Duas Vidas - Capítulo IV

janeiro 19, 2017 0 Comments A+ a-

Arte por https://goo.gl/ddh1PQ
Artho atravessou as ruas de Ulrich com Hilda em seu rastro.

Não tinha estômago para moer a informação. A tradução do ideograma desenhado era uma das representações de sua identidade alienígena, e se Fenris escreveu aquilo, bastava conectar os pontos para saber que essa besta-fera sabia o seu longínquo passado. “Impossível... Impossível...”, repetia Artho no idioma latino-americano. Uma incompreendida Hilda batia os pés firmes no chão úmido, alongando suas pernas de vara para tentar alcançar o visitante. Paf, paf, paf. Por uma viela, o imortal via um par de olhos em chamas e um colar de presas brilhantes refletidos em sua direção. “Saia da minha cabeça!”, gritou – grito de lamento, de agonia, feito ave de rapina. Habitantes próximos ao raio de ação, desacostumados com o sobrevivente do Boeing 787, se ergueram de suas cadeiras ou batentes de janela, amedrontados com a fúria daquele estranho.

“Ruhe gibt...”, disse Hilda. Pôs a mão delicada no ombro de Artho, diminuindo o batimento acelerado e a atividade sísmica dos seus pulmões. O atrapalhado gesto uniu o calor da pele na sua, um tipo de simbiose confortável que nunca sentira em séculos. Ela, em anos. “Danke, Hilda...”, agradeceu ele.

Artho pediu a jovem que lhe mostrasse o local do primeiro crime. Seguiram até um fosso à esquerda da aglomeração de casas de madeira na última rua, e Hilda apontou para o último descanso do idoso entregador de leite. O próximo assassinato se deu embaixo de uma macieira na entrada de Ulrich, a árvore mais antiga do vilarejo – uma enfermeira de 27 anos, casada, protestante e de boa formação moral. Depois, a Artho e Hilda passaram por uma estreita ponte de madeira, um córrego, uma plantação de tomates, e mais um número sombrio de localidades. Paf, paf, paf. Tudo naquela cidade era molhado. Por fim, estacionaram no cruzamento das ruas onde o menino foi despejado. Perguntou se Hilda tinha encontrado outra pista, como a do bilhete, ao que ela respondeu secamente: “Nein...”.

De súbito, um dos brutamontes que carregaram Artho até a cidade surpreende Hilda com a notícia de que uma viatura está vindo pela estrada principal, e encara o acidentado com olhos semicerrados. Estava claro que os vigilantes queriam informações do único sobrevivente. Artho odiava os polícias. São desnecessários em mundo inconfiável, onde cada humano cuida de si, são barulhentos, donos de péssima mira e barganham suas almas por tão pouco. Ele pediu que Hilda o mantivesse oculto até que conseguisse esclarecer a situação sobre Fenris. Pediu, não: implorou. Vendo os olhos daquele homem se tornando uma bolha cristalina de angústia, só restou a Hilda ordenar que seu colega o levasse para fora de Ulrich usando a caminhonete. Deu-lhe roupas mais discretas e uma boina puída, estocadas na boleia. E um abraço de boa sorte antes de ser extraviado.

Se a arrancada da caminhonete foi prejudicada, seu trajeto, ao contrário, foi tranquilo, com o exímio motorista passando as vias cobertas por mato e limo. Artho percebeu que não chovera nem ontem ou hoje, e também que a lua se erguia obscura no horizonte.

“Ich hasse Bullen”, resmungou o motorista.
“Auch ich...”, completou o carona. Deram um riso curto.

O colega de Hilda não rodeou em saciar sua curiosidade quanto a origem de Arthurius Cipriatis. Este inclinou sua coluna e procurou seu tom mais professoral e educado para a explicação: vinha “de um lugar distante”, muito longe, onde “as estrelas do céu eram mais próximas”, porém tudo veio abaixo quando “os seus líderes queriam explorar outras terras”. Artho “ficou sozinho no mundo”, e precisou “viajar muitas léguas” até encontrar uma “comunidade frutífera o suficiente para uma nova adaptação”. Ele atracou “em um arquipélago no norte do continente americano”, aprendeu seu idioma, seus costumes, e percebeu que “a distância sentimental de casa já era maior que a distância que o espaçava de lá”.

Em retribuição, o homem – apresentado como Eric – relatou para Artho como Ulrich se tornou esse lugar idílico e esquecido pelo governo alemão. O mapa da cidade era rota do tráfico de drogas no início dos 70, que declarou o sítio uma terra de ninguém, sem legislação ou direitos constitucionais garantidos. Semanas após a Queda do Muro de Berlim, a região recebeu centenas de enjeitados da recessão econômica, que alçaram moradias paupérrimas e firmaram campos de plantação. Dali surgiria o embrião a formar “Ulrich”, em referência ao líder homônimo baleado durante um conflito com a Landespolizei, acusado de comunista. A última intervenção estadual se deu há seis meses. “Wasserleitung”, finalizou Eric.

"Encanamentos?". A constante umidade no solo errático de Ulrich, os rastros impossíveis de prever... Mortes sempre próximas a lugares com escoamento de água. Água. O fluído da vida era a resposta.

Artho suspendeu o freio de mão da caminhonete, que guinchou antes de estacionar. E gritou: "Zurück zu Ulrich, jetzt!".