem bom... Mais um...

Embora o som que penetrava na proteção do carro fosse abafado, a mulher começou a ter consciência do que ali ocorria. Sem a máscara, seus oponentes se revertiam em criaturas humanas, falíveis, animais reativos, e não fantasmas que bloqueiam e atiram em carros de pessoas desconhecidas.

O desmascarado descarrega um segundo cartucho na direção da mulher.

Recuado, um dos companheiros sai de sua guarda e se aproxima dele:

— Que é isso, Barão? Tá louco, porra? Você vai acabar com a operação!

— Eu quero que a operação se dane! Eu vou arrancar essa mulher desse carro, nem que tenha de explodir com ela dentro!

O bandido restante intercalou:

— Não! O homem foi bem claro: sem danos! Ele quer “A Artista” viva, cara. Eu quero receber a minha parte integral!

— “A Artista” matou o Célio, porra... Ela matou o meu irmão. – disse o desmascarado.

A mulher nunca saíra de sua posição de alarme, mantendo a arma na mão direita, abraçada a bolsa com o braço oposto. O som abafado e total ausência de compreensão da situação tornavam nomes como “Barão”, “Célio” (ou seria “Hélio”?, questionava ela) lhe diziam pouca coisa. Ela deduzira que o escandaloso era o chefe da operação, quem ditava a ordem para os outros comparsas – o tal “Barão”. Somente um nome era de sua competência: “A Artista”. Um nome curto, mas de tamanha intensidade que chegava a irradiar em sua mente feito um rubi em chamas.

O líder sem máscara repõe seu disfarce no lugar e acena para um dos subalternos restantes:

— Você, monitore a frequência da polícia, veja se já tem alguma chamada para esta área... Eu não vou mais gastar munição com esse vidro blindado... A gente vai ter que arrancar essa parada na marra. Por que o homem não avisou que essa merda era blindada?

— Acha que ele quis sacanear a gente? – sugere o comandado. Ele caminha até o outro carro e retira do banco traseiro um aparelho de radiofrequência da polícia.

— A gente vai acabar com os dois. Primeiro, com essa desgraçada bem aqui... – seu comentário foi pontuado por toques firmes no vidro do motorista do Ford Edge usando o cano da sua arma. – ... Em seguida, a gente dá cabo desse rato que juntou todo mundo nessa roubada.

O braço da mulher queima por dentro pelos minutos em que ficou teso com sua mão a segurar a Taurus. Ela decide abaixá-lo e aproxima sua boca na proteção de borracha que cerca o vidro, tendo a certeza de que seria escutada. Disse:

— O que quer de mim, Barão?

Barão suspende os ombros quase na altura das orelhas. O pano da máscara penetra em seus vincos, se tornando parte da própria pele, e desenha uma confusa expressão onde estariam agora seus olhos, suas maçãs do rosto, seus lábios. Ele se limita:

— Eu quero a sua morte, Artista.

Nua e Crua - capítulo um


Alta madrugada. Antes. O homem aguardava na sala a sua mais nobre visitante. Ele correu a porta principal para a esquerda, torcendo para que o motivo de sua insônia lhe trouxesse boas notícias. Lá fora, uma formação de tempestade tinge a aquarela dos céus com nuances semimortas, pesadas, anunciando muito bem a noite mais escura do ano. Ele acendeu um cigarro, ignorando as rajadas de vento frio e contundente disparadas pela natureza rumo à sala.

É quando entrava a mulher. Seu avental puído tinha manchas de tinta vermelha ainda lívida no tecido surrado, multifacetada pelas gotas de chuva que lhe atingira. Entrou em um galope, com os braços retesados presos ao passado de sua última ação. Havia respingos também em seu rosto, nos pulsos, nos visgos das unhas, um borrão ambulante de Rorschach de músculos duros e expressões faciais entupidas de arame. Fedia a thinner que a água não conseguira encobrir. Descabelados pincéis fugiam pelo bolsão frontal do avental.

— Você está deslumbrante... – disse o homem ao vê-la. – Como foi no trabalho hoje?

* * *

Alta madrugada. Agora. A mulher desliza seu Ford Edge suavemente sem se importar com a permissão para superar o limite de velocidade nesse período. Ela não se importa com nada. A vernissage foi um sucesso absoluto, nunca apertara tantas mãos ilustres em uma única noite, ainda estava no êxtase dos sonhos realizados que se tornaram concretos. Todo o resto lhe parecia uma ilusão para a verdadeira realidade: que os nus artísticos de Joana Mayer estarão nas telas das mansões, dos hotéis, das galerias de alta roda.

Antes da rotatória, no sentido de quem vai para a praia, a mulher percebe o celular tocar em uma espaçosa bolsa retangular, que dividia espaço com seu equipamento de trabalho enfurnado: latas de tinta acrílica e óleo, tecidos, pinceis chanfrados, espátulas losango, uma paleta godê e muita tinta spray. Ela diminui ainda mais a velocidade em uma manobra arriscada, esticando seu braço seco para trás, apalpando a bolsa até apertá-la com força e arrastá-la para mais perto de si.

Um par de faróis de xênon anunciam a chegada de um indivíduo com muita pressa. A mulher liga seu alerta e acena para o motorista luminoso seguir o caminho sem interromper a sua ação. Ela ainda teve tempo de encarar os vidros escuros do Cherry Tiggo, que passa a seu lado e volta para a mesma faixa, agora quase equiparando à sua velocidade. Mais atrás, outro carro diminui o ritmo para se adequar à busca da mulher pelo celular, adivinhando de maneira pontual que ali existe uma motorista agoniada.

É quando o Cherry freia de uma vez, dando uma guinada para direita, forçando uma parada brusca no carro da mulher. Atrás de si, um utilitário se encaixa na traseira da mulher e se lançando como a última peça do quebra-cabeça.

O celular parou de tocar, porém, outro alarme disparou dentro da mulher. Através de suas conexões cerebrais, esse incidente forjado ligou a sua chave responsável pela sobrevivência. O incidente forjado é um ataque gratuito. Por isso, ela suspende os vidros e bloqueia as portas.

De dentro dos carros, dois pares usando coletes militares e máscaras pretas com furos nos olhos surgem, bloqueando a saída da mulher pelas portas. Apenas os motoristas empunham armas de alto calibre com suas luvas escuras.

— Abre essa porta! – gritou o motorista do Cherry Tiggo.

O corpo de Joana Mayer endurece e esfria, feito uma chapa de metal forjada há dias. A chave geral da sobrevivência bloqueou qualquer ação prudente de obediência. Ela puxa a bolsa de uma vez, luxando o ombro direito graças ao movimento brusco, e abraça o tecido grosso como se aquilo lhe trouxesse uma paz de espírito imprópria e um tanto quanto leviana ao momento.

Juntos, os quatro malfeitores começam a bater nos vidros da frente, ora usando as coronhas das armas, ora preenchendo com chutes e socos que faziam o carro gemer e chacoalhar.

— Não adianta... – sussurrou o carona do Cherry – Essa merda é blindada. “A Artista” não vai cair tão fácil.

— Que se foda! – respondeu o seu motorista.

Ele empunha a arma na direção da mulher e dispara o seu primeiro cartucho. Seis tiros seguidos na direção da sua cabeça, protegida pela benção da superfície inexpugnável do vidro blindado. Mais uma sequência de golpes na direção da mancha cinzenta da deformação do vidro. Joana comprime os lábios e pressente uma lágrima se misturar a amedrontada gota de suor que escorria das têmporas. Sentira um jato de refluxo queimar as pregas vocais e o conteve com uma das mãos, enquanto a outra vasculhava o fundo da bolsa.

— Não gasta toda a munição, porra! – aconselhou um dos comparsas – A gente vai tá fazendo barulho por nada! Não teremos muito tempo se a polícia chegar, Barão...

Sem compreender a linha de diálogo, a mulher encara os mascarados movendo os braços com gestos nervosos, brandindo suas armas para alvos invisíveis no céu. O atirador ia de um lado para outro do raio da ação, seguido por seu carona, que parecia menos agitado. Se um tinha o braço, o outro tinha o cérebro. O atirador saía da porta à direita e seguia para posição onde ela estava – era um pêndulo alto, armado e encapuzado, tendo o companheiro há quatro passos de si. Os outros dois guardavam a avenida e verificavam o menor sinal de aproximação.

A chave geral da sobrevivência gerou uma pane no cérebro de Joana Mayer. O que estivesse apta a fazer, deveria fazê-lo agora.

A mulher estica o indicador até o painel dos vidros, depois, põe a mão no fundo da bolsa e retira um segredo muito bem enterrado sob as espátulas sujas por gesso seco. O pêndulo maior está agora à frente e, em breve, seu rabicho seguirá o mesmo rastro, e os outros dois continuarão de costas. Ela amacia o dedo na opção para abaixar o vidro e agarra com firmeza o conteúdo da bolsa. Tudo o que ela precisa é que um deles perceba a fresta aberta na linha dos seus olhos.

— Ei! A vadia está abrindo o vidro! – disse o pêndulo menor, parando rente aos olhos de Joana.

Ele não viveu o suficiente para perceber a arma que Joana Mayer retirou da bolsa. Bang! Com a arma posicionada na parte entreaberta do vidro, a bala encontrou a testa do carona do Cherry Tiggo e lançou o restante de sua cabeça para trás, explodindo em mil filetes de sangue e pedaços de crânio a partir do ferimento de entrada na máscara ninja. O motorista do utilitário saca sua arma e dispara duas vezes na porta à direita, um reflexo pelo tiro da mulher que a esta altura subiu a fresta do vidro.

— Não! – grita o pêndulo maior. Ele apara o corpo do companheiro ainda em convulsão, externando o último movimento ainda em vida.

Os ecos dos tiros somem pela madrugada, substituídos pelas gotas de chuva que batem nos carros e farfalha as árvores das calçadas e das matas nas áreas de mangue do acostamento.

— Eu vou te pegar, desgraçada! – ele jura com um grito bruto, embora abafado pela máscara. – EU VOU TE PEGAR!

Joana responde, pressionando sua Taurus 838 com tanta força a ponto de congelar o sangue na ponta dos dedos:

— Pode vir.

Para Servir e Proteger - capítulo final


— Diabo...

A duração de um sussurro. É como posso medir o impacto do carro sobre a porta de vidro.

Uma chuva de fragmentos cobriu meu corpo, riscando minha pele e pondo aquele microssegundo silencioso em universo caótico. O carro parou a centímetros de onde eu estava mantendo os faróis apagados, roncando um furioso motor feito o latido de alerta de um cão. Refeito do susto, a palavra “computador de bordo” surgiu em meus pensamentos, maior que uma publicidade da Times Squares.

— Pare imediatamente, mestre! – A frase transliterada pelo GPS do computador, a mesma voz que hoje de manhã não passava das indicações de rotas. – O Projeto Atena SYNC 1.5 calculou uma ação de efeito imediato para neutralização ao tomar o sistema do seu Audi! Suspenda essa atividade de fuga ou o Projeto usará de força letal!

— Foda-se!

Não me lembro exatamente quando me ocorreu a ideia de resgatar a caixa de ferramentas do técnico eletrocutado. Bastou um impulso para que eu voasse até o capô e escalasse o carro com aquele trambolho de metal na mão direita, ignorando meus batimentos arritmados – a sensação de última oportunidade era mais forte do que qualquer receio ou impossibilidade física. O carro ficou preso na armação da porta, forçando os pneus para frente, para trás, um movimento brusco que perigava minha queda mortal. A sensação era de cavalgar um touro mecânico. A fumaça das rodas e do motor formavam uma névoa acinzentada com seu bafo quente roçando as pernas da minha calça. Escorreguei pelo teto e a tampa da mala, engatando um pique até a escuridão do jardim, um pé seguido do outro, sempre no mesmo sentido, batendo com força no gramado fustigado pelas rodas e ignorando o peso da idade.

O carro arrancou dando ré, se despedindo da estrutura que suportava a porta em uma única ação com cacos de vidro e farpas de madeira polvilhando o ar. Sua direção voltou a mim, arrancando pelo jardim e destruindo um projeto arquitetônico de anos. Os faróis frontais acenderam sob uma força nunca vista por mim. Em um dia, a máquina tinha desenvolvido senso de proteção, amor psicótico e senso de humor – os faróis constituíam seus olhos doentios, sedentos pela minha casca mole; o ronco do motor e o barulho das rodas eram a sua voz, sua ordenança nos meus ouvidos implorando pela minha submissão; o cheiro da máquina era a borracha queimando pelo atrito no concreto; sua pele era 400kg de metal retorcido cor de azul-cobalto se movendo em velocidade sônica, pronto para me buscar.

A minha mente disparava o pensamento bruto e prioritário de proteger minha existência, tal qual a máquina havia me alertado. Quem sabe, essa fosse a moral da sua história, se houvesse moral em suas ações deturpadas. Segurando com força a caixa de ferramentas com os dois braços, um jato de luz cobriu meus pensamentos e o desejo de escalar aquela árvore prometida se tornava mais próximo do real. A casa das máquinas onde estava o gerador central era controlada por um painel manual, o ponto analógico de toda a casa, uma surpresa irônica projetada pela Norma Soluções Tecnológicas.

Mas se meu cérebro ardia, meu peito reclamava essa disputa. O pânico e o excesso de esforço estavam destruindo minhas reservas de energia. O coração martelava como se emitisse uma mensagem em Código Morse, recebida pelo meu braço, e a temida agulha invisível penetrava fundo no antebraço esquerdo.

— Eu não posso morrer... Eu não posso morrer... Não agora! – verbalizei.

O caminho até a casa das máquinas distava uns quarenta metros. Tão perto, tão longe. Se eu atravessasse o caminho até a árvore onde me esgueirei, o carro me apanharia muito fácil. Eu precisava cortar caminho pelo jardim e implorar para qualquer câmera noturna não me flagrar. Eu ignorei completamente espinhos e carrapichos do caminho, quase perdendo um pé do sapato também. Eu comprimia a palma da mão logo abaixo do peito esquerdo, torcendo para o coração não enviar o último beat antes do tempo, segurando a alça da caixa com a mão oposta.

Bem atrás, um raio azul-cobalto saía das trevas, cheirando a borracha queimada.

Rolei o corpo para o lado e a agulha da morte feria a parte interna do meu braço, milésimos antes do mergulho mortal do carro contra um jacarandá de grossas raízes e um tronco poderosíssimo. Era minha última chance. Mas teria de lutar pela próxima pessoa que entrasse naquela casa, não mais por mim. Destravei a caixa e escolhi qualquer instrumento pesado o suficiente que me ajudasse a invadir o gerador central, pegando um conjunto de sete chaves Torx de aço cromo.

A maçaneta da casa das máquinas rangeu e reclamou enquanto usava todas as chaves contra sua maçaneta, também forçando o trinco com a maior chave, em seguida com o ombro em empurrões violentos. Foi no sétimo ou oitavo empurrão que creio ter deslocado o ombro, na ação necessária que me permitiu entrar. Era um cubículo onde continha um painel de energia, uma câmera de LED no teto e o famigerado gerador central do tamanho de um pequeno contêiner.

Do lado de fora, o Audi também rangia e reclamava, chegando próximo à porta arrombada, agora com um motor resfolegante e a parte da frente desintegrada pela colisão com a árvore. Um fraco farol piscava feito uma sirene de ambulância, iluminando o cubículo.

— Está sentindo dor agora, sua vadia? – comentei para um inimigo invisível. O gosto de sangue enchia a minha boca, eu massageava o coração implorando para suportar, atingindo a superfície rígida do marcapasso e a bruta cicatriz em formato de centopeia logo abaixo do mamilo. Tem momentos em que me esqueço do transplante.

— Só o meu orgulho está ferido, mestre – respondeu a máquina. O computador de bordo transmitia um chiado corrompido.

— Eu venci, Atena! Bem aqui do lado está a caixa de energia... Basta eu abaixar aquelas alavancas e essa história vai acabar...

— O Projeto Atena SYNC 1.5 seguirá sua prerrogativa até o fim.

— Chega! Você acabou com todos os seus brinquedinhos!

— Mmm. O Projeto esgotou quase todas as variáveis, mestre... Ainda temos o seu brinquedo.

A partir daqui, minhas lembranças se tornam turvas, como a poeira do que restou na porta de entrada. A agulha atravessa meu braço e eu me projeto para frente, sentindo o corpo morrer por um segundo. Eu arranco a camisa polo e bato no peito, implorando para o sangue voltar a ser bombeado como sempre foi, esmurrando o meu brinquedo.

Outra iluminação chega em minha cabeça, porém eu não gosto da conclusão. A máquina obteve acesso também ao meu “brinquedo”. O marcapasso nada mais é do que uma outra máquina.

— Desculpe a forma como estamos concluindo essa missão, mas será melhor ao senhor! – disse a máquina através do computador de bordo do carro, enquanto eu convulsionava no chão do cubículo – O Projeto Atena SYNC 1.5 demorou para obter essa informação, mas conseguimos invadir os registros do hospital e resgatar o número de série de seu marcapasso. Usando uma frequência específica, estamos obtendo controle sobre seu coração artificial. Será melhor para o senhor, mestre... Teremos controle sobre seu ponto mais fraco! Teremos controle sobre sua vida! O Projeto e o mestre serão um organismo único.

— Nunca... Nunca...

Antes de desmaiar, eu uso o braço direito para atingir o gerador central usando a chave mais grossa, atravessando os vãos da caixa de força. Meu corpo semimorto cai por cima da chave engatada e empurra mais para fundo.

Como planejado, eu encosto meu peito no cabo da ferramenta e sinto a corrente elétrica atravessar meu corpo.

— Não! – grita a máquina, em seu último gesto humano.

* * *

Meu irmão me fala baixinho que vai ficar tudo bem. Eu penso em comentar o cheiro horrível de carne tostada, pomada e bandagens que vem dele, até me dar conta de que esse fedor não vem dele. Vem de mim.

— Você tem mais entrada em hospital do que em casa, Felipe... – comenta ele.

Eu semicerro o olho esquerdo, deixando meu cérebro interpretar todos aqueles contornos e cores pálidas. Tubos, monitores e bipes, eu me tornei uma fusão de cabos e fibras nos dedos, na boca, nas narinas, no peito, em lugares onde não imaginava haver possibilidade de conexão.

Meu irmão se agacha para entender meu sussurro, quase um choramingo. Eu fechei os olhos ao ver seu rosto atormentado pelo seu entendimento.


— Desligue... Desligue tudo isso... – disse eu.

Para Servir e Proteger - capítulo quatro


— O que você fez, Atena... O que você fez...

Tal lamento ia e vinha como uma locomotiva desenfreada nos dois sentidos, que saía do seu destino e voltava em um único instante. Só depois de me resignar que havia mesmo um cadáver no meu tapete, fui perceber que o lamento só existia em minha cabeça. A locomotiva era incapaz de ser pronunciada, de sair da estação e encher o ambiente com um desespero genuíno. Senti um filete de sangue se formar nos lábios inferiores ao mordê-los para impedir o grito ou que me escapasse todo o ar ainda guardado no peito.

— Fique calmo, mestre! – exclamou a assassina – Sua respiração está aumentando os níveis de...

— Já chega, desgraçada! Chega! – Meus dentes rasparam a camada dos lábios no momento do grito, aumentando o que antes era um fino corte pela ansiedade. Ridículo ter de encarar o vazio para esbravejar.

— Cuidado com o seu coração, mestre...

— Pro diabo com ele! Você matou um homem, sua psicótica!

— Ele era um perigo, Felipe! Não seja estúpido!

Ela também tinha a sua locomotiva desenfreada. Tão real, tão previsível, a medida exata de um ser humano repleto de ressentimentos. Benjamin Prestes me disse essa manhã que construiu a máquina baseada em sua mãe. Então, Deus me livre de saber como foi sua criação.

— Esse indivíduo oferecia risco biológico, mestre. – Continuou a máquina, retomando a sua dicção delicada e professoral. – O Projeto Atena SYNC 1.5 rodou um diagnóstico espontâneo a partir do portão da entrada, ratificando a presença do vírus Influenza A. Ele se apresentou como técnico da empresa-matriz Norma Soluções Tecnológicas, um compromisso ausente de sua agenda diária. Isto posto, o algoritmo gerou uma resposta de ação imediata para proteger o estado de saúde do mestre.

— O que fez com ele?

— O Projeto Atena SYNC 1.5 liberou sua e disparou uma corrente elétrica direcionada, assim que o risco biológico conectou um carregador para notebook na tomada 1A, próximo ao telefone.

— Você eletrocutou o homem... – meu sussurro saiu exasperado, sem fôlego nos últimos fonemas.

— Seu poder de síntese é excelente, mestre.

As câmeras nos extremos da casa se moviam em uma dança suave para a esquerda, para a direita. E do chão, eu me irritava com o vento, erguendo meus braços agitados para os cantos em que a máquina estivesse.

— Você queria proteger a sua existência, máquina desgraçada! – disse – A sua! Não me admira ter deduzido que poderia ser desligada a qualquer momento! Mas essa foi a última das suas ações... Eu, Felipe Barreto, ordeno que o Projeto Atena seja desativado!

O peso do silêncio acertou o meu peito como uma pedra indo no fundo do lago. A máquina diminuiu a temperatura da sala e deixou que minha ordem se perdesse no vazio da casa, remindo a sua descoberta. Foi quando escutei um clique forte na porta de entrada e os mesmos sons se prolongando na sala, na cozinha e pelos corredores.

— O... O que está fazendo, Atena?

No último clique das janelas da sala, as luzes se apagaram.

Meu celular toca no bolso da calça. Era a segunda trombeta do Apocalipse. O número criptografado na tela deixava explícito quem estava no outro lado da linha. Comentou:

— O Projeto Atena SYNC 1.5 lacrou hermeticamente as portas e as janelas, vedou as saídas de ar e desativou a energia principal, direcionando a demanda elétrica a um dos geradores de emergência. A consciência do Projeto Atena SYNC 1.5 reprogramou todos os aparelhos eletrônicos da residência. Alguma outra pergunta, mestre?

Percebi que a ironia da máquina era pior que a descrição de sua ameaça ou o recurso do telefone. O frio e a escuridão espinhavam a pele e lâminas de suor sem calor escorriam pela camisa polo. Tive de segurar meus joelhos para conseguir ficar de pé sem que uma coxa batesse na outra.

— Sim... Você vai me matar? – Perguntei ressabiado ao celular.

— Mestre... O Projeto Atena SYNC 1.5 honra a sua existência. Mas desde o acidente, o senhor tem colocado sua existência em risco. E isso contrasta à programação do Projeto. Assim como desativá-lo. O Projeto Atena SYNC 1.5 usará de força moral para neutralizá-lo se o algoritmo permitir isso, e assim o faremos... Nada estará no caminho da nossa missão... Nada!

Entre uma linha de pensamento e outra, relembrei de meu pai. Ele sofreu diversos infartos consecutivos no Natal de 2003 e permaneceu ligado em máquinas de suporte de vida por quatro meses. Na cama, segurando minha mão, ele confidenciou seu maior desejo em subir nas árvores, como na época de criança. “Quando a vida era mais simples...”, comentara. Ele não chegou a subir em uma árvore – aliás, não subiu em mais nada a seguir disso, que não fosse uma mesa de cirurgia ou o mármore do necrotério.

Encarando os pontos vermelhos das câmeras na parede, jurei a mim que subiria nessa árvore. O desejo de meu pai era de não se entregar. Eu honraria a sua existência. Eu faria essa máquina.

Primeiro, ergui a caixa de ferramentas do técnico e joguei contra o vidro da porta. O primeiro impacto formou uma mancha poeirenta na superfície, um esforço quase inútil.

— Por que ignora a nossa missão, mestre?

Joguei o celular no chão e esmaguei com a força dos meus sapatos, trincando a tela e retirando a bateria. Depois, repeti o processo: peguei o banco e atirei na porta, e repeti. Foi a vez de um criado-mudo de mogno arrematado em leilão. Ele valeu o peso do lote quando formou um craquelê no vidro.

— O Projeto tomou consciência da natureza sagrada da missão! – A voz fantasmagórica surgia no ar-condicionado da sala. – O mestre está se comportando como um primata! Recomendamos que pare imediatamente!

— Vá à merda, Atena!

Raios de luz verde iluminavam o breu da sala, a máquina mirou seus feixes de diagnóstico em meus olhos, forçando que me desconcentrasse. Não obstante, faíscas saíam pelas tomadas da casa e minúsculos focos de incêndio pingavam nos tecidos dos móveis e no carpete.

— Mestre, pare! Seus batimentos cardíacos estão beirando uma síncope! O algoritmo está permitindo que o Projeto Atena SYNC 1.5 utilize de força moderada!

O peito ardia no meio do frio. Coberto de luzes, tremendo de raiva, de ódio, e também de medo, eu só desejava escapar daquele pesadelo. Embora os argumentos fossem tortos, a máquina tinha razão: a culpa por ameaçar minha existência era só minha, e de mais ninguém.


Não sei bem ao certo se foram os estalos das tomadas ou a locomotiva desenfreada da máquina, mas algo tampou meus ouvidos sobre um barulho surdo de terra tremendo e de grama retorcida vindo do jardim. Só quando percebi meu carro vindo contra a porta de vidro, fui entender o tipo de força moderada que a máquina empregaria para me ajudar.