Duas Vidas - Capítulo V

janeiro 20, 2017 0 Comments A+ a-

Arte por https://goo.gl/lGfyKs

Prestem atenção.

Tenham a paciência de me ouvir. Não neguem o último desejo de um homem que padece.

Meu nome em minha terra natal se compõe em oito blocos gráficos. Assim que me normatizei as nomenclaturas terrenas, não me furtei em copiar o nome de um velho mercador grego que me ofereceu casa e comida, em troca de trabalhos braçais. Foram as prostitutas de Londres que reduziram a sua alcunha: “Artho”.

Desde o século quinze, tenho rodado o planeta dos humanos em busca de um ideal, algo que faça minha longeva estrada valer a pena. Essa insatisfação congênita batia no peito de todos os meus consanguíneos. Éramos incapazes de reprodução, portanto, limitados há centenas de milhares de anos a nos habituarmos com rostos semelhantes, rostos semelhantes, presos por gerações e gerações na dança da vida. Quando nos tornamos mestres na fabricação de motores potentes, singramos o espaço adentro em um estudo sobre perpetuação de espécies, pois éramos um número ínfimo se comparado aos humanoides da Via Láctea. Não lembro se fora o tecido azulado que cobria o planeta ou sua tecnologia anacrônica, mas a Terra me atraiu como um shlkok atrás de um pedaço de geez. Decidimos abandonar a civilização e esquecermos uns dos outros.

Eu achava que era o único no mundo. Neste mundo.

Fenris conhecia uma língua extinta há mais de seiscentos anos, um código íntimo nublado pelas nuvens do meu esquecimento. “Família”, seu significado. Um brasão de família confeccionado pelo coletivo, representando que éramos muitos em um só. Éramos bisavôs, avôs, pais, irmãos, filhos e netos uns dos outros. E Fenris, a ovelha negra. A maçã podre.

Mas quem era Fenris?

Tentei equacionar essa pergunta durante o trajeto de retorno à Ulrich. Eric discutiu comigo, me chamou por uma dúzia de grosserias impronunciáveis, porém eu não deixaria essa reticência. Fui intempestivo, confesso. Questionei Eric sobre a maldita reforma na tubulação, concretizada muito antes dos ataques de Fenris ao vilarejo, e descobri que tal benfeitoria fora um convênio tácito entre o ministério de Nordrhein-Westfalen e uma empreiteira de Köhl, a fim de canalizar o fluxo do Rio Ruhr para o vilarejo. Nem mesmo o governo sabia quem estava por trás da empresa privada. Ah, Fenris, seu lobo maldito... Quão diabólica é essa mente para mover todas as peças de forma tão milimétrica – e quão idiotas fomos em sermos arrastados pelo tabuleiro assim?

Eu tinha de voltar. Não era herói, nunca fui – ao contrário! Mas tinha de voltar por alguém. Por ela. Hilda, a doce Hilda, se tornou muito importante em um breve espaço de horas, era o “algo” que valia a pena na minha busca. Eric e eu piscamos os olhos e estávamos no mesmo ponto onde fui deixado, descemos da caminhonete e, seguindo a indicação do colono, fui até uma nascente. Distando trinta metros do solo, se encontrava o emaranhado de tubos e conexões que redistribuía a água do rio até Ulrich. Recomendei a Eric que vigiasse com outros moradores os poços ou saídas da tubulação, que esta possibilidade era real e não um visgo de esperança inútil, como nas outras vezes. Esta noite, a cidade pegaria o seu assassino.

Então, chegamos ao raio da história.

“Gestoppt! Polizei”, foram os gritos de ordem do oficial. De costas e cativo em meu próprio desespero, fui mantido refém de costas para ele, sem puder ver seu rosto. São fascinantes as sensações de quando se é privado das imagens. Notei os ruídos e odores ao fundo, os passos frenéticos de meus hospedeiros. A vozinha aveludada de Hilda ao fundo, tentando se fazer forte para seus vizinhos, e também a mim. “Solte esse homem! Ele é inocente”, comentou ela ao policial.

“Er ist der überlebende?”, interrogou o meu algoz. 
“Da”, respondi.
“Was ist ihr name, fremder?”.
“Arthurius Cipriatis”.
“Nice to meet you, brother...”, respondeu desta maneira. Ficou desfeito de qualquer personagem naquele instante, exibindo sua entonação abafada e grossa, feito o eco das águas subterrâneas, imersa no sotaque britânico.

Girei meu rosto o máximo que consegui e pude analisar suas feições. Um humanoide da minha estatura, portando um rosto tétrico com queixo quadrado e maçãs do rosto profusas. Como o meu rosto. Cabelo emplastrado em gel e óculos escuros em pleno período noturno. A imagem me acertou na cabeça ao ponto de me envergar. Eu já reconhecia a criatura. De dias atrás. E séculos atrás, também. “Nice to meet you, Fenris...”, foi o que rebati.

BANG! O policial sacou a arma e atirou em minha cabeça.

O vácuo de sangue e pedaços de crânio voaram para trás, e caí outra vez com a testa no chão, um padrão que o universo insistia em repetir. Lembro de nada. Antes de convulsionar e entrar em suspensão, recordo do grito apavorado de Hilda e o clamor dos outros germânicos. Um manto escuro cobriu minhas vistas e só reprocessei as memórias quando acordei. Ergo-me do chão ainda de membros tremulando, parado no tempo antes do tiro. 

Fenris abre e joga os braços ao ar, distanciando a população catártica para longe de mim, avisa que a polícia de Berlim estava no meu encalço e que ele é responsável por “minha investigação”. Sem quaisquer sequelas do tiro e o ferimento de entrada cicatrizado como se nunca houvesse, todos em Ulrich me fitam como uma aberração, algo anti-humano. Até a doce Hilda. Fenris chuta minha panturrilha e sou lançado ao chão, põe meus pulsos nas costas e ouço o clique violento das algemas em minhas mãos. Carregado como um Deus até Ulrich, sou retirado dele em uma viatura, igual um demônio.

Permaneci estático no banco traseiro por cinco minutos até reconhecer a estrada principal por onde vim. Em breve, passaríamos no campo onde fui encontrado. Fenris sorriu todo esse tempo, satisfeito em ter execrado minha reputação, ter exposto minha imortalidade, colocado em xeque minha credibilidade diante o povo que me recepcionou mesmo tendo tão pouco.

“Quem é você?”, a obrigação me fez perguntar a ele.
“A memória é o primeiro indicador da velhice, irmão... E nós já somos muito, muito velhos...”, disse. “Eu era tão insignificante assim em nosso planeta?”.
“Você estava no avião, não era? Você também era um dos passageiros daquele avião! Eu me lembro de estar nas últimas fileiras”.
“Sim, ‘Artho’... Lembra daquela aeromoça com quem flertou a viagem inteira? Encontrei o que sobrou de seu corpo sendo devorado por cães selvagens há um quilômetro de onde você caiu... Um caldo imundo de ossos e órgãos que não era mais nada em questão de minutos. São essas criaturas frágeis por quem você se apegou? Criaturas que se quebram como bonecas de porcelana”.
“Como foi que planejou tudo isso?”.
“Bom, requer um bom investimento... e pessoas interessadas”, riu. “Investi milhões nessa operação, me deliciei com cada probabilidade. A empresa fantasma que investiu nas tubulações daquela cidadezinha, o engenheiro da companhia aérea que sabotou a turbina do avião...”.
“Impossível! Como sabia que eu iria cairia justo em Ulrich? Justo na cidade onde você começou a matança? Ninguém conseguiria isso, seu lunático...”.
“Eu consigo, ‘Artho’”, seu sorriso encrudesceu. “Eu não perdi tantos séculos com mulheres da vida e farras até madrugada... Eu estudei. Aprimorei meu cérebro. Só precisei do acesso ao plano de voo do Boeing e um cálculo avançado de probabilidade sobre estabilidade do vento para reduzir as variáveis. Mas valeu muito a pena. Com você foi muito mais divertido”.
“O quê? Como assim, ‘comigo’?”.
“Pobre irmão... Está tão distante de casa que não consegue ver o subtexto. Acha mesmo que é o único imortal nesse planeta insípido?”.
“... O... único?”.
“Eu caço imortais desde a Guerra do Vietnã. Eu tinha uma mulher... Filhos. Vivi na Grã-Bretanha desde 1800 perpetuando minha linhagem à população do velho continente. Mas a má sorte me levou até Saigon naquela época... Fui capturado por uma brigada americana durante uma mudança de identidades e utilizado nas frentes de batalha para identificar minas terrestres e potenciais armadilhas. Todo maldito dia eu morria e voltava, ‘Artho’. Até matar um por um dos filhos da puta”.
“Eu... sinto muito”.
“NÃO SENTE NADA! Nós somos arrogantes demais para perceber a maldição que a Grande Explosão nos deu! Dia após dia eu busco uma forma de eliminar a nossa genética podre da face da Terra! Eu fugi da guerra, mas a guerra está incrustada em mim... Em cada gesto, em cada... Cada... Ah, com licença”. Fenris pegou a arma no coldre e atirou na própria cabeça. Um esguicho rosáceo saltou ao mesmo rosto e o susto congelou minhas pernas.
A viatura foi perdendo força quando os pés de Fenris amoleceram, o que permitiu fugir do cativeiro andante. Cambaleando no mato adentro do Vale do Ruhr, meus ossos do crânio pulsavam submergidos à ideia de liberdade, de escapar de uma ameaça milenar que já vem exterminando outros irmãos biológicos.
À margem do rio, cinco minutos depois, ouço o crepitar dos galhos há metros de mim. O lobo tinha acordado, com a cabeça reconstruída. Segurava uma pá na mão esquerda. "Desculpe, esse é um vício que tenho desde as torturas em Saigon... O fluxo de dados é maior do que posso suportar e preciso, de forma um tanto quanto rude, liberar o excesso...", professorou Fenris.
"O que vai fazer comigo?", gritei. "É isso que te dá prazer? Envolver a nossa raça em um jogo de poder?! É isso que te dá tesão, é esse o seu fetiche?".
"Não, irmão... Essa é minha missão". Fenris avançou até mim sem oferecer chance de fuga ou clemência, acertando a pá contra minha cabeça, uma, duas, seis, trinta vezes, liquefazendo olhos, dentes e cérebro junto ao barro e a água turva do Ruhr.

Era o fim.