Má Formação - Capítulo V

janeiro 05, 2017 0 Comments A+ a-

Residência da família Bosco, Curva do 90, Vinhais

“Meus pais não estão. Foram à igreja. Gostariam de deixar recado?”. Édipo Bosco recebia o investigador Vitor Lupo, por trás do gradeado de ferro. Trajava uma bermuda de tactel, a regata amarela e azul do time de basquete e os tênis de treino. É um adolescente acuradamente esquisito, abobado, com as orelhas largas e semblante profundo. Uma sombria companhia.
Mas nenhum só fonema foi ouvido por Lupo. O ar congelou ao seu redor e o tempo pareceu esperar sentado em uma cadeira, com as pernas cruzadas. Suas sinapses dispararam tal qual cavalos de corrida reagindo ao tiro de largada. Como Deus ao cuspir o primeiro átomo da Grande Explosão.
O xerife se aproximou do portão. Segurou nas grades como um penitente, forçando seu rosto elástico entre os ferros, lançando o quadril para trás. Fitava o bandidinho indomável: “Não quero mais conversar com os teus pais. Minha conversa é contigo”.
“Comigo? Algum problema?”.
“Dois problemas. Mariana Gramado e Felippo Guedes”.
Édipo Bosco tinha entupido suas expressões faciais com arame, parecendo humanamente impossível virgular qualquer riso ou dor: “Soube que ele morreu nesta madrugada”.
“Não parece sentir pena dele. Parece mais estar aliviado”.
“Cada um cuida do luto da melhor maneira”. Édipo mantinha o rosto enrijecido, lunático.
“Inacreditável falta de empatia para com um ‘irmão’”, baixou o olhar.
“Gostou dos meus tênis?”.
“Não. São ridículos. Incomodo?”.
“Bastante”. Édipo apenas pontuava os finais das frases com um sorriso sutil, beirando ao intangível: “Não sei o que o senhor quer... Se veio até aqui fazer graça ou insultar o meu estilo”.
Lupo acarinhava a ponta do seu dedo polegar no indicador direito do jovem, que soltou um murmúrio de nojo. Ironizou: “Já cicatrizou?”.
“Ah, detetive... Isso é assédio. As pessoas podem maldar. Eu sou menor de idade, cuidado”.
“Certo, você é menor de idade. Não pode ser preso como deve”.
“Okay. Vamos encerrar essa troca de acusações sem qualquer critério?”.
“Quem disse que está sendo acusado? É apenas uma conversa”.
“Não, é uma acusação sutil por causa de uma cicatriz e um par de tênis. Argumentos tão deturpados quanto o seu rosto”.
“Por favor, tenha coração...”, Lupo passou o braço pelas grades e seus dedos gelatinosos tocaram o ombro esquerdo de Édipo Bosco, que gemeu e se afastou. Despediu-se: “Tenha um bom dia”. Seu sorriso era o de um enxadrista à véspera do xeque-mate.

Sobrinho atentou à conversa ao longe, conversando com Palena pelo celular. Quando seu parceiro vinha a seu encontro, repassou: “Palena checou a lista do núcleo de oração. A família Bosco atua no local há mais de dez anos. Mas Édipo Bosco era o único que não participava ativamente ao grupo”.
“Édipo Bosco”, repetiu o outro.
“Isso. O filho adotivo. Frequentava o núcleo de oração em dias alternados, mas desde Janeiro adaptou sua rotina aos dias em que Felippo Guedes participava”.
“Édipo Bosco”, Lupo voltava.
“Esse mesmo... É muita ironia machadiana”.
“Édipo Bosco!”, tinha agressão nas pregas vocais
“É, criatura! O rapaz de nome esquisito--”.
“Foi ele, Lídio. Foi ele”. Algo ora bizarro, ora prosaico, ora insólito desabrochou ante os dois: “Ele se encontrou com Mariana Gramado, fugiu após sangrá-la. Planejou incriminar e matar seu companheiro de célula Felippo Guedes. Tudo isso em quatro dias, e ainda teve tempo de cortar o cabelo. O laço do seu tênis era idêntico ao das sacolas na casa de Mariana Gramado. E seu indicador direito estava cicatrizando”. O desmantelo assobiava no peito de Sobrinho: “Ele é totalmente desprovido de emoções. É um animal irracional, seu corpo se move apenas pela necessidade. E ela inclui estripar, manipular, destruir... Sua retina nem se moveu quando o confrontei. Mas não suportou o meu contato ao dele, típico de um psicopata”.
“Isso é circunstancial! Com isso não se consegue nem conversa. Uma pessoa não pode fornecer provas contra si mesma involuntariamente, isso é legal. E ele é menor de idade! Os responsáveis teriam de concordar com isso”.
“Mas a Justiça não é obrigada a fornecer todas as evidências que tem para interrogatórios. ‘Isso é legal’”, debochou.
Gloriana Machado, a “Viúva Negra do Cohatrac V”, envenenou seus três maridos anteriores, mas Vitor Lupo a deteve no dia do quarto casamento e ainda saiu com uma bandeja de bem-casados. Reinaldo Novaes assaltou quatro residências e brutalizou seus moradores por um trimestre, até Vitor Lupo rendê-lo dentro de um cofre-forte, elucidando seu próximo ataque feito um jogo de damas.
Mas Édipo Bosco era cada instante mais vasto, absoluto, cada instante mais poderoso, enquanto Lupo definhava à inexistência. Ele precisa de um sinal ou um momento de alívio. Uma placa ou uma arma carregada. Uma mensagem nas nuvens ou uma overdose. Ele precisa de mais uma chance ou a noite final.
“Você parece triste, Lupo”.
Se tivesse alma, seu rosto malforme pareceria triste: “Essa vida é uma merda”.
“Por quê?”.
“Porque é. É um mundo cão, mesmo”.
“Fala por complexo de rejeição?”.
“Digo isso porque todos me procuram quando estão em maus-lençóis. Ou me procuram quando suas tramas estão confusas, seja lá qual for o tipo de trama”.
“Já devia se acostumar com isso, não?”.
“Parece... parece que sempre estou pra estancar uma ferida e no final a pessoa acaba bem. E vai embora. E eu? Não serve, não sirvo”. As palavras fazem da língua o seu trampolim: “As pessoas acham que eu tenho independência suficiente para curar minha própria dor. Estou pensando menos nela, na dor. Evitando e conseguindo seguir. Porque por mais que canse, tenho uma independência de viver sentindo. Eu sou cigarro que as pessoas esquecem ainda aceso no cinzeiro”.
“Sabe... Eu fumei um prensado do Paraguai uma vez que me fez dizer estas mesmas coisas”. Gargalharam como se tivessem oito anos. Lupo girou a chave na ignição e ligou o rádio portátil, com um pendrive conectado. Selecionou o modo shuffle e se pôs a meditar. Na saída da Avenida Jerônimo de Albuquerque, seu celular recebia a chamada de Palena Prado. Atendeu e colocou no auto-falante: “Me ilumine, ‘Pan’, por favor”.
“‘Pan’? Quem é ‘Pan’?”, explodiu Sobrinho.
“Sou eu. Me sinto mais confortável assim”, ela prorrompeu: “Tenho as novas do consulado britânico. Nenhuma Mariana Gramado tinha dupla cidadania britânica antes de '95. E o depósito acaba de liberar os pertences de Felippo Guedes. O celular está avariado, mas a engenharia salvou o último backup dos arquivos e dados. Posso começar sem vocês?”.
Lupo conhecia cada pedaço do tempo. Até que conheceu “Pan”. E foi assim que o Senhor do Tempo perdeu a hora pela primeira vez. Do outro lado da linha, já abençoada pelo seu coordenador, ela farejou o celular como um sabujo. Uma chamada na hora do crime, uma mensagem subversiva nos chats ou redes sociais. Passou até as coisas inúteis, como rankings nos jogos, o crédito diário no telefone, até quais aplicativos não foram atualizados. “Road”, sussurrou.
Lupo aplainou as dúvidas: “‘Road’? Um aplicativo para motoristas e usuários de transporte público. Busca por engarrafamentos, acidentes e até blitze de trânsito por um sistema de mapeamento”.
“Felippo Guedes era um usuário constante. Estava no nível 5 da graduação geral. Tem 163 amigos e seu tempo de utilização beira os dois dias completos, desde o final do ano passado. E sua última mensagem foi enviada na madrugada deste domingo...”.
“Qual o nome do usuário com quem o Felippo conversava?”.
“‘Elektra17’”, respondeu.
A mente de Vitor Lupo era como uma cidadela em chamas. Sobrinho questionava qual o interesse de um adolescente em exterminar a amiga dos pais que não fosse algo muito torpe. Lupo preferiu praticar a devoção às suas acrobacias intelectuais, uma veneração e zelo à beleza, esquecendo de si mesmo, tentando se misturar naquilo que, em dado momento, é muito superior ao resto. Os nós, a digital, a viagem de Vera Bosco, a autópsia de Mariana Gramado, o passaporte. Limitou-se: “Busquem para Joyce Garcia. Liguem para os cartórios da capital. E eu quero o Sanches no meu gabinete. Já sei como essa história termina”.

Secretaria de Segurança, Centro Histórico

A mesa estava posta e a cama na varanda para quando os convidados chegassem. A Força-Tarefa possuía a fome matutina de uma dispensa vazia. E seu coordenador, um sorriso que brincava nos lábios quando Vera e Jorge Bosco subiram para o terceiro andar. Mais atrás, Édipo.
“Boa tarde”, cumprimentou Vitor Lupo: “Venham até a minha sala”.
Palena Prado, Lídio Rocha Sobrinho e Renato Sanches completam a comitiva. Ela trancou a porta assim que os sete aglutinaram.
“Qual a importância disto tudo, investigador?”, perguntou Jorge Bosco. A profunda sombra em seus olhos era maior do que o castanho-claro no centro.
“Peço desculpas pelo modo cênico como estou resolvendo isto tudo, não sou adepto aos dramas familiares. Quero ter a conversa definitiva sobre Mariana Gramado”.
Os cabelos loiros bem aparados realçavam a melancólica beleza de Vera Bosco: “Já dissemos tudo”.
“Certo. E o que a senhora disse sobre Fernando Lemos?”.
“Oh...”, a senhora Bosco clamou.
“Fernando Lemos foi o seu primeiro namorado. Em '95, se envolveram durante a sua viagem de intercâmbio à Inglaterra. Não contava que seu romance inconsequente desse... ‘frutos’. A senhora voltou grávida para o Brasil, enquanto Fernando Lemos dedicava outras prioridades”, esclareceu ele, sem tirar os olhos de um danoso Édipo Bosco.
“Espera, espera!”, gritou a senhora Bosco para todo o QG ouvir: “O que meu antigo companheiro tem a ver com a deputada?”.
“Diga, Édipo!”, Lupo falava candidamente para o filho perdido: “Diga o que Fernando tem a ver com a nobilíssima deputada? Diga o que você sentiu quando tomou a mão de Mariana Gramado na noite de quinta-feira. Quando concedeu o ato primordial a qualquer progenitor. Ela tomou seu pulso e fecharam as mãos, não foi?...”. Édipo se enfurecia por dentro da máscara: “Aposto que mal encostou os lábios nas costas da mão dela. Suas pregas vocais nem trabalharam quando fez o pedido. Seus ouvidos se fecharam para a resposta emocionada”.
O rapaz teve seu protesto negado por Lupo: “Você tomou a benção para Mariana Gramado. Planejou tudo meticulosamente, só quando foi confrontado com um feito sentimental, perdeu o chão. As meias, a taça, o tapete, o sapato, a arma de pregos... Toda a sua programação foi abaixo quando permitiu que ela o tocasse. Por isso, foi descuidado com a digital parcial e por ter amarrado as sacolas em cima da mesa no final”. Seu contra-ataque é uma tempestade tropical, arrastando o assassino para longe do gabinete. Seu lábio treme, seu gesto é imprevisível: “Não suportou permitir a benção da pessoa que mais odiava. Da pessoa que o concebeu. Mas Mariana Gramado não era sua mãe. Era, ‘Ed’?”.
“Cala a boca, filho da p--”, explodiu.
Era o seu pai”.

A revelação os abarrotou com volume e fogo, como se fosse a última coisa a fazer na vida. A senhora Bosco pousou a mão na boca escandalizada. Édipo caía em um lugar subalterno. As palavras atarracam. As línguas dormenlidicentes, a gravorgasmidade empurram todos para baixo, os ligamentos agonizarolhos, quase desmilinguando. Let it b(l)e(ed).
Eis que Vitor Lupo retoma a postura, quando começa o choque de trens: “O investigador Rocha Sobrinho apertou a assessora Joyce Garcia nas últimas horas. Sempre desconfiei de sua servidão avantajada. Era o braço-direito e, em consequência, o esquerdo da deputada”, depôs: “Fernando Lemos passou por um procedimento cirúrgico de resignação sexual e buscou a ratificação de sua documentação. Por isso ‘Mariana Gramado’ não existia antes de '96. Cortamos um dobrado, até o consulado britânico confirmar a teoria de que a peça perdida estava naquele ano. O homem teve sua existência esmaecida sincronicamente com o surgimento da mulher em regresso ao Brasil. Com a ajuda providencial de uma estudante de jornalismo da Federal”.
Sobrinho deslizou uma planilha em cima da mesa: “Recuperamos uma certidão de nascimento da 4ª Circunscrição da capital, lavrando que em 1977 nascia Mariana Lemos Gramado, cuja autenticidade foi contestada pela análise. Recuperando outro documento com a mesma data e local, comprovamos o nascimento de Fernando Lemos Gramado”.
“A atrapalhada de datas e documentos parecia em nada interferir com a sua carreira sólida”, agiu Lupo: “Mas a paternidade a lastimava. Não conseguia esquecer a mulher e o filho que havia suprimido”.
“Meu Deus!”, exclamou Jorge Bosco: “Todo esse tempo...”.
“Mariana fez suas próprias pesquisas até chegar em sua esposa. Com a ajuda da assessora. E encontrou o que tinha abandonado na Inglaterra. Não é, Édipo?”.
“Como acusa o meu filho de assassinato? Perdeu o juízo?”, defendeu a mãe.
“Ao contrário, senhora. Quando olhei o quarto do seu menino, havia um alvo pendurado na estante. O padrão dos dardos estava inclinado para a esquerda. E nas fotos dos jogos de basquete, ele fazia lançamentos com a esquerda. Mas comia com a direita... Édipo baixou a defensiva em um momento de descontração e fazia movimentos normais como um destro. Mas matou sua mãe-- seu pai, ah, que seja... Matou Mariana Gramado com a esquerda. Portanto, estava treinando. Treinando o tempo todo para pegar Felippo Guedes”.
Vitor Lupo puxou um dossiê com oito páginas em branco, sem qualquer pingo de tinta. Segurava com uma das mãos, obtemperando um documento comprometedor: “Entramos em contato com a japonesa Malway Inc., empresa que dirige o aplicativo 'Road’, solicitando o rastreamento de dois usuários e o arquivamento das mensagens em cache. Estou lendo o sistema de registros de ‘felippo.guedes’ que provam seu login às 2h43 da madrugada de domingo. Ele enviou uma mensagem de agradecimento ao usuário ‘Elektra17’ três minutos depois”. A surpresa da família Bosco era capaz de romper a quarta parede: “O acidente foi uma farsa! Como o seu filho adivinhou que Felippo Guedes passaria pela rua sabotada? Plantando uma postagem como ‘Elektra17’ quanto a uma blitz da Lei Seca na saída do Araçagy, e sugerindo uma rota para fugir da fiscalização. A vítima não sabia que a tal via alternativa estava sabotada para fazê-lo sofrer um acidente. O laudo do rastreamento conclui que o usuário pertencia ao celular de Édipo”.
Corre peçonha em vez de lágrima em Édipo Bosco. Lupo incendiou a sua fogueira para, em seguida, esmagá-la no seu cinzeiro. Não há criatura embaixo dos céus ou acima do inferno que possa imaginar martírio do assassino com o embuste do relatório do 'Road’.
Entre os gritos de horror da mãe, Édipo Bosco delineou: “Mariana... Fernando... Quem quer que seja, me procurou em uma noite em que estava sozinho em casa. Ouvi de sua boca nojenta que era o meu pai. Meu pai! Uma mulher era o meu pai! Não costumo atrair coisas boas ou ruins, investigador. Eu, sinceramente, atraio coisas loucas. Levei dois meses forjando meu plano. Entrei para a igreja, fiquei amigo do Felippo. Treinei minhas mãos. Matei. Matei! Matei!”. Jorge Bosco segurava os quadris de Vera – descurada de sua compostura, ela esmurrava o filho com as mãos fechadas.
Ele sorria com o sangue entre os vãos dos dentes e no contorno dos lábios: “Vê? Essa é a minha cara, Lupo! Minha cara! O que eu mato, me fortalece! Todo podre que ocultaram faz parte do meu mundo. Todo o ruído, todo o nervosismo, toda a histeria, toda a gordura, todo o pesadelo, todo o esgoto, todo o ócio, todo o vício, todo o orgasmo, toda a mentira, toda a decepção, toda a vingança, toda a vergonha, todo o tabu, tudo, tudo, tudo me torna mais forte para um mundo cada vez mais desolador! Os justos jamais herdarão a salvação. A partir de agora, somente os sujos terão espaço na próxima esquina”.
Lupo recebeu uma cuspida de saliva e hemoglobina. A senhora Bosco se deixava cair, em um quadro de síncope e queda de pressão, amparada por Sobrinho e Palena, mais o marido. Sozinho com o assassino confesso, lançou o falso relatório da Malway Inc. sobre ele: “O perfil que eu tracei na cena do crime... Ingenuidade e fúria. Paciência e agressividade. Você cheirava a isso. Sabe, não é duvidando de suas capacidades, mas usar o nome 'Elektra' foi um risco calculado. Você queria ser pego. Queria deixar uma mensagem ao mundo do era capaz contra essas... aberrações”. A primeira vez que o viu, sentiu frio. A segunda vez que o viu, sentiu calor. Na última vez, espera sentir a brisa, fina, sutil, silenciosa, tão mortal quanto uma lâmina fria.
“Diga... Me diga que sentiu prazer ao ver o meu pai sangrando...”.
“Reconhece qual foi o seu maior pecado? Desafiar a mim. Me girar no seu carrossel. Como um rato na roda. Mas você é tão completo quanto essas folhas em branco”, Édipo reconhecia sua afobação em confessar: “Você é tão genuíno quanto esse relatório do 'Road’”. Levantou-se. Saiu, trancou a porta e apagou a luz: “Aceite isso como o meu presente de aniversário”.

“Acabou, Lupo”, consolou Palena, em frente ao bebedouro. Era a primeira vez em que ela estava sem o colete oficial da Força-Tarefa, mostrando uma  camiseta preta de seda, muito justa. Embora macérrima, curvas generosas tornavam atraentes os ossos sobrepostos nas costelas e seus seios eram redondos, sólidos, brancos como o mais puro leite.
“Obrigado, ‘Pan’. Sua ajuda à equipe foi essencial”.
“Aprendi com os melhores”, riu: “Você parecia triste antes de enfrentar o Édipo”.
“Eu podia não ter medo, né? Assim, sem medo de arriscar, sem pudor, sem pensar no amanhã, nas consequências, assim, como quem não quer nada. Mas o maior problema de quem possivelmente não quer nada é querer alguma coisa lá no fundo”.
Palena bateu respeitosamente no ombro de Lupo. Algo como o gesto fraternal de “vai ficar tudo bem”. Pegou a pasta embaixo do braço do seu mentor, com o relatório da autópsia de Mariana Gramado: “Quando o mistério foi resolvido, encarei as observações do legista de uma outra forma...”.
“À vontade”, permitiu.
“As fissuras genitais apontadas eram da cirurgia de mudança de sexo, disfarçadas como a laparoscopia. E o tratamento com Algestona Acetofenida era para bloquear a testosterona durante a feminilização. Por isso sua infertilidade, pois Mariana era incapaz de produzir órgãos femininos internos. Continuo?”. Fez um aceno respeitoso e a explicação seguiu: “As exíguas cicatrizes no rosto eram para acentuar os traços femininos em Fernando, bem como as linhas abaixo das mamas resultado dos implantes”.
Há 38 anos, Vitor Lupo estava fora de casa, e quando viu Palena Prado, a chamou de lar: “Tem algo em você que me cativa, ‘Pan’. E não são os seus olhos tão negros quanto os cabelos”. Tocava sequencialmente o indicador na testa de sua subordinada: “É essa sua oficina do diabo e suas traquitanas que te fazem única”.
“Aprendi a admirar o seu jeito de pensar... E também da sua oficina do diabo”, riu.
“Nunca desfaça o seu jeito de pensar. Nunca. No final da vida, o modo como percebe a realidade é a única coisa que não vai te abandonar”. Ele nunca fora dado a conselhos. Não tem muito manejo no que está dizendo, como um passarinho desajeitado que tenta um primeiro voo: “Mas essa é uma tarefa árdua”.
“Sempre preferi correr meus riscos. Pagar minhas cotas e fechar minhas contas”, filosofou.
“Cuidado. Seguir minha linha de raciocínio pode te fazer correr riscos além da imaginação”.
“Quais riscos?”.
“Se enrolar nela. E morrer enforcada”, gargalharam. Dois míopes na terra de cego.

O mundo insiste em voltar nesse exercício infame e repetitivo de sair da cama e encontrar desesperadamente o sentido à vida vazia. Onde a cachaça, o fetiche, o pão e o circo suturam as feridas.
Vitor Lupo chegou ao terceiro andar da Secretaria de Segurança recebido por aplausos de onze oficiais. Lídio Rocha Sobrinho abria uma garrafa de espumante barato e Palena Prado organizava cupcakes em uma bandeja: “Tem de chocolate com menta e de baunilha. Eu que fiz”, recomendou.
“Qual a comemoração?”, Lupo enchia uma taça de acrílico e abocanhava um bolinho.
“Nosso primeiro caso, homem!”, respondeu Sobrinho: “Saiu em todos os jornais. Todos! Primeira página, foto de capa, letras garrafais. Olha aqui, como eu fiquei bonitão no Jornal Pequeno”.
“Eu só ficaria bonito se colocassem uma tarja de censura no meu rosto”, a risada se misturou ao barulho do ventilador e o badalo do elevador ao abrir no terceiro andar.
De seu interior, a presença vampírica de Joyce Garcia: “Atrapalho?”.
“De forma alguma. Aceita uma taça?”, zombou Lupo.
“Não. Eu não bebo em serviço. E só entre amigos”. A assessora encarava os jornais folheados pelos policiais: “Está se divertindo?”.
Limpava com a língua os pedaços de chocolate dos dentes: “Você deve ser muito ‘mal comida’ para ser bitolada desse jeito”.
“Oh, sim. Claro... Conte-me quem comeu o senhor tão bem para ser lúcido desse jeito”. Lupo agarrou o pulso de Joyce Garcia e o torcia como uma roupa molhada: “Me solta, desgraçado! É isso o que faz com as pessoas que odeia?”.
“É isso o que eu faço com criminosos como você e a sua ex-patroa!”. Os onze oficiais saíram de seus assentos e esperavam a fuzarca.
“Você é um homem completamente doente, Lupo...”, lamentou Joyce.
“Doente é ela! Mariana Gramado é a doença! Destruindo vidas, destruindo famílias. Essa criatura foi capaz de destroçar a cabeça do próprio filho. Quem deveria ser presa e condenada é ela! Sinceramente, Édipo Bosco merecia uma coroa, em vez de um par de algemas! Matar uma aberração dessas não deveria ser crime, e sim uma cláusula na Constituição Federal que garantisse isenções fiscais”.
“Você é uma mistura doentia de ignorância e demagogia baixa!”.
“Demagogo, eu? Pior é você, que continua defendendo uma falsificadora. Uma criminosa!”.
“Mariana apenas transgrediu a lei por existir homens como você, Vitor Lupo! Que impedem a existência e a felicidade por causa de um conceito enraigado de incompreensão”.
“Não há nada, nada que a Justiça possa fazer para transformar um homem. Isso é uma afronta a sociedade! É um atentado contra a moral que essa aberração frequentasse banheiros femininos, infectando as nossas mulheres e as nossas crianças com esse contato malicioso! Quantas vezes deve ter zombado das pessoas normais, da maioria. Ouviu bem, a maioria!”.
“Não confunda maioria social com maioria numérica... A lei outorga que--”.
“Isso é ficção jurídica, mulher! Isso é um mutante, não é um ser humano. Não é um homem, nem uma mulher. É um monstro! Sem essa de pinos redondos nos buracos quadrados”. Murros rápidos e firmes em cima na mesa acompanhavam as suas acentuações. O vento sopra de contra: “A democracia não obriga que os cidadãos identifiquem criaturas como Mariana Gramado por macho ou fêmea. Essa aceitação ocorre por questão de conveniência. Ou de cinismo!”.
“Não gasto saliva com quem confunde sexo biológico com orientação sexual. Gênero não é genital, estúpido! O aparelho reprodutor feminino é muito mais complexo do que um pedaço de carne esculpido com bisturis, ganchos e anestesia geral. A democracia que você tanto esbalda também prega a igualdade, é feita do povo para o povo! E ela começa com o respeito e os direitos assegurados destas ‘criaturas’ a quem o senhor jocosamente se refere”.
“Vocês querem nos empurrar traqueia abaixo uma ditadura ‘gayzista’ em detrimento da coletividade”.
“Ditadura? Seu maníaco, são apenas direitos. Ouviu bem? Direitos de que gays, lésbicas e transgêneros são sejam mortos ou agredidos!”.
“O parágrafo 5º do artigo 20 da PLC/122 contrasta com o Artigo 5º, inciso 8 da Constituição Federal. Tente não chamar isso de ditadura... Vocês dependem do respeito e da educação da maioria – ouviu bem, maioria! – para terem seus direitinhos assegurados. Não gostar ou se constranger é diferente de ódio ou violência”.
“Tudo o que mulheres como ela já conquistaram é por mérito próprio, não tem nada de abaixar a cabeça para ignorantes como você! Transgêneros foram segregados por essa sociedade desgraçada, até mesmo marginalizadas dentro do movimento LGBT! É combatendo os homofóbicos, e não é esperando a compaixão alheia, que Mariana Gramado e suas colegas serão respeitadas. Intolerantes não passarão!”.
“Fora! Fora! Tirem essa vadia aqui!”.
Jaime Duarte e outro oficial contiveram a fúria cega: “Quando ela assinava um documento, colocava ‘Mariana Gramado’. Sem precisar pedir a sua permissão. Doente é o seu ódio, seu maníaco filho da puta! Olhe para o RG dela e corte os seus pulsos. Ela é mulher, sim! É muito triste ver um machão que só se apaixona por um útero e um par de ovários”. Joyce Garcia deixou a todos no ora-veja: “Que infeliz a sua vida, rapaz...”.
Vitor Lupo usou a ponta de ferro dos coturnos para chutar a base de uma das divisórias seguidas vezes até arrebentar. A primeira hora depois das ofensas não trouxe desespero: a vergonha alheia estagnou suas células, seus nervos, não havia dor. A segunda hora depois das ofensas lhe fez perceber que já não havia modo de estar desesperado: sentia breve calor nas dobras do  corpo, mas nada que exprimisse vida, com as horas se arrastando sob metáforas. A terceira hora depois das ofensas lhe fez esquecer e se refugiar em um mundo de recortes de vida, como uma colcha de retalhos, mas não conseguia me reconectar. Estava vivo.

No horário de almoço, Palena Prado pegou o elevador com dois engravatados e um zelador com seu carrinho com produtos e itens de limpeza. O mais velho sussurrou: “Esse homem é uma bomba-relógio. Quer apostar quanto que ele vai cortar o próprio fio errado e explodir no nosso colo?”.