Contágio - Capítulo I

fevereiro 13, 2017 0 Comments A+ a-

Foto: Alexey Kljatov - http://chaoticmind75.blogspot.com.br/2013/08/my-technique-for-snowflakes-shooting.html
EIXO RODOVIÁRIO, BRASÍLIA. 12h01
O tempo virou em Brasília. Mal o maior ponteiro do relógio triscou no 12, e o temporal cobrira os céus do Planalto Central, alterando os planos de cidadãos que batem os pés nos pontos de ônibus ou fitam seus relógios de minuto em minuto. Uma Saveiro derrubou um entregador de comida, riscando a lataria da moto no asfalto resfriado. Seguiu-se uma infrutífera discussão entre acidentado e réu, virgulada pelos berros e gestos brutos de um e a repetida tosse seca do outro. O motorista voltou ao carro, afundando a cabeça nas mãos trêmulas, umedecendo lábios secos e esbranquiçados. “Maldita pressão baixa...”, se limitou.

MINISTÉRIO DA SAÚDE, ESPLANADA DOS MINISTÉRIOS. 12h26
“Olá, Lipe. Quanto tempo não nos vemos...”.
A imagem de Rosana na gravação roída gelou os nervos de Felipe Barreto. O “quanto tempo” da sentença inicial já tinha cruzado pra mais de cinco anos, uma longa distância desde que o bioquímico saiu de São Paulo para se dedicar ao monitoramento na Secretaria de Vigilância em Saúde. Cinco anos em que Rosana saiu de casa levando uma muda de roupas, oito mil reais e uma mala cheia de explicações esfarrapadas.
“Espero que veja esse vídeo até o fim... Eu não tenho boas notícias... Nunca tive. Lembra do meu apelido na editoria de Polícia, Lipe? ‘Rasga mortalha’”, comentou entre um riso arfado esse fantasma de cabelos castanhos desgrenhados e pele morta como cera de vela. “Você é a única pessoa em que eu confio nessa hora difícil, Lipe. Eu possuo informações que podem custar a minha vida! E se não for rápido... a vida de todo mundo”.
Rosana Barreto saiu sem bater a porta, abdicando marido, residência, emprego. Filho. Filho... Como estaria o menino hoje? Teria ele os olhos amendoados da mãe ou recebera a herança paterna dos cabelos claros com profundas entradas? Teria aptidão em português ou ciências? Felipe também abandonou a casa, o emprego – e o menino que leva seu nome prenome. E rever as feições que tanto custou em esquecer é esmagador para aquele homem.
“Há um mês e meio eu interceptei um desvio de recursos no hospital público de Goiânia... Não, não tente chegar a uma conclusão racional de onde estou ou porquê de lidar com esse caso, apenas preste atenção! Eu entrei em contato com um senhor muito idoso vindo de um povoado no interior, apresentando uma crise grave de hipotermia... Era assustador a forma como ela se manifestava, o homem tinha a pele pálida e cheia de bolhas, tremia de frio ao menor esforço! Tudo muito horrível! Mas o que mais me assustou foi ele dizer que o povoado inteiro sofria do mesmo mal...”.
A entonação potente de Rosana enchia os ouvidos de Felipe Barreto feito a linguagem dos anjos. Ele entendia o subtexto e algumas linhas gerais, mas não entendia o cerne do assunto. O seu peito ardia de inquietação.
“Eu bati no dia seguinte à casa do homem... Lipe, eu vi uma pilha de cadáveres naquele lugar. Todos com a pele quase sem sangue e com a temperatura tão baixa, que até para tocá-los era incômodo! Por duas semanas, eu bati de porta em porta nas comunidades mais pobres em busca de informações. Não tinha uma família sem uma história semelhante para contar, de como seus pais, esposas, filhos, morriam tremendo de frio... De dentro para fora”.
O bioquímico contraiu os músculos e desembaçou o colorido romântico desse reencontro. Agora compreendera as intenções de sua ex-esposa. Um evento isolado é um acaso, dois eventos são uma coincidência, acima de três se forma um padrão. A hipotermia coletiva formava um quadro endêmico.
“Nos outros anexos desse e-mail tem fotos, vídeos, algumas anotações dispersas... Eu sei que você fará mais do que isso, Lipe. Seja forte... Seja forte com o que vai acontecer daqui pra frente. Adeus...”.
Ele fechou desligou a tela do computador. Ficou bons minutos com o braço esticado sentindo o monitor esfriar, incapaz de produzir reações analíticas. O doutor Felipe Barreto atingiu outro diagnóstico bem sucedido ao notar o estado da pele de Rosana e seus maneirismos durante o vídeo, sem contar o eco autoconfessional no final da gravação. A mulher estava morrendo, infectada com o mesmo que acometeu aquela gente – se é que já não tinha morrido, a contar da data de envio dessa mensagem. “Eu não queria que fosse assim...”, pensou Felipe antes de cair no choro.

CONDOMÍNIO DO EDIFÍCIO NEVADA, ASA SUL, PLANO PILOTO. 15h41
“Let it Go” rodou pela milésima segunda vez e, por conhecimento de causa, o pai foi convicto de que suas gêmeas caíram no sono. Bastava carregá-las uma em cada braço e subir até o quarto para que tirassem a gostosa soneca da tarde. Quem sabe por desatenção ou cansaço – mas nunca imprudência – o homem desligou o ar-condicionado ao perceber as meninas tremendo de frio, mesmo sem febre ou suor, por dentro das camisas de lã.

COMANDO DA 11ª REGIÃO MILITAR, MINISTÉRIO DA DEFESA. 15h58
O jipe cruzou a barreira em direção à sede, cortando o trajeto pela estrada de terra sem o esmero de manter o gramado intacto. “Mais rápido, homem!”, gritou o tenente-coronel Adriano Muller para o chofer. A manobra quase tombou o veículo, o que custaria não apenas a sua vida como as de um séquito de patentes mais baixas no banco traseiro.
Já na porta, Muller era recebido por seu general de brigada. Trocaram rápidos cumprimentos formais antes de serem isolados das vistas de curiosos ou pessoas sem permissão.
“Boa tarde, Muller”, disse o superior conduzindo o visitante pela escadaria.
“Boa tarde, general”, respondeu secamente.
“A situação é péssima... O coronel Teobaldo foi encontrado em estado grave no seu leito, os oficiais não conseguiram nem sequer tocá-lo”.
“Como assim? Não prestaram socorro ao coronel?”.
“Eles tentaram, Muller... Como eu disse, eles não conseguiram tocá-lo...”.
O general cedeu espaço para Adriano Muller entrar na primeira porta à esquerda do terceiro andar. A presença das duas figuras expulsou as enfermeiras e deixou a brancura do posto médico se confundir com os uniformes padrões do exército.
“No terceiro leito está o coronel Teobaldo... Que Deus tenha pena desse homem...”, lamentou o general.
O braço de Muller alcançou o lençol, desprotegendo a intimidade mórbida do seu superior. Um bolo agoniado subiu e desceu pela garganta do tenente-coronel, devolvendo o necessitado respeito ao moribundo.
“Como... Como isso aconteceu, general?”.
“Ninguém sabe. Apenas aconteceu. É notório que não temos mais um coronel... Só uma questão de horas até que o corpo de Teobaldo resseque e se transforme em alguma coisa que não lembre a humanidade”.
“Ele está... gelado! Sem cor, exangue, a pele escurecendo... Como é possível?”.
O general retirou os óculos em um gesto íntimo.
“Muller, existem situações delicadas demais para uma pessoa normal ter conhecimento... O que pegou o nosso colega está longe de ser considerado ordinário. Eu apeteço muito que você administre esse cenário”.
Adriano Muller compreendeu o prólogo. Seu juramento com o exército era tão umbilical, o único elemento mais forte das suas paixões. Um superior perderia a vida por algo fora do comum. Muller pagará na mesma moeda, ou morreria na tentativa.
“Nós somos irmãos de armas, general. Conte comigo”.
“Seja bem-vindo de volta... E parabéns, coronel Muller”.