Má Formação - Capítulo II

janeiro 02, 2017 0 Comments A+ a-

Residência de Mariana Gramado, Ponta d’Areia

A Força-Tarefa Contra Crimes de Gênero atravessou a ponte para chegar até a cena do crime. Vitor Lupo dava ordens para um punhado de perdidos que ficavam sob suas asas – eles sabiam o peso de quem os arrastava. Carros da polícia com motores, sinais e faróis acesos angulavam a entrada e saída da rua.
“Hey, filho, qual o seu nome?”, rosnou Lupo para um oficial com dias de serviço.
“Duarte! Jaime... Jaime Duarte”.
“Foi você que recebeu a chamada?”.
“Sim, senhor. Eu e o oficial Rocha Sobrinho. Estávamos nas redondezas e realizamos os primeiros procedimentos na cena do crime”.
“Mais ninguém passou da área delimitada?”, o jovem negava com a cabeça. “Onde está a mulher que encontrou o corpo?”.
“No terraço, longe da cena do crime”.
“A casa inteira é a cena do crime, investigador Duarte! Leve a mulher para fora!”.
“Si-sim, senhor!”.
“Pesquisem também por testemunhas. Essa é uma área residencial. Quero câmeras de vigilância, frentistas e clientes em postos de combustível. Parem carros e motos estacionados dentro de um raio de trezentos metros. Chequem as habilitações, nem que vocês sejam acusados de desacato”. Era simples para quem tinha um chocalho no peito.
O segundo-em-comando Lídio Rocha Sobrinho chegou junto a Lupo. Cumprimentou nostalgicamente, e fez às vezes da casa: “Mariana Lemos Gramado. Deputada Estadual e Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara”, ele era um tipo alto e garboso que formava um cômico contraponto ao lado de Lupo: “Militante da causa homossexual há quinze anos, dois mandatos consecutivos na Câmara, um no Senado Federal, uma tentativa frustrada ao Governo e um retorno glorioso à Câmara”.
“Conheço de outros carnavais, Sobrinho. É bom te ver”, Lupo deixou escapar, regulando os óculos retrógrados no nariz oblongo. Comandante e comandado cruzavam a linha da perícia e seguiam até a sala de estar.
“Obrigado”, agradeceu com cumplicidade: “As notícias correm na última das capitanias hereditárias. Meu esquema na assessoria me confirmou que ‘O Homem’ te ligou. Não foi?”, riu Sobrinho, com ar pueril de curiosidade.
“Se seu ‘esquema’ é tão quente, por que a pergunta?”.
“Bem, ela é quente mesmo”, ambos riram, com um escárnio de perturbar a mais ferrenha das moralistas: “Mm-mm, enfim, só queria ouvir de você. Tiraram o seu merecido descanso sem dó, nem piedade”.
“É. Você sabe, Deus ajuda o homem que trabalha”, devolveu Lupo o ar bufão do amigo.
Os dois abafaram uma risadinha, que logo se transformou em tosse seca para evitar os olhares dos colegas mais sérios: “Enfim... No contexto, haveria uma reunião às oito e meia na Câmara para tratar da retomada à PLC 122/06, um assunto exaustivo aos colegas. A assessora Joyce Garcia estranhou a deputada não ter atendido suas ligações de imediato. A deputada deveria estar na Câmara antes das sete. Eram quase oito, e nada...”.
“Quem identificou o corpo?”, disse Lupo passando pelo cercado policial e entrando na residência de Mariana Gramado, chegando até onde o corpo repousava morbidamente.
“A diarista, já pegamos o seu depoimento. Joyce Garcia ligou para ela, movida por um ‘mal pressentimento’. Interfonou, bateu à porta. Nada. Só sossegou quando achou a porta aberta, entrou... e viu isso aqui”, apontava Sobrinho.
           
Mariana Gramado era uma mulher opaca, sem uma característica estética que saltasse aos olhos. Caucasiana, esbelta, cabelos castanho-claros à altura do pescoço. Traços firmes em um rosto tétrico, onde habitava a mais profunda expressão de flagelo. Seu corpo estava em cima de uma espessa poça de sangue, que cobriu o carpete. Estava virada para cima com os braços abertos. Nas mãos, um ato inacabado de cerrar os pulsos.
Vitor Lupo fitava Mariana Gramado com o mesmo desprezo de quando viva. O desprezo de quem mantém relações com aquele tipo de gente. De quem fala, de quem convive, de quem come no mesmo prato, toca as mãos ao cumprimentar e faz sabe-se lá o quê quando está sozinha com esse tipo de gente: “Teve o fim que mereceu”, disse.
Ele sentia um prazer sádico ao ver aquele cadáver apoplético, cujos últimos momentos foram de dor profunda: “Ela defende essas aberrações. Imagine, no futuro, essas aberrações infestando as nossas ruas. Fazendo nossa comida, dando aula para os nossos filhos. Nos protegendo. Que nojo! Isso é imundo, é amoral!”.
Sobrinho correu a mão pelo cabelo tingido e emplastrado em gel. Pausou a mágoa cancerígena de Lupo e repassou a situação da vítima: “Varou sua carótida e jugulares. O assassino estava há pouco mais de quatro metros de distância dela. Ela entrou em choque antes mesmo de cair no chão. A dor foi insuportável...”.
“Uma perfuração sequencial”, inferiu o legista Renato Sanches. Suas mãos envoltas pela luva de borracha inferiam cuidadosamente o corpo de Mariana Gramado: “Acertou o pescoço da vítima cinco vezes. O assassino esperou que ela viesse a óbito apenas para retirar os objetos. Retirou com violência, como pode notar o esguicho de sangue aqui”. Apontava um padrão de sangue ao lado da barriga da deputada. Uma marca escarlate coagulada, era o último adorno.
“Ele puxou os objetos perfurantes e uma bela esguichada saiu da deputada?”, questionou Sobrinho.
“A única coisa que impedia cinco litros de sangue de sujar o tapete era a arma do crime”, explanou Sanches: “Com a violência na qual ele arrancou os objetos, a enxurrada começou”. Sobrinho fez uma expressão incômoda de um refluxo cobrindo a garganta.
“Não é uma arma de perfuração comum”, notou Lupo: “Não tem um padrão cortante de faca ou canivete, além de ter sido disparada mais de uma vez. O orifício de entrada é cilíndrico e extremamente fino. Pontiagudo. Se não fosse pela violência do ataque, seria facilmente perceptível um prego de dez centímetros”, finalizou. Seu monólogo tinha os olhos baixos de Sobrinho e Sanches o acompanhando. Vitor Lupo ainda era uma entidade fantasmagórica naquela unidade. A máscara vermelha no salão.
“É. É, basicamente isso. Pela espessura, mais parece uma agulha de tricô”, ironizou Sanches, cujos joelhos ardiam pela posição no chão, ao lado de Mariana Gramado. Renato Sanches parecia um rato molhado, com porte mínimo e cabelos sempre desgrenhados. Compensava sua imaturidade cronológica na profissão com o esforço digno da juventude.
Uma arma de pregos, senhor?”, interferiu a investigadora Palena Prado, chegando junto ao trio. Por alguns milésimos, ela se tornou mais importante que a vítima. Seus cabelos eram negros, finíssimos, farfalhados em um corte a altura dos ombros, magnetizando olhares para aquela pequena e magra novidade.
“A não ser que ele tirasse pregos de quatro a cinco polegadas no bolso e tivesse tanto força quanto mira olímpicas. E me chame apenas pelo sobrenome”, respondeu o comandante da unidade à sua nova subalterna. O céu de sua boca voltava a irritar. Um filete de dor surgia nas veias da testa, como se o fluxo de sangue corresse mais rápido. Ele estava fazendo “aquilo” de novo: “Além do fato de ser alguém de confiança da vítima, canhoto, ter por volta de um metro e setenta e cinco, gostar de champagne. Roubou o tapete da sala e estava de meias”.
Sobrinho, Sanches e Palena alarmaram, e, sem paciência para perguntas retóricas, a seu ver, Lupo respondera o ar de dúvidas daquelas sobrancelhas surpresas: “Há um alarme invisível próximo ao interfone, mas não há sinais de chamada. A fechadura foi quebrada, pelo ângulo das marcas na parede. Mas não há agressão por defesa na vítima, tudo leva a crer que Mariana Gramado permitiu o seu acesso e ele simulou um arrombamento”.
Lupo não era um maestro epilético como esses raciocinadores de almanaque. Durante a sua orquestra, seus movimentos eram desprezíveis. Sua empostação era marmorizada, cercada de ditério e tanto desleixo, que as situações ao ser redor eram de importância mínima. Continuou: “Ele ficou parado aqui, em frente ao espelho do console, quando atirou com sua arma de pregos, segurando a base com a mão direita e apertando o gatilho com a esquerda. O ‘coice’ da arma, a posição em que estava e o modo como acertou o lado esquerdo do pescoço, através do padrão dos ferimentos e o vetor de impacto, dizem que ele é canhoto e sua altura em relação a ela. Além disso, as sacolas em cima da mesa estão amarradas com os laços superiores virados para a direita. Mas Mariana Gramado é destra, logo, seu único visitante e potencial assassino é canhoto”.
Acenou para uma perita recolher as sacolas para exame das cristas dérmicas, segurando a prova com as mãos. Palena Prado sobressaltou, pois as marcas de seu chefe passariam para as sacolas. Ele ralhou: “Minha pele é incapaz de produzir digitais. Cuide do seu trabalho”.
Foi até uma cristaleira, próximo a um jardim de inverno, e falava alto enquanto se distanciava: “Veja, estão faltando duas taças do conjunto de seis! Eles beberam, provavelmente champagne, pelo tipo de taça. Levou a sua taça, para evitar identificação, e a de Mariana pelo mesmo motivo. Pegou as taças por não ter tempo de limpá-las”.
Lupo foi até a porta e parou como se fosse uma bandeira fincada: “Ele estava com algum calçado que precisasse de meias. Tirou seus sapatos, ou seus tênis, e os deixou em um tapete que estava depois da entrada. Entrou com as meias e parece não ter chamado a atenção da anfitriã”.
Sobrinho abriu a boca: “Deus que me perdoe pelo que eu vou perguntar, mas... Como diabo você sabe disso?”.
“Há um conjunto de tapetes nas principais portas da casa. Veja, banheiro, quartos, sacada. Mariana era meticulosa. Qual mulher meticulosa esqueceria o principal tapete de boas vindas de uma casa?”.
“... As meias eram para ocultar seus passos?”, Palena seguia a trilha dos pães pela floresta.
“Muito bem, novata. Ele entrou sem deixar rastros e aproveitou a cortesia de deixar o calçado que retivesse poeira no tapete de boas-vindas. O chão envernizado denuncia a impressão no chão. Disfarça a forma do seu pé”. As imagens inundavam a sua mente em uma forma anormal aos outros humanos: “Pés de tamanho médio. Indiferente serem de um homem jovem ou de uma mulher. Ele é ardiloso... Receou que o calçado deixasse marcas no tapete e o levou também, como fez com as taças”.
“Então, ele tinha uma mochila grande o suficiente para carregar uma arma de pregos, o tapete enrolado e as taças”, completou Sobrinho.
“O modo de arquitetar o crime delimita o campo de atuação do criminoso, é um marceneiro, gesseiro ou alguém que tem acesso fácil a essas ferramentas. A violência com que retirou os pregos mostra a raiva irracional que sentia pela vítima, mesmo tendo proximidade com ela. É um parceiro movido por ciúmes. Familiar ou amigo vingativo. Uma raiva ingênua, eu sinto no ar. Atirar no pescoço para fazê-la sentir dor, muita dor... Ele a fez pagar por alguma coisa”. Falso sentimento, tudo centrifugado em suas observações. Ele conversava com os átomos em pleno ar, ignorava seres supostamente pensantes em sua borda: “É ingênuo, mas não descontrolado. Arquitetou isso com meses de antecedência. Esperou uma comemoração íntima aos dois. Deixou sua raiva acumulada para explodir somente quando visse o corpo no chão”. Contudo, os seres supostamente pensantes em sua borda não o ignoravam, e era costumeiro devolver o seu discurso com olhos surreais: “Vocês sabem como funciono. Não façam essas caras novamente”. Todos desamealharam suas testas e sobrancelhas.

As formigas seguiram a trilha normal a esses casos. Vitor Lupo estava etéreo. Começou a ler a deputada Mariana Gramado em cada azulejo, cada móvel, cada peça de roupa. Imaginou o que fazia longe da Câmara. Que filmes assistia pelo home theater. Onde comprou e quanto pagou pelas imitações de Debret na antessala. O que fez nas viagens para a Inglaterra ainda na juventude, nos portarretratos. Retratos?
“Arma de pregos...”, bufou Sobrinho: “O que aconteceu com o tradicional envenenamento por arsênico?”.
“Seja bem-vindo à nova escola”, incidiu Lupo.
Sobrinho estava mordido de curiosidade: “Sabe quem é a magrelinha?”.
“Palena Prado. Menina esperta, cortou um dobrado na 16º por dois anos. Inteligência acima da média. A lenda reza que enviou um semestre de cartas de recomendação para ser escalada”, riu.
“Ela mesma fez isso?”.
“Três vezes por semana. De próprio punho”.
Alguma coisa entre riso e tosse ficou entre eles. Sobrinho desconversou: “Os jornais estão um barril de pólvora hoje. Não falam em outra coisa. Mas sempre dando voltas no mesmo assunto. Se limitam à vida pregressa da deputada pelo que corria à boca miúda. Ela sempre foi uma ostra”.
E devia odiar a adolescência, também”, constatou Lupo.
“Como?”, aqui, um calhamaço de indignação e curiosidade por parte do amigo.
“É isso ou ela quer esconder a todo custo passagens antes dos seus... Mmm, dezoito anos, talvez”. Lupo apontava para uma sequência de molduras com fotos próximas ao sofá, na cristaleira e na mesinha de centro. Nenhuma foto da puberdade ou antes disso.
“Seus parentes são desconhecidos. Sua única conexão são os colegas de plenário. E a assessora”.
“Me traga Joyce Garcia”.
Uma figura alquebrada e desfeita em lágrimas estava escorada pelos cantos do terraço. Joyce Garcia estava mortalmente ferida, como se seu pescoço que recebesse uma saraivada de pregos. Tinha os cabelos loiros colados à testa, as gotas salgadas caiam dos olhos e suas mãos misturavam ao rosto. O fraquejo emocional debilitou a aparência alinhada, distanciando à assessora eficiente. “Conhece ela?”.
“Conheço”, respondeu o amigo: “É uma daquelas militantes cheira-peido da minha lista negra. Para os colegas da causa LGBT, que se sentem perseguidos por serem gays no Brasil, convido todos a passarem uma temporada no Egito, no Irã ou até mesmo na Rússia”.
“Certo de que quer falar com ela?”.
“Claro. Nada me fortalece mais do que o padecimento alheio”, saiu.
Lupo tinha passos enferrujados, como se o vento precisasse sustentar aquele pacote de órgãos. Quando necessário, se movia como um felino, laminando o ar. Chegou próximo de Joyce Garcia sem emitir um som e disparou os inquirimentos de rotina antes que sua presença fosse repelida.
“Ela era uma mulher admirável!”, disse a mulher, rasgando o ambiente com lamúria: “Tem uma história de luta. Um exemplo de vida. Terminar dessa forma... Ah, meu Deus”. Sua concentração estava perdida entre engasgos, e Lupo não contribuía para melhorá-la. Não tinha domínio da diplomacia. Seguiu o rosário cotidiano, pedindo esforço à testemunha para se lembrar do que poderia transformar a sua patroa e amiga em um melaço liquefeito de sangue.
“Quem são as pessoas próximas a ela? Algum desentendimento nos últimos tempos?”, sugeriu Lupo.
“Bom... A deputada era uma pessoa reservada. Costumava se resguardar só para as solenidades na Câmara. Não era dada a essas frivolidades sociais. A maior parte do dia, era comigo com quem mantinha contato. Somos amigas há vinte anos. Havia também os companheiros de partido e associados para discussões”.
“Relacionamentos?”.
“Oh... Sim!”, parou Joyce. “O ex-marido da deputada”. Lupo não escondeu o alarmar: “O senhor Amon Fischer. Marchand e proprietário de uma galeria de arte. Conviveram muitos anos, até o divórcio no ano passado”.
“Alguma desavença?”.
“Eu não explicarei. Prefiro que fale diretamente com ele”. Lupo assentiu com a cabeça. Distanciou-se de Joyce Garcia como se afastasse tentáculos de seu corpo.
Ele se encontrava em uma posição desconfortável. Porém, era o serviço que tinha de fazer. Precisava chafurdar no esgoto e lá tiraria sua força e poder. Transformou seu espírito em um moto-contínuo e repassou o que descobriu para Sobrinho.

Galeria Fischer, Calhau

Lídia Rocha Sobrinho estacionou em uma vaga para deficientes assim que chegou no ponto comercial de Amon Fischer. Um amontoado de lojas, boutiques, cubículos mil, confundiram os policiais, que gastaram minutos para chegar ao terceiro andar. A Galeria Fischer parecia minimalista do lado de fora, mas era dentro onde a viagem de ácido começava.
“Que diabo é isso?”, perguntou Sobrinho assim que topou com um Quentin Tarantino em pop art, no lado esquerdo à entrada.
“Isso é ‘arte’”. Lupo não costumava demonstrar alguma forma de humor que não fosse um sarcasmo etéreo, reflexo da sua concepção distorcida das relações humanas. Tudo para ele era uma piada de péssimo gosto. Via o horror na fresta das coisas, se refugiava no sarcasmo para fechar os olhos diante a fresta das coisas.
O cubículo parecia mais um sonho febril de um borrifador de tinta. Refração de luzes, balões berrantes, telas multicolores. Bundas redondas, úteros maternos. Tribais. Era assustador aos olhos menos fúlgidos.
“Arte? Isso é merda da burguesia. Até meu afilhado vomitando em uma tela faria melhor que isso”.
“Não tiro sua razão”, Lupo segurava uma Maysa em recorte de jornal sob verniz. A tela deslizava comicamente nas suas mãos deficientes: “Vale os nossos ordenados, juntos!”.
“É o que estou dizendo. Arte burguesa... Coisa de fresco”. Olhava o preço de uma instalação onde um Cro-magnon evoluía para Homo sapiens até chegar um yuppie engravatado. O nome: “A Evolução”.
“Esse comportamento é típico de sociedades americanas de instrução católica e meios de produção capitalista, como a nossa. Somos uma cópia caricatural de todas as formas de organização. Acredito no subdesenvolvimento das sociedades abaixo da linha do equador, como mostrou Levy-Strauss. Nos apropriamos de arquétipos superiores de vida, sejam na política e até na arte, e injetamos em nossa composição. Não passamos de refração uns dos outros”.
Uma voz barítona vinha da porta entreaberta que dava para o depósito: “Ao que me consta, os senhores não admiram ou não entendem muito de ‘arte conceitual’, não?”. Um homem de cabelos e olhos claros, de maneiras refinadas e mãos sobrepostas como de quem dá a benção apareceu para recepcioná-los: “Todos os grandes movimentos artísticos foram marginalizados no início, como o Cubismo ou o Jazz. É tortuosa a caminhada que vai dos ruídos ensurdecedores e cores abstratas até a vanguarda da arte”.
“Amon Fischer?”, perguntou Lupo.
“O próprio. E os senhores?”.
“Investigador Vitor Lupo. Esse é o meu parceiro Lídio Rocha Sobrinho”. Exibiram suas identificações, sem tirar os olhos sobre os dele: “Força-Tarefa Contra Crimes de Gênero. Não viemos com pretensões artísticas. Nosso assunto é outro”.
Mesmo com a sombra da polícia enegrecendo as cores de sua galeria, Amon Fischer se manteve impassível. Acomodou duas cadeiras em frente à mesa de centro: “E qual o introito?”.
“Sua ex-esposa”, respondeu Sobrinho.
Fischer desfez as mãos e sua boca amargou: “Mariana... Não nos falamos há muito. Por motivos óbvios”.
Lupo se encostou na cadeira e cruzou os braços. Sua retina agora dançava sobre o rosto, os dedos, as células do interrogado: “Já leu os jornais?”.
“Impossível deixar algo dessa natureza se desperceber”, as sobrancelhas caíram e sua mente divagou: “Passei a vida imaginando que iria primeiro...”.
Sobrinho interviu: “Poderia nos fornecer informações sobre a deputada?”.
Amon Fischer limpou a garganta antes do histórico sobre sua outrora cônjuge. Mariana Gramado viveu a maior parte da infância na Inglaterra com os pais, em uma ponte aérea com o Brasil, em 1995, quando eles morreram. Voltou para o torrão natal em três anos, ao cursar Ciências Políticas na Federal. Um problema na documentação a fez retornar seguidamente para a Inglaterra e, em uma das viagens de rotina, conheceu um jovem estudante de artes visuais.
Continuou Amon: “Era como se os Aliados fossem do grupo do Eixo...”. A troca de favores consumou um relacionamento de longas datas. Ela se tornou Mariana Gramado Fischer no ano de sua primeira candidatura.
“Por que separaram?”, Lupo se intrometeu.
“Não seria assunto de ordem pessoal, meus caros?”, agiu novamente com ares mediadores.
“Quando há uma investigação de homicídio em aberto, nada é invasivo”, respondeu com a suavidade de um aço galvanizado.
“Pois bem... Vejo que sou menos inflexível que o senhor”, levantou-se, com as mãos juntas às costas, como um monge: “Mariana e eu gastamos os últimos anos mais em discussões do que conjunções. Não conseguíamos mais o entendimento, ela me chamava de insensível. E eu retribuía com coisas das piores espécies”. Lupo forçou a mente para ver o homem de estirpe falar um baixo calão: “Acabou. Como todas as coisas do mundo. Só a arte sobrevive”.
Sobrinho agiu: “Certo... Qual foi a última vez em que viu a sua ex-esposa?”.
“De ver, mesmo, só na assinatura do divórcio. Final do ano passado... Já estamos em Fevereiro. Mas conversamos por telefone há um mês. Ela tinha crises de Síndrome do Pânico, e não confiava em mais ninguém da sua lista telefônica...”, Lupo notou um contralto de desapontamento quando ele encerrou.
“Bom, como sabe, não devemos excluir nenhuma informação”, perguntou Sobrinho: “Portanto, o senhor imagina quem poderia ter feito isso? Algum inimigo, qualquer pessoa que a queria mal?”.
“Mariana tinha poucos amigos. Poucos que ela gostava de conviver e alguns que tinha de estreitar relações. Mas inimigos... Sua posição na Comissão de Direitos Humanos desagradava a todos. Empresários com empregados deficientes, maridos violentos, brutamontes. Daria para encher o saguão da Câmara só com as ameaças que recebeu”, lamentou: “Mas posso elencar um nome”.
Felippo Guedes era um cão raivoso que marcou alvo fácil em Mariana Gramado. Militante de redes sociais que lutava pelo moralismo exacerbado, contra todas as causas da CDH. Qual o melhor suspeito para um crime brutal do que um bully? Amon conta que Felippo enviou um número inconsequente de ameaças para as redes sociais da deputada: “Depois das ameaças públicas, em Dezembro, esse indivíduo se envolveu em uma briga. Agrediu um rapaz por acreditar que havia... Como vocês dizem, ‘cantado’ ele”.
“Vamos conferir com Joyce Garcia. Obrigado e desculpe por tomar o seu tempo”, meneou Sobrinho, conduzido com o parceiro até a saída.
“Podemos entrar em contato outra vez, senhor Fischer”, disse Lupo. Amon silenciou. Suas palavras pareciam impedidas no trampolim da língua: “Se souber de mais algum detalhe, nos avise”.
Uma réplica de Guernica estava pendurada no teto e sua rotação parecia hipnotizá-los no caminho para a rua: “‘Temos a arte para não morrermos pelas verdades’. Eu ligarei”, disse Amon Fischer, fechando a porta envidraçada.

Avenida São Luís Rei de França, Turu

Um hatch compacto colidiu com um caminhão de bebidas, próximo ao Posto Natureza. Funcionários barreiravam o motorista, que discutia a imensos pulmões sobre a legislação de trânsito de quem bate na traseira do veículo.
E o que parecia ser uma trajetória inocente até a residência de Felippo Guedes era um passeio pelas esferas infernais. Palena Prado e Jaime Duarte eram os próprios Dante e Beatriz, encaminhados para trocar boas ideias com o suspeito circunstancial.
Palena Prado foi arrastada pela tormenta ao acordar. Prodígio no 16º Distrito Policial, se destacou em um meio naturalmente misógino. Treinou defesa pessoal por dezoito meses, enquanto lia Maiakóvski no vestiário. Roubou o fogo dos deuses para ingressar na Força-Tarefa Contra Crimes de Gênero. E seus primeiros minutos na equipe repensaram sua escolha. Ela é miseravelmente encantadora. Corpo de vara. Mais baixa que a média. Portava um rosto atraente, visivelmente libertino. Tinha grandes olhos em arte-final, duas esferas expressivas, perturbadas, que se abriam e fechavam tal qual a perigosa boca. Em seus lábios exagerados, um beijo no rosto era quase uma ofensa, e seu sorriso exibia brancos e simétricos dentes acochados pelo aparelho transparente.
Jaime era herança da Delegacia de Homicídios. Entrava mudo, saía calado, não valia o esforço. Estava como suporte para Palena em sua primeira incursão em campo. Bastava bater à porta sutilmente, identificar, pedir para entrar e manter um diálogo rígido, sem elencar qualquer suspeita. Tão bonito no papel.
“Tensa?”, perguntou Jaime, na tentativa de quebrar o gelo.
“Vou muito bem, obrigada”, o rosto de Palena não estivava inclinado a responder. Seus grandes olhos arte-finalizados engoliam a rua atrás do Restaurante Califórnia. Estava há metros da placa de “vire à direita” e uma fileira de carros e motoristas impediam maior locomoção. A regata preta de lã incomodava por dentro do colete com uma insígnia da Força-Tarefa em cada braço. Abotoou as mangas até o pulso. Grunhia de dor quando massageava o polegar no antebraço.
Duarte continuava o exercício rústico de extrair o que não fosse uma onomatopeia de duas ou três letras: “Felippo Guedes. Vinte e seis anos, estudante de Administração. Duas passagens por agressão e difamação. Responde em liberdade um processo por lesão corporal grave”.
“Mm”, limitou Palena.
Ele usou uma respiração como ponto-e-vírgula: “Então, o que achou do Lupo?”.
“Achei, como?”.
“É, achou...”, constrangeu: “Tipo, qual foi a sua impressão. Como ele pareceu, sabe...?”.
“Mais baixo do que na capa d’O Nacional”.
“Falo do seu caráter. Sabe o que dizem sobre ele?”, sombreou.
Palena não respondeu. Está em alguma gôndola rodopiando pelo oceano, ao som de Syd Barrett. Abrira a porta do carro assim que o sinal fechou – se esperasse o trânsito fluir, Felippo Guedes já teria constituído família em um país sem leis de extradição. Ela seguiu sozinha até a residência do potencial suspeito, ignorando o calor. Jaime não sabia se deixava a novata ir ou cumpria a supervisão. Em três minutos, Palena corria atrás de um rapaz magro e curvado, com a barbicha espessa dos fios de uma vassoura.
Ela forçava todos os sinônimos possíveis para uma batida policial. Seu corpo contrafeito e vertebroso ignorava a fricção do vento, permitindo uma velocidade sem igual. Jaime gritou qualquer coisa que foi abafada pelas buzinas sinestésicas e um carro de som.
“Pare! Polícia!”, Palena e suas exclamações. Em sua cabeça, a fuga é parte dos culpados. O bully corria ao ponto das alpargatas baterem nas nádegas, forçando o pé nas pocinhas de águas na calçada. Paf, paf, paf. Um comerciante levantava do banquinho de madeira, fechando a porta corrediça de ferro, com o receio de ser um arrastão. A mãe passeava com um carrinho de neném, um fusca pega a rua pela contramão. Paf, paf, paf.
Palena quase tropeça em cacos de vidro verde, ainda com cheiro de bebida. Na próxima quadra, um bueiro de gente em uma casa lotérica, se misturando com blusas de babado ou telas escuras de taxista. Felippo pula sobre duas latas de lixo, formando obstáculos durante a corrida. Paf, paf. Ela saca sua Taurus PT 940C e dá um tiro de alerta para o ar, sem diminuir a velocidade – a prova de que os hemisférios cerebrais das mulheres conseguem executar tarefas distintas sem perder o equilíbrio.

Estavam há dez praças de distância um do outro, não pareciam esmorecidos. Por isso, a investigadora reuniu toda a inércia centrada em suas panturrilhas e coxas e frenou até uma rampa para deficientes à esquerda. Adiantou-se em três praças em velocidade de decatlonista e, literalmente, voou sobre Felippo Guedes, abrindo os braços e o envolvendo no chão. Deram dois rolamentos. Lacrando as pernas nos quadris do rapaz, sentada em sua barriga, ela puxa sua Taurus: “Você está preso”, se limitou.