Duas Vidas - Capítulo Final

janeiro 21, 2017 0 Comments A+ a-

Wilheim Braun acordou com um sorriso de Deus nesta manhã. A construtora que leva seu nome iniciaria as obras de recuperação do Rio Ruhr a contar desta data, e todos os olhos da imprensa alemã – biológicos e digitais – estariam no início de tão importante operação. Há 28 anos que a morte da nascente do Ruhr centraliza as discussões sociopolíticas do parlamento, e Braun quer ser o norte de uma nova era em que o B estilizado do conglomerado também faça parte dos livros de história.

Mas era outro nome que cobriria um parágrafo inteiro.

Quando a primeira escavadeira fincou seus dentes na margem do rio, um cheiro pútrido tomou os arredores, impedindo a concentração ou mesmo qualquer poesia dali em diante. Com o buraco mais profundo, a camada de terra excedente tremeu com um impacto que vinha de dentro para fora. Parecia uma mão invisível rasgando o leito do planeta. Wilheim Braun só encolheu seu sorriso divino ao notar o desespero das mocinhas com lenço nos narizes domesticados. Assentada a multidão, do fundo do buraco, às margens do Rio Ruhr, um senhor decrépito tomava uma lufada de oxigênio puro, antes de gritar: “FEEEENRIS!”.

Saiu em todos os jornais. Capas de tabloides, redações online, redes de notícias 24 horas, memes e tweets: o cadáver vivo saído do subsolo foi o furor que aquela década morta precisava. Ninguém sabia o estado daquela criatura, se um dia fora humana, por quanto tempo esteve soterrada e quais as condições subumanas que teve de se submeter para conquistar sua sobrevivência. Sua pele tinha consistência de borracha queimada, embora a tonalidade fosse de papel higiênico reciclado; as pernas, esmagadas por centenas de quilos de terra fofa, sem músculos que recheassem as pelancas restantes. Seus ossos eram duros como os de ancestrais catalogados. Os cabelos grisalhos formavam uma nuvem densa por sobre a cabeça, espessura dura e cruel semelhante a fúria nos dentes e punhos cerrados.

A criatura foi removida para o Hospital Geral de Neu-Köhl, condicionada a um tratamento em neurogel – para reconstituição cutânea. Relatos mais íntimos dão conta de que balbuciava uma língua latina, ainda que com pinceladas de sotaque teutônico, cuja única palavra se resumia no nome feminino: “Hilda... Hilda...”. Os poucos dados de seu passado, unidos a um enviesado depoimento à polícia local, chegaram até Hilda Bäumler, oriunda do extinto vilarejo de Ulrich no Vale do Ruhr. Mulher batalhadora, guerrilheira, permaneceu firme à luta dos assentados e símbolo do combate à sociedade patriarcal. Falecida em 2042, vítima de enfisema pulmonar.