Duas Vidas - Capítulo II

janeiro 17, 2017 0 Comments A+ a-

Arte via http://weheartit.com/entry/77160481/via/lolsilva
A criatura se esgueirou por detrás da imensa relva. Um binóculo lhe concedia todo o panorama da situação em Ulrich. Não sentia sono, nem frio ou mesmo cansaço, fazendo pouco até mesmo de um ninho de vespas na copa das árvores. O inseto pousou na textura mórbida de sua pele, atrás do exercício natural de ferroar tudo aquilo que parecesse criatura humana. Entretanto, “humano”, mais que uma característica, era uma metáfora pífia para algo como a criatura.

A primeira ferroada – tal qual um clique de relógio – pontuou a chegada de Arthurius Cipriatis no vilarejo, carregado pelos dois estivadores musculosos, fortes o suficiente para sustentarem o corpo do imortal. Mais atrás, vinha uma mulher de cabelos claros amarrados de forma elegante no lenço sujo, os braços marcados por cicatrizes descolores e vestida em uma jardineira puída. O acidentado foi acomodado durante a quarta ferroada. Posto em uma cabana de madeira envolta por seixos, magnetizou todo o tipo de atenção para si. “Der Mann, der überlebt!”, era o que mais se ouvia na boca daqueles vizinhos.

A criatura agarrou a vespa e esmagou com a pressão da palma da mão e dos dedos. Enquanto coçava os gomos avermelhados nos braços, conteve uma gargalha de escárnio, limpando o próprio sangue e o veneno com a língua.

Espero que o visitante agradeça o seu presente de boas-vindas.

Artho se recusou a descansar, por motivos alheios à sua natureza. Em alemão contemporâneo, pediu à moça que lhe trouxesse roupas decentes para passar a noite, e também que daria alguma compensação financeira pela estadia. Foi surpreendido mais por ouvir a dicção campesina do que pela resposta de que os bancos eram escassos. Nem bancos ou hospitais, as escolas públicas fechadas por falta de recursos e tudo que se comia vinha da terra e era fortificado pela água da chuva. “Que porra de lugar é esse...”, imaginou, na linguagem universal da irritação visível em seu rosto.

Limpo e satisfeito pela refeição de frutas e folhagens, Artho varou a alta madrugada aprendendo que seu pouso forçado se deu em Ulrich, uma comunidade anterior ao Vale do Ruhr, setor marginalizado da velha Alemanha. Só vira a região em fotos do Google Maps e nos cadernos de economia, graças a sua irrisória renda per capita. A paisagem empobrecida não favorecia sequer o turismo, poluída por árvores centenárias e que fediam a maças apodrecidas por onde quer que estejam. A cabana da motorista estava no ponto mais inclinado de Ulrich, dando uma visão panorâmica das cabanas milimetricamente estruturadas e das tendas dispostas ao longo das oito ruas. Indivíduos simples, opacos, displicentes até mesmo para uma pintura morta, mesmo os mais fortes.

“Was ist Ihr name?”, questionou Artho.
“Mein name ist Hilda”.

Hilda cuidou de Artho medindo sua temperatura e testando a umidade do ar, trocando as roupas de cama e perguntando ele sentia dor. Por vezes, quando o via fechando os olhos para meditar, acreditava estar dormindo, e cobria seu peito nu com as cobertas feitas de macela. Hilda tinha uma expressão triste e acanhada, feito um bicho ferido tentando agradar o dono com uma farpa a lhe espetar a pata. Essa farpa doeu nos momentos de ausência de Artho, quando Hilda chorava baixinho, pondo a mão na boca para conter um grito agônico. Não era pelo acidente ou a miséria que tomava a população minúscula de Ulrich: era dor plena e genuína, uma farpa antiga ferindo o peito da mulher.

Finos fios de sol entravam pelas frestas da janela da cabana. Artho esperou o cansaço baixar a guarda de Hilda para caminhar. Senhoras já se mantinham de pé estendendo as roupas em cordas ou varrendo a estrada de terra batida contígua às calçadas. Cobriu-se com um casaco qualquer no guarda-roupa e saiu. Há cem metros, uma aglomeração gritava a plenos pulmões, e disparou um alerta na cabeça fraquejada do imortal. Pareciam formigas no torrão de açúcar. Uma senhora se debatia no chão, praguejando sobre alguma desgraça, ora acolhida por vizinhos, ora seguida por outros lamentos.

Artho abriu espaço com braços firmes para logo se ver tão impotente como nunca esteve: largado no chão, um humano de baixa estatura foi retalhado, encharcado de sangue, pus e suor. Do toco do braço esquerdo, escorria uma massa disforme de músculos e ossos triturados, assim como os dedos da mão oposta. A quantidade sobre-humana de cortes em seu torso e rosto dificultava uma identificação precisa, o que não impedira a senhora escandalosa de notar uma marca de nascença no pênis da vítima. “Mein sohn, mein sohn!”, exclamou. “Era uma criança...”, pensou Artho.

“’Fenris’”, disse uma voz desprovida de sentimentos. Era Hilda, posicionada no fundo da multidão, mantendo o campo de visão no nível do chão. E repetiu: “Fenris... Fenris...”.

As pernas do imortal não respondiam aos comandos naturais de partida e chegada, estacando naquela posição. Fenris, o nome do lobo da mitologia nórdica, símbolo do apocalipse e assassino do deus Odin. Fenris matou uma criança. Mas a brutalidade sem propósito não é do feitio dos caninos, e disso o homem que viveu seis séculos sabia.

Era obra dos humanos.