Flora - capítulo três



"Rosamund. Mia cara...".

Chegou o grande dia. O capitão Isla retirou o invólucro e mostrou para sua amada a sua magnum opus. Um ramo de estrutura fina, com cinco pétalas de um dourado intenso como os raios de sol e um tom vermelho feito o mais grosso vinho de barril. Tinha cheiro de terra.

"Ma che bello, Isla!".

"Questo fiore porta il tuo nome... Rose di mondo".

Isla imprimiu todo o seu amor naquele beijo. A "rosa do mundo" que esperou dois anos para germinar selaria para sempre o amor de Rosamund. Isla seria de Rosamund para todo o sempre. Queria sair do Exército e abandonar a iminência de guerra, comprar uma casa no campo, cultivar um anel de flores pelo terreno – um flor para cada criação inspirada em sua amada. Seus filhos teriam seu rosto. Escreveria poemas a ela e se amariam no jardim, provocando os vizinhos. Essa era sua meta de vida.

Isla saiu da estufa carregando uma muda da "rosa do mundo". Choveu naquele dia a ponto de ensopar os vãos no chão de barro, transformando seu fardamento em um pesadelo de lama. Da estufa até o seu alojamento distavam cinco quadras. Tudo o que deveria fazer era pegar uma linha reta até deixar a flor em cima do criado-mudo, tomar um banho, trocar de roupa e ir até o gabinete do coronel. Seu pedido de deserção já estava redigido de próprio punho e todo um discurso sobre seguir a vida civil fora treinado exaustivamente nas horas de folga.

Até o minuto seguinte chegar.

A figura translúcida através das gotas de chuva confundiu a visão de Isla. Mas assim que se esgueirou por trás de uma cerca, veio o veredicto. Aquela moça de cabelos vermelhos grudados no rosto, seios de fora e calcinha na altura das coxas era mesmo Rosamund, envolvida por um soldado qualquer, em cima do canteiro. Amassando flores e gramas. Dois animais entregues à carne.

Dali em diante, uma parte de sua existência escorreu pela tempestade e nunca mais encontrou o caminho de volta. Isla espremeu a flor por entre os dedos, obliterando o trabalho de uma vida inteira. Rosamund tinha feito o mesmo com seus sentimentos.

Era justo que ela lhe pagasse o mesmo.

"Come sta tua madre?", perguntou o Alto Comandante Isla, trinta e dois anos no futuro ao seu sócio, durante o jantar.

Os convidados na imensa mesa de carvalho não escondiam a visível atenção do seu anfitrião pela família do conde de Terranova. Perguntas dessa natureza são próprias de um sogro intencionado para com o genro, não para figuras ilustres que negociam a compra de terrenos. Mas ninguém ousava questioná-lo por sua indiscrição. O assunto monopolizou sobre a condessa de Terranova. Onde está? O que fazes?

"Lei è morta, Comandante...", respondeu o conde.

Morta. Rosamund estava morta. Um bolo sólido se formava na garganta do Alto Comandante. Voltava à carga:

"Causa principale della morte?".

Uma das socialites não conteve a insatisfação, e pedia com maneiras dóceis para o Alto Comandante evitar esses assuntos durante a refeição.

"Silenzio, puttana!". O dedo do anfitrião apontava rente à moça, que mordia os lábios para evitar uma descarga emocional. "Compagno, dimmi, qual è la causa della morte di tua madre?".

Empurrando as porcelanas e as taças de cristal para o centro da mesa, o Conde de Terranova se erguia sem qualquer cerimônia, e disse:

"Cancro".

Sem apetite ou oportunidade para truques, restou ao Alto Comandante Isla ir direto ao assunto com conde de Terranova. Pediu um minuto para ficarem sozinhos. O conde gentilmente recusou, mas sentia a rígida mão de seu sócio lhe comprimir o ombro. Não era mais um pedido intimista. Era a ordem do líder do Exército italiano.

"Un momento, per favore", pediu o conde de Terranova, que sentiu o peito afundar feito a pedra em um lago profundo. Estava em uma casa que não era sua. Sem aliados ou maneira de pedir ajuda. Com soldados em cada porta e janela.

Escorregava uma das facas de prata em cima da mesa e pôs no bolso do terno sem o alarme de nenhum convidado. O Alto Comandante estendeu o braço em direção à sala de visitas, dando espaço para que o conde fosse na frente.

Flora - capítulo dois



Há trinta e oito anos.

Isla ainda não era o Alto Comandante da frente militar Italiana. Não era um oficial importante, sua imagem não era impressa nos selos. O pan-germanismo andava a passos de tartaruga e os rumores de guerra, bem, eram apenas rumores.

Era um jovem de pernas finas sobrando nas barras da calça, cabeça baixa e voz soando quase como um ruído branco. Não tinha demais pretensões, a não ser atender às obrigações do quartel, e passar o resto das horas de folga na estufa improvisada no terreno ao lado da casa das máquinas. A estufa era o seu santuário. Um lugar de pertencimento. Sentia-se bem ao lado de sementes, folhas, galhos. Seus dedos ossudos eram exímios na poda. Suas narinas eram treinadas a filtrar o agridoce perfume de suas criações.

Isla tinha um dom natural para cuidar dessas belezinhas. Pequeninas, dóceis. Um reflexo distorcido do lado de fora do distrito militar. Seus colegas o chamavam de "bruxo". Faziam pouco da sua atividade. Questionavam sua sexualidade. Para ele, pouco importava. As flores eram sua vida, e a si só bastava essa explicação.

As flores e Rosamund.

A paixão por Rosamund veio bem antes das flores. Os perigos desse relacionamento, depois.

Começou como um encontro inocente. Afinal, Rosamund era esposa do superior imediato de Isla e de todos os soldados rasos do distrito. Estar próximo de pessoas importantes poderiam lhe trazer benefícios. Em dois meses, a promoção não tinha chegado. Entretanto, Isla e Rosamund já tinham desfolhado um ao outro com a mesma facilidade da poda de uma rosa silvestre.

Trinta e oito anos depois

"Isla!".

"Isla!".

As milhões de vezes lançaram o Alto Comandante Isla de volta ao tempo presente. "Foi emoção demais!", disse uma. "Que presente fabuloso!", comentou outra. O conde de Terranova segurava o seu eminente sócio pelo braço. Ainda com as pernas vibrando, o homem se afastou com modos brutos para se manter em pé sozinho. Pediu uma cadeira e um copo de água.

O Alto Comandante encarava a imensa flor no jarro de barro. A expressão mortiça no rosto só denunciava que a intenção do presente foi bem atendida. Seus colegas comentavam ao pé do ouvido que nunca o encontraram tão abalado desta forma – embora soubesse que a botânica era uma devoção de longas datas. Um mordomo chegou com um copo de água e um comprimido em cima de um guardanapo.

Desfazendo-se da figura de senil ou de uma mocinha histérica, o Alto Comandante Isla pedia uma conferência com o conde de Terranova.

"Grazie", agradeceu pelo presente.

Em seguida, perguntava como tinha encontrado tão bela flor, agarrando seu pulso com uma força morna.

"Está em minha família há anos, meu caro amigo! Minha mãe cultivou esta flor quando ainda era moça, pouco antes da Primeira Grande Guerra. Foi engendrada de forma artificial com o misto de mais duas outras plantas, se a memória não me falha. Minha mãe nunca me disse qual o seu nome comercial, se é que existiu um dia... Apenas o gênero, é um nome complexo...".

"Paphiopedilum rosamundianum", completou o Alto Comandante.

O Conde de Terranova abria um imenso sorriso com o conhecimento de seu sócio. Pondo a mão em seu ombro, completava o prólogo:

"Questo fiore ha il nome di mia madre, Comandante. Rosamund. La Contessa di Terranova".

Flora - Capítulo I





Por toda a Itália, apenas um nome tomava conta do rumo das portas dos vizinhos, das notas de jornal, das mesas de bar, das quinas das bibliotecas, dos sermões na igreja e dos cochichos nos cabarés. E isso orgulhava o conde de Terranova.

O carro de aluguel subia com toda força a colina, uma projeção de seu carona. “Più veloce, più veloce”, dizia o conde de Terranova ao chofer, bradando qualquer resmungo com a mão direita. Na esquerda, segurava um jarro de barro cercado de berloques e babadinhos tão delicados quanto destoantes da sua personalidade. Mas o que importa? Assim que o destinatário recebesse tal oferenda, cairia de quatro no chão.

A fortaleza crescia diante às vistas do conde. Uma sólida e opaca construção de pedra, um resquício das antigas guerras que se manteve firme para ser a morada da figura mais iminente de todo o velho continente. Desta forma, eram compreensíveis seus dedos convulsivos correndo pelo terno e a garganta seca. Era a sua primeira visita formal como sócio do homem do castelo alto.

Assim que terminara o conflito, o conde de Terranova teve uma bem aproveitada estima com a parte vitoriosa da Potenze dell'Asse. Desde então foi possível ver a sua figura nos bailes bem servido da mais fina flor do militarismo, falando de ideais nazifascistas em três línguas diferentes. O último acordo era sua jogada mais ambiciosa, ao dispor de terrenos a preço de banana para o alto comando italiano. Uma troca justa: o conde entrava o capital, o alto comando com a projeção. E todos saíam felizes – ao diabo uma dúzia de refugiados expulsos à base de Zyklon B!

O conde respirou fundo antes de descer do carro. Dois oficiais retiveram o carro, mas logo pediram desculpas ao identificar o semblante do visitante. Abriram espaço com as metralhadoras e escoltaram o conde para dentro da fortaleza.

O imenso portão de ferro se abriu para os lados com dificuldade. Aos poucos, foi liberando espaço para exibir o interior da fortaleza. O salão primordial estava enfeitado com faixas e arranjos tão espalhafatosos quanto o embrulho nas mãos do conde. Parecia que ambos os sócios tinham o mesmo gosto duvidoso para ornamentos. Se o anfitrião era péssimo com seus enfeites, o mesmo não podia se dizer dos arranjos florais. Parecia que cada pétala era milimetricamente posta em seu lugar. As papoulas brancas ganhavam vida com as rosas, que dançavam junto aos lírios brancos e as margaridas gigantes. Um espetáculo sinestésico que somente um homem em toda a Itália poderia propor.

L’alto Comandante Isla!”, anunciou um oficial menor ao abrir a porta da sala contígua. Atrás de si, a figura talhada do anfitrião tomava o espaço, indo em direção ao conde de Terranova.

“Matteo”.

“Isla”.

Trocavam cumprimentos com as mãos ainda enluvadas. Em seguida, o Comandante Isla conduzia seu sócio para mais perto dos outros convidados amontoados na sala de visitas. Apresentava um a um, fazendo pequenas referências ao histórico de cada. Quatro oficiais maiores e suas esposas, três investidores estrangeiros, duas figuras do clero, jornalistas, e duas socialites em trajes menores.

“Piacere, piacere”, respondia o conde para cada aceno e mãos chacoalhadas.

Uma mocinha indagava sobre o embrulho nas mãos do visitante. Rindo e se desculpando pela distração, ele deflorava o presente na frente de todos, vocalizando um monólogo chato e pretensioso sobre a obsessão íntima do Alto Comandante. Um presente que certamente agradaria o homem e lhe encheria de felicidade. Quando o último pano caiu, surgiam uma dúzia de prolongamentos dourados com contrastes encarnados sustentados por uma haste firme no centro.

“Un fiore!”. Todas as mocinhas soltavam gritinhos de excitação com o presente.

Os urros cessaram quando o Alto Comandante Isla caiu no chão com as pernas moles por dentro da calça de tergal.

O Tempo do Medo - capítulo três


‘Don't you see me prayin'?’. ‘Don't you see me down here prayin'?’ But the Lord said: ‘Go to the devil!’.
(trecho de “Sinnerman”, uma tradicional canção gospel afro-americana)

Os repórteres do “Quarto Poder” rivalizaram com os focas do “Agora!” pelo maior espaço atrás da cancela do estacionamento. Uma fonte muito pontual de dentro do Hospital Geral deu a largada para a notícia do mês: “o menino acordou”. Logo, uma romaria de jornalistas entupiu as calçadas atrás do melhor ângulo. O “Quarto Poder” acertara em cheio o momento em que o carro dos Szczepaniak – mas errou cinco vezes a escrita do sobrenome polonês em sua versão digital. Já o “Agora!” flagrou a expressão de torpor dos enfermeiros ao ver a família. “Quem é aquele bebê?”, perguntaram. “A mãe é muito jovem para a sua idade!”, disseram outros.

Pendurado na grade, só um sujeito demonstrou uma atenção morna para o fato, ora regulando o zoom da câmera, ora tirando fotos inúteis da paisagem. Tanto faz como tanto fez estar ali. Era muito alto e curvado, seu longo nariz formava uma ponta arrebitada e seus dedos longos poderiam cobrir facilmente sua Instax Wide 300. Vestia um casaco de camurça mesmo naquele verão torrente e punha um fedora cor-de-poeira por cima dos cabelos desgrenhados de suor. E quando ria, sem explicação aparente, exibia uma coroa de dentes alinhados, e seus ombros subiam até a ponta das orelhas.

Oton Szczepaniak saiu do carro e todos avançaram pela grade, incitando os seguranças a formar um cordão atrás das linhas permitidas. As duas crianças foram logo depois, os pais mais atrás. O sujeito aproveitou a amplitude do seu corpo e escalou os aros da grade até uma altura permitida. Tirou as piores fotos da sua breve carreira. Dispensado por um segurança mais impaciente, ele se contentou com ato. Isadora Szczepaniak percebeu a movimentação e só conseguiu abaixar a cabeça, tomada pela vergonha.

Com um sorriso ofídico pela sua conquista, o sujeito atravessou a avenida, se tornando tão anônimo quanto qualquer outro cidadão. Assobiou uma cantiga muito antiga da sua cidade, mas já não lembrava a letra.

* * *

Oton saía do banheiro e punha as mãos dentro dos bolsos, ou qualquer outro vão fundo o suficiente para escondê-las.

Ojcze! – gritou Cecyl, saindo do apartamento 61, driblando duas farmacêuticas fora de seus setores – Pai! Pai, o que houve? Suas mãos...

— Cecyl, me deixe em paz! Eu preciso ir embora... Fique com sua esposa e seus filhos.

— O senhor nunca me conta nada... Vai embora como se fosse um ladrão!

Em tempos passados, Oton mostraria sua autoridade paterna sob um punho fechado entre os dentes de seu filho. Mas são outros tempos. Disse:

— Lute pela sua família. Eu já lutei muito pela minha... Deixe-me só.
O diretor Eurico permitiu mais cinco minutos da companhia da família com Eryk Szczepaniak. Sem plateia ou interrupções, Isadora aninhava o filho do meio entre seu busto, um gesto de carinho com quase dez anos de atraso. Entre os seus, era a única com a felicidade pura moldando o corpo. Murmurava a cantiga folclórica e tocava a ponta do nariz do menino, estimulando o seu riso.

— Essa música, meu dziecko – disse ela –, eu cantava para te trazer para mais perto de mim... Foi com ela que ninei cada um dos seus irmãos, e também você. Ah, como Pietro odiava essa música... Lembra, Pietro?

O tilintar da tampa do isqueiro Zippo era a única resposta do adulto infantilizado. Zip, zip, zip.

— Pietro? Eu estou falando. Demonstre respeito pelo seu irmão...

Zip, zip, zip.

— Por que você teve de voltar? – comentou ele para o vazio de um canto do quarto. Zip, zip!

— O que quer dizer? – Isadora parecia pequena diante a sombra nos olhos de seu próprio filho.

— A senhora sabe quando tudo começou, não sabe? Foi quando esse daí quase morreu! Há nove anos nossa vida virou um inferno, desde que esse come-e-dorme quase morreu! A culpa é desse aí, mamãe! – Pietro lançou o isqueiro na direção de Eryk, rebatido pelo ângulo no corpo de Isadora. Ele se espatifou com força no chão a ponto de derrubar o fluido no piso. Continuou: – Você roubou nove anos das nossas vidas, seu puto! Eu vou torcer pra você pagar por isso!

Eryk cruzava os braços sobre o rosto e sentia o medo gelar a corrente sanguínea. Camila começava a chorar, sem entender a repentina mudança de humor e entonação no quarto, e Isadora guardava Eryk com seus braços e mais um punhado de força, ignorando o ombro inchado de dor. Ela enchia os olhos de tristeza ao perceber o rascunho que sua família se transformara. E via que também era uma eterna criança, assim como Pietro – mas de uma forma patética, produto de uma peça sem qualquer graça.

Pietro não se desculpou. Também não brigou. Nem xingou a família ou mesmo recolheu o isqueiro do chão. Apenas saiu do quarto para encontrar o pai e voltar para a casa, enquanto massageava os quadris e as costelas que doíam de repente, como se quisessem crescer e furar a pele.

* * *

Caía a noite. Os Szczepaniak tomaram rumos divergentes: o pai e mãe ficaram no hospital para acompanhar a recuperação de Eryk; o avô e os netos, em um hostel no Centro, no conforto suburbano de um ar-condicionado e a TV a cabo.

Pietro oferecera a Oton uma garrafa de Shadow extraviada do bar do hotel, ao que ele recusava. Ainda mortiço, escolhia em uma animação hipnótica para Camila e se movia ao banheiro.

— Não quero ser incomodado – se limitou.

Oton Szczepaniak conferia a tranca da porta. O que ia fazer precisava de total concentração e sigilo. Primeiro, abria o armário em busca de um objeto pontiagudo o suficiente. “Acho que isso vai servir...”, pensava ao segurar uma pequena tesoura. Depois, pressionava a ponta na veia mais grossa do seu pulso, se entregando a dor. Um jato de sangue salpicava pela pia, e Oton murmurava versos impronunciáveis, antigos, até obscuros.

Wzywam was, Bies... Wzywam was, Bies... Wzywam was, Bies...

Quando não havia mais o que extrair daquela veia já esverdeada e seca, o box do banheiro se enchia de cinzas e enxofre. Uma forma translúcida crescia por detrás do vidro, com uma voz grave a perguntar:

— Quem ousa?!

— Eu ouso – respondeu Oton, que sentia o coração bater mais fraco e as pernas perderem o vigor desde que saiu do hospital – Já não se lembra mais dos seus antigos servos, Bies?

O sujeito corria a porta do box para a direita. Retirava os longos dedos submersos nos bolsos do casaco de camurça para segurar a câmera instantânea pendurada no pescoço.

— Sorria, velho amigo.

O Tempo do Medo - capítulo dois



“O sono da razão produz monstros”
(pintura de Francisco de Goya, 1797–1799)

Os Szczepaniak foram abrigados no escritório da diretoria. Primeiro, as crianças. O garoto pousava a irmãzinha em uma das cadeiras e tomava o doutor Eurico de baixo para cima, pondo as mãos nos bolsos da calça jeans, indiferente a polêmica instaurada no lado de fora. A menina principiara um choro, e ele selava os lábios da menina comprimindo o polegar com o indicador, sussurrando:

— Cale a boca, peste! Essa menina chora por qualquer coisa... – Virou-se para o diretor – Posso acender meu cigarro?

Oton entrava em seguida. Erguia a menina pelos braços e lhe conferia o apoio necessário para não abrir o berreiro. Tomava o cigarro da boca do garoto com um visível olhar de repreensão, como se dissesse “Aqui não...”.

Cecyl Szczepaniak e Isadora foram os últimos a entrar. Fecharam a porta e se serviam das duas cadeiras em frente ao gabinete do diretor.

Dziękuję. Obrigado por nos receber, Eurico... – iniciou Oton com forte sotaque do velho continente – São esses olhares que decidimos evitar desde que Eryk... Enfim.

— Bom... – o diretor limpou a garganta – Todos esses anos, temos evitado que a imprensa caia matando em cima dos senhores. Primeiro, a fatalidade do acidente. Depois, o envelhecimento retardado do menino. E agora... Vocês aparecem ‘assim’.

Os Szczepaniak, do mais novo ao mais velho, se entreolhavam em busca da coragem inexistente para as devidas explicações. Vendo que nem o pai, a mãe, e menos ainda as crianças contariam os prólogos dessa situação, Oton tomou a palavra:

— Acreditamos que tudo começou desde o acidente com Eryk. Como você sabe, a família voltava de uma viagem no interior. Um motorista irresponsável veio pela contramão e acertou nosso carro em cheio... Eryk foi projetado para fora, todos sofremos escoriações... Mas o menino foi o que mais sofreu. Cholera! Quando internamos Eryk, e vemos que ele não ia se recuperar do coma tão cedo, levamos nossa vida à medida do possível... Eu trabalhava como professor de História, meu filho tinha bons contratos de aluguel fora daqui, Isadora era jornalista, as crianças iam para o colégio. Até...

— Até acontecer ‘isso’ – completou Eurico.

— Foi de repente! – interrompeu Cecyl Szczepaniak – Com um ano, meu ojcze notou que Camila tinha crescido muito pouco. Enlouquecemos! Procuramos diversos especialistas, não conseguiam entender como um bebê era incapaz de crescer.

— Depois, notamos que Pietro também estancou no mesmo tamanho. – completou o avô, limpando um rastro de baba na boca de Camila – Ele é... Era um garoto em plena fase de desenvolvimento, mas também não crescia um pingo que fosse. Meu pobre wnuk...

— E isso é uma merda. – A voz de Pietro Szczepaniak parecia entorpecida de gás hélio. Apesar do tamanho diminuto, falava e se comportava como um adulto tanto quanto os pais ou o avô. Um adulto com voz entorpecida de gás hélio.

— Pietro, por favor... – Isadora repreendeu o filho sem tônica, tão mecânica e desprovida de animação.

— Com dois anos, desistimos de procurar pediatras e endocrinologistas. Os comentários vinham de todas as partes... – disse Oton – “Sua neta tem algum problema?”. “Seu neto parece tão jovem!”. “Deveriam procurar ajuda”. Quando confirmaram o distúrbio do crescimento em Eryk, achamos que fosse causado pelo acidente! Mas demoramos para entender que ele também se estendia a nós...

O doutor Eurico corria os dedos pela testa molhada de suor e passava a viscosidade pelos bigodes antes de perguntar:

— Foi quando decidiram se esconder da sociedade?

— Sim... – a resposta veio da mãe – Não podíamos esconder que nossos filhos pararam no tempo. E nós também! Decidimos nos mudar para um dos nossos terrenos no interior. Seu Oton passou a cuidar do restante da educação das crianças, sempre foi ótimo professor de colegial, e com os netos não seria diferente... Cecyl e eu trabalhamos como autônomos para manter os custos, sempre longe dos curiosos...

— E o bebê... Camila, correto? Nunca aprendeu a falar? Andar?

— Acreditamos que seu cérebro também tenha... ‘congelado’ no tempo – foi a vez de Cecyl – Ela permanece um bebê. Bodeja algumas palavras, mas seu cérebro não acompanha o crescimento normal. Já em Pietro...

O pai fazia uma mesura com a mão para mostrar o filho. Nesse instante, ele abrira um vão da imensa janela atrás do gabinete e acendia um cigarro mentolado com um isqueiro Zippo. Dava uma tragada gostosa, apertando o cigarro com a ponta dos dedos, como se fosse um autêntico baseado.

— Céus... – o doutor Eurico não conteve sua indignação.

— Como dizia, em Pietro, o processo foi mais danoso. Ele tem um cérebro de vinte anos, mas está eternamente preso a um corpo de onze! Nem imagino o impacto disto em uma pessoa...

— Seu neto fuma mesmo, Oton?

— Todos os dias. E bebe também. Tem dias em que bebo com ele para esquecer essa situação.

Eurico Fragoso comandava o Hospital Geral por longos anos, e acompanhou a esteira dos acontecimentos que levaram ao coma de Eryk Szczepaniak. O envelhecimento retardado do garoto consumiu todo o seu estoque de pensamentos nebulosos e expressões descrentes quanto ao surreal no campo da medicina. Porém, ao ver a estrutura familiar danificada dessa família, foi obrigado a girar a maçaneta da porta que dava para o sobrenatural, e retorcer sua boca em uma surpresa legítima.

— Eu tenho certeza de que foram... Foram forças ocultas sobre a nossa família! – Isadora alisou um rosário em seu pescoço sob um grito de ave de rapina.

Cecyl batia a palma da mão no apoio da cadeira, rompendo o transe de sua esposa:

— Ah, Isadora! Não comece com esses delírios de novo! Porra!

— Não diga palavrões, Cecyl!

— Minha querida... – Oton chegou próximo de Isadora – Já conversamos sobre isso... Não vamos fraquejar agora, querida. Nosso Eryk acordou! Eu sei que esse não é o seu, nem o meu conceito de família perfeita... Mas é a família que temos! E vamos lutar para que ela resista a tudo. Nie?

O avô esticara o braço e alcançava as mãos de seu filho, enlaçando com as mãos de sua nora, oferecendo também abrigo para a netinha em seu colo. Distante, o neto fechava os olhos e se entregava à vertigem da nicotina, ignorando àquela fortificação familiar.

Dois toques na porta avisavam que era a hora do reencontro. A enfermeira-chefe chamava a família Szczepaniak para receber o pequeno Eryk no apartamento 61. Fila de pessoas nos corredores, lágrimas contidas enxugadas nos rostos. Um forte cheiro de pinho e álcool conduzia um por um até o cômodo. A enfermeira mais nova entregava máscaras e luvas para evitar um risco de contaminação.

Eryk se encostava no apoio da cama, ereto, um porte de pequeno príncipe. Seus cabelos pretos caíam pela testa, cobrindo parte da sua visão. Primeiro, Cecyl. O pai tocou a pele sensível das mãos do filho e escorregou para um abraço confortável, até esquecendo a partícula portuguesa e lhe sussurrava “mój syn...”, “mój syn...”. Isadora explodiu em um choro que já ardia na garganta por uma década, segurando o menino entre seus braços secos, embalando uma canção de ninar que lhe acompanhou desde pequeno.

Infant holy, infant lowly, for his bed a cattle stall; oxen lowing, little knowing, Christ the babe is Lord of all – cantava a mãe, com um mel nos lábios de apagar toda amargura da existência.

Camila pousava na cama com a manobra do avô, balbuciando algum idioma que só ela entendia. Eryk sorria para a menina, sem entender o reflexo nela de que os anos não passaram. Pietro, por sua vez, abaixou a cabeça e mirava seu irmão do meio como quem toma um estranho. Mesmo com o pai empurrando o ombro, ele ficava estático ao pé da cama.

E, então, chegou a vez de Oton. O “Vovô Apolo” tão bem feito e talhado no grosso tinha máscara mortuária no lugar do rosto, logo substituída por um choro baixo, travado, que explodiu em um grito muitos tons acima. Apertava a mão do neto e só exprimia uma palavra:

— Perdão… Perdão…

Oton encostava a mão esquerda no apoio da cama e confessava para si uma fraqueza muito forte.  

— Vovô… - gemeu Eryk, devolvendo o gesto do avô com a ponta dos dedos. Era a primeira palavra que ouviam do garoto em tanto tempo. O que viria a seguir? Um agradecimento? Um lamento? O menino disse: – Suas mãos…

Oton gritava e cobria uma mão sobre a outra. A enfermeira mais nova tinha dado o alarme para as costas das mãos do avô.

Ele saíra do quarto sem qualquer cerimônia e procurava o banheiro à esquerda do corredor a fim de evitar perguntas desnecessárias. Abria a torneira e deixava toda a água jorrar, refrescando o rosto e limpando uma ou outra energia ruim que surgia dali. Oton Szczepaniak refletia suas mãos no espelho, sem entender como suas mãos estavam tão enrugadas, disformes, ossudas, com manchas de sol e esquálidas de uma hora para outra.

O Tempo do Medo - capítulo um


“Com medo do tempo que passa, passa por mim o tempo do medo”
(poesia do filme “Febre do Rato”, de Cláudio Assis, 2012)

Nuvens pesadas cobriam os céus bem acima do Hospital Geral, formando desenhos incompreensíveis a partir daquele epicentro. Cinco andares abaixo do telhado, duas enfermeiras do turno da manhã caminhavam pelo corredor da Ala Marfim, sem darem conta ao homem da televisão que predizia o tempo ruim por toda semana. Entraram no apartamento 61.

O vento frio enchia o cômodo estreito, obrigando que a mais velha das enfermeiras fechasse as persianas, enquanto a iniciante tomava seus apontamentos em uma prancheta. O vibrar sutil de um trovão anunciava a tempestade, estremecendo as estruturas de gesso e os metais da cama.

— Então, esse é o garoto? ‘Eryk’... Eryk, o quê? – perguntou a enfermeira novata.

Sua superiora cruzara os braços, se pondo em uma posição clínica que inspirava confiança pelos anos de serviços prestados à instituição. Era um embuste para disfarçar o corpo contorcido pela baixa temperatura. Respondeu:

— “Szczepaniak”. Pronuncia-se “Spaniak”. E, sim, esse é o nosso paciente mais antigo.

Era um garoto de estatura pequena, cabelos muito escuros contrastando a pele clara, seus braços dispunham paralelos ao corpo, tão inertes quanto o peito que inflava e se esvaziava de ar pesado. Vestia um pijaminha com listras verdes e a monograma do hospital.

— Senhora... Eu me recuso a acreditar que esse paciente tenha quinze anos. – A novata cresceu os olhos ao relacionar as datas no histórico. – Seu desenvolvimento é de, no mínimo, uma criança de seis!

— Eu parei de me questionar assim que ele saiu da puberdade. O caso Eryk Szczepaniak desafia qualquer ciência conhecida... – comentou a outra.

A enfermeira iniciante deu de ombros à resignação de sua superiora. Mexeu os papeis do laudo repetidas vezes atrás de uma pista brilhante, aquele detalhe revelador que desvendasse o segredo sustentando tal anomalia.

— Desista... – disse a chefa – Eu também me recusei a aceitar o simples fato de que esse garoto não desenvolveu um só centímetro desde que entrou em coma.

— Isso é impossível, senhora! Veja, aqui diz que...

— Sim, sim, eu também cogitei essa possibilidade. – A mais velha tomava a prancheta das mãos da moça, ressaltando com ar enfadonho as informações – Eryk sofreu uma lesão no tálamo depois do acidente, um traumatismo que levou ao coma... A junta médica relacionou esse evento com a produção de GH e uma possível atrofia muscular e no seu desenvolvimento, mas nada foi comprovado. Afinal, o processo de envelhecimento ocorre a nível celular.

— Ele continua com o mesmo aspecto de nove anos atrás, senhora?

— Sim. Mesmo corpo, mesma estrutura óssea. Até o cabelo parou de crescer, enfermeira... É como se ele...

— ... estivesse cristalizado no tempo. – completou a jovem, levando sua mão à boca.

O mais sepulcro silêncio baixara nas enfermeiras. Os únicos sons presentes no cômodo eram dos bipes do maquinário que garantia as funções motoras de Eryk Szczepaniak e o encontro do vento e das gotas de chuva sobre a superfície da janela. Os pulmões de Eryk emitiam ruídos muito particulares, era preciso chegar o ouvido contra o seu peito para compreender que ali existia um traço de vida soterrada por toneladas de traumas cranianos e atrofias musculares.

A novata descrente voltava à carga:

— E sua família? Ele tem parentes conhecidos?

— Sim. – respondeu a enfermeira crédula – Nós temos notícias apenas do seu avô, Oton. Ele visita o moleque toda semana, fica um tempo sozinho aqui no quarto... Depois, vai embora. É um homem muito resignado. – De repente, ela abaixa a cabeça e se entrega em um sorriso desajeitado.

— Qual a graça, senhora?

— As enfermeiras da pediatria o chamam de “Vovô Apolo”. Ele é um homem muito bonito. Alto, ombros largos, mãos grandes... Típico polaco do sul. Esse é outro para qual o tempo não passou nem nos fios de cabelo.

— E os outros ‘polacos’? Ele só tem o avô?

— Não, ele tem uma mãe, um pai e irmãos. Mas nunca os vemos desde que o quadro dele foi considerado irreversível... Acho que jogaram a toalha. Lembro-me que havia uma garotinha.... Ah, a irmã mais nova! Era um bebê na época do acidente.

O que aconteceu dali em diante ao cair da tempestade só pode ser descrito por um observador criterioso e pouco emocional. O céu se chapava de nuvens e manteve o brilho do sol opaco por detrás delas. Um jorro maciço de chuva batia nas vidraças, assustando as enfermeiras. A mais jovem deixava cair a prancheta, se agachando para pegá-la, mas logo parava com os joelhos arqueados ao notar as luzes piscando repetidas vezes, sincronizadas às batidas do seu coração nervoso. Lâmpadas fluorescentes acendiam e apagavam em uma oscilação que tomara os maquinários de suporte vital e, depois, os corredores do Hospital Geral.

— É uma queda de energia... É só uma queda de energia – sussurrou a enfermeira mais velha, mais para si do que para a sua estagiária.

Quando Eryk abrira os olhos, um raio cortava os céus e lançava vinte e oito andares na mais completa escuridão.

Ao meio-dia, a Ala Marfim não teve um só espaço que não fosse ocupado por curiosos. Médicos, enfermeiros, farmacêuticos, acompanhantes – até pacientes – brigavam por um metro cúbico livre para observar “o menino que acordou”. Eryk Szczepaniak mexia seu corpinho em agonia e gemia pelos pais, ainda cego pela luminosidade e paralisado do pescoço aos pés.

O diretor do hospital dividia sua atenção em dois celulares, o corporativo para o setor técnico com boas notícias sobre a queda de energia e o reparo de emergência nos dois geradores; o pessoal com uma linha direta com Oton Szczepaniak.

— Sim, senhor, Eurico Fragoso falando... Seu neto acordou às oito da manhã! É um verdadeiro milagre! Peço que venha para cá agora! – Ele limpava a imensa testa porosa e umedecia os bigodes secos em sinal de total aflição – Tenha cautela... Acreditamos que um vazamento interno chegou à imprensa, o estacionamento está apinhado de jornalistas! Por isso, vamos garantir a entrada do senhor e de sua família pelo acesso aos fundos. Já acionamos o controle de crises da assessoria... Nada mais vai passar pelo nosso filtro sem o consentimento da família.

O sol rasgava determinados vãos mais fracos no céu, ainda de forma fraca, nem pareciam duas da tarde, menos ainda que fosse começo de ano. Longe dali, no gradeado principal do hospital, flashes à distância pontuavam uma chegada há muito esperada.

O utilitário escuro entrava pelo acesso alternativo do Hospital Geral, parando no setor de ambulâncias, conforme especificado. Da porta traseira, um garoto emburrado de calça jeans e camisa de time carregava uma menina pequena de jardineira e chapéu florido, seguido de um senhor tão alto que foi obrigado a abaixar a cabeça para sair, arrumando seu capote cor-de-chumbo. À frente, o motorista de barba fechada batia a porta com força, prendendo a camisa polo.

— Porra! – reclamou o motorista, abrindo a porta e retirando o pedaço de tecido engatado – E vamos logo, Isadora! Deixe de frescura!

— Não! – respondeu a única voz ainda dentro do carro – Todos vão nos ver, Cecyl... Não percebe que isto é uma insanidade?

O homem contornava o carro e parava à porta do carona, destrancando. Estendera a mão, e disse:

— Acha que isso importa mesmo agora? Vamos, Isa... É o nosso menino.

Isadora Szczepaniak não teve coragem de erguer a cabeça. Viu de longe um fotógrafo se escanchar na grade em busca do ângulo perfeito – ele era a síntese de toda a publicidade evitada pela família nos árduos anos em que Eryk dormira seu sono.

O diretor Eurico e seu séquito de funcionários surgiam na saída de emergência e reproduziam o mesmo burburinho do lado de fora do hospital.

— Oh, meu Deus... Vocês... Oton, essa é a sua família? – comentou ele.

A enfermeira novata notara o quanto Oton era mesmo bonito e conservado para a sua idade, como descreveu sua chefa. E a mãe também parecia muito nova para a sua idade. Gravidez precoce, imaginou. O pai fazia uso visível de produtos para cobrir o rosto de uma barba grossa e tingida de forma ridícula, bem como roupas maiores que seu número atual. Só os filhos pareciam adequadas para a cronologia atual, e a criança de colo tinha expressão serena e destoava do nervosismo concretado de seus pais. Mas... espera!, confessou para si. Criança de colo? A irmãzinha era um bebê na época do acidente!

Quando entendeu tantos porquês, a enfermeira deixava cair outra vez sua prancheta.

Nua e Crua - capítulo três


Joana Mayer abriu o cadeado que protegia o galpão 87 na rua Tamarindeiro. Um baque de destranque e o vibrar maquiavélico de correntes recebiam os jornalistas para o brunch na véspera do seu vernissage, uma ideia ousada para amaciar a carne dos críticos antes da sua noite triunfal. O homem via tudo no canto da instalação, sentado em uma cadeia de plástico e observando a forma da mulher receber outras criaturas humanas.

Em pé, duas modelos de peitos duros e costelas sobressalentes moviam seus corpos com gestos enferrujados, em transe, salpicadas de tinta aquarela de tons avermelhados, e os riscos mais firmes lembravam cortes entre uma mancha e outra. Deitada no chão poeirento, uma jovem ruiva cobria seus seios com as mechas onduladas do cabelo, segurando um coração de metal derretido apoiado no lado esquerdo do tórax, mais umas tranças de plástico bolha vermelho acima da barriga.

Joana esticou um traço sorridente de uma ponta a outra da boca, com gestos graciosos para receber os jornalistas. Todos viam tudo com ares de plenitude. Menos um.

O desdenhoso comentou:

— E esta mulher no canto da escada?

Os outros se viraram para fotografar a modelo nua, sem qualquer proteção, deitada sobre uma tela gigante que era suspensa por um cavalete de três metros da base ao topo. A perfeição dos cortes e ferimentos em sua pele suscitavam tantos olhos arregalados e bocas nervosas quanto possível.

— Não me parece grande coisa... A senhorita ganha pelo choque, pelo impacto, não pelo conteúdo...

Aquele jornalista fez crescer em Joana um sol causticante a partir do seu coração. O bombear do sangue enviava correntes de fogo pelas veias e culminou em uma onda de tremor em suas mãos. Aproximando-se dela, o homem cobriu seus punhos cerrados e sorriu educadamente para os jornalistas:

— Com licença! Tenho de roubar a artista por um minuto. Sirvam-se, a refeição está na mesa!

Joana engoliu um soluço e piscou para enxugar uma lágrima. Tinha apertado tão fundo a ponta dos dedos que marcou a palma da mão.

— Minha pequena, você não pode se exaltar assim! Você sabe que esses infelizes não perdem uma oportunidade para tirar o artista de sua bolha de conforto! Uma ruga fora de lugar, e pam! Lá estará sua raiva na foto de capa.

— Ou os odeio! Odeio todos eles, Alfredo! Eu quero a cabeça daquele puto!

O homem abraçou a mulher e lhe beijou na testa. Disse:

— Isso será providenciado.

* * *

O hálito quente da mulher embaçara um ponto fixo do vidro, onde sua boca afilada encostou e falou em um dialeto sibilado. Barão suspende a máscara ninja até a altura do nariz, exibindo seus lábios graúdos e um conjunto de dentes amarelados, chegando perto do rosto da mulher obscurecido pelo fumê.

— Por que você quer me matar? – questiona ela. Seus dedos desenham contornos e borrões na região embaçada.

O bandido usando o aparelho de radiofrequência se encosta na tampa da mala do Ford Edge da mulher, ora sintonizando os canais de escuta da polícia, ora vigiando as vias de acesso de quem ia ou saía da praia. Barão refreia seu último fiapo de lucidez antes de responder, devolvendo a resposta no tom exato ao dela:

— Porque você merece... Eu sei do seu diagnóstico. Transtorno de Personalidade Histriônica? Agora estão chamando os perturbados disso agora? E o que dizer daquela merda de vernissage? Sabe o que as pessoas te chamam quando não te veem? De louca! É isso o que você é, “Artista”. Louca!

A mulher sente um sol queimar a carne por dentro dos ossos. Barão estava lhe atingindo justo no nervo mais exposto. Ela respira todo o mormaço do carro e finaliza seu desenho no vidro. Visto bem de perto, lembra uma aquarela, com seus espaços profundos para a tinta e o apoio do dedo na lateral. Poderia ser também uma máscara, ou uma silhueta de pavor.

— O que está vendo? – questiona ela. Diante da boca pasma e do silêncio do seu inimigo, ela repete. — Diga-me, o que está vendo agora?

— Chega desses jogos! – Barão recarrega a arma usando um cartucho pendurado ao cinto. Com a coronha, acerta um golpe certeiro no vidro do motorista. Em seguida, destrava e dispara nos quatro pneus do Ford Edge, um tiro de cada vez. Ele retorna e se agacha até o campo de visão de Joana, com ar emproado e as mãos na cintura. — Você não tem como sair, vagabunda! Você é minha! Eu esperei essa oportunidade todos esses anos, e nada vai me tirar do caminho! Eu vou te arrancar desse carro e te fazer implorar pela sua vida desgraçada!

As engrenagens da mente da mulher iniciam um rápido processamento de signos. Todos os quatro, agora três, usam coletes e máscaras, armas de alto calibre para as duplas e um deles está escutando a frequência da polícia. A intervenção quando cercaram seu carro requer estratégia. Eles têm uma operação montada para pegá-la, ela só ainda não mediu, e nem se sabe, o custo.

Então, um fluxo de códigos explodiu diante dos seus olhos. Ela pensou rápido em diminuir o número dos seus inimigos. Tinha de agir pela surpresa. É assim que ela amacia o painel do sistema de som do Ford Edge e dedilha seu próximo estratagema. Inicia:

— Sabe o que eu vejo, Barão? Eu vejo um homem nervoso... Assustado. Um homem que usa uma máscara para esconder seu verdadeiro medo. Eu não sei o que fiz para você... Digo, pelo menos antes de ter matado o seu irmão essa noite. Ele é seu irmão, não é? – Seu dedo médio dobrado bate na película, simulando a direção onde Célio está estirado, com uma bala destroçando o crânio. Continuou. — Você usa uma máscara para não mostrar que é fraco e arredio. Eu ainda não sei o que fiz para você... Mas pela forma como fala, foi algo muito bem feito...

— O que?! Ora, sua...

— Antes de continuar seu repertório de palavrões, me permita uma observação... – A mulher abre a bolsa e começa a tirar seus produtos, as latas de tinta óleo, os recipientes de tinta spray, como se estivesse em um caixa de supermercado. — O ponto de vista do capturado é o mesmo do peixe com a boca na linha. Mas imagine por um momento que o peixe seja maior do que o captor?

— O que você está dizendo?

A mulher retira o lacre do spray e borrifa aos poucos no vidro ao lado esquerdo.

— Veja bem, se o peixe é maior, ele tem poder não só de romper a linha, como de virar o barco. E o pescador se torna a presa. Compreendeu? O pescador vira o jantar do peixe.

Os borrifos se intensificam e logo cobrem o vidro com a densidade grossa do spray. Barão e os outros começam a esmurrar as portas do Ford Edge. A mulher abre as latas de tinta e derrama no vidro da frente, transformando seu carro em poça multicolorida e de desagradável cheiro ocre. O plano é descoberto. Ela tinge todos os vidros laterais, o da frente e o traseiro, ocultando com tintas os seus gestos dentro do carro.

— O que essa maluca fez? – perguntou um dos demais.

— Eu fiz o peixe crescer! – oculta por camadas e mais camadas de cor espessa, ela grita e gargalha como uma harpia esganiçada, enquanto liga o rádio do carro na estação mais barulhenta que pôde lembrar – Quando vão perceber que vocês é que estão presos comigo?