Duas Vidas - Capítulo III

janeiro 18, 2017 0 Comments A+ a-

Arte por https://goo.gl/e80gYA

1498.

A caravela Madre Nuestra cavalgava os mares indóceis do continente africano, com uma pequena tripulação de desbravadores a lamber os beiços com as possibilidades de chegar à frente da coroa portuguesa. O vento soprava o mormaço cortante do fim do século. O Mestre do Navio se apressou em comunicar ao Capitão a presença de formações rochosas há trezentos metros, sendo uma delas de enormes proporções. Era preciso cautela. Quando o galeão circundou o obstáculo, notaram uma incomum rigidez da suposta pedra. Não era pedra. Sua constituição sólida e estrutura ovalada deixaram boquiabertos os imediatos, e de uma escotilha no centro do objeto saía uma criatura humanoide tão corpulenta e imensa como nunca vista.

2017.

Artho passou as horas seguintes sentado na cama, os braços laçando os joelhos e a coluna ereta, retesada, tão firme quanto sua expressão facial. A imagem do menino estraçalhado vinha e voltava em insights, uma pintura sinestésica conforme aquelas feridas escarlates ganhavam som de presas e cheiro de pelo molhado. Se o diabo desenhou essa figura, a mão de Fenris cuidou da arte-final.

“Angst...”, comentou Hilda ao regressar para a cabana. Sentou-se na cadeira de balanço e esticou as pernas, pondo os sapatos sujos de terra no chão. As tábuas de madeira rangiam com o baque dos seus pés doloridos. Tinha sujeira e terra seca no rosto claro, sem contar os olhos inchados e avermelhados, que conseguiam esconder o límpido azul de suas íris exaustas. “Angst”, repetiu.

O imortal resmungou com uma arfada de deboche. “Medo, pff... Imagine!”, pensou. Mas Hilda não se dobrou ao gigante caído dos céus. Ela evitou indagar sobre sua vida, da forma milagrosa como sobreviveu a um acidente aéreo, passou por cima de seu ego de cavalheiro ferido e até sua falta de reação ao testemunhar um corpo banhado em sangue. Mas Artho não se deu conta de que Hilda era somente humana – e que humanos entendem de reações óbvias entre seus semelhantes. Hilda não ia tolerar alguém criando subterfúgios para se esconder de si mesmo. E desta vez, ele se encontrava previsível, corriqueiro, uma leitura menos rebuscada e vulgar de si mesmo, de fácil assimilação e reduzida ao caos. Os delírios vivos de Artho eram a forma de reagir ao inesperado: Artho tinha medo de Fenris.

1789


O homem gritava palavras de ordem em frente ao Palais Royal. Bradava sobre repressão, pólvora, correntes, um apocalipse cotidiano inflamado por sua retórica convincente. A criatura girou seu pescoço até manter visão privilegiada daquele orador. Paris ardia como a pólvora a ser estourada nas horas que escorreriam. A criatura apreciava contendas. Sentia um prazer inexplicável em jogar com as vidas dos habitantes terrestres, vistos do lado de lá como os estrangeiros. A perspectiva de cenário era mais bem saboreada quando se olha pelo lado contrário do telescópio.


Haveria uma guerra dali em diante. “Que ótimo!”, pensou a criatura. A partir de então, também viveria de guerras.


2017


“Isso nunca! Onde já se viu?”, Artho não quebraria seu vaso ruim dessa forma. Medo. Isso é congênito dos humanos, não de algo sublime como ele. Artho era até mais sublime do que os seus. Lembrou-se de enfrentar corsários pustulentos, dos gladiadores em carne viva, a sedução dos burgueses e a ira silenciosa dos ludistas. O crack da Bolsa, as guerras. Os bailes fardados e a marcha dos cavalos. “Eu nunca durmo... Deve ser isso.” Mas não era medo. Assim como ele, esses delírios lúcidos eram algo novo.


“Fenris hat meinen bruder getötet…”, Hilda confessou. Contou que o apelido “Fenris” fora cortesia de seu irmão, um rapaz de constituição patética e com falta de mola nas juntas, saído do mesmo molde delicado que ela. Era obcecado pela cultura do país. Sonhava em ser um bárbaro de pele leitosa e agressividade nos gestos, embora chorasse dentro das cobertas ao relembrar da orfandade. Tinha Hilda como a irmã, a mãe, a professora. Também contou que os ataques começaram a dois meses, primeiro com os animais criados ao ar-livre no vilarejo, em seguida para trabalhadores braçais que chegavam à alta madrugada. Klaus foi o próximo.


Ninguém conseguiu impedir ou mesmo prever a ação feral desse assassino, nem com armas de caça ou barricadas, nem mesmo grades ou paredes, não existem dias ou padrões. Ele se esgueira como o vento do leste, a fresta demoníaca por trás das coisas. Artho refutou a hipótese de ser mesmo um lobo – ou algo mitológico; já o bastava, visitante de outra dimensão. De forma pouco atribulada, questionou Hilda se poderia ser um dos moradores de Ulrich, a contar pelo espaço reduzido de alguém agir e se esconder com tanta mobilidade.


Hilda abanou a cabeça e inquieta por imaginar amigos de infância e padrinhos como estripadores grotescos. “Warten...”, pediu. Ela retirou do forro do guarda-roupa uma caixinha rústica de madeira com o seu interior recheado de cepas que protegiam o conteúdo. Artho se aproximou e concluiu sem muito esforço que se tratar de um papel enrugado, com bordas ressecadas de barro e sangue. Hilda explicou que isso estava na boca da primeira vítima humana, um entregador de leite de 71 anos.

A escrita formava um aglomerado de cifras desconexas, traços, barras, espirais, era algo como o rascunho de um letrista bêbado. Pareciam formigas. Foi quando Hilda notou os olhos estendidos, a boca trêmula e o suor na testa profusa de Artho. Perguntou se ele entendia o significado do desenho, e Artho respondeu que "Ja". Era uma língua morta. Aos mais puristas, representava o ideograma de "família" nessa língua.

Fenris escreveu. Fenris sabia ler tal ideograma.

Assim como Artho.