Delação Premiada - Capítulo I

janeiro 23, 2017 0 Comments A+ a-

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Sua Excelência gozou sobre a prostituta, quando o interfone tocou.

“Deputado? O motorista da senhorita Lune Moon a espera...”, disse a voz através da linha.

Hermano Júnior se cobriu com o roupão roxo característico da suíte presidencial, ostentando o ridículo monograma do Betencourt Hotel. Pagou o ordenado, beijou a garota na testa e lhe encaminhou a saída. Depois, foi ao barzinho no extremo esquerdo do cômodo, afundando sua tarde de amor bandido com três pedras de gelo submersos em puro malte. “A vida me é muito boa...”, imaginou ao contemplar a vista metropolitana da cobertura. 

Prédios, painéis de neon, trilhas de pessoas, mais o concreto e o asfalto, sujeira e fumaça entupindo as ruas, eram uma realidade alternativa se confrontados aos papeis de parede ornando com os cortinados, o amadeirado luxuoso dos móveis, a refrigeração interna o eficiente atendimento. Refeição três vezes ao dia, hidromassagem. A vida é mesmo boa – até para um réu confesso.

Hermano Júnior recebeu o nome do falecido pai, que ergueu como um baluarte através do lema “pátria, família e propriedade”. Entrou na vida política graças à vultosa campanha do Partido Conservador da Nação Brasileira, em 2002, e desde então vem se mantendo na rebarba de poderosos calcanhares, e de ordenanças tão altas que chegam a nevar no topo.  Em seu terceiro mandato, sua ganância lhe pôs na rota da Operação Pandora, articulação da Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência que interceptou ligações de políticos e empresários com o crime organizado. Foi apelidado na imprensa como “O Tubarão”. Ao abrir a caixa de todos os males para os agentes da lei, e ser beneficiado por essa delação premiada, ele se metamorfoseou no submundo como “O Rato”.

Hermano comprimiu o lóbulo direito com a ponta do indicador, surgindo um brilho inconsútil na região e um beep cristalino. “E aí, aberração?”, cumprimentou o nobilíssimo deputado a um interlocutor invisível. “Já contei pra você aquela dos três retardados em um bar?!”.
“Vai se foder, Excelência...”, respondeu com a língua embolada e as bochechas cheias de ar. Era Francis, monitor de Hermano Júnior em seu cárcere, alvo das rotineiras chacotas por ser portador de Síndrome de Down.
“Não preciso, já fodi ainda há pouco. Quer saber como acabei com aquela novinha?”.
“Obrigado, mas eu ouvi tudo... Foi mais rápido que da última vez, não acha? Uns dois minutos!”, contraiu um riso engasgado.
“... Seu filho da p--”.

A relação de ódio e ódio entre detento e carcereiro começou assim que o Supremo Tribunal Federal bateu o martelo. Hermano foi convencido pelo advogado do PCNB a integrar um experimento com bonificação de pena e o desbloqueio de suas contas bancárias: um neurotransmissor para mapeamento e que limitaria seu acesso a determinadas áreas da cidade, mais um implante auricular para comunicação com Francis. Ele teria um quotidiano tranquilo, contrataria prostitutas, comeria codornas à moda Fasano, esgotaria seu fígado com doses duplas no brunch do Betencourt – se restringisse seu passeio somente às quadras da prisão domiciliar. Uns passos a mais de desobediência liberaria uma toxina potente através do neurotransmissor e paralisaria suas funções motoras. Seria levado para a penitenciária a reboque, tão expressivo quanto uma boneca de cera, para benefício de Francis.

O comando de voz do quarto reconheceu a voz gentil e polida de Hermano Júnior. “Ligar a televisão”, disse. “Preparar a ducha”. Ele se despiu do roupão, exibindo uma constituição física interessante para o homem maduro de quarenta-e-poucos anos, o peito coberto de pelos quase prateados pela idade e pernas flácidas. Vapores quentes do banheiro enchiam o quarto, exalando um breve perfume de alfazema. Uma âncora de televisão de gestos nervosos comentava o pânico no presídio central: uma rebelião estourou há algumas horas e contagem de corpos batia os dois dígitos. “Toda a polícia foi direcionada ao local. O secretário de segurança se recusou a comentar a tragédia” era o que mais se ouvia.

Atraído pela curiosidade, como rato salivando por queijo, Hermano voltou os passos até a televisão de 60 polegadas afixada atrás do barzinho. Agradeceu a Deus – mesmo sendo ateu – por não estar naquele presídio.

Não terminou de ouvir a notícia. Um estrondo de vidro perfurado desviou sua atenção, dando a entender ser um pássaro sem destino que teimou contra sua varanda. A dor veio milissegundos depois. Hermano sentiu a têmpora esquerda arder sobre brasa e um fino cordão vermelho escorrer pela maçã do rosto. Nos dois estampidos seguintes, o seu cérebro limitado entendeu a mensagem.

Alguém não o queria vivo neste fim de tarde.

Hermano deixou a lei da gravidade controlar o corpo, e seu rosto encontrou o chão. Estancou o corte aberto na cabeça com a palma da mão esquerda, enquanto a direita fazia o trabalho de se arrastar pelo tapete iraniano de fios de seda. Maior que sua egolatria, apenas o medo por essa circunstância. Hermano suspendeu um pouco a cabeça atrás de uma pilha de travesseiros a fim de ter uma visão da janela, feito o crocodilo emergindo no riacho. Entretanto sua audácia não foi bem aceita, respondida com mais dois tiros, que estouraram as penas de ganso dos travesseiros.

Imundo de penugem e sangue, espirrando e ofegante, com a testa fisgando de dor e o medo a chacoalhar os ossos secos, Hermano Júnior tinha de sair daquele monstro que escolheu como habitação. “Eu tenho de fugir...”, dizia para si. “Eu tenho de fugir daqui!”. “Eu tenho de fugir dele! Ele me encontrou... Ele...”, foi seu último pensamento antes de um quinto tiro atravessar o quarto, e fechar os olhos.