Má Formação - Capítulo IV

janeiro 04, 2017 0 Comments A+ a-

Em algum lugar da Curva do 90, Vinhais

Amon Fischer repassou os pontos de referência em que sua esposa se encontrava com a família misteriosa. Passaram por um desvio de quadra de cimento molhado – era uma rua estreita que intermediava a abertura de um córrego e um conjunto de edificações avarandadas, engendradas em grandes espaços em um antigo descampado terraplanado e levemente recuadas ante a rua. Os espigões e cumeeiras no telhado chamavam a atenção e dividiam as águas do madeiramento das coberturas das casas. Macieiras e jacarandás marcavam o caminho de ida, ainda pingando a chuva da noite passada.
Sobrinho enviou uma mensagem falando sobre o material colhido nos comércios da área. As imagens da Farmácia Otacílio acertaram em cheio a teoria de Lupo, junto a uma câmera de videomonitoramento na avenida. A partir dali, se pode traçar perfeitamente o caminho que Mariana Gramado fez nos últimos meses. Sobrinho deveria esperar no bairro, para checar junto com o parceiro.
A casa pertencia à Jorge Bosco, pai de família respeitado, sem ficha criminal ou pendências fiscais. Os Bosco tem reputação ilibada na comunidade. Patriarcas trabalhadores, filhos estudiosos. Frequentes na paróquia local três vezes por semana. Participação nas obras da Igreja Católica do Vinhais. Já se podia ver o belo desenho que aquele quebra-cabeça estava formando.
A velha pick-up era um prolongamento de Vitor Lupo, um terceiro braço, mais um coração. Arrematou-a por dez e duzentos mil reais, em um leilão do Departamento de Trânsito nos idos de 2004, confiscada de um advogado com pendências na Receita Federal.
O carro estava em ponto morto, em uma diagonal. O amargurado Fischer tinha a certeza de ser uma casa de azulejo azul e portão de ferro. Tocaram a campainha, em um insucesso. Como odiavam assuntos pela metade, voltaram para a velha pick-up, no aguardo de algum Bosco.
Vidros fechados, ar-condicionado ligado. Lupo batia seus quirodáctilos em uma tela de 9 polegadas; jogava sudoku no nível 9 e comia uma empada de frango com guaraná da amazônia. Sobrinho espiava a luva de nitrílico, com couro tratado na palma e punho tricotado com elástico que o amigo usava no touchscreen do tablet. O material ainda rasurava as folhas de papel, todavia era perfeito aos eletrônicos.
A relação entre a díade era bisonha. Um era bufão, impulsivo, movia uma esquadra sozinho se fosse de seu desejo. O outro era uma esfinge a devorar o primeiro que aparecesse. Um via mosquitos passando em cima do nariz, o outro, a trajetória de balas. Estranhos conhecidos. A primeira vez que se conheceram foi em uma diligência até a casa de um traficante. Sobrinho creditava um acerto de contas, mas Lupo nem precisou sair do carro para encontrar elementos de um crime passional. E antes que discussão terminasse em inquérito, Lupo se submeteu a pagar uma tequila no bar dos oficiais. Desde então, jamais foram vistos distantes.
Sobrinho foi testemunha de defesa no processo movido por Eron Amorim. Lupo doou sangue quando Lídio Rocha tio requeria um transplante de medula. Sobrinho cobriu Lupo no decurso de um caso em Barão do Grajaú, sem que a Secretaria soubesse. Lupo solucionou mais rápido que um espirro o assassinato do Almirante Agostini, sem pleitear os louros da resolução. Estranhos conhecidos.

Às onze, uma mulher e um jovem achegavam ao portão. Os policiais esperaram cinco minutos para a visita formal. Seguiram até o pé-direito aconchegante dentro de seus gradeados. Calçadas e córregos limpos. Tipicazinha casa de bairro.
“Jorge Bosco?”, disse Sobrinho, assim que uma mulher esguia, portando roupa de jardinagem e com os cabelos acobreados saiu no portão – estava cuidando das touceiras de comigo-ninguém-pode no jardim, amarrando os sacos plásticos dentro dos vasos: “Força-Tarefa Contra Crimes de Gênero. Ele se encontra?”.
Entraram os dois. Levando a dupla até o terraço, Vera Bosco se apresentou, meio consternada: “Jorge está na organização agora pela manhã. Fica aqui perto, na igreja, há duas quadras”, respondeu a mulher.
“Bem, preferimos conversar quando ele estiver presente”, respondeu Lupo.
Vera Bosco telefonou para o marido. Chegou em cinco minutos. Era um homem retraído, martirizado. A calvice não era mais evidente que o corpo curvo e os óculos fundo de garrafa. Cumprimentou os membros da Força-Tarefa com gestos e o olhar de quem prenunciava o ocorrido.
Os investigadores tomaram a frente. Enquanto explanavam sua jurisdição, eram conduzidos até uma sala confortável do ninho. Pela porta aberta no final de um corredor, Lupo flagrava o mesmo jovem de ainda pouco sentado na cama, segurando um prato com a mão esquerda e levando a colher recheada com a direita.
“Se os senhores puderem ir direto ao assunto...”, disse Vera Bosco: “Tenho uma sessão de diálise, depois do almoço”.
Lupo interveio: “A deputada Mariana foi morta em sua residência, como já devem estar sabendo”, a garganta de Jorge Bosco parecia congestionada: “Ela esteve ligada a Comissão de Direitos Humanos”. Não havia o devido respeito na entonação: “Mas tudo nos leva a crer que a sua posição não motivou o crime. Suas conexões são restritas e a maioria nos leva aos senhores. Nossa missão é analisar todas as possibilidades...”.
Jorge Bosco afastou suas mãos de sua esposa assim que começou a suar. Fez algum esforço para falar da amiga: “Mariana era uma figura muito, muito querida. Tem nos dado muito apoio nesses últimos meses...”.
“Em relação a quê?”, questionou Lupo.
“Peço a maior discrição com este assunto. A morte de Mariana nos trouxe o mesmo medo de antigamente”, recomendou Vera Bosco. Abaixou-se para amarrar os sapatos.
O marido se adiantou: “Mariana nos procurou em Dezembro. Enfrentávamos um problema sério com o nosso filho mais velho, ‘Ed’...”.
“Ele é adotado, não é?”. Lupo quebrara a concentração do casal, surpreendido pela intromissão daquele que captura detalhes como moscas num papel-adesivo: “Vendo as fotos dos seus mais novos, existe uma elevação avermelhada abaixo dos ombros, que acredito ser um hemangiona simples. O senhor possui um leve estrabismo. A incidência maior de hemangiona é causada pelos genes recessivos masculinos, e uma das consequências de seu estado avançado é o estrabismo, e acredito que o senhor já tenha feito o tratamento, se me puder baixar a camisa. Seu mais velho não possui a mancha inerente aos irmãos em nenhuma das fotos, logo...”.
Sobrinho queria ter um soco inglês: “Relevem o comportamento invasivo do investigador Lupo, sim?”. Mas sabia em que terrenos caminhar: “Só que esta dedução confere, não é?”. Vera Bosco se levantou e preferiu a omissão.
“Entendam, esse assunto ainda é um tabu em nossa família!”, alarmou Jorge Bosco: “Nos preocupamos quando o Édipo começou a mostrar interesse em conhecer seu passado. Vera engravidou muito cedo. Teve de cuidar sozinha do menino! Nunca escondemos que não sou seu pai biológico, mas... Quando a busca por respostas se tornou uma obsessão, o caldo virou. Ficamos preocupados com os comentários dos vizinhos. Da igreja! Isso colocaria a nossa união em risco”.
Os macacos do bairro se preocupavam com os rabos dos outros. Era mais importante manter às cegas, enquanto o falatório dos “irmãos” se mantivesse longe dos Bosco. Lupo perguntou: “E onde entra Mariana Gramado?”.
Vera atravessou a fala de Jorge, se apoiando com a mão esquerda: “Mariana era uma grande amiga. Nos conhecemos ainda na igreja, quando começou a frequentar a nossa congregação. Ofereceu ajuda para resolver essa questão com o ‘Ed’”.
“Mariana também nos ajudava financeiramente”, complementou o marido: “Eu cuido das obras da igreja e faço um trabalho voluntário no bairro. Mariana esteve sempre disposta com as compras da semana, algo que as crianças queriam. Um remédio, uma revista...”.
Lupo relembrou das compras insólitas feitas pela deputada no começo do mês. Tanta dedicação a uma família que não era sua: “Onde estão suas crianças, dona Vera?”, soltou.
“No curso preparatório. O ‘Ed’ preferiu ficar em casa”.
“Doente?”.
“Gripe. Participou de uma excursão com os escoteiros no final de semana passado. Está queimado de sol”, sorriu: “Participa do grupo desde pequeno. Foi a melhor coisa que podia ter acontecido ao meu ‘Ed’”.
“Entendo. Mm, posso usar o banheiro?”. Vera braceava o corredor do lavabo. Os passos de Lupo foram até o repouso de Édipo Bosco. Um jovem pasmo, alto, sentado na cama com as pernas esticadas. Um quarto pequeno, abafado, com pouca iluminação. Três paredes brancas e uma preta. Uma estante de parede com revistas, livros, porta-retratos com fotos dos torneios de basquete, uma pequena televisão de tubo – preso no alto, um alvo preto-e-branco com dardos fincados. Um par de tênis de treino no canto do quarto. Lupo não conseguiu identificar os nomes dos livros, qual canal estava sintonizada a televisão ou qual era a posição de Édipo no time de basquete nesses dois segundos de espionagem, lamentavelmente.
A portinha dava para o lavabo. Pôs tudo para fora, com os ouvidos atentos na conversa da sala. Sobrinho e o casal Bosco falavam sobre as obras na Igreja, as óbices de custear uma benfeitoria. Jorge disse: “São apenas cinco pessoas, contando comigo. De sol a sol, todos os dias da semana. A previsão é de que a capelinha fique pronta até o trimestre. É tanto quanto oportuno aos apenados”.
“Como?”, Lupo voltava sem higiene, secando as mãos nos bolsos da calça: “Apenados?”.
“É... Temos um acordo com o Tribunal de Justiça. Indicaram um rapaz muito prestativo para me auxiliar com a logística. Apareceu no final do ano passado, por recomendação judicial, muito perturbado. Tínhamos medo dele, mas acabou se aproximando dos nossos modos”.
“Quais são os serviços durante as reformas?”, Lupo avançou sobre Jorge Bosco, como se a resposta valesse um milhão de dólares.
Marcenaria! Caibros, acabamentos...”, o detetive acenou para findar a descrição. Sabia o que eram serviços de marcenaria. E quem varou Mariana Gramado também sabia.
“O nome dele é Felippo Guedes?”. A confirmação achincalhava o seu brio ególatra.
Sobrinho lamentava: “Ele mesmo disse que fazia trabalho voluntário, que sua vida estava mudando...”. Jorge Bosco interessou em saber se Felippo Guedes tinha a ver com a morte da amiga. Lupo calcou e, em lugar da replicação, intencionou melhoras ao desorientado Édipo, “Ed”. Ligou para Palena e bateu em retirada.

Secretaria de Segurança, Centro Histórico

Sobrinho se enfia no elevador e interpela: “Hemangiona? Estrabismo? Que diabo aconteceu com o clássico furinho no queixo?”.
Lupo vinha mais atrás: “Você fala aos quatro ventos que é meu amigo mais antigo, e não percebeu meu fetiche em complicar as coisas? Que decepção”, zombou o outro.
Conforme as portas do terceiro andar se abriram, Palena esperava seu chefe: “Boa tarde, ‘Pan’. Requisitou o clipping da assessoria de comunicação da deputada?”.
Ela e seu conjunto de ossos em auto-relevo indigitavam para um álbum de capa dura e folhas de plástico que envolviam recortes de jornais e impressões de sites: “Li de cima a baixo. Não acha que é desafiar brutalmente as leis junguianas ela se relacionar com a família que aceitou empregar o maior inimigo? Olhem estas listas. Perceberam como Dezembro do ano passado foi um divisor de águas na vida de Mariana Gramado? A condenação de Felippo Guedes e sua aproximação com a igreja, o encontro com a família Bosco, a separação... Foi justamente no mês em que o padrão de discurso da deputada sobre Felippo Guedes transmutou!”. Palena apresentava uma sequência de notícias: “A deputada cessou as acusações no período do resultado de condenação de Felippo Guedes. Ela estava no último dia do julgamento e se recusou a dar entrevistas”.
“O juiz concedeu o relaxamento da pena. Felippo foi só condenado por lesão corporal grave, diga-se de passagem”, contribuiu Sobrinho, prezado com a pertinácia do trabalho de Palena Prado: “A deputada tenha algo com isso?”.
“Deus não seria tão preguiçoso colocando meu maior inimigo ao lado dos meus futuros amigos...”, Lupo recolheu os olhos e resmoneou de dor: “Felippo Guedes ao lado da família Bosco era exatamente o que Mariana precisava. Entende? Ela provavelmente contribuiu para o relaxamento da pena e, em que troca, Felippo deveria fornecer informações preciosas”.
Sobrinho deprimiu: “Isso é muito Hitchcock para minha cabeça... E porque esse imbecil não falou da sua relação com a deputada?”.
“Para quê? Tinha repulsa por ela”, Lupo disse em tom conciliador: “Mas, ao mesmo tempo, era credora da sua liberdade. E que provas teria para justificar essa aproximação? Deviam se encontrar na congregação, na saída dos cultos”,  era a reunião dos conspiradores no juqueri. E era um disparate Vitor Lupo gostar de conspirar com Palena Prado.
“Ah, esse relatório chegou do IML, mais cedo. O... Sanches, correto? Ele pediu desculpas, Lupo, por não convertê-lo para mídia digital”.
O homem fez uma carranca: “diabo... Vou calçar as luvas. Levem o relatório para a minha sala, se não for incômodo. Se for, levem mesmo assim. Aliás, a sala já está pronta?”.
Depois das divisórias nos terminais de computadores, ficava o gabinete onde instalaram Vitor Lupo. Um espaço de seis metros por quatro, com uma mesa de cedro, cadeira com apoio ortopédico, duas estantes totalmente cobertas por livros e encadernados, caixas e potes lacrados. Duas janelas com persianas de escritório paisagescas davam para os terminais. Arquitetura de filmes do David Fincher. Ave, Fincher.
“Seu nome está incompleto”, notou Palena, quando entrou no santuário: “Foi adesivado na vidraça da porta só o ‘Vitor’”.
Sobrinho reproduzia o relatório analógico da perícia: “Causa da morte: choque hipovolêmico. Mmm, nada demais... E essas observações à parte Anotações do Sanches. Elencou fissuras genitais antigas em Mariana Gramado. Provocados por uma laparoscopia pélvica realizada ainda na Inglaterra. Outras cicatrizes antigas imperceptíveis são ao redor do rosto e abaixo das mamas. Houve um desequilíbrio nas taxas de estrogênio, justificado pelo tratamento de terapia hormonal com... Algestona Acetofenida”, concluiu: “Ela era tão velha assim para terapia hormonal?”.
“Provavelmente. Algestona Acetofenida é usada para controlar irregularidades menstruais”, oraculou Lupo: “Me admira fazer uso desse medicamento. Tem registros desse recebimento pela farmácia pública?”.
“Mm... Não. Solicito?”.
“No momento, não. Um mistério de cada vez. O que me perturba nesse milésimo é a falta de informações sobre a jovem Mariana Gramado. Conseguiram mais alguma coisa antes dos dezoito?”, um jato de sangue quente e grosso invadia as veias da testa.
Palena respondeu: “Bom, seu passaporte confirma as viagens entre '95 até '99, quando voltou definitivamente para o Brasil e ingressou na universidade. Nenhuma viagem durante a infância”.
Sobrinho sabia quando seu parceiro colocava aquela oficina do diabo para funcionar: “Mas você não está satisfeito com o que diz os documentos oficiais, não?”.
“Nunca confiei. Documentos são as melhores extensões de falsas histórias. Por isso, a minha competente equipe vai entrar em contato com o Consulado Geral do Reino Unido. Se ainda houver justiça nesse mundo, o passado da família Gramado estará em alguma caixa mofada por lá”, caçoou.
O tempo de Palena Prado corria diferente. Seus olhos escuros se inflamaram como os de uma coruja e sua pele tinha um color apaixonado. Mesmo sem uma palavra falada, seu rosto já demitia os efeitos antigravitacionais da inteligência de Vitor Lupo: “Já pensaram que, talvez, Amon Fischer não fosse o único que soubesse do engodo?”. Todos flutuavam nas integrais da mulher: “Joyce Garcia organizava a agenda da deputada. Sabia seus horários de entrada e de saída, eventos sociais e descansos. E se organizasse as confidências?”.

O enterro de Mariana Gramado seria as quatro da tarde, no Cemitério do Gavião. Solenidade dogmática, autoridades em todos os segmentos. Nenhum parente.
Joyce Garcia foi até a Secretaria de Segurança para uma taramela com a banda apodrecida da sociedade.
“A senhorita sabia do ‘trabalho social’ que Mariana Gramado exercia junto à família Bosco?”, forçou Lupo, com a chacota escarrando dos lábios.
“Sempre com os teus deboches, não é...”.
“Atenha-se às minhas perguntas”. Joyce Garcia era a mosca na teia da aranha: “A senhorita tinha conhecimento das relações entre Mariana Gramado e a família Bosco?”.
“Minha relação com a deputada era estritamente profissional. Não nos envolvíamos mais do que o necessário. Mas... Em Fevereiro eu tomei conhecimento da família Bosco. Jorge, Vera, os filhos. Eles se tornaram uma família para ela”. Bendita seja Palena!
“Que altruísmo, não acha?”.
“Se o senhor não foi educado sob essas práticas, é um pouco tarde para compreendê-las! Não havia interesses ocultos. A deputada viu naquela família a tábua de salvação, reencontrou a felicidade no contato com aquelas pessoas--”.
“Tá, tá, tá, altamente instrutiva essa sessão de autoajuda. O que me interessa mesmo são as relações da mulher... Além dos Bosco, ela se envolvia com Felippo Guedes?”.
“Envolver?”, Lupo fez uma vênia para Joyce Garcia: “Felippo era um desequilibrado. E ele não é o único...”, cerrava dentes furiosos.
“Não me interessa o seu julgamento. Por que àquela família? Mais de dois milhões de habitantes, e por que um punhado de medíocres fora da minha bolha? Qual o interesse da sua nobilíssima deputada nos Bosco?”, o investigador crescia como uma sombra da noite.
“Meça suas palavras, Vitor”.
“Minha régua é muito maior que a sua”, voltava a sentar na cadeira: “Eu nunca tive uma educação sob ‘determinadas práticas’, como você mesma disse. Não fui criado dentro de uma bolha. Eu vi o mundo pelo lado de fora da fechadura”. A pungência nas frases cortou o ar: “Poucas coisas que me prendiam ao mundo real mais que as literaturas de almanaque, algo que sempre contribuiu para minha ‘capacidade imaginativa’”.
“Agora sou eu que não quer saber das suas opiniões”.
Lupo riu: “Tenho certeza que a senhorita vai se interessar quando souber que a aproximação da deputada com a família Bosco acabou com o seu casamento. E vai se interessar mais ainda quando imaginar junto a mim que Mariana Gramado e Jorge Bosco poderiam ter um... envolvimento romântico?”. Ele pretendia terminar a frase dessa forma. Mas antes que as últimas sílabas abalassem a língua, Joyce Garcia arrebentou as mãos na mesa em tanto som quanto fúria.
“Eu quero ir embora! O senhor ultrapassou todos os limites da moral com isso. Não vou responder mais nada”. Mais diálogos subversivos. Terminaram empatados.
Rocha Sobrinho abriu a porta: “Vocês dois quase botaram sala a baixo...”.
“Vagabunda. O que mais me emputece é saber que ela não faltou com a verdade”. Sobrinho tonteou: “Nada de morder os lábios ou o olhar fixo. Nada de nariz ou ombros. Nenhum dos sinais clássicos de mentira. Se não fosse pelo seu fanatismo...”.
“Mantém a calma, homem. Isso tudo é conspiração da magrelinha, fica calmo! Cuidado para não subir à cabeça e fermentar...”.
“Se Deus está nas coincidências, o Diabo está nos detalhes. Não existem coincidências no decurso de uma investigação”, gesticulou: “Mariana Gramado tem problemas com a identificação e não há quase nenhum registro em solo brasileiro anterior os dezoito anos. De uma hora para outra, ela encontra uma família completamente diferente do seu viver. O homem que tem tudo para se vingar frequenta o mesmo núcleo de oração”.
Sobrinho estava no lordo: “Era verdade o que disse para a Joyce ou uma corriola? Mariana Gramado e Jorge Bosco, juntos?”.
“Qual a sua opinião?”.
“Vera ama Jorge, que ama Mariana. Vera descobre Jorge e Mariana. O clássico triângulo amoroso... Vera vai à casa de Mariana e mata a amante do marido. Fim de papo! Lembra que ela é canhota? O assassino, também!”.
“Não tão simples...”, Lupo se levantara do balcão: “Ela sofre de um doloroso espasmo cardopedal nas mãos. Contrações espasmódicas em momentos cruciais, incluindo no interrogatório”. Sobrinho estava cansado de perder naquele jogo: “O modo como abria e fechava as mãos, apertava os dedos. Disse que tinha uma sessão de diálise naquela tarde: uma doença renal crônica provocaria essas contrações. E há o nó, também”. Limpava os óculos escuros com a manga da camisa de flanela: “O nós das sacolas de supermercado na casa de Mariana Gramado. Não batem com os que Vera estava arrematando os vasos de flores e os sapatos de jardinagem, que são desleixados. As sacolas foram amarradas de forma mais peculiar”.
Quanto mais Lupo falava, mais remetia às fotos da autópsia. A cavidade aberta, o jato de sangue. Não dormia há vinte-e-quatro horas, seu próprio estômago se digeria. As mesmas roupas com os amassados das horas anteriores.

Em algum lugar da Estrada do Araçagy

Era madrugada de domingo para a segunda, e Felippo Guedes bebeu três cidades da Alemanha. Mais álcool no sangue que no tanque. Ponteiro e cabeça giravam. O nome “Mariana Gramado” rodava como juízo de doido. Luzes policromadas a sua frente, postes, casas, carros, estrelas, bolhas ilusórias. Uma galáxia de luzes explodindo.
“Vadia... Vadia...”, sussurrava. Mesmo à sete palmos de terra, ela ainda o espetava.
Domingo, quando as estrelas formam desenhos indecifráveis no céu, você não pensa em mais nada, sente mais, quer apenas que não volte outros domingos e você não tenha de perceber a ciranda dos desenganos onde nos encontramos.
Domingo é o chicote deixando sua pele em carne viva, transformando-o em luxo para o carrasco das outras semanas. A carteira de Felippo Guedes estava vencida.
Domingo é veneno, domingo é fim de festa, domingo é resto de esperma no colchão. Temia batidas policiais.
Domingo é choro depois da separação, domingo é missa de sétimo dia. Domingo é praga, domingo é neblina.
Olhou para o celular.
Domingo é dado viciado, domingo é carta marcada.
Era a última coisa que veria em vida.

Uma rua cheia de desníveis, com uma vala a céu aberto e asfalto raspado. A grama e a folhagem dos terrenos cresciam quase à altura dos muros. A Secretaria de Trânsito interceptou um bloco compactado de metal fumegante na rua 37, esquina com o Depósito Marcelo, na estrada para a praia. Seu risco de explosão só não era maior que a gravidade do motorista. Paramédicos e bombeiros ululavam, com o acesso bloqueado pelas ruas principais, e desencarceradores elétricos operavam um parto por fórceps.
O primeiro dia útil da semana molengava Vitor Lupo e Palena Prado. Os ânimos se diluíram por entre os fonemas dos cumprimentos iniciais, estavam na primeira incursão juntos. Ela motejou ao caronear na velha pick-up, mais arredia e divina que de costume. Bebia uma garrafa de isotônico e, de vez em quando, tirava um esguichador de xilocaína do bolso.
Estacionaram e foram ladrilhando ao ponto de impacto. Um agente de trânsito aguardava: “Bom dia, investigadores”.
“Eu sou Vitor Lupo. Essa é a policial Palena Prado. Qual a situação?”. Lupo batia as pernas, se movendo como um tufão.
“O carro capotou quatro vezes, antes que batesse na mureta de contenção daquele terreno. Estava extremamente danificado, precisamos de equipamentos de emergência para retirar o corpo”.
“Como identificaram o motorista?”.
“Documentação. O veículo está registrado em seu nome. Assim que as informações chegaram ao banco de dados, batemos com a investigação dos senhores. O secretário pediu cautela máxima para evitar conflito de jurisdições...”, o temor do rapaz parecia o de um órfão repreendido pela madre superiora: “Esse trecho é um velho conhecido, por ter grandes índices de acidentes. Doze vítimas só em Fevereiro! Além do mais, encontramos isto”, acenava para a equipe de legistas. Seguiram até um conjunto de provas ensacadas e fotografadas: “Garrafas e latas de cerveja”.
“E o nosso 'big one'?”, perguntou Lupo.
O perito vinha com o Santo Graal nas mãos: “Essa pistola de pressão estava no porta-malas. Não está tão danificada”.
“Agora sim, valeu a viagem”, Palena ironizou. A arma de pregos era semelhante àqueles brinquedos de plástico que ganhavam as ruas nos anos 90, da cor preta, com uma liga de metal resistente e um fixador de profundidade na frente. Lupo custava a acreditar que o Caso Mariana Gramado teria esse desfecho. Não ruminou uma só palavra.

A Força-Tarefa Contra Crimes de Gênero assumia a investigação. O corpo retalhado da vítima seguia para Renato Sanches no IML. Lupo lançou qualquer ordem para dispensar a equipe primária que operou na cena do crime, permanecendo no carro.
Palena tomava últimas notas do acidente, deliberando sobre o comportamento de seu coordenador: “Incomodado?”, abeirou a janela da porta do motorista. Acenou para que abaixasse o vidro da velha pick-up.
“Não foi ele”, alertou Lupo: “A digital não é dele. Muito menos a arma. Estava bêbado, sim, e o verdadeiro assassino se aproveitou para simular a direção perigosa. Conhece a intimidade de Felippo--”.
“Pelo amor de Deus, e a arma no carro? Esse moleque estava podre de bêbado. Cheio de culpa e remorso, fez uma curva perigosa, bateu o carro. Antes tarde do que nunca”.
“Você me decepciona, ‘Pan’... Seus olhos estão cheios de ressentimentos que a tornam irresponsável”.
“Não é ele o que você defende... É o que ele pensava. Como ele pensava. São iguais! Não consegue dar o braço a torcer, porque pensa da mesma forma!”.
Vitor Lupo abriu a porta do carro, levando Palena Prado ao chão. Puxou-a pelo braço, juntando um chumaço dos seus frágeis cabelos graúnas no ato agressivo. Ela não protestou, mesmo a pele ardendo como pepita. Uma projeção violenta para frente e caiu de joelhos. Não era uma cena de punição, Lupo estava longe de ser o carrasco. Seu discurso era professoral, seus dedos corriam pelo ar tão suavemente como se penteasse os cabelos de Eólo: “Me desculpe pelos joelhos. Siga meus dedos até aqueles padrões irregulares na pista... São arranhões no asfalto com fragmentos de borracha sintética preta e cordões de poliéster, que correspondem à trajetória do carro. Veja onde ele foi parar e compare com esses rastros aqui”.
Palena comprimia a palma da mão no ferimento do joelho: “Borracha e poliéster?”.
“Compõem as lonas de reforço das carcaças de pneu. Em alta velocidade, pedaços recauchutados dos pneus de caminhão são como colunas de granito e podem ser arrematados em qualquer depósito clandestino”, as garras de Lupo afiavam para o encalque: “O assassino plantou a arma do crime muito, muito antes, visto que não conseguiria abrir o porta-malas com o carro nesse estado. Ele conhece a rotina de Felippo, que ele estaria bêbado e por onde passaria...”.
“É só isso?! Linhas feitas por pneus reaproveitados?”, o sangue de Palena borbulhava: “Me convença a não acertar um soco na sua cara, porra! O que te leva a crer que seu amiguinho não era o assassino?”.
A marca no braço. Assim que o vi, a ausência de uma cicatriz em seu braço direito tomou minha atenção. Pedi o seu caderno de vacinação, e lá estava assinalada a primeira vacinação para BCG”.
“E qual o grande truque nisso? Felippo poderia-- poderia ter removido a cicatriz quando adulto...”.
“Para quê? Substituir uma cicatriz por outra?”. Ele estendeu a mão para levantá-la: “Confirmada e reconfirmada a vacinação, desconfiei da incapacidade de Felippo em gerar queloides. Então, lembrei da cicatriz na digital da mão de Mariana Gramado”. Lupo descobrira a América.
“Só isso?”, Palena esqueceu a dor no joelho, a indignação evoluiu para a descrença: “É assim que você o defenderia? Uma olhada no braço e uma sequência de delírios? Foi para ver isso que eu saí da 16º?”. O rosto seco, magro de Palena se aproxima do investigador, como um eclipse. A testa volumosa, quando amarrava seus cabelos em um rabo de cavalo, era um painel.
Ambos eram tudo o que não precisavam. Suas vidas já estavam desvariando ao envolver uma perturbação aos seus cotidianos. O castelo de cartas de Palena começou a cair – ao passo que seu castelo no ar começou a ser construído. Lupo construiu um castelo no ar para morarem juntos: “Seus olhos não estão abertos. Você continua dormindo”. Ela recusou a ir na velha pick-up. Esperou a segunda diligência de volta ao QG, às onze.

Secretaria de Segurança, Centro Histórico

“Diabos”, resmungou Vitor Lupo. A conexão wireless esteve suspensa para reparos na rede, e ele se imaginava na Idade Média. Passou uma braçada de horas para abrir o e-mail de Renato Sanches, que carreava os novos acontecimentos em blocos de texto:

rsanches@ssp.gov
- “Relatório da arma de pressão: modelo americano usado para trabalhos com madeira, placas de gesso e esquadrilhas de alumínio. O corpo é fundido em uma liga de alumínio com sistema de carga lateral para disparamento sob pressão.
- “O IPL não confirmou a digital encontrada na mão da deputada como sendo de F. Guedes. Infelizmente, é um pouco tarde para inocentá-lo...”.

Lupo precisava tirar Felippo Guedes da cabeça. Precisa tirar essa ideia, essa concepção, esse tumor da cabeça. Decaía de sua arrogância, estava fora do seu natural, entristecido por ter levado um baile de um armadilhento.
Palena Prado fez sua voz ser ouvida através do vidro: “É relativamente fácil conseguir pneus usados em sucatas ou oficinas de bairro, coordenador Lupo”.
Ele riu e girou os dedos para que entrasse: “Sua sutileza é inversamente proporcional à teimosia”.
“Você é aqueles dois dedos d’água que transbordam um copo cheio de tempestades”, devolveu: “Tinha uma tarde cheia de curativos e relatórios desaforados para o excelentíssimo secretário”.
“E o que mudou sua agenda?”.
“Um bom antisséptico. E toda a vida que Deus me deu em julgamentos precipitados”.
“‘Pan’, mais do que seus olhos, eu preciso da sua mente escancarada. Você chegaria às mesmas conclusões e pelos mesmos caminhos, não fosse sua percepção nublada”, seus olhos mexiam em ritmo convulso: “E, desde já, te devo um joelho novo”.
“Esqueça. De acordo com minhas notações das últimas pessoas a verem a vítima, disseram que saiu de uma festa em uma casa de praia no Araçagy, na madrugada de domingo”.
“Ele pegou o caminho mais longo para chegar ao Turu... Por causa das fiscalizações de trânsito, afinal, estava alcoolizado. Cortaria caminho pela duplicação até o retorno para Paço do Lumiar, o Maiobão, depois a Forquilha, Cohab até o Turu”, ele pisava em um fio desencapado: “Só contamos com duas hipóteses. Primeira, o assassino sabia do caminho prévio da vítima. Segunda, ele forçou Felippo Guedes a pegar o atalho pela Rua 37”.
“Acha que ele entrou em contato com a vítima?”.
“Eles se conhecem!”. Lupo abria os dentes e as narinas em forma de dor: “O assassino está dentro da igreja... Ou dentro da família Bosco. Duas vítimas no mesmo núcleo”.
“Podemos verificar o celular da vítima, reutilizar o seu drive. Ou contatar a companhia telefônica”.
“Faça isso”, recolheu sua jaqueta jeans e seus óculos oitentistas em cima da mesa, e zarpou: “Eu vou com o Sobrinho passar a limpo a família Bosco”. Tinha o rosto pétreo, sem linhas de expressão ou movimentos reflexivos pela respiração.