Babilônia - Capítulo I

fevereiro 28, 2017 0 Comments A+ a-

Fonte: http://pata-caliente.tumblr.com/post/72827188229/travelingcolors-the-trench-run-hong-kong - Reprodução


Entrei na loja de noivas virada na besta-fera. O sol tinia na lente dos meus óculos Rayban, tão falsos quanto a arma na mão esquerda – e tão falsa quanto a minha ambidestria. Tudo ali era falso, um personagem criado de forma meticulosa para a apresentação que me custaria uma garganta, treze minutos e um repertório encaralhado de palavrões. Meu nome é Pandora, antes que eu me esqueça.

Saquei a arma na frente de um grupo de senhoritas da alta sociedade, me encarando com todo nojo que me é direito por detrás das máscaras de horror. Moças segurando suas bolsas de couro legítimo, miando baixinho, tendo o livre-arbítrio suprimido por uma marginalzinha sedenta pela féria da sexta-feira. Desde o começo do mês, eu sabia que a “Pele de Isis” faturava dez mil por semana, trabalhando a toque de caixa. O segurança saía do almoço e arruinava oito minutos diários por causa do trânsito, mais dois minutos para saciar um cigarro e outro.

Como eu sabia disso? Observação. Observação e controle.

Tudo na vida é rotina. É matemática. Viver é uma ciência que não se permite erros. Desculpem se estou fugindo do foco – o mal de sentir o coração bombeando adrenalina para cada fiapo do meu corpo chupado.

Corri da loja até dois quarteirões acima, batendo uma coxa na outra e molhando a barra da calça jeans nas poças de água. Dei fim aos óculos e a arma nas caçambas do cruzamento da Rua da Cruz com a Santo Antônio, enrolei a grana no primeiro saco de lixo que agarrei – tinha cheiro de merda, leite coalhado e fruta podre. Mm, cheiro do sucesso. Parei para descansar com as pernas ainda vibrando por dentro da carne, lembrando de Mila.

Eu fiz tudo isso por ela.

Já fiz tanta coisa pela minha filha, daria mais dez mil para passar por cada blitz, por cada família horrorizada, por cada policial filho da puta que tentou me tirar. Já tiraram muito da minha boca para pôr na boca de outras pessoas. Desde que Mila saiu dentro de mim, há seis anos, suja do seu e do meu sangue, eu quem ia tirar da boca dos outros. Eu não aguardo pena de ninguém, meu amigo. Eu não teria pena se te encontrasse na rua e pedisse, com um cano fumegante encostado na sua cabeça, o celular ou qualquer punhado de dinheiro. Para ver minha menina comendo, eu seria capaz de tirar da minha boca e pôr na dela.

Eu já disse que sou Pandora? Nome horrível, eu sei disso. Tenho 23. Vivo de roubo e empréstimo dos amigos. Eu sou o próprio trem.

Eu odeio essa cidade. Odeio a forma como as pessoas se comportam, não gosto das suas vidas perfeitas – essa perfeita ideia de moralidade, pátria e família. Odeio e choro sozinha quando vejo meu destino nas mãos de homens imundos que nunca sentiram dor, nunca foram chutadas na barriga imensa em plena luz do dia, nunca se deitaram com outros homens imundos para ter o que pôr na boca. Penso nisso, caminhando pé ante pé à Rua do Ribeirão. Essa cidade é feita de vaidade, gozo e estômago. Eu tenho tanta raiva dentro de mim, que meu próximo filho vai ser parido só com a força dos meus dentes trincando dentro da boca roxa.

Eu não costumo falar, portanto, quando tenho oportunidade, me solto. Mas não é a sua companhia... Tem algo me puxando. Fazendo com que me perca a noção da realidade. Mila vem e volta na minha cabeça, assim que chego ao Avalon. Guardadores de carro e os boys da sauna captam no ar que tem algo de errado comigo, como se estivessem interligados por uma antena suburbana. Meus pés não obedecem mais a um comando infantil, seja um “socorro” até um “por que você não anda, porra?!”. Deixei o dinheiro na esquina da Santo Antônio. Minha respiração parece cortada a faca. “Anda, vadia, por que não se mexe!”.

Meu nome é Pandora, estou tendo uma crise de pânico no ato final do meu maior assalto. Minha filha está em casa gritando de cólica, faltam duas horas para o senhorio abrir a porta com tudo e arrancar a menina para fora do seu imóvel. Isso se meu agiota não se adiantar. O conselheiro tutelar e o fiscal do benefício podem aparecer também. Eu só queria poder me mexer... Pegar o dinheiro da “Pele de Isis” e garantir quase um ano de sossego a mim e minha menina. Correr com ela nos braços, tomar o primeiro ônibus a um destino escolhido no mamãe-mandou e torcer para a próxima temporada de roubos demorar. Que ódio dessa situação, eu odeio essa cidade – e tudo que ela representa –, sinto meus dentes rasparem o esmalte.

É quando sinto que fico estática, não por vontade própria.

Meus olhos correm pelo meu corpo e eu percebo o concreto amolecer sem perder a rigidez. Juro que parei com o pó e o doce antes da gravidez. Mas aquilo era real. Tão real quanto o frio em plena duas da tarde, quanto o olhar de ódio gratuito dos guardadores de carro e dos boys da sauna. E quanto aquele formato de mão agarrando meu calcanhar, feita de calçada, e elástica como a pele de uma criança. O chão me agarrou, e isso é fato.

Dali em diante, tudo seria história.