Má Formação - Capítulo I

janeiro 01, 2017 0 Comments A+ a-

Secretaria de Segurança, Centro Histórico

“Você está dentro ou está fora, Lupo?”.

Vitor Lupo caiu em todos os clichês catastróficos ao acordar em um estado imerso de mau-humor. Péssimo, aliás. Vitor Lupo se recusava a olhar para o secretário Próspero Fiquene, em pé, agindo como seu diabo interior. Apoiava os cotovelos sobre o gabinete da autoridade e recostava sua testa profusa nas mãos fechadas. Era a posição de concentração. Um lance meio zen em que movia as engrenagens e as complexas ligações de seu cérebro. Um totem irremovível que se propunha a pensar mais clinicamente. É assim que as coisas sempre funcionaram. Evitava olhar para as superfícies refletoras que o circundavam.

“É ano de eleição! Eles podem entrar com a pré-candidatura a qualquer momento. Esse é o momento de jogarmos todas as cartas. Você é a nossa ‘mão do morto’”.

A reunião já se estendia por doentias três horas. Tudo foi devidamente estropiado por doentias três horas. Lupo ocupava a posição principal daquele conjunto de poltronas ao redor da mesa ovalada. A sala de reunião era um cubículo fechado, com pouca entrada de ar – vedação caseira, diga-se de passagem. O ar que circulava era contaminado pelo cheiro de leite coalhado que vinha dos coturnos descosturados de Vitor Lupo, vítimas incólumes de uma criança que vomitou seu almoço aos pés do Investigador da Delegacia de Homicídios, ao ver a formação óssea do seu rosto.

“Vamos jogar todos os recursos. Já temos a parcela interessada da imprensa ao nosso lado. É uma bomba nas mãos que, cortando os fios certos, vai tornar você um herói!”.

Vitor Lupo tentava juntar todos os fatos de uma vez só dentro de uma cabeça que doía de sono, incomodada por um estômago que embrulhava de nojo pelos coturnos imundos e um juízo que rodava por impaciência. O céu de sua boca estava irritado como se engolisse tachinhas antes de dormir e elas voltassem no café da manhã. O barulho de sua língua roçando o palato mole era irritante, apenas comparado ao asqueroso cheiro dentro da saleta. Admirava a singeleza dos mosquitos batendo inconsequentemente na lâmpada fluorescente. Ousava em endireitar a maçã do rosto esquerda biologicamente torta ou massagear as esferas oculares angularmente desajustadas, que bambeavam seus óculos de lentes escuras e redondas, estilo Ozzy Osbourne. Suas mãos eram lisas como pele de rã e seus frágeis cabelos pareciam estar a todo tempo escorridos de suor.

“‘O Homem’ vai segmentar os recursos para nossa divisão. Sete dígitos, hein? Tá bom pra você?! Vamos contar com todo o aparato possível, vamos trabalhar em conjunto e até mesmo ter acesso às outras jurisdições. Vai ser o peixe na boca do gato!”.

Depois de uma sequência desafortunada de eventos, Vitor Lupo recebeu a contragosto alguns meses de férias remuneradas e licenças premium para desanuviar dos seus serviços na cidade maldita. Mas ainda nesta manhã, com duas semanas incompletas de férias, e antes de receber um jato de leite e ácidos estomacais na perna, ele recebeu uma ligação de seus superiores, com ordenanças tão altas, mas tão altas, que chegavam a nevar:
“Vitor Lupo?”.
“Sim?”.
“Aqui é o Governador, tudo bem?”.
“... Sim”.
“Lupo, recebi ótimas referências suas, sabia?”.
“Mm, sim”.
“... Bom, em todo caso, quero que você seja meu primeiro homem em uma nova empreitada. Você tem acompanhado os jornais ultimamente, não?”.
“Sim, sim”.
“Então, você tem uma reunião hoje, após o almoço, com o secretário Próspero. De acordo?”.
“Err... Si-Sim?”.
“Perfeito. Siga sua rotina normalmente pela manhã e nos traga um posicionamento ainda hoje”.
“Oh, sim”.
“Esteja preparado. Obrigado e bom dia”.
“Sim”.
beep

Ele tentava imaginar o porquê de ter sido escolhido. Já havia se sujado por tão pouco – para uma operação desse nível era preciso alguém completamente isento de escândalos. Mais um desses degradaria a sua imagem perante a opinião pública. E as classes divergentes? E os conservadores? A banda podre da polícia? E suas proposições pessoais, não contavam?
Pensou em questionar tudo isso e outros mais. Até perceber que não havia aberto a boca durante esses últimos quatro minutos.

“Lupo, essa é a sua última chance. Eu fiquei aqui bancando seu grilo falante durante a tarde toda. ‘O Homem’ quer um posicionamento nosso até as vinte horas. Diga-me o que eu posso fazer para te convencer?”, perguntou o secretário. Ele era um homem curvado de cabelos raspados, olhos cansados e quase fechados – daqueles que há dois dias não vão em casa –, cheirando a talco em lata e sabonetes de boticário: “Eu me sinto--”.
“... ‘cansado’”, completou Vitor Lupo.
“Sim. Minha cabeça parece que vai--”.
“... ‘explodir’”.
“Pare de ler os meus--”.
“... ‘lábios’! Desculpe”. Próspero Fiquene fez um gesto com as mãos para repreendê-lo de seus frutíferos métodos intelectuais.
O rosto do policial parecia esculpido em mármore: “Eu vou ter de tocar em alguém, vou?”.
“Não, Lupo... Só se você quiser. Use luvas de látex se precisar”.
“Como se eu pudesse. Salário?”.
“Maior do que quando só atendia ocorrências domésticas e briga de galos na Homicídios. Muito maior”.
“Com quem vou trabalhar?”.
“Sobrinho, o Sanches, a tesudinha da Promotoria... Essa turma que você já está cansado de saber”.
“E se precisar abrir a boca?”.
“Não abra. Para nosso próprio bem”.

Lupo quebrou sua concentração ritualística e se levantou, com as mãos viscosas nas costas, arrodeando o secretário Próspero. Não conseguia entender o porquê era tão vital encabeçar a mais nova ideia megalomaníaca da pasta.
Conforme o secretário explicou, pontuando cada sentença com arfadas de inquietação e cansaço, tudo começou em Setembro de 2013, com o crime que monopolizou a opinião pública nesse período. Um pai chegou ao ápice de um dia ruim e, sem ver nem para quê, retalhou esposa e filho assim que chegou em casa, no horário das sete e meia da noite.
Inquietados com os gritos que vinham no jardim da mansão no Calhau, os vizinhos acionaram a Polícia Civil que apenas chegou a tempo de ver o assassino ajoelhado entre os corpos de sua pequena família. Conduzido até o Plantão Central, sua justificativa foi capa d’O Nacional: “matei porque era gay”.
Visivelmente consternado com seu ato súbito de “reeducação”, o pai se suicidou horas depois do caos ter se instalado na cidade. Boletins pelos portais de notícia do país, flash mobs no Centro, indignação nas redes sociais, selfies contra a violência, discursos inflamados na Câmara Municipal, tudo isso transformou a ilha em uma baía fervilhante durante duas semanas.
A Deputada Mariana Gramado, também presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, voltou à baila seu desprezo pelo aparelho de segurança pública. Ela devotou o dia posterior ao crime para tecer comentários que, subitamente, incutiram um senso político na cabeça da massa. Lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros eram o cenário nacional.
Dois movimentos conturbados marcaram à quarta-feira e o sábado daquela semana. Jovens, mulheres, homens e crianças iam as ruas pedir justiça pelo brutal assassinato de Joaquim Gomes Neto e sua mãe, Adalgisa. Formigas que entupiam as pontes e pintavam os muros. Helicópteros, luzes, bombas de efeito moral e frases imorais. Gradeados, links ao vivo, chuva de papel picado e merda no ventilador.
Dois meses depois, uma reunião às portas fechadas selou o destino de um punhado de oficiais da lei. Era preciso arrombar os caixas, mas, que se dane, as ambulâncias sucateadas ou a merenda escolar poderiam sobreviver sem determinados dividendos. Pinceladas de pesquisas de interesses e furdúncio nos circuitos políticos. Era o primeiro vislumbre da “Força-Tarefa Contra Crimes de Gênero”.

“E por que eu?”, Lupo voltou à carga. Tanto um quanto o outro tentavam distrair o asqueroso cheiro dentro da saleta, disfarçando o mal-estar em prolixidade. Um chumaço de raízes capilares baixaram sobre seu ombro.
“Lupo, seu índice de aproveitamento é espantoso! O modo como você conduz as investigações, sua movimentação, espírito de liderança. Você organiza uma equipe como ninguém! Bom, tudo bem, que se foda seus arroubos emocionais, mas também estamos cuidando disso...”.
“'Arroubos emocionais’? Eu quase deixei uma testemunha sem falar, Próspero”, tocou um dedo descontente ao queixo de bruxa.
“Ah...”, o secretário abriu a boca, porém era incapaz de vocalizar alguma coisa. Começou a alisar seu terno, correndo a mão pelo seu corpo gordo. Parecia mais um ovo gigante de terno. Correu pelos cabelos grisalhos, umedecia aquela boquinha que mais pareciam duas lâminas de carne: “Isso está sendo providenciado”.
Ainda era incompreensível. Vitor Lupo era a criatura mais inexata, no alto dos seus um metro e setenta e dois. Conhecia as suas qualidades, bem como equilibrar as suas limitações. Tinha receio, muito receio de que suas revelias o impedissem de conduzir um trabalho à altura do que fazia na Delegacia de Homicídios. Era a merda e o ventilador.
“Você sabe muito bem, Próspero, que eu não me dou com essa... gente”, sussurrou, secando a testa profusa. Era doloroso ter que admitir isso. Não por remorso ou qualquer coisa que valha, não. Mas naquele momento o seu âmago se dilacerava em um coquetel incomum de emoções e repulsões ao imaginar o tipo de coisa que esbarraria.
“Eu sei. Esse é o meu tendão de Aquiles”, o secretário se deixou cair em uma poltrona próxima a de Lupo. Voltava a arrumar os sulcos que formavam no terno: “Mas acredito em você, Lupo. Reconheço sua misantropia, seu habitual afastamento com os seres vivos, especialmente aqueles que contrariam suas opiniões. Ou os que dão a bunda”.
“É o direito constituído do cidadão, não? Não mexa com a minha opinião, nem com a minha bunda, que eu não mexo com a sua”. Segurou a garrafinha de plástico em cima da mesa, que escapuliu das suas mãos como se estivesse revestida de graxa: “Se conhece meus defeitos, para que me jogar aos leões?”.
“Porque, como já disse, acredito em você. Suas habilidades são únicas. Eu nunca vi ninguém fazer o que você faz. Nossa, o Caso Maria Helena Gamboa, nossa...”, disse Próspero Fiquene, exibindo um distendido sorriso como o Gato de Alice.
“No Caso Gamboa, só precisei de uma noite de insônia e uma ‘ejaculação mental’”, sorriu secamente. Já havia compartilhado a teoria da “ejaculação mental” anos antes.
“Eu quero esses jorros férteis na minha equipe. A nossa equipe”, seu sorriso encrudesceu tão rápido quanto surgiu: “Eu quero que você cace os ‘inimigos públicos da diversidade sexual’ da mesma forma como caçou o ex-marido da doutora Maria Helena”, seu começo de frase foi marcado por uma forte inclinação afeminada na voz e nos gestos. Aquilo desagradou Lupo, que paradoxalmente riu por tomá-lo como um desviado.
“Bem, eu posso aceitar caçar os ‘inimigos’, se eles também tiverem o álibi desmentido pela quilometragem irregular do carro”. Lupo permitiu um ar satisfeito ao lembrar de como desvendou a morte da advogada, em seu último caso na obscuridade: “Quais casos vamos pegar?”.
“Todos. Claro e evidente que nosso carro-chefe serão os homicídios. Geralmente, a condução dos casos terão como foco a homofobia. Crimes movidos por intolerância, preconceito e todo aquele lenga-lenga fartamente conhecido”.
Lupo rangeu os dentes quando ouviu “intolerância”. Confabulou centenas de argumentações dispersas em mesas de bar e filas de lotérica sobre esses assuntos. Entretanto preferiu estabilizar sua defensiva.
Duas batidas firme na porta. Era Mauro Villar, assessor da Secretaria de Segurança. Seu tipo fino era capaz de esconder uma frieza e perspicácia fora do comum. Não é para tanto que sobreviveu a dois governos e três mudanças de secretariado.
Vitor Lupo parecia mais inclinado a aceitar a proposta indecorosa de Próspero Fiquene. Villar veio alertar que a imprensa o aguardava lá fora. Um vazamento de informações acumulou dezenas de repórteres como massa amorfa na escadaria.
“Lupo. Agora é a hora e a vez”. O secretário moveu sua protuberância quase em cima do investigador: “Você está dentro ou está fora?”.

O hall de entrada era uma veia obstruída. Vitor Lupo era conduzido pelo secretário Próspero Fiquene, com a mão em seu ombro esquerdo. Juntos, caminhavam e discutiam coisas randômicas. A entonação dava a entender que eram partes do que foi tratado minutos antes.
Câmeras, filmadoras, gravadores, celulares, blocos de notas, canetas, homens, mulheres, espectros, microfones quase junto à boca do secretário. Disse: “Essa é a primeira etapa, senhores, do que a Secretaria de Segurança considera como o projeto mais importante dos últimos sete anos”, enfatizou o burocrata gordo. Relembrava o clamor público do Caso Joaquim Neto e dos esforços de uma resposta que protegesse as ditas minorias: “Em poucos dias, viabilizaremos a criação de uma força-tarefa para servir e proteger os homossexuais, os transgêneros e membros da sociedade civil que aderem à militância”.
Mais flashes. Lupo retorcia seu rosto bombardeado por luzes e perguntas quase inaudíveis. Diabo de luzes que estupravam sua privacidade. Seu rosto era aquilo que eles evitavam durante o café da manhã. Veio, então, um corpo em meio a turba. Aproximou-se da dupla e lançou a pergunta de um milhão de dólares: “Por que o investigador Vitor Lupo? É notório seu envolvimento em escândalos de ordem pessoal. É réu em quatro processos por racismo, xenofobia, sexismo, homofobia, bem como inquéritos sobre seu comportamento, digamos... Intolerante”.
Lupo demorou para reconhecer a pequena notável que o flagrou saindo da Corregedoria há três anos, quando foi espremido por conduta irregular durante uma ocorrência em um bar. Foi quando abusou de sua autoridade ao conduzir um jovem gay à delegacia apenas por “olhar atravessado”.
“Minha jovem...”, interviu cortesmente Próspero Fiquene: “O investigador Lupo é um dos melhores homens, como a senhorita está previamente informada. Quanto a esses eventos, sabemos que ele foi envolvido erroneamente, não há qualquer prova substancial de que esse homem seja acusado”.
“Mas e a agressão na Delegacia de Homicídios? O cobrador Eron Amorim foi espancado durante um interrogatório conduzido pelo seu ‘homem forte’, há menos de um ano”. O policial fechou as mãos em um espasmo e inspirou todo o oxigênio do ambiente o quanto era possível.
“Por favor, senhorita, assim que fornecer uma acusação fundamentada, nos procure. Caso contrário, não venha com suas maquinações sensacionalistas”, encerrou o secretário, já conhecido por não se submeter a perguntas não condizentes com a pauta.
“Então, Investigador Lupo...”, perguntou uma voz quase no extremo esquerdo. Era um repórter negro em que seu trabalho tinha fortes inclinações para a base aliada: “O senhor vai liderar mesmo essa força-tarefa?”.
“O secretário Próspero me procurou nos últimos dias para sondar meu desempenho. Concordamos em gerir essa divisão de modo a atender a demanda por segurança pública dessa...”, Lupo planeou sua cabeça de pão de forma antes de repetir a palavra “população”, na ausência de uma denominação mais coerente com o que deveria expressar, não com o que sentia.
“Mas e o seu afastamento?”, sugeriu uma balzaquiana com celular nas mãos.
“Não fui afastado. Tirei uma licença para avaliação médica”, disse secamente.
“Secretário, porque tomar uma atitude dessa natureza só agora com o Caso Joaquim Neto, e não antes? Só no ano passado, mais de 300 homossexuais foram assassinados neste país. 40% dos crimes homofóbicos ocorrem no Brasil”, incitou um repórter cujo sobrepeso escapava aos botões de seu paletó.
“Veja bem, meu caro. A Secretaria de Segurança e o Governo do Estado tem superado a média nacional em relação às investigações contra crimes dessa natureza. Estamos realizando um trabalho preventivo ao lado de outros órgãos de Justiça, bem como direcionando todos os recursos necessários”.
“E os outros setores, como saúde ou educação serão prejudicados?”, sugeriu o repórter gordo. Um coro elevou o tom.
“Obviamente, não! De forma alguma vamos atribular o orçamento das outras pastas, por Deus...”, esforçou Próspero em não deixar secar a boca ou irregular a respiração pela falta.
Um retardatário ergueu o braço e gritou: “Se as pastas não serão prejudicadas, e os héteros? Apenas os gays levarão vantagem na jurisdição?”. Mais vozes tricotaram.
“Entendam, meus caros. Ninguém, eu disse, ninguém sairá prejudicado! Seja de cor, raça, religião, opção sexual, por ser pai de família católico ou aderir ou homossexualismo, estamos aqui para servir e proteger a todos!”, terminou a eloquente velha raposa.
“Então, a ‘população’ homossexual deve se sentir mais segura em sua proteção, investigador?”, voltou a perseguidora. Lupo era uma pintura de Bosch.
“É o que eu faço. Servir. E proteger”. Vitor Lupo engoliu um sorriso, estampando qualquer coisa com verdadeiro ar insatisfeito. Não respondeu. Passou o braço ao redor do pescoço de Próspero Fiquene em um gesto de irmandade. A foto foi pauta de discussão na Câmara Federal pelo deputado reacionário J.B. Gracindo.

Isso foi há duas semanas.

Quatorze dias antes do prenúncio ao caos. Vitor Lupo sobreviveu a duas coletivas de imprensa, mas não sabia se conseguiria levar adiante sua primeira tarefa. E suas respostas.
Sabia lidar de todas as maneiras com assassinos, vítimas, fugitivos, autoridades, repórteres. Porém era um mundo novo que se descortinava à sua frente. Era um caminho novo que não sabia por onde pisar. Estava fora de casa, em outro planeta, não sabia falar aquela língua ou ter empatia pelas pessoas ao redor.
Toda aquela ideia lhe causava um asco esquizofrênico tão profundo que foi incapaz de terminar seu café da manhã. Preferiu atender a chamada privada de Próspero Fiquene.
“Vamos tirar o seu cabaço hoje”, bufou o secretário: “Viu os noticiários?”.
“Nem precisei. A Delegacia de Homicídios repassou à equipe. Nossa entrada vai ser triunfal”, confidenciou Lupo: “Chego lá em vinte minutos”.
“Boa sorte, Lupo. Vamos provar que damos certo”. Desligou. Não esperou a resposta do aliado. Chegou até uma mangueirinha ligada a uma torneira próximo ao chão e não hesitou em lavar seus coturnos imundos, ponderando em quantas imundícies ainda pisaria nesse caso.
Em muitas conversas com o secretário Próspero Fiquene, ele disse que ambicionava a sua visão específica em ver as coisas. Vitor Lupo sabia ler cenas de crime e personalidades como um cego “lê” uma página em braille. Era uma aposta arriscada jogar um inimigo público atrás de outros inimigos públicos para defender os seus próprios inimigos públicos. Era como se Hitler protegesse Jacó. O escorpião levando o sapo à outra ponta do rio.

Essa não será uma história de amor.


Extremo por extremo, essa será uma história de ódio.