Duas Vidas - Capítulo I

janeiro 16, 2017 0 Comments A+ a-

 Arte por chasingrainbowsforever.tumblr.com
Arte por chasingrainbowsforever
Artho abriu os olhos justo quando o Boeing 787 deformara as nuvens de Dublin e a turbina esquerda rangia sob um clique infernal.

Ele não dormiu. Nunca dormiu, a bem da verdade, nem agora ou mesmo em seus primeiros dias. Em sua vasta escala cronológica, jamais conheceu a sensação de recostar a cabeça e se deixar flutuar pelas correntes de ar do descanso. Seus olhos castanhos já catalogaram tantos e tantos eventos, que hoje ele se dedica ao tedioso exercício de permanecer inerte.

Artho acenou para a aeromoça – com quem flertou o voo inteiro –, atrás de outra garrafa de água Perrier. Dedos grossos tocaram a porcelana das mãos daquela moça sob um movimento sinuoso de graça e luxúria, uma brincadeira que durou até o clique grosseiro da turbina. Os passageiros cruzaram olhares medrosos, mães com crianças, magnatas de black-tie, turistas agraciados com promoções da madrugada. A entonação coberta de polidez do co-piloto encheu as caixas de som: "Senhores, fiquem tranquilos. Essa é uma mera atividade do motor...".

O imortal encostou seu monólito de um metro e oitenta na poltrona e cochichou ao próprio ego: “humanos...”. Para ele, habitantes da Terra são criaturas repletas de anseios e atividades elétricas desreguladas, feito formigas roçando o chão batido. Formigas são iguais neste ou em outro braço da galáxia. Criaturas divertidas que ainda cometem - mesmo depois de seis séculos - guerras injustificáveis e se conectam sem propósitos aos semelhantes. Humanos eram formigas; Artho, o feixe de luz saído de uma lente de aumento.

A metáfora foi interrompida pelo primeiro BOOM.

O efeito jogou os passageiros do 787 para o lado esquerdo, comprimidos por uma pilha de corpos distintos e suas bagagens, também pelos carrinhos e os estilhaços de vidro das janelas opostas. Artho foi sugado pela pressão do ar até uma janela quebrada, forçando um apoio com os braços nas poltronas entre si para não ser arremessado. O ato lhe custou duas costelas e o ligamento dos dedos. A asa do avião parecia mais uma cartolina molhada, abrindo forma compassada muitos vincos de metal queimado e retorcido.

Artho viu seu esforço ser em vão no segundo BOOM. A turbina defeituosa engoliu os últimos passageiros em uma bola de fogo, varando a atmosfera feito o Halley. O buraco restante na fuselagem vomitou as pobres formigas para o céu alemão. O imortal vinha mais atrás.

O horizonte de Dublin foi tomado pela dança de corpos despedaçados e objetos em mesmo estado, roupas íntimas e mochilas se misturaram aos braços e torsos chamuscados e roxos pela hipóxia. Trajetórias de ferro e gritos surdos acompanhando o voo rasante até um campo verde coberto com pedaços de crânio e carnes moles ensanguentadas.

Artho foi um dos últimos a cair, fechou os olhos e sentiu o rosto afundar naquele gramado. E, mesmo assim, sequer desmaiou. Convulsionando com o sangue acumulado no que restou da mandíbula, suas costelas espetaram os principais órgãos internos, projetando uma a uma para fora de sua caixa torácica. O fogo no casaco de gabardine consumiu o tecido londrino, bem como suas costas, exibindo a pele carbonizada à roupa e os músculos. Já não tinha mais coxas ou antebraços, tudo era fundido ao capim, o sangue e a terra.

Esta agonia durou oito horas.

Artho manteve as órbitas lacradas. Não arquejou, nem exibiu um menor ar de insatisfação ao ouvir uma caminhonete em pleno vapor na estrada principal. De sua boleia, dois estivadores trilharam o campo mortífero, até encontrá-lo virado de bruços com a face reconstruída jazendo na grama.

“Der mann ist lebendig!”, gritou um dos homens, ao correr o braço pelo seu pescoço e notar uma respiração entrecortada.

“Wir werden sie in die stadt nehmen”, completou uma voz tenra e aflita vinda da direção da caminhonete.

Artho reconheceu o idioma. Aos poucos, sua memória e ímpeto regressaram aos pontos de origem sináptica: essas pessoas falavam um alemão indistinto, um tanto quanto rudimentar no traquejo. Arrastado até o veículo, com os pés roçando a grama úmida, sussurrou com garbo: “Wo bin ich?”.

Os socorristas ergueram sobrancelhas surpresas, mas não se deram por vencidos. Fecharam os rostos nórdicos e deixaram que a motorista respondesse, devolvendo a carga no mesmo tom: “’Ulrich’. Wir sind in ‘Ulrich’, Herr...”.

“Arthurius... Mein name ist Arthurius Cipriatis”.