Cube Creator - como estruturar uma história em seis faces?

Imagine que você teve uma epifania e surgiu em sua mente toda uma ideia mirabolante, cheia de personagens instigantes, cenários paradisíacos e reviravoltas do início ao fim? Parece perfeito! É hora de colocar as mãos na massa, ou no teclado, não acha?

Mas e se de repente aquele fiapo de inspiração foi embora e só lhe restou sua colcha de retalhos de argumento? Como realocar aquele personagem que pareceu importante há meia-hora e que agora está tão deslocado quanto o restante dos elementos criativos? Como organizar os pontos de virada? E o bendito do plot twist?

Muitas vezes a página em branco afasta qualquer escritor – aquela palidez do editor de texto, o cursor piscando repetidas vezes sem surgir uma só ideia... O que acontece também é quando se tem a ideia, mas o contador de histórias não a desenvolve bem o suficiente para olhá-la e ter o seu momento “eureka”. E é aí que entra a Escrita Criativa.

Página inicial do Cube Creator.
Um dos muitos métodos da Escrita Criativa proporciona para desenvolver a construção das histórias de um escritor é o Cube Creator, que é possível encontrar online pelo ReadWriteThink

O método é muito simples. Basta entrar na página, dar um nome a seu projeto e selecionar as quatro categorias principais: Bio Cube, para criação de biografias e autobiografias; Mystery Cube, para criação de thrillers de mistério; Story Cube, que desenvolve o modelo básico para qualquer estrutura de plots; e Create-Your-Own-Cube, um módulo no qual o escritor desenvolve seu próprio cubo.

Assim como a figura geométrica, o método do Cube Creator utiliza seis faces organizadas como um cubo físico, onde cada uma representa etapas importantes do plot. O primeiro lado dos personagens, onde se coloca quem serão os protagonistas, antagonistas e secundários. O segundo lado é do espaço, o lugar onde a história se passa. O próximo lado é o conflito, o evento que vai impulsionar os protagonistas e, por consequência, toda a história, seguido por sua resolução. O lado cinco vai tratar sobre o tema que estará no campo consciente ou subjetivo do plot. Por último, aquela parte favorita que despertou seu interesse pela história, o ponto forte, aquilo que você acha interessante de contar.

Passadas as etapas, clica para finalizar e, voilá! O cubo estará pronto! O interessante da página é que é possível salvar o cubo em PDF com suas informações, ou imprimir para montá-lo em uma versão física, seguindo as instruções do arquivo – também é possível guardar as informações do cubo em uma planilha para análise.

VII Concurso Escambanautas

11/06/2018
Arte do dia: "Saturno devorando seu filho", Francisco Goya.
Terminou com o filho num só golpe – o herdeiro não ameaçaria o trono. Por falta de perspectiva, não deu conta de que seus afilhados se sentiam como legítimos. E que escondiam bem suas facas de caça.

12/06/2018
Arte do dia: "Dont Stop Me Now", Queen, 1978
“Não há nada que me pare”, pensou Rodrigo ao ver oito carros de polícia pelo retrovisor, se congratulando por sua imensa ousadia. Até sentir uma pontada forte no braço subir para o peito e o mundo escurecer.

14/06/2018
Arte do dia: "Cena do Jantar" - Alien (1979), de Ridley Scott
Eva pariu o monstro no jantar. Em vinte minutos, ele destruiu seis famílias, encerrou três casamentos, mais o saldo dos suicídios, e só parou quando a polícia interveio. Se imaginasse o prazer do resultado, teria espalhado a fofoca no café da manhã.


15/06
Arte do dia: "Fauno e Ninfa", de Peter Paul Rubens, c. 1619
Reclamava o fauno a um amigo bardo:
– Era a ninfa mais linda do bosque! Chamei para minha casa, lhe paguei as uvas mais caras do Olimpo. Saiu de casa no amanhecer.
– E aí? Comeu?

– Só as uvas.

20/06
Arte do dia: "O Último Tamoio", de Rodolfo Amoedo, 1883

Era óleo sobre tela, mas ao terminar de pintar, tinha o sangue quente dos primeiros brasileiros escorrendo nos dedos.

22/06
Arte do dia: Música “Time” (Inception soundtrack), de Hans Zimmer

Agarrou às mãos da neta. Disse-se que o tempo é relativo e que, por exemplo, para ele, o tempo iria parar a partir de agora. E parou – junto às batidas do coração.

23/06
Arte do dia: Princesa Kaguya foge. - O conto da Princesa Kaguya - Estúdio Ghibli.

Indignada com as imposições mofadas da realeza, a rainha arrumou as malas e partiu com toda a fúria rebelde ainda contida em seu peito – afinal, há vinte anos, também fora uma princesinha.

03/07
Arte do dia: "Pessoa" - Marina Lima
- Quando ela está perto, eu me sinto mal. Quando ela vai embora, me sinto pior! Qual é o meu problema, afinal? - perguntou ao barman.
Ele sacudiu o Martini e despejou na taça. Respondeu:

- Você.

04/07
Arte do dia: Trecho de “Hospício é Deus”, de Maria Lopes Cançado

Ao chegar à vida adulta, ela recebeu alta da clínica. Mas aí viu a sinfonia sinestésica de carros, pessoas, ruídos e desamores, e perguntou ao doutor quando aquela extensão do hospício ia ser murada.

05/07
Arte do dia: "Bonasera, Bonasera." - O Poderoso Chefão - Francis Ford Coppola
"Se pede, tem de retribuir" - é o que sentencia o código.
Por anos, Antonio ignorou a retribuição para com o padrinho.

Ao reencontrá-lo, então, fez um pedido ignorado: "não me mate!".

Fátima Florentino - Junho

25/06/2018
Palavra do dia: Telefone

"Afaste seu telefone da televisão", recomendou o apresentador. Ela foi recuando o máximo que conseguiu, ansiosa demais para ganhar o joguinho. Afastou-se tanto que perdeu o sinal. O prêmio foi para a ligação seguinte.

24/06/2018
Palavra do dia: Goleiro


Era costume do coach dizer aos alunos que todos são atacantes na vida, incapazes de perder uma chance de gol. Só depois do divórcio é que viu a má sorte como um goleiro de um metro e noventa.

23/06/2018
Palavra do dia: Múmia

Quando chegou à cadeia, demorou a se decidir por um apelido. Foi durante uma briga de facções que veio a inspiração: apanhou tanto que foi enfaixado de cima a baixo. Na enfermaria, virou a “Múmia”.

15/06/2018
Palavra do dia: Lápide

Chamava a esposa de “lápide”: mesmo dura como uma pedra, ela guardava as frases mais carinhosas nos momentos de dor.

14/06/2018
Palavra do dia: Inveja

“A inveja é a arma do incompetente”, aprendeu na escola. Quando adulto, tinha os outros seis pecados como munição contra tudo o que achava infame.

12/06/2018
PALAVRA DO DIA: Beijo
– Todos os dias o meu marido me acorda com um beijo.
– Ah, amiga, o meu me beija sempre que me encontra! E o seu, Lia?
– Só em datas específicas…
– Quais? Nas bodas ou em seu aniversário?
– No quinto dia útil do mês.

06/06/2018
PALAVRA DO DIA: Afeição
Não tinha a menor afeição pela avó que a criou. Quando virava as costas, chamava a senhora das coisas mais absurdas. Só trouxe a tona um elogio sincero na leitura do testamento.

Cova Funda


Eu digo para o pai está tudo bem. Digo que sim, depois digo que não, em seguida repito que sim, e que está tudo bem. Como em toda ligação, ele não acredita.

“Você não está metido com amizade errada, não é, André?”

Sinto minha garganta secar e fechar, o ar passando por um tubo estreito. Respondo:

“Não, pai.”

O eufemismo em “amizade errada” só se aplicava a tudo que poderia levar uma dura da polícia pelo simples fato de existir.

Vou tossindo por todo o caminho até o canteiro central com o pai em meus ouvidos. Mesmo com o sol rachando, uma fina linha fria cresce da testa para baixo. A equação geral dos seus assuntos caíam na mesma ordem: cumprimento, questionamento, acusação, dúvida, parábola bíblica, despedida. Eu preferia ser acusado por mais tempo do que saber o que Abnoã fez no vilarejo de Canaã – ou qualquer outro nome engraçado e brega. O coração e o pulmão se afrouxam quando ele se despede, e volto a respirar.

O filho único vir trabalhar na capital não estava nos planos do pai – se dependesse dele, eu passaria o resto da vida em seu regime militar, atrás de um balcão de repartição e casado com a filha do prefeito. E o que está nos meus planos é tanto manter distância de suas neuroses quanto ele não ter a mais remota ideia de que não me atraio por mulheres.

“Fala, babalu”. É o que comenta um dos rapazes da manutenção ao me ver entrando na área selada com a fita vermelha. Babalu é a forma mais sutil como me chamam na firma.

Sair do interior como André Galhardo e me transformar em “Babalu” não estava em meus planos. E tenho certeza que nem nos planos do pai.

Passo pelo operário escondendo as mãos no bolso da jaqueta, coluna erguida e o olhar fixo à minha frente, me armo com os equipamentos de proteção. O cronograma está atrasado e só temos esta tarde para pôr a baixo dez andares de concreto puro. Confiro os explosivos nas colunas de sustentação nos dois andares iniciais – o passo inicial que vai garantir o restante da implosão. A rede de contenção cobrindo a fachada do prédio e o material antiperfurante nas colunas estão impecáveis. Dinamites em ordem e na posição que garantam a explosão nos andares inferiores e na parte central. Tudo em ordem.

Só o detonador A3 que apresenta com mau funcionamento. Logo o primeiro no fosso do elevador. Bato com raiva na testa pelos brutos da demolição que deixaram isso passar. Idiotas! Homens são animais biologicamente programados para causar destruição sob o menor esforço. Puxo o rádio preso à calça e repasso à central para suspender a implosão até a segunda ordem.

“Engenheiro André, qual a solicitação?”

“Suspenda a operação. A3 comprometido. Solicito equipe técnica.”

“... Esse é seu parecer final? A firma tem até às cinco para implodir o prédio.”

“Escute...”, é tudo o que consigo responder.

Um chiado de isqueiro seguido por uma explosão contínua de bombas de São João surgem atrás de mim, vez após vez, bem no fosso do elevador. O detonador A3 acionou trezentos gramas de explosivo ligados a um emaranhado de fios saídos do cabo principal. Para a alegria da firma, o prédio ruiria antes das cinco da tarde. O incoveniente seria o corpo do seu funcionário no meio de toneladas de concreto.

As cargas são acionadas de baixo para cima e do meio para fora com diferenças de milésimos de segundo. Boom! Boom! É o mundo caindo aos pedaços na sua cabeça feita de carne, não de titânio. Se a espoleta queimasse no detonador principal, nem se eu fosse feito de titânio. Grandes pedaços do teto do térreo caem e uma nuvem espessa de poeira flutua, as colunas centrais encontram o chão e tudo o que tenho é uma ideia insana. O fosso do elevador é um grande pilar que segura parte do prédio, por isso é o que precisa de maior quantidade de explosivo. Mas o efeito dominó da sua explosão precoce me traria uma vantagem.

Eu me lanço para a direita fugindo de uma coluna e salto até os destroços do fosso do elevador, entulhado de concreto, focos de incêndio e vigas de ferro. O resto do mundo cai junto comigo para a escuridão e o desconhecido. Só entendo que o buraco tem fundo quando a lateral do meu corpo encontra o chão. Ouço o craquelê de ossos quebrandos. Sinto uma teia de dor cobrindo meu calcanhar e gosto de sangue na língua. O que tinha de luz foi coberto pelos andares superiores, afundando as camadas de parede e reboco acima de mim. É um jogo de tetris com peças cubistas – o prêmio principal é a sobrevivência.

A cabeça pesa e não consigo focalizar onde acabei parando. Toco minha perna esquerda e alcanço pontas afiadas saindo da carne como se fossem os destroços furando minha pele. Com bom esforço me dou conta de que são meus próprios ossos atravessando a pele do pé e do joelho. Um jogo de tetris com ossos humanos.

“Calma, André... Calma”, sussurro. Respiro aos pouquinhos para não perder todo o ar. Também não grito – o procedimento é que a Defesa Civil se prontifique a retirar os destroços em uma hora. A temperatura aumenta, a pele reage ao pó do cimento que escorre no meu rosto, formando um caldo viscoso e quente que cobre os olhos. Arde. Balanço o rosto e o encanamento vazado arranha minha bochecha lascando a pele. O grito é obrigatório. O metal afunda na carne e meus músculos cedem à dor, por ali eu estaciono para evitar encontrar outra desgraça. O ar é pouco, a garganta ameaça fechar e busco bolhas de oxigênio onde não existem.

O rádio se perdeu pelas camadas da implosão. O celular ficou no bolso de trás da calça, nem me arrisco a me mover para buscá-lo. Uma hora. Em uma hora meus colegas horríveis vão notar o meu sumiço, chamar a equipe de resgate e me desenterrar daquele túmulo. Quando era guri, respondi para a coordenadora pedagógica que tinha medo de ser esquecido pelas pessoas. Ela chamou meu pai, perguntou se eu sofria o complexo do abandono. Levei uma surra inesquecível. Desde então, troquei minha prioridade de medos – era ele. Ele, e as pessoas que agem como ele.

Eu choro quieto na escuridão. Só chorava assim quando não podia sair com os meninos na época do Ensino Médio, ou quando ouvia escondido os lançamentos atrasados da Jovem Pan, porque “essas músicas não são de homem”. Eu já era enterrado desde a adolescência. Aqui no fundo da Terra, me encontro tão frágil, feito de materiais frágeis, rachaduras e dores. Sufocado.

Enterro o pedaço do encanamento fundo na bochecha para acordar, a dor relembra que estou consciente. Os minutos passam e descarrego a pouca energia que ainda resta. Acabo ferindo a bochecha e o rastro de sangue desce para a minha boca. O gosto ferroso me relembra que estou consciente. Pisco. Caio no sono. Se afundar no rosto, o metal pode atravessar meu rosto e vou apagar de vez. Então, a luz aparece no fim do túnel.

“Capitão, encontramos uma vítima!”

A equipe de resgate retira pedra por pedra e um caminho se forma para o mundo dos homens. Desmaio. Quando me dou um lampejo de consciência, percebo meu corpo atado a uma maca sob a luz da lua e erguido pelo equipamento dos bombeiros. Salvamento à reboque.

“Que susto você deu na gente, Babalu...”, avisa um dos operários. Ergo o dedo do meio antes do mundo escurecer.

Um bipe irritante me acorda de um longo sono. Passo a língua na bochecha e sinto toda a linha da costura que pôs o talho do meu rosto no lugar. A perna lateja onde antes havia buracos e hoje é coberto por ferros, gazes e costuras. O cheiro de éter entrega o lugar onde estou, mas não a companhia ao lado da cama.

“Filho? Você acordou?”

O pai não poupa tempo e descarrega seus conceitos sobre minha estadia na capital, minha profissão. Diz que quer me levar de voltar, que tem um lugar confortável atrás de um balcão para mim em um lugar onde as mulheres voltam para casa antes das sete.

As imagens e sensações da implosão retornam para minha cabeça. Quando cresci, ergui uma construção sobre mim para não morrer, e continuo tão sufocado quando não sabia o que – ou quem – era. Eu não quase morri para continuar sufocado. O que corre em mim não é mais sangue, é diamante. Eu sou indestrutível.

“Pai...”, sussurro. “Eu tenho que te contar uma coisa.”

Queime a bruxa



Atravessei a rua com Samuel logo atrás, enquanto ouvi a moça discutindo com seu namorado – ou marido, ou amante ou qualquer outro relacionamento. Pela forma como gritava com ela, parecia seu dono. Agarrava em seu pulso e dizia para ela não sair de casa ou “ia se arrepender”. Não tive nenhuma reação. Notei a forma como Samuel puxou a barra da camisa e mostrou sua Taurus pendurada no coldre na direção do casal, pondo uma ordem silenciosa na situação.

Esse pessoal é fogo, né, Aquiles?”, o que é Samuel me diz quando entramos no prédio.

Com a pasta na mão, Samuel revisita as últimas fotos. Dois corpos carbonizados até o último pedaço de gordura, amarrados com os braços em uma estaca de madeira. Demoraram semanas até a perícia técnica identificar as vítimas – duas mulheres. Duas mulheres mortas da mesma forma. Era difícil ir dormir com a ideia de que um mesmo crime aconteceu em um curto espaço de tempo.

Subimos ao segundo andar e Guilherme nos recebe. Pálido, movido por cordas invisíveis, ele nos recebe. Seus olhos são duas granadas que pouco fazem menção à nossa presença. Eu me apresento e inicio as formalidades.

O apartamento é simples e há resquícios da falecida por todo canto. Lugar propício de jovens felizes que casaram há pouco – infelicidade típica de quem teve a noiva queimada até o talo. Georgiana Reis foi a segunda vítima, desapareceu no início do mês e só ligamos o nome à segunda carbonizada pelo exame da arcada dentária.

Guilherme entende o proceder e relata para Samuel o passado da noiva, enquanto ele toma notas. Passeio pelo local em busca daquela aresta mal aparada, a ponta solta que puxamos e nos revela todo um tecido por baixo dos segredos. Guilherme emprega os verbos no presente. Para ele, a noiva nunca morreu. Não reajo a isso.

Ela é um anjo… Trabalhadora, um coração maior que o peito… É até voluntária na igreja, incapaz de uma maldade”, comenta o noivo.

Saímos do apartamento tão perdidos quanto entramos. Sem relações importantes, inimigos ou conexões com a primeira vítima. Muriel Sampaio foi o início de tudo – psicóloga, divorciada, encontrada por um flanelinha em um estacionamento abandonado no Centro. Mesmo fim angustiante de Georgiana.

Não temos quase nada”, Samuel bate com força no painel da Saveiro, resgatando minha atenção ao trânsito. No ponto de ônibus, um idoso fita de cima a baixo uma colegial ainda sem peitos. Eu não reajo.

Mulheres...”, sussurro. “Sempre elas. É preciso surgir uma terceira pro secretário de segurança arregaçar as mangas, cacete?”

Eu me pergunto como ele captura as vítimas… Ele tem a confiança delas. Pode ser um taxista, alguém que possa estar em qualquer lugar e agir sem desconfiança.”

Muriel tinha carro… E Georgiana, a carona do noivo”, respondo firmando minha mão no volante.

Samuel bate em meu ombro.

Calma, Aquiles. Você é um exemplo pra mim. Não é à toa que eu te devo a minha vida.”

Dois anos de parceria e meu parceiro sempre encontra as formas menos sutis de demonstrar sua admiração. Minha relação com ele, na verdade, começou há vinte anos, quando Samuel não se chamava Samuel, vivia com os pais adotivos em um rancho no fim do mundo. Nas fotos do juizado de menores parecia um conto de fadas. Assim que arrombei a porta, uma parte de mim perdeu a fé na humanidade.

Meu pai fazia… ‘coisas’ comigo, Aquiles. Não tinha nome para essas ‘coisas’. Se você não tivesse a mesma coragem de hoje, coragem de atirar no meu pai e proteger minha mãe, eu não estaria aqui...”.

Eu dou um sorriso amarelo e o devolvo batendo em seu ombro. Antes que ele continue o resto da história – que foi tutelado ao padastro até completar a maioridade, e depois seguiu a carreira na polícia por influência minha –, eu paro em frente a Homicídios e interrompo o monólogo.

Dois oficiais estão na recepção entre risos escandalosos e gestos obscenos enquanto assistem um vídeo no celular. Lembra mais uma mesa de bar que uma divisão da Polícia Civil. Deduzo o motivo da diversão pela intensidade dos gemidos que saíam do alto-falante.

Mulher besta confiou no namorado… Mulher tem cada uma, né, Aquiles?”, me diz um dos colegas. Respondo sem reação com um aceno de cabeça.

Samuel me pergunta se quero almoçar, respondo um “sim” frouxo, já que meu estômago não aguenta nada sólido. Releio a transcrição dos depoimentos do noivo de Georgiana e dos pais de Muriel, como linha por linha para encontrar a minha ponta solta.

Eu grito por Samuel. Ele volta com uma marmita nas mãos, e eu descubro o tecido escondido. Mostro para ele um quadro branco com anotações em todos os cantos, um organograma que inicia no topo com os nomes de Muriel e Georgiana e finalizam com um ponto de interrogação na base. Entre elas, a palavra “grupo de apoio” destacada de outra cor.

O noivo de Georgiana disse que ela era voluntária em um grupo de apoio…”, explico. “Muriel era psicóloga. Liguei para todos os grupos da região entre elas, e confirmei com suas famílias. Grupo ‘Segunda Chance’, Samuca! Achei a conexão.”

Samuel não se contém e bate na mesa, pondo para fora todo um léxico de palavras chulas que desconhecia. Quase sorrio.

O Segunda Chance fica em um edifício alugado depois do aeroporto, um lugar discreto em meio ao entra-e-sai de veículos e transeuntes. Chegamos e ainda está trancado, batemos no portão de ferro da entrada e não ouvimos uma resposta. Há uma escadaria que dá acesso a uma porta de vidro mais a frente.

Acho que eles só abrem à noite...”. Samuel limpa a testa banhada de suor e fala com dificuldade. “Fica tranquilo, parceiro. Nós vamos conseguir.”

Meu telefone toca, eu afasto as mãos amistosas de Samuel. Com o celular em riste, vejo uma sequência de números indecifráveis para mim na tela. Atendo.

Olá, detetive… Muito me alegra em te ver na direção certa. Uma pena que esteja olhando pelo lado errado da sua lupa. Queime a bruxa, detetive… Queime a bruxa!”

A palavra morre no caminho da garganta. Samuel se esforça para me tirar do transe, mas meus ouvidos se fecham a uma única frase. Queime a bruxa. Queime a bruxa. Tentando olhar pelo tal lado certo da minha lupa, forço a visão pelo gradeado de ferro e enxergo pela porta posterior as nuances de uma saleta.

Uma imagem translúcida se foca, e eu grito em desespero:

Tem uma mulher lá em cima!”

Bem atrás da segunda porta está uma mulher com as mãos amarradas nas costas a um pilar de madeira, usando mordaça e venda nos olhos. Parece estar desmaiada – ou rendida demais para implorar ajuda.

Samuel se afasta para pedir reforços, enquanto reúno os últimos vestígios de ação no cérebro para resgatar a estranha. Saco minha Taurus e arrombo o grosso cadeado que protege a entrada, e com um chute arrombo o portão. Salto os degraus de um a um para chegar à recepção. Sinto meu pé engatar em um obstáculo invisível, que apenas meus sapatos percebem – um grosso fio de náilon preso às duas paredes do corredor. Tropeço e antes de cair do chão ouço um clique brutal. É a última coisa que eu lembro antes do edifício se encher em uma bola de fogo.

Sou arremessado para trás, rolo a escada e me encontro com a calçada. Samuel se abaixa para escapar dos pedaços de piso e tijolo que voam pela rua, encharcados de sangue. Ele me protege das labaredas e me apoia até o outro lado do passeio público.

É… uma armadilha”, reajo quando sinto meu próprio sangue quente escorrer por uma brecha aberta na têmpora. Desmaio.

Minha recuperação foi lenta. A imprensa alcançou orgasmos múltiplos com a explosão de um prédio comercial ligado ao terceiro crime do assassino de mulheres. Como esperado, o secretário de segurança arregaçou as mangas. A terceira vítima era Natália Roma, mediadora do grupo de apoio. As meninas, as jovens, as mulheres, as idosas – todas não saem de casa.

Apenas Samuel me visita – só nos hospitais é quando nos damos conta de que não temos mais ninguém.

Eu vou me retirar do caso”, aviso ao meu parceiro assim que recebo alta. “Eu agi por impulso… Certeza que ela estava viva antes da explosão.” Esmurro o curativo na altura da minha cabeça seguidas vezes, reprimido pela proteção de Samuel. Uma poça vermelha se forma entre o curativo e minha pele costurada. Pela primeira vez em anos eu choro, e o que dói mais é meu orgulho do que o corpo. Ambos, corpo e orgulho, não são nada.

Confesso para Samuel que o assassino me ligou minutos antes de pôr um edifício abaixo.

Ele me conhece… Mas eu não posso fazer o jogo dele. Nem quero.”

Samuel é que me ajuda a redigir um documento de punho próprio. Ele sempre foi bom com as palavras. Peço uma licença por tempo indeterminado e deixo o meu parceiro em meu lugar, se a secretaria quiser me afastar, tanto melhor. Na saída, aviso que se Samuel chorar dou um tiro em sua boca.

Minha última ação como detetive da Homicídios foi ir ao banheiro. De costas para mim no mictório, um oficial discute com a ex-esposa pelo celular por conta da pensão atrasada – afirma que vai vazar suas fotos íntimas no grupo da família. Meus músculos queimam e eu agarro a sua nuca e esmago a sua testa contra o piso branco.

Escute aqui, companheiro. Isso não vai ser nem perto do que vou fazer se ameaçar sua ex-mulher novamente. Ou se atrasar a pensão das crianças. Por precaução, eu fico com isto”, e tomo o celular de suas mãos.

A sensação de reagir é esplêndida.

Eu conto os meses como se fossem horas, e logo o “Inquisidor”, o cheiro de carne feminina tostada e as pontas soltas são lembranças de um passado intenso. Até o contato com Samuel tem diminuído a cada Natal e aniversário. Foi em um corredor de shopping que reencontrei meu ex-parceiro. Ostentava uma barba, vestia roupas maiores que seu corpo, não tinha mais a penugem de um aspirante. Pegou minhas mãos com vigor e me convidou para tomar um café.

Sabe, Aquiles… Tem uma coisa que eu sempre quis te perguntar esses anos todos.”

Fique à vontade”, respondi limpando uma linha de cappuccino do bigode.

Samuel pôs os cotovelos na mesa e apoiou o queixo entre os punhos cerrados, me encarando.

Você continua vendo pelo lado errado da lupa, detetive?”

O copo escorrega pelos meus dedos e o líquido quente transborda pela mesa. Meu cérebro completa a frase que eu preferia esquecer:

“’Queime a bruxa’…. ‘Queime a bruxa’...”

Samuel sorri como nunca testemunhei antes, vejo a camada de suas pálpebras vibrarem.

Você sempre enxergou pelo lado errado. Sempre! Um animal covarde que nunca tomou uma atitude certa na vida.”

Eu… salvei sua vida!”

Você desgraçou minha vida, imbecil! Matou o meu pai e me deixou sozinho com minha mãe… Uma vaca inútil que nunca levantou a voz para o meu pai. Deixava fazer o que quisesse comigo… Ela foi a primeira bruxa, depois vieram as outras. Vacas inúteis que só ocupam lugar no espaço.”

Samuel discorre uma a uma de suas mortes, descreve com perfeição mnemônica todo o sofrimento, toda a dor em cada grito de agonia das mulheres carbonizadas. Bem como maquinou todo o plano, de como gravou previamente a ligação para forjar um álibi ao estar comigo, como conheceu as mulheres, como se infiltrou no grupo de apoio.

Eu juro como me escrevi naquele grupo de apoio para me recuperar… Isso não deixa de ser um vício! Mas quando vi aquelas mulheres… Peças de carne empaladas. Minha mente ficou em chamas.”

E recomeçou a matar...”, completei.

Continuar na Homicídios foi oferecer um balcão cheio de carne para um açougueiro. É difícil abandonar certos vícios.”

Filho da puta! Por que esse jogo comigo?”

Samuel abaixa a cabeça e o canto dos seus lábios tremem.

Você me lembra… ele. O único homem que eu amei. E odiei. Eu também te amo e te odeio da mesma forma, Aquiles.”

Sinto minha cicatriz latejar na têmpora. Passo a mão pelo peito, inquieto, parece que vai explodir de pânico. O copo pende em minhas mãos e o equilibro de volta à mesa, com um restante de café ainda fumegante no plástico.

Não é hora para desmaiar, detetive. Há uma disputa pela frente! Nesse momento, uma bruxa está escondida em um local que só eu tenho conhecimento”. Ouço um gatilho por baixo da mesa. “Estou segurando uma pistola com munição explosiva próxima a seus genitais… Você tem a opção de salvar uma vadia que não conhece e arriscar a sua vida, ou me deixar ir embora, mas com o peso na consciência por libertar um assassino.”

Há um certo tempo, eu me ouso dizer que deixaria o assassino ir embora para poupar minha insignificante vida. E me envergonho disso – não adianta se permitir viver carregando tanta mediocridade assim. Samuel é um assassino meticuloso, confesso. Reúne todas as qualidades para ser um maníaco em potencial. Mas ele me subestima, está fixo em um Aquiles que não existe mais. Um Aquiles que não arriscava. Um Aquiles que não reage. E o Aquiles que segura o copo de café quente reage.

Eu prefiro queimar”, comento.

Eu lanço o copo para frente e o resto de café acerta a bochecha e parte do pescoço de Samuel. A arma brande para um lado, enquanto jogo meu quadril para o oposto, evitando a pressão involuntária do seu dedo no gatilho. Empurro com a palma das mãos a mesa por cima de Samuel, que tomba para trás. Desnorteado e com a pele do rosto em carne viva, ele me vê montado em seu corpo, acertando seu crânio com a última força presente em mim.


Queima! Queima!”, grito. De repente, ouço um clique e meus punhos encontram uma massa sem forma, imunda de sangue e pedaços de osso. Os seguranças do shopping entram na cafeteria e puxam suas armas, ordenando que eu me entregue. Peço para telefonarem para a Homicídios. O resto é história.