Má Formação - Capítulo III

janeiro 03, 2017 0 Comments A+ a-

Secretaria de Segurança, Centro Histórico

A manobra acrobática de Palena Prado parecia um rebate falso e corria à boca miúda. “Sou muito maleável. Fiz quatro anos de balé”, disse. Ela trouxe o desertor pelo colarinho, feito a caçadora que enfeita a sala com a cabeça da presa. Contendo a dor em seu pescoço e pernas, e agora nos pulsos, devido as algemas, Felippo Guedes praguejava na sala de interrogatórios.
Sobrinho entrou, claudicante: “Não pretendo dourar a pílula com um fugitivo... Já sabe do que está sendo suspeito?”.
“É aquela puta, não é?”, estava absorto em sua fúria.
“Mariana Gramado foi morta em casa, na noite de ontem. Não fique triste com a descrença da polícia sobre a sua pessoa”.
“Ela fez de tudo para denegrir a minha imagem! Tudo! Mas não sou um assassino...”.
“Fevereiro de 2009”, citou: “Lembra? Você escreveu que Mariana Gramado e ‘todos os comunistas que são contra a família brasileira’ deveriam ‘apodrecer no inferno’. Julho de 2010, postou em um fórum socialista sobre o seu avô, que trabalhou como agente do DOPS, e a ‘saudade que sentia dos tempos em que ele usava garrotes e choques elétricos em quem merecia’. Sua imagem, digamos, não é lá muito difícil de se denegrir”.
“Mentira! Eu busco justiça! Justiça contra essas abominações que vocês querem transformar em algo normal! Logo vocês, agentes da lei, formando essa camarilha...”.
“Mais uma ofensa, rapaz, e não vai ter camarilha no mundo que te proteja”. A testosterona estava ao rés do chão. Sobrinho folheava o processo contra o suspeito: “Estar na mira de um caso de homicídio e fugir da polícia não ajuda nada em seu processo por agressão”.
“Entenda...”, unia as mãos em um gesto conciliador, com os braceletes aferrolhando o pulso: “Não fui eu. Não posso esconder que menos um defensor dessas abominações é uma vitória. Mas, não, não fui eu”.
“O que você fazia, então, entre oito e dez horas, nesta quinta-feira?”.
“Em casa. Vendo televisão, como todo brasileiro...”.
“Oh, que grande revolucionário. Alguém para confirmar essa versão? Além do apresentador da TV...”.
“Não. Eu moro sozinho”. Sobrinho tinha verdadeiros orgasmos com álibis frouxos como cuecas: “Olha, minha vida está voltando aos eixos depois que eu bati naquele rapaz”.
“Bateu, não. Quebrou uma garrafa de cerveja na cabeça dele e repetiu o golpe umas cinco vezes, antes do bartender e um segurança te escorraçarem daquele bar. Por que, mesmo? Ah, acho que as vozes do seu inconsciente te fizeram acreditar que ele te chamou de ‘gostoso’”.
“Eu não sou demente! Ele veio perto de mim e me chamou... disso aí. Tudo bem, reconheço que exagerei--”.
“Exagero? Sim, seis pontos no rosto e uma hemorragia interna. Exagero”.
“Me ouve!”, acertava o balcão com a mão espalmada: “Minha vida está se alinhando! Eu faço um trabalho voluntário, sabe. Fez parte do acordo para a liberdade condicional, mas é algo que está me encantando... Estou fazendo amigos, pondo a cabeça no lugar. Eu não quero perder tudo por causa daquela--”. Refreou.

Restaurante 3 Irmãos, Centro

Vitor Lupo não queria conduzir ou acompanhar o interrogatório. A tensão baixou em seu rosto e braços. Um boneco de cera.
O que garantia em sua mão a permanência do copo de plástico ou a colher era uma munhequeira preta dupla com tala ortopédica. A proteção dos dedos ia até a base das cinco falanges proximais. Nada escorregaria pela falta de aderência, menos as páginas dos relatórios que teimavam em não virar – por isso, todo o contato com as palavras e figuras eram na tela de um computador.
Havia uma guarnição com carne seca de panela, arroz empapado, macarrão oleoso, salada fresca de legumes e um copo enorme de suco de laranja. Uma fatia grossa mamão de sobremesa. Lupo era um animal pensando, e também almoçando. O garfo na mão direita e a faca na esquerda. Sentia-se ainda como um juvenil, arreceando que os talheres voassem de seu controle.
Quase todos os dias ele comia no Restaurante 3 Irmãos, um inferninho com a mesma vitalidade e contextura dos anos ‘80, na esquina da Rua dos Afogados. Dois estudantes de colegial com fardamento da prefeitura cochichavam sobre o rosto genuinamente desfigurado do policial.
Vitor Lupo nunca esteve tão convertido em angústia e desconfiança em resolver um caso quanto agora, tendo em vista que anos atrás fora Mariana Gramado quem queria sua cabeça. Ele entrou para a polícia antes do novo milênio, logo se descobrindo na velha guarda da Nova República, onde fez escola. Curiosamente, pouco, muito pouco se sabe sobre ele antes disso – e é preferível que continuem sem saber.
Virou-se a Era e, logo, uma cadência de criminosos aterrorizados por seus métodos nada ortodoxos. Seus colegas de trabalho o consideravam um esquisito e o evitavam – não apenas pelo rosto malforme ou a pele anfíbia. Isso até o primeiro assassino ser descoberto por um tique nervoso. Ou o mafioso que concretou a amante no assoalho do quarto e foi pego pelo desnível. Ninguém sabia como fazia essas coisas, não tinha nome para essas coisas.
E “essas coisas” vinham acompanhadas de muita encrenca. Lupo era um diabólico gênio, cujas capacidades analíticas eram completamente desprovidas de senso de moral. Seu código de conduta tinha a profundidade de uma colher de chá, contra tudo que ferisse a ordem natural e hipócrita da sociedade. Logo, o esquisito se tornou um estorvo para seus opositores e um mal-necessário a quem assinava seu contracheque.
A parcela ainda indômita dos utopistas por igualdade, liberdade e fraternidade bateram de frente com Lupo. E, como tal, o investigador passou por cima deles com a força de uma locomotiva. Mariana Gramado era inimiga pública de Vitor Lupo e essa situação não deixa de ser agridoce para alguém que pessoalmente dispararia pregos do tamanho de agulhas de tricô no pescoço de uma protetora de degenerados.

Sobrinho surgia no horizonte: “Ele está acabado, cara! Canhoto, inimigo público da vítima, não forneceu álibi convincente, não conseguia juntar uma só ideia sem entrar em contradição”, jogava a bandeja na mesa. Tinha em si a sensação de dever cumprido. Mas seu amigo estava inquieto: “Mas você tem uma ideia diferente, não?”.
“Mm? Eu?”.
“Posso até não ter esse seu olho clínico para coisas absurdas. Só que esses anos de amizade me dão conhecimento de causa para os seus descontentamentos”. Era o elefante na cristaleira: “Vai, me diga...”.
Esse homem não matou Mariana Gramado”, o aço de sua voz era pungente.
“Lupo, por favor. Ele se encaixa no perfil que você mesmo especificou! Todas as provas vão contra. Pode ter ameaçado a deputada para entrar em sua casa, ter forjado a cena da comemoração ao se passar por um conhecido. O champagne, as sacolas de compras...”.
“Continue no campo das ideias, amigo. Aposto meus tais ‘olhos clínicos’ em sua inocência”.
Depois da refeição, Lupo tinha disposição para a caminhada de cinco quilômetros de volta à secretaria, pela Rua de Santaninha. O sol não era incomodante, apenas se estivesse sem seus irrepreensíveis óculos de John Lennon. O tráfego de veículos era proibido nas áreas tombadas do Centro Histórico e, nas áreas permitidas, levava mais tempo para estacionar do que esperar o almoço sair. Andou pela Rua do Norte, onde um gordo urinava em uns toldos usados para demarcar uma obra em atividades. Na inscrição: “Obra prevista para 2016. Orçamento em R$ 789.872,09”.
Lupo foi rindo até cruzar a Rua da Palha com a Avenida Guaxenduba, quando comprou um gelado de manga de um picolezeiro com o boné da Diretas Já. Pensou: “eu queria, pelo menos, os nove centavos”.

Secretaria de Segurança, Centro Histórico

Renato Sanches telefonava do Instituto Médico Legal, pedindo uma rápida videoconferência na sala de reuniões, do terceiro andar. Ele enviou um arquivo em .ptt para o e-mails da equipe, intuindo uma “palestra ilustrativa”.
Começou: “Baixaram os arquivos? Vão para o primeiro slide, sobre o resultado da ninidrina. As sacolas não deram positivo para as cristas. Não houve limpeza no plástico, então, estranhamente o assassino resolveu amarrar as sacolas usando luvas. Vai entender... Deve ter dado os nós após o crime, sei lá. Só que não foi para isso que eu os reuni...”.
“Diga, homem! O que encontrou?”, forçou Sobrinho.
“A trilha de tijolos amarelos de qualquer perito”, pediu que abrisse o terceiro slide. Explicou que o relatório inicial na mão direita de Mariana Gramado apontava para uma parcial de um dedo indicador direito, com uma cicatriz que fragmentava a impressão: “Uma digital fresca, amigos... Especificada na noite do crime! O vagabundo fez uma limpeza porca nas mãos da vítima, que não foi o suficiente”.
Houve burburinho. Sobrinho exclamou: “Perfeito! Compare com as digitais do suspeito”.
Quem dava de ombros era Lupo. Visualizava o relatório online e o resultado da mão de Mariana Gramado – como se aquele suposto conjunto de dedos cumprimentasse a vítima. Um dedo indicador direito com uma falha. O verdadeiro dedo acusador.
Oh, oh...
Um jato subia até uma veia acima do olho. Passou a mão por ela e gemeu baixinho. A dor era gatilho para seu grande experimento.
Sua equipe ficou nas elucubrações megalômanas. Ele foi até a sala de interrogatório: “Eu tive uma ‘ejaculação’”, sussurrou para Felippo Guedes, ao bater a porta.
“Uma... o quê, senhor?”.
“Não temos tempo! Estou quebrando sabe-se lá quantos protocolos por estar te dizendo isso: eu sei que você não varou o pescoço daquela mulher, acredito em você! Encontraram uma digital no corpo da vagabunda. Um dedo indicador com uma cicatriz. Vão fazer testes contigo. O problema é que até o resultado sair, a mídia já tem te espinafrado”.
“Puta que pariu... Não acredito que vou viver esse inferno outra vez. Eu estou sem dinheiro, cara! Gastei as tampas com advogados. Sem emprego, amigos, até a casa não é mais minha”.
“Deixa de donzelice, homem. Vou te recomendar um jurista muito bom. Pelo menos, até esse ‘inferno’ acabar. Ele me deve alguns favores”.
“Obrigado. Muito obrigado, cara. Mas por que fazer isso? Eu mal te conheço...”.
“Mas sei como se sente!”, Lupo sacudia a cabeça como um cachorro raivoso: “Sei o que passou naquela noite no bar, quando te trataram como um cachorro! Se pudesse, rasgava a cara de cada veado e sapatão no mundo com a mesma garrafa de vidro”.
Felippo relaxou o esfíncter: “Até que enfim um lúcido... Eu engulho só de pensar que o homossexualismo é permitido. E tenho medo quando for obrigatório... Tudo é criminalizado, hoje em dia! Chamar alguém de ‘veado’ é passível de crime. Mas chamar um negro de ‘negão’ ou gordo de ‘baleira’ é aceitável”.
“Só os hipócritas dizem que ‘não tem nada contra’ essas pessoas que dão a bunda. Mas não me faço de rogado! Eu tenho TUDO contra esses doadores de bunda”. Seu discurso vomitava sangrias em cada vírgula de ódio: “E não posso deixar um dos meus ir para a fogueira”.
“Então, como vai me ajudar?”.
“Eu disse que acreditava na sua inocência, não? Vi seu braço, assim que chegou. Junto com a cicatriz na digital, isso me dá plena certeza”.
“Meu braço?”, Felippo retraiu: “O que diabo uma coisa tem a ver com a outra?”.
“Tudo. Principalmente, com o material que vou te pedir”.

Palena Prado viu seu coordenador com um sorriso nefasto ao sair da sala de interrogatório. Lembrou do que Jaime Duarte disse no carro sobre as “coisas” que falam sobre ele.
“Felippo confessou?”, perguntou ela.
“Ele é inocente”.
“E o senhor acreditou assim, tão fácil?”.
“Lupo. Apenas Lupo”, limpou a garganta: “E não preciso esperar a comparação das digitais para confirmar minha teoria. Tem um assassino lá fora, Palena”.
“‘Pan’”, esclareceu.
“‘Pan’?”.
“É mais confortável para mim que 'Palena'. É muito pomposo. Eu tenho apenas um metro e sessenta e nove”.
Ele achou isso puerilmente inapropriado. Não zangou, nem riu: “Certo. E essa sobrancelha pensativa quer saltar a pergunta que vem e volta na sua garganta seca. Correto?”.
“Pan” balouçou antes de atear fogo em sua curiosidade, baixando as vistas os seus olhos fundos e diametralmente separados de Lupo, seu queixo pontudo, os ossos malares evidentes: “O seu rosto, senh--. Digo, Lupo...”.
Mensurava a chegada de tal interrogação: “O que me diz?”.
“A deformação óssea me remete a Crouzon. Síndrome de Crouzon”. Lupo estacou: “Mas seu rosto possui cicatrizes quase invisíveis atrás das orelhas, como de reconstituição facial”.
“É basicamente isso, que me deixou assim”.
“‘Assim’?”.
“É, ‘assim’. Ou acha que eu gostei de ter nascido com essa linda carinha de demônio?”, sorriu: “E as mãos? Quase enfartou assim que toquei as evidências com as mãos nuas”.
“Nagali, com certeza. Sem sinais de queimaduras químicas ou de uma condição dermatológica. É de natureza congênita”, Palena tocava essas mãos feitas de sabonete: “Síndrome de Nagali é causada pela deficiência na proteína ‘cretin 14’, resultando em uma pele fina e lisa na palma das mãos e na planta dos pés, impedindo a produção das cristas papilares”.
“Você é boa”, disse. Sentiu o celular vibrar no bolso e refugou o toque da mulher: “A propósito... Use xilocaína”. Seu susto dizia claramente entender a mensagem, mas não o meio como o superior chegou até ela: “Está massageando a bochecha desde o começo do diálogo, com uma inquietante expressão de dor mesclada a uma careta de amargor, quando a língua roça o primeiro molar esquerdo. Pelo cheiro acre que escapa da respiração, devo imaginar que é soda clorada, utilizado em restaurações, também causador desse gosto ruim. Vá à farmácia e compre xilocaína para diminuir a dor”.

Secretaria de Segurança, Centro Histórico

A manobra acrobática de Palena Prado parecia um rebate falso e corria à boca miúda. “Sou muito maleável. Fiz quatro anos de balé”, disse. Ela trouxe o desertor pelo colarinho, feito a caçadora que enfeita a sala com a cabeça da presa. Contendo a dor em seu pescoço e pernas, e agora nos pulsos, devido as algemas, Felippo Guedes praguejava na sala de interrogatórios.
Sobrinho entrou, claudicante: “Não pretendo dourar a pílula com um fugitivo... Já sabe do que está sendo suspeito?”.
“É aquela puta, não é?”, estava absorto em sua fúria.
“Mariana Gramado foi morta em casa, na noite de ontem. Não fique triste com a descrença da polícia sobre a sua pessoa”.
“Ela fez de tudo para denegrir a minha imagem! Tudo! Mas não sou um assassino...”.
“Fevereiro de 2009”, citou: “Lembra? Você escreveu que Mariana Gramado e ‘todos os comunistas que são contra a família brasileira’ deveriam ‘apodrecer no inferno’. Julho de 2010, postou em um fórum socialista sobre o seu avô, que trabalhou como agente do DOPS, e a ‘saudade que sentia dos tempos em que ele usava garrotes e choques elétricos em quem merecia’. Sua imagem, digamos, não é lá muito difícil de se denegrir”.
“Mentira! Eu busco justiça! Justiça contra essas abominações que vocês querem transformar em algo normal! Logo vocês, agentes da lei, formando essa camarilha...”.
“Mais uma ofensa, rapaz, e não vai ter camarilha no mundo que te proteja”. A testosterona estava ao rés do chão. Sobrinho folheava o processo contra o suspeito: “Estar na mira de um caso de homicídio e fugir da polícia não ajuda nada em seu processo por agressão”.
“Entenda...”, unia as mãos em um gesto conciliador, com os braceletes aferrolhando o pulso: “Não fui eu. Não posso esconder que menos um defensor dessas abominações é uma vitória. Mas, não, não fui eu”.
“O que você fazia, então, entre oito e dez horas, nesta quinta-feira?”.
“Em casa. Vendo televisão, como todo brasileiro...”.
“Oh, que grande revolucionário. Alguém para confirmar essa versão? Além do apresentador da TV...”.
“Não. Eu moro sozinho”. Sobrinho tinha verdadeiros orgasmos com álibis frouxos como cuecas: “Olha, minha vida está voltando aos eixos depois que eu bati naquele rapaz”.
“Bateu, não. Quebrou uma garrafa de cerveja na cabeça dele e repetiu o golpe umas cinco vezes, antes do bartender e um segurança te escorraçarem daquele bar. Por que, mesmo? Ah, acho que as vozes do seu inconsciente te fizeram acreditar que ele te chamou de ‘gostoso’”.
“Eu não sou demente! Ele veio perto de mim e me chamou... disso aí. Tudo bem, reconheço que exagerei--”.
“Exagero? Sim, seis pontos no rosto e uma hemorragia interna. Exagero”.
“Me ouve!”, acertava o balcão com a mão espalmada: “Minha vida está se alinhando! Eu faço um trabalho voluntário, sabe. Fez parte do acordo para a liberdade condicional, mas é algo que está me encantando... Estou fazendo amigos, pondo a cabeça no lugar. Eu não quero perder tudo por causa daquela--”. Refreou.

Restaurante 3 Irmãos, Centro

Vitor Lupo não queria conduzir ou acompanhar o interrogatório. A tensão baixou em seu rosto e braços. Um boneco de cera.
O que garantia em sua mão a permanência do copo de plástico ou a colher era uma munhequeira preta dupla com tala ortopédica. A proteção dos dedos ia até a base das cinco falanges proximais. Nada escorregaria pela falta de aderência, menos as páginas dos relatórios que teimavam em não virar – por isso, todo o contato com as palavras e figuras eram na tela de um computador.
Havia uma guarnição com carne seca de panela, arroz empapado, macarrão oleoso, salada fresca de legumes e um copo enorme de suco de laranja. Uma fatia grossa mamão de sobremesa. Lupo era um animal pensando, e também almoçando. O garfo na mão direita e a faca na esquerda. Sentia-se ainda como um juvenil, arreceando que os talheres voassem de seu controle.
Quase todos os dias ele comia no Restaurante 3 Irmãos, um inferninho com a mesma vitalidade e contextura dos anos ‘80, na esquina da Rua dos Afogados. Dois estudantes de colegial com fardamento da prefeitura cochichavam sobre o rosto genuinamente desfigurado do policial.
Vitor Lupo nunca esteve tão convertido em angústia e desconfiança em resolver um caso quanto agora, tendo em vista que anos atrás fora Mariana Gramado quem queria sua cabeça. Ele entrou para a polícia antes do novo milênio, logo se descobrindo na velha guarda da Nova República, onde fez escola. Curiosamente, pouco, muito pouco se sabe sobre ele antes disso – e é preferível que continuem sem saber.
Virou-se a Era e, logo, uma cadência de criminosos aterrorizados por seus métodos nada ortodoxos. Seus colegas de trabalho o consideravam um esquisito e o evitavam – não apenas pelo rosto malforme ou a pele anfíbia. Isso até o primeiro assassino ser descoberto por um tique nervoso. Ou o mafioso que concretou a amante no assoalho do quarto e foi pego pelo desnível. Ninguém sabia como fazia essas coisas, não tinha nome para essas coisas.
E “essas coisas” vinham acompanhadas de muita encrenca. Lupo era um diabólico gênio, cujas capacidades analíticas eram completamente desprovidas de senso de moral. Seu código de conduta tinha a profundidade de uma colher de chá, contra tudo que ferisse a ordem natural e hipócrita da sociedade. Logo, o esquisito se tornou um estorvo para seus opositores e um mal-necessário a quem assinava seu contracheque.
A parcela ainda indômita dos utopistas por igualdade, liberdade e fraternidade bateram de frente com Lupo. E, como tal, o investigador passou por cima deles com a força de uma locomotiva. Mariana Gramado era inimiga pública de Vitor Lupo e essa situação não deixa de ser agridoce para alguém que pessoalmente dispararia pregos do tamanho de agulhas de tricô no pescoço de uma protetora de degenerados.

Sobrinho surgia no horizonte: “Ele está acabado, cara! Canhoto, inimigo público da vítima, não forneceu álibi convincente, não conseguia juntar uma só ideia sem entrar em contradição”, jogava a bandeja na mesa. Tinha em si a sensação de dever cumprido. Mas seu amigo estava inquieto: “Mas você tem uma ideia diferente, não?”.
“Mm? Eu?”.
“Posso até não ter esse seu olho clínico para coisas absurdas. Só que esses anos de amizade me dão conhecimento de causa para os seus descontentamentos”. Era o elefante na cristaleira: “Vai, me diga...”.
Esse homem não matou Mariana Gramado”, o aço de sua voz era pungente.
“Lupo, por favor. Ele se encaixa no perfil que você mesmo especificou! Todas as provas vão contra. Pode ter ameaçado a deputada para entrar em sua casa, ter forjado a cena da comemoração ao se passar por um conhecido. O champagne, as sacolas de compras...”.
“Continue no campo das ideias, amigo. Aposto meus tais ‘olhos clínicos’ em sua inocência”.

Secretaria de Segurança, Centro Histórico

Renato Sanches telefonava do Instituto Médico Legal, pedindo uma rápida videoconferência na sala de reuniões, do terceiro andar. Ele enviou um arquivo em .ptt para o e-mails da equipe, intuindo uma “palestra ilustrativa”.
Começou: “Baixaram os arquivos? Vão para o primeiro slide, sobre o resultado da ninidrina. As sacolas não deram positivo para as cristas. Não houve limpeza no plástico, então, estranhamente o assassino resolveu amarrar as sacolas usando luvas. Vai entender... Deve ter dado os nós após o crime, sei lá. Só que não foi para isso que eu os reuni...”.
“Diga, homem! O que encontrou?”, forçou Sobrinho.
“A trilha de tijolos amarelos de qualquer perito”, pediu que abrisse o terceiro slide. Explicou que o relatório inicial na mão direita de Mariana Gramado apontava para uma parcial de um dedo indicador direito, com uma cicatriz que fragmentava a impressão: “Uma digital fresca, amigos... Especificada na noite do crime! O vagabundo fez uma limpeza porca nas mãos da vítima, que não foi o suficiente”.
Houve burburinho. Sobrinho exclamou: “Perfeito! Compare com as digitais do suspeito”.
Quem dava de ombros era Lupo. Visualizava o relatório online e o resultado da mão de Mariana Gramado – como se aquele suposto conjunto de dedos cumprimentasse a vítima. Um dedo indicador direito com uma falha. O verdadeiro dedo acusador.
Oh, oh...
Um jato subia até uma veia acima do olho. Passou a mão por ela e gemeu baixinho. A dor era gatilho para seu grande experimento.

Sua equipe ficou nas elucubrações megalômanas. Ele foi até a sala de interrogatório: “Eu tive uma ‘ejaculação’”, sussurrou para Felippo Guedes, ao bater a porta.
“Uma... o quê, senhor?”.
“Não temos tempo! Estou quebrando sabe-se lá quantos protocolos por estar te dizendo isso: eu sei que você não varou o pescoço daquela mulher, acredito em você! Encontraram uma digital no corpo da vagabunda. Um dedo indicador com uma cicatriz. Vão fazer testes contigo. O problema é que até o resultado sair, a mídia já tem te espinafrado”.
“Puta que pariu... Não acredito que vou viver esse inferno outra vez. Eu estou sem dinheiro, cara! Gastei as tampas com advogados. Sem emprego, amigos, até a casa não é mais minha”.
“Deixa de donzelice, homem. Vou te recomendar um jurista muito bom. Pelo menos, até esse ‘inferno’ acabar. Ele me deve alguns favores”.
“Obrigado. Muito obrigado, cara. Mas por que fazer isso? Eu mal te conheço...”.
“Mas sei como se sente!”, Lupo sacudia a cabeça como um cachorro raivoso: “E não posso deixar um dos meus ir para a fogueira”.
“Então, como vai me ajudar?”.
“Eu disse que acreditava na sua inocência, não? Vi seu braço, assim que chegou. Junto com a cicatriz na digital, isso me dá plena certeza”.
“Meu braço?”, Felippo retraiu: “O que diabo uma coisa tem a ver com a outra?”.
“Tudo. Principalmente, com o material que vou te pedir”.

Palena Prado viu seu coordenador com um sorriso nefasto ao sair da sala de interrogatório. Lembrou do que Jaime Duarte disse no carro sobre as “coisas” que falam sobre ele.
“Felippo confessou?”, perguntou ela.
“Ele é inocente”.
“E o senhor acreditou assim, tão fácil?”.
“Lupo. Apenas Lupo”, limpou a garganta: “E não preciso esperar a comparação das digitais para confirmar minha teoria. Tem um assassino lá fora, Palena”.
“‘Pan’”, esclareceu.
“‘Pan’?”.
“É mais confortável para mim que 'Palena'. É muito pomposo. Eu tenho apenas um metro e sessenta e nove”.
Ele achou isso puerilmente inapropriado. Não zangou, nem riu: “Certo. E essa sobrancelha pensativa quer saltar a pergunta que vem e volta na sua garganta seca. Correto?”.
“Pan” balouçou antes de atear fogo em sua curiosidade, baixando as vistas os seus olhos fundos e diametralmente separados de Lupo, seu queixo pontudo, os ossos malares evidentes: “O seu rosto, senh--. Digo, Lupo...”.
Mensurava a chegada de tal interrogação: “O que me diz?”.
“A deformação óssea me remete a Crouzon. Síndrome de Crouzon”. Lupo estacou: “Mas seu rosto possui cicatrizes quase invisíveis atrás das orelhas, como de reconstituição facial”.
“É basicamente isso, que me deixou assim”.
“‘Assim’?”.
“É, ‘assim’. Ou acha que eu gostei de ter nascido com essa linda carinha de demônio?”, sorriu: “E as mãos? Quase enfartou assim que toquei as evidências com as mãos nuas”.
“Nagali, com certeza. Sem sinais de queimaduras químicas ou de uma condição dermatológica. É de natureza congênita”, Palena tocava essas mãos feitas de sabonete: “Síndrome de Nagali é causada pela deficiência na proteína ‘cretin 14’, resultando em uma pele fina e lisa na palma das mãos e na planta dos pés, impedindo a produção das cristas papilares”.
“Você é boa”, disse. Sentiu o celular vibrar no bolso e refugou o toque da mulher: “A propósito... Use xilocaína”. Seu susto dizia claramente entender a mensagem, mas não o meio como o superior chegou até ela: “Está massageando a bochecha desde o começo do diálogo, com uma inquietante expressão de dor mesclada a uma careta de amargor, quando a língua roça o primeiro molar esquerdo. Pelo cheiro acre que escapa da respiração, devo imaginar que é soda clorada, utilizado em restaurações, também causador desse gosto ruim. Vá à farmácia e compre xilocaína para diminuir a dor”.

O estoque de provas materiais ficava no quarto andar. Sobrinho disse, ao entrar no depósito, junto ao amigo: “Verificamos o celular da deputada. Nenhuma ligação naquela noite ou nas horas anteriores. Se o assassino contatou a vítima, apagou o registro de chamadas”.
“Confira o registro completo na companhia telefônica. Encontraram mais alguma coisa relevante naqueles pertences?”, questionou Lupo ao encontrar os papeis, plásticos e etiquetas das evidências encontradas na cena do crime desta manhã. Sobrinho punha as luvas de látex.
“Nada que não tenha em qualquer bolsa de mulher... Incrível como pode caber tanta coisa em tão pouco espaço!”, zombou: “Nada que forneça prova substancial contra o assassino...”.
“E o que você define como ‘nada’?”, Lupo o tirou de cima a baixo. Tocava a bolsa com as mãos sem a exigida proteção.
“Nada que me salte aos olhos, cara”. Mostrou cada um dos pertences na bolsa. Carteiras e pacotes dentro de uma bolsa preta com bordas douradas: “Agenda, carteira, produtos de higiene pessoal. Pouca maquiagem. Aliás, notou como Mariana Gramado não tem nada de feminina?”.
Lupo riu: “É. Percebi. Não me surpreenderia se aquela matrona fosse sapatão”. Os dois riram: “Mm, veja, o que é isso?”.
Sobrinho pegou das mãos de Lupo pequenos papeis amassados, quase translúcidos pela ação do tempo. Eram tickets de compras no cartão de débito: “Comprovantes. Esse aqui tem quase três semanas. Tinha alguns espalhados pela bolsa, outros dentro da agenda...”.
Lupo amarrou o cenho. Seus olhos gradativamente foram fechando. Aquele gemido inaudível de vertigem, que apenas cachorros ouviam, apareceu. Estava fazendo aquele seu motor infernal jorrar outra vez: “Nós temos cinco comprovantes amontoados”. Colocou os papeizinhos em cima da mesa, um ao lado do outro: “Além dos totais das compras serem praticamente semelhantes, o que mais se constata?”.
“Mmm...”, Sobrinho assemelhou sua expressão com a de Lupo, para tentar sobressair o intelecto. Prevendo um desastre nos resultados, desistiu e pôs-se a pensar: “Os locais de compra?”.
“Isso foi um ‘chute’?”, desapontou: “Um ‘chute’, mas acertado. E incluo também as datas das compras! Perceba, foram todos estabelecimentos comerciais no mesmo bairro e com espaços de tempo de uma semana”. Apontou para cada papel com seu respectivo local e dia: “Vinte e cinco de Abril, Supermercado Lucas. Dois de Maio, Mercadinho ‘alguma coisa’, não consigo ler. Nove, Supermercado Lucas. Dezesseis, Farmácia Otacílio. Vinte e três, Banca Vinhais”.
“Vamos requisitar as imagens do sistema de vigilância desses locais e informações adicionais das visitas da deputada”, Sobrinho puxava um telefone fixo e discava o ramal do terminal de Palena.

O advogado servil indicado para atuar na defesa de Felippo Guedes apareceu no final da noite, requerendo a sua soltura.

Galeria Fischer, Calhau

“Finalmente interessado na mensagem por trás das coisas ou de discutir um de seus assuntos sangrentos?”, essa foi a recepção do marchand, assim que Vitor Lupo atravessara a porta envidraçada, quase tropeçando em uma instalação aos moldes de Cronenberg. Era sábado, chovia.
“Senhor Fischer, quero discutir arte abstrata”, devolveu Lupo, se auto-recepcionando com uma cadeira: “Vamos conversar sobre a beleza dos relacionamentos. O que levaria um homem classudo a criar inimizade com uma digníssima senhora do parlamento que antes era o amor de sua vida?”. Onde estava aquele galante apreciador da estética de outrora? Fischer assombrou: “Não há mais nada abstrato do que uma desculpa truncada. Por que você se separou da senhora Mariana Gramado?”.
“Investigador, eu não--”.
“Já sei sobre a ida ao Vinhais. E sobre as comprinhas”. Fischer se tornou um esquife: “Vocês brigavam, e brigavam muito antes do divórcio. Eu já tinha o método, agora tenho a oportunidade. Será que eu tenho o indivíduo?”.
“Isso é um ultraje!”.
“Ultraje é o tempo que vai levar para uma intimação”, claro que não se pode enquadrar ninguém usando comprovantes, mas o marchand poderia não saber disso: “Não me subestime, senhor Fischer. Minha vida não é um dos seus desenhos furrecas”.
Amon Fischer raivou alguma coisa em alemão. Levantou-se como da última vez, bem mais animalesco, como um gato selvagem: “Mariana era uma mulher muito reservada. Se quisesse saber alguma coisa teria de extrair a punho. No final do ano passado, suas faltas constantes em casa me preocupavam. Ela tinha uma rotina regrada. De repente, começou a se atrasar nos jantares, a inventar desculpas com aquela voz torpe de diplomata”.
Começou a arrodear a mesa. A cabeça de Lupo não se moveu quando ele saiu do campo de visão: “Jamais imaginaria o que estava fazendo. Por duas vezes eu a surpreendi com um sorriso imbecil nos lábios! Estava remoçada, se sentia mais feliz. Tudo isso quando começou a negligenciar nosso relacionamento! Jamais podia imaginar que ela tivesse--”
“Um amante?”, respondeu Lupo, simultaneamente quando Fischer respondia “uma família!”. O investigador repetiu a palavra e o interrogado assentiu.
“Uma família, investigador. Ela estava visitando uma família. Fazia caridades! Dava presentes, fazia a feira da semana! Com o nosso dinheiro!”.
Fazia sentido. Lupo corou sutilmente por converter a sua teoria original de que Mariana Gramado abastecia uma quitinete do amante vinte anos mais jovem com quem tinha tórridos encontros: “Então, esse era o intuito dela em ir toda quinta-feira para o Vinhais?”.
“Isso. Descobri da forma mais tradicional possível. Uma noite, a segui após o final do expediente na Câmara. Imagine, que ridículo, um homem do meu porte fazer esse papel chinfrim... Ela pegou o carro e foi até a casa desse pessoal até o Vinhais”.
“E o senhor sabe o que ela fazia?”.
“Não tive nervos para ir a fundo. Ela abraçou um homem que foi atender a porta. Um abraço de amor! Deu beijos na esposa dele. Nos filhos!”. Fischer engoliu sua raiva reprimida em um engasgo. Tornou a sentar, perscrutado pelos olhos de Lupo. Contou que Mariana era impossibilitada de ter filhos, após uma cirurgia nos ovários ainda na mocidade. Ele mesmo não se importava, mas pressentia nos olhos da esposa o quanto ela era infeliz. A felicidade nos gestos de Mariana com aquela família foi brutal.
“O senhor a confrontou, não foi? Ela não se defendeu?”.
“Não fez nada! Ficou parada feito um jarro e não se dignou a responder mais nada. Calou-se. Aquela maldita... Não me deu uma justificativa, nada, nada! Foi como se não existisse. Me deixou como esse imenso ponto de interrogação que não corri atrás em resolver, e que, agora, prefiro esquecer!”.
Vitor Lupo alertou ao homem que isso o pintaria um quadro como suspeito. Ele disse que temia, preferia sufocar aquele alarme de adultério sentimental do que as confidências. Não hesitou em dizer seu álibi na noite do crime: “Estive em reunião com o proprietário de uma pinacoteca em São Paulo, que queria investir uma coleção de Warhols na próxima Semana de Arte”. Perguntou: “O que vai acontecer agora?”.

“Colocarei uma exclamação na sua interrogação”, respondeu o detetive, saindo da galeria, repondo um painel de Rogério Duarte em uma das estantes.