Delação Premiada - Capítulo II

janeiro 24, 2017 0 Comments A+ a-

Arte por https://nerdice.com/nerdivinas/look-do-dia-um-pouco-de-pop-art-pra-alegar-a-vida


“Deputado?”, perguntou Francis na linha de comunicação direta com Hermano Júnior. “Deputado?... Está tudo bem com vossa excelência?”. Os três monitores interligados do computador principal mediam a funcionalidade do neurotransmissor circulando no organismo, além dos batimentos cardíacos, pulsação e outros sinais vitais. Francis tinha dedos rápidos, impossíveis de segui-los a olho nu quando corriam pelo teclado, se agitavam mais que as correntes de pensamento.

Os batimentos acelerados e a pressão sanguínea irregular assustaram Francis, afinal, nem mesmo a mais intensa atividade sexual registrou esses níveis. O que de errado estava acontecendo no quarto 201 do Betencourt Hotel?

Hermano despertou encharcado no suor de seu rosto. O tiro acertou uma garrafa de conhaque português no barzinho, espalhando álcool na bancada de mármore Carrara. Ele não sabia se era a têmpora ou o coração quem pulsava mais diante do terror. Arrastou-se para trás até alcançar o móvel contíguo à cama, em busca do telefone. Esticou o braço para chegar ao fio e puxou com toda a força restante, discando o ramal da recepção. Foi sucinto em explicar a necessidade de um segurança na cobertura e um cartão extra para desbloquear a porta.

Em cinco minutos, um funcionário armado do Betencourt abriu a porta, posicionado em frente à varanda. “Algum problema, senhor Hermano?”. A resposta nunca foi ouvida nem nesta ou na próxima vida: um tiro milimétrico estourou a cabeça do infeliz, abrindo um painel de Rorschach na parede. Hermano inclinou a cabeça e vomitou uma massa disforme do almoço com as doses de bebida no turno vespertino.

“Hermano? Você está bem?”, perguntou Francis pelo implante no ouvido interno.

O nobilíssimo deputado se encolheu ao pé da cama queen size, limpando os fluidos corpóreos na roupa de cama de seda pura.
“Mande a polícia pra cá! Agora! Tem um desgraçado atirando no meu quarto e eu não consigo sair daqui! O segurança... O segurança...”, engasgou.
“Como assim?! Você está louco? Se isso for uma brincadeira...”.
“Eu juro por Deus! Por Deus, pelo diabo, pela Estátua da Liberdade, qualquer desgraça! O segurança do hotel levou um tiro na cabeça, eu também fui atingido...”.
“Você está bem?”, Francis assumiu uma postura de represente da lei.
“Eu tô sangrando, aberração! Claro que não estou bem!”.
Francis engoliu um nódulo seco e esmurrou a mesa.
“Preste atenção, prisioneiro. Você me deve respeito! Eu cansei de suas piadas estúpidas, do seu jeito grosseiro. Todos na Federal ignoram as suas regalias e presepadas, mas eu estou pouco me fodendo se alguma coisa te acontecer. Porque não vai ser a minha cabeça que vai estourar como uma abóbora no final da feira! Se você morrer, eu simplesmente sou direcionado para outra monitoria. Vida que segue!”, disse sem pausas.
“Okay... ‘monitor’. Pula o sermão e, por gentileza, envie uma equipe até o Betencourt”.
“Impossível”.
“O QUÊ?”, Hermano ergueu a cabeça no sobressalto, mas logo agachou, temendo outro disparo.
“Caso o prisioneiro não tenha assistido os jornais, tem uma rebelião em andamento. Faltam sacos pretos pra tantos corpos, e a polícia inteira foi destacada até lá. Ordens do Governador. Não tem nem mesmo um guardinha nas ruas... Eu posso solicitar que um agente vá até aí...”.
“Em quanto tempo, porra?!”.
“Duas horas”.
Francis pôde ouvir a respiração irrequieta de Hermano na transmissão.
“Hermano, me ouça”, comentou. “Está muito ferido?”.
“Não...”.
“Consegue se movimentar?”.
“Não sem tomar um tiro...”, respondeu.
“O segurança está morto, correto? Consegue ter uma visão da saída?”.
Hermano esticou o pescoço para chegar à visão da saída.
“Sim, eu consigo. Ah, mas você não quer que eu corra até lá, quer?!”.
“Deixa de frescura, e pensa!”, berrou Francis. “Eu sou sua única chance de escapar inteiro! Ou quase isso... Se o tiro veio contra a janela, é claro que há um atirador de elite no prédio da frente. A distância entre os prédios não favorece um tiro longo, ele precisa de uma visão perfeita da varanda. Sabe me dizer o tempo de resposta entre os tiros?”.
“O quê? Tempo de resposta?”.
Francis bufou.
“Sim... Quantos tiros ele já disparou?”.
“Quatro... Cinco, sei lá, porra!”.
“O que eu tenho pra te dizer pouco ortodoxo...”, Francis abaixou a cabeça se fixando em um ponto morto existente apenas em sua mentalidade equívoca. “Você já atravessou um lago de fogo?”.

De repente, o deputado parecia reagir como o cubo mágico nas mãos de um matemático. Ele se levantou com as costelas em ferro malhado e a pálpebra vibrando por cima da córnea, esperando o tiro seguinte. Quando ouviu o assobio e o trincar do avarandado, suas pernas lhe deram um impulso fortíssimo, com a adrenalina fedendo nos poros molhados, passando sobre o corpo inerte do segurança do Betencourt.
“Consegui! Consegui, porra!”, avisou para quem quisesse ouvir no hall da cobertura.
“Muito bem... Encontre alguém da administração, e se mantenha longe de encrencas, okay?”, aconselhou o monitor.

Hermano Júnior chamou o elevador principal, observando a imundície no chão do seu quarto. A arma do segurança jazia em sua mão mortiça. O prisioneiro voltou com cuidado até a porta, colhendo a Taurus 638 PRO com quatro balas no cartucho. “Melhor prevenir...”, pensou.
“Francis! Você precisa me tirar daqui!”, o conselho de Hermano tinha gosto e cheiro de ordem, “Eu não confio em ninguém!”.
“Impossível, senhor paranoico... Eu não tenho acesso para liberação das zonas bloqueadas, minha autoridade é apenas nível 2. O máximo que posso fazer, e com um bruto esforço, é liberar a sua saída do hotel até duas quadras”, respondeu.
Francis esperou uma tirada ríspida, uma bronca malcriada ou qualquer outro recurso humorístico do ex-deputado federal Hermano Júnior. Entretanto, teve retorno apenas do vácuo da ligação e uns ruídos do ambiente.
Mais um gaguejar.
Uma ameaça de grito.

E um tiro.