Shipper - Capítulo I

janeiro 31, 2017 0 Comments A+ a-

Fonte: https://zeroing.tumblr.com/post/76617355040 - Reprodução

Karla Neramani sentou no chão com as pernas enlaçadas uma na outra, a coluna tesa e os olhos lacrados. Fazia movimento circulares nas mãos, realçando o contorno da maçã do rosto delicada e da testa profusa, em uma coreografia distinta somente ao seu aprendizado. Tinha dedos ossudos de uma velha bruxa – e, de fato, ela era. Bruxa, não velha. Seus pelos claros ficaram tão duros quanto sua postura ao sentir as energias místicas fluindo de dentro para fora, uma maré infinita batendo na sua rocha. A língua começou a embolar, vítima da antipresença etérea dos guardiões que convocara há trinta e oito minutos para lhe pedirem força e proteção.

A concentração veio abaixo quando parou para olhar o Twitter.

Ela reconhecia o beep de alerta antes mesmo de tocar. Não era uma qualidade da sua cultura mística, e sim por outro ritual há muito estabelecido em sua vida: a rotina. Às oito horas, vinha o tweet seguido de fotos singelas do café da manhã ou da série de treinos. Nove e meia, o post de Facebook ou algum conteúdo compartilhado dos jornais e revistas. Entre dez e onze horas, o Instagram tilintava com notificações sobre transmissão ao vivo, para em seguida começar a enxurrada de histórias do divertido e nutritivo almoço em família. E assim seguia a rotina dos eventos de moda e bailes da sociedade, até o beijinho de boa noite aos seguidores.

Karla sabia disso.

Não existia nada na vida de Samuel e Débora Finnegan que Karla Neramani não soubesse.


Karla apagou as velas escuras usando a ponta dos dedos, e desfez com os pés o círculo de giz onde passou a tarde sentada, compactando os despojos do ritual em um montinho no canto da sacada. Sequer tirou os olhos da tela do celular. Os dedos mágicos que outrora brandiam as ondas anciãs agora passeiam pelas timelines e os portais de jornalismo tendencioso. Notificações aos montes com o endereço #deborel.


A linha do tempo de Karla Neramani se cruza com suas aptidões para as artes místicas e sua torcida paixão por tudo que envolvesse Samuel ou Débora Finnegan. Filha única de mãe solteira, a pequena bruxa rodou o semiárido nordestino com uma caravana de bandoleiros até completar 13 anos, batendo carteiras e replicando truques de mágica com moedas e cartas para sobreviver. Em paralelo, o diretor de cinema Samuel Finnegan recebeu um vultuoso investimento para o seu primeiro filme, “Feitiço Tropical”, e escolheu a dedo sua musa inspiradora em cena e na cama, a socialite e aspirante a atriz Débora Andrada.


Karla viu a mãe morrer vítima de um surto de tifo, não sem antes receber um grimório, um estoque de símbolos profanos e um pedido: “faça sua vida valer à pena”. Karla vagou desabalada pela cidade até parar em um cinema moderno, enfeitado por cores vibrantes e um gigantesco pôster de “Feitiço Tropical”. Ao sentir as retinas crescendo e as pernas vibrando ao ver Débora e Samuel juntos nos cartazes, entendeu o recado materno. Dali em diante, o casal faria sua vida valer cada centelha.


Nunca conhecera os dois de corpo presente. Timidez natural, retração por nunca se estar a altura daqueles titãs, um conjunto de situações que permitiu à Karla estar em uma distância segura para não parece ridícula, não cometer um ato suicida, como gaguejar ou bambear as palavras em uma linha de diálogo. Preferiu continuar dessa forma, seguindo apenas os rastros digitais e estimulando os bons fluidos para os artistas. Tudo à distância. E nisso – céus! – ela era muito boa.

Karla no celular, desta vez no fandom Deboel no grupo do Facebook. Gifs pornográficos e prints de comentários no Ego pipocavam enquanto rolava a página. Esbarrou em uma xícara, mas com um erguer de sobrancelha a impediu de espatifar no piso de madeira, levitando a porcelana de volta à bancada da cozinha sob uma emissão luminescente cor-de-rosa. 

Foi então que veio a publicação que dividiria suas águas. “Entrevista coletiva às 14h! Samu e Debi vão falar no Betencourt Classic Hotel! Transmissão ao vivo pelo Instagram!”, confirmou o perfil FantaKilla.

A última Neramani percebeu o cérebro formigando por dentro da caixa. Quase oito anos de devoção e nunca errou uma data, nunca deixou passar sequer uma nota de rodapé sobre o casal Finnegan. Este dia traria muitas surpresas! Pôs a mão no estômago e conteve um jato de refluxo ansioso que lhe queimou a laringe. Conectou o celular no ChromeCast à televisão da sala e estacou. Não almoçou, bebeu água ou mudou de posição. Com as pernas dormentes, viu o alarme do celular gemendo exatamente na hora marcada. “Que Nyx o proteja, FantaKilla!”, sussurrou.

A transmissão irregular exibia uma mesa em tamanho médio e Samuel e Débora Finnegan ocupavam as duas cadeiras principais. Karla fechou os olhinhos e sorriu com a mão esquerda na boca – chegou a morder a palma pelo vislumbre do marido usando uma jaqueta cinza e os cabelos grisalhos esculpidos em gel e a esposa ocultando os olhos azul-piscina por trás de um Ray-Ban, simples, mas sem arruinar o charme de um blusão da GAP. Nas pontas, dois senhores carrancudos de terno. “Mm? O sócio da Finn Produções na mesa?”, pensou Karla. “Seria o anúncio de um novo filme?! Ou talvez... o último?”. Karla não sabia lidar com perdas desde a infância, outra particularidade sua: recuperava e remoía dores e delícias na memória e fazia delas o seu motor.


Samuel pediu a palavra. O áudio e o vídeo não eram dos melhores, mas Karla entendeu com clareza a mensagem inicial. E vomitou o que não tinha no estômago quando ele anunciou sem rodeios o divórcio com Débora Finnegan.