Contágio - Capítulo III

fevereiro 16, 2017 0 Comments A+ a-

Foto: Alexey Kljatov - http://chaoticmind75.blogspot.com.br/2013/08/my-technique-for-snowflakes-shooting.html

CÂMARA DOS DEPUTADOS, PRAÇA DOS TRÊS PODERES. 19h30.
“Elesfecharamoshospitaispâniconacidademortosemtodoolugarosenhorprecisatomarumaatitudeataquedoscomunistascidadefriagelandopordentrominhamulhermorreuoquevamosfazer!”.
O líder da oposição na Câmara saboreava um delicioso steak em seu gabinete acompanhado de tiras de vieira e uma opulente taça de Vega Sicilia, enquanto uma matilha de assessores e coligados ululava nos quatro cantos do cômodo. O sabor sanguinolento da textura da carne borbulhava nos palatos moles, em uma dança indecente entre a comida e a língua. Seus ouvidos se fecharam à balbúrdia externa, escutando apenas o barulho confuso e reconfortante dos dentes triturando a carne por dentro da boca.
“Está nos ouvindo, deputado?!”, berrou uma parlamentar truncada e cabelos emplastrados de suor.
“Minha cara... Mantenha a calma”, respondeu o bon vivant. “Sobrevivemos à peste negra, à malária. Até à Dengue! Se a AIDS ainda não nos destruiu, sentir a carne virar um bloco de gelo não é esse armagedão todo que estão pintando... Aceita um vinho?”.
“Pessoas estão morrendo! Os hospitais não estão dando conta de tantos corpos! Até quanto tempo vamos esperar até que esta Casa tome uma atitude?”.
“Eu sou a favor de declarar estado de emergência!”, disse um.
“Vamos nos isolar em nossas casas e lacrar a cidade!”, disse outro.
O inquirido se ergue estendendo as mãos, pedindo uma calma anormal aos seus colegas de plenário. A fala foi principiada com um espirro e um sopro agoniado saído de sua boca sem sangue.
“A situação está sob controle, meus amigos... Eu tenho ligações quentíssimas na Defesa, cortesia de meu ‘garganta profunda’ no ministério. Digamos que existem forças maiores que a nossa potência atual! E é ela, somente ela, quem determina os que irão morrer. Eu contatei cinco dos piores sujeitos de Brasília para encontrar o responsável pela praga e lhe arrancar informações... Os senhores podem sentar e esperar o fantasma da morte, como bons cabritinhos nos minutos antes do abate...”.
O deputado se agacha e retira da gaveta um objeto envolto sob um lenço de seda pura com bordas douradas. Foi desfolhando pedaço de pano por pedaço, até revelar uma .380 e um cartucho.
“Mas essa ovelha Dolly não teve a mesma educação do rebanho...”, pôs o cartucho na base da arma e levou o cano à têmpora esquerda. “Portanto, se quiserem me acompanhar, serão muito bem vindos!”.
Um estampido seco ecoou pelos corredores.

COMANDO DA 11ª REGIÃO MILITAR, MINISTÉRIO DA DEFESA. 20h08
Felipe Barreto mirou por um par de olhos mortos a pasta com o símbolo das Forças Armadas – em letras de forma, o título PROJETO ZERO e a subscrição CONFIDENCIAL. O documento era um abismo piscando para o bioquímico, e o coronel Adriano Muller temeu ter aberto uma porta direto ao inferno.
“Você não disse nada...”, comentou Muller.
Felipe parecia raspar a palma da mão nas falhas do cabelo, manufaturando as palavras antes de discursar.
“Preciso dizer alguma coisa?!”, respondeu com um vibrato. “Vocês criaram um monstro com a ajuda da Corporação Gaia e esperam meu comentário?!”.
“Doutor... Minha promoção ainda não foi homologada. Foram os bons contatos do general que me colocaram na linha de frente dessa investigação. Meu atual acesso atinge certo nível, o que estão nesses documentos foram tudo o que consegui extrair hoje”.
“O que o Exército esconde, coronel?”, a malícia em sua voz não precisa de nenhum disfarce. “Quantas pessoas sabiam desse esquema criminoso? Senadores? Acionistas da Gaia? O presidente?!”.
Felipe puxou com um só gesto a pasta parda e transliterou a primeira linha que seu dedo indicador apontou.
“Segundo este documento, o tal ‘Projeto Zero’ era um ‘estudo do professor Antonio Paglia’, ‘um microorganismo tecno-orgânico que agisse no hipotálamo e nos centros termossensíveis, degenerando as cadeias moleculares e a homeostase corporal ao ponto de provocar uma criogenia espontânea’. Ou seja, a vítima morreria com um nível espantoso de hipotermia, esfriando das células até a pele! E segundo este mesmo documento, ‘o Ministério da Defesa com aval do Tesouro Nacional se utilizou de operações orçamentárias ilícitas, atrasando o repasse de verba às pastas de Saúde e Educação’, para custear uma suposta arma militar com a ‘TJL Empreendimentos Científicos’!”.
“A Corporação Gaia...”, Muller se limitou ao complemento elementar sobre o nome-fantasia da empresa.
“Isso é genocídio, coronel! Como o governo se sujeitou a liberar uma desgraça dessas em seu próprio povo!”.
“Um momento, doutor! Em nenhuma linha o documento afirmou que o Projeto Zero saiu do papel! Ele foi tratado de forma experimental, e o senhor mesmo afirmou não existir subsídios científicos de que um vírus possua essa capacidade!”.
“... O que matou minha ex-mulher não é uma concepção, coronel. Ele existe, e é muito real”.

CASA 28, ASA SUL. 20h09
Um recado, dois, três. Dez. Laila cansou há muito de numerar os recados que deixou no celular de seu marido a partir do dezoito. Da casa decimal em diante, foi repetindo o padrão de discurso.
“Onde você está?”.
“Quero notícias suas?”.
“Que horas você volta?”.
“Toma cuidado...”.
“Adriano, filho da puta!”.
Etecetera, etecetera, etecetera.
Casada com um oficial do exército, tinha de dividir as atenções do homem com a amante vestida da bandeira brasileira. Ele sempre deixou bem claro, “não sou um homem de me envolver...”. Mas Laila Muller insistiu no jogo – o resultado era desconcertante, mas disputar o coração desse homem era a sensação mais deliciosa no jardim das maravilhas mundanas.
Hoje pela manhã, Laila viveu um breve sonho, com o Adriano encostado em seus peitos fartos – ainda inflados de excitação –, brancos, tenros e macios como um pacote de algodão. Ele roçava a ponta do queixo ferido pela barba malfeita, atingindo tantas terminações nervosas que eram impossíveis de contar.
“Você me ama?”, questionou a esposa.
“Sim. Mmmm...”, respondeu o marido, no modo automático, afundando seu rosto no vão entre um seio e outro.
“O que você faria por mim?”.
Adriano não respondeu e foi escorregando até outro vão, o do meio das pernas dela.
Sempre que havia um arroubo sentimental, Adriano compensava Laila com sexo ou a menor insinuação disso. O ato era uma bomba atômica. E todo esse tempo, a esposa se conformava em receber as migalhas de afeto com tórridos contatos físicos.
Ela jogou o celular no sofá e abriu as persianas da janela. Moravam em um belo bangalô na parte privilegiada da Asa Sul, com espelhos refletindo a beleza dos móveis projetados e das fotografias românticas nos porta-retratos digitais.
Teimou em ligar a TV. Passeou de canal em canal a fim de perceber que todos comentavam em uníssono a “Febre Gelada”, filas de pessoas infectadas batendo os queixos nas calçadas e nas portas dos hospitais públicos e privados. A Vigilância Sanitária lacrou o Hospital Geral com medo de uma propagação da doença.
Laila Muller tão supersticiosa, desligou o ar condicionado geral e alisou os braços para espantar esse mal invisível de sua casa. E de seu marido. Será que suas preces de proteção chegariam até onde ele estivesse – onde quer que esteja?

COMANDO DA 11ª REGIÃO MILITAR, MINISTÉRIO DA DEFESA. 20h16
Adriano Muller deixou Felipe Barreto afogar na própria melancolia na sala de interrogatório. Não teve tempo de dizer que também tem uma esposa – ainda viva –, e se compadecia por tamanho sofrimento. O cérebro disparou o senso de cuidado, deveria ligar para Laila e mantê-la tranquilizada, garantir que a ama com todas as forças e no final da semana estariam juntos, trocando carícias e perguntas retóricas nos lençóis da cama.
Mas preferiu juntar um grupo de subalternos diretos, e ordenar:
“Vamos enviar frentes para impedir contendas... Alertem as DPs, liguem para os responsáveis de plantão! Asa Sul, Asa Norte, Cruzeiro Velho, Paranoá, quero ouvir e ver os carros na rua! Não podemos mais evitar a boataria e o pânico, portanto, vocês agirão de forma eficiente”.
“Sim, senhor!”, responderam sincronizados.
“O cientista responsável pelo Projeto Zero é Antonio Paglia. Nos registros do Ministério da Defesa, temos um homônimo de Taguatinga, italiano residente no Brasil, casado, pai de uma criança, enfurnado em uma casa totalmente isolada, e é um teórico da conspiração... Portanto, evitem um confronto direto e tragam esse homem para interrogatório. Entendido?!”.
“Sim, senhor!”.
“Coronel!”, um molecote descia as escadas da sede, batendo uma coxa na outra e limpando o suor da testa oblonga e repleta de acnes. “Permissão para interromper... Ufa! A ABIN interceptou uma chamada, o senhor deveria ver isto...”.
No quarto andar, monitores e conexões pareciam brotar de um emaranhado nas paredes de gesso. O analista irrequieto se jogou na cadeira ergométrica e repassou o material ultraconfidencial da Agência de Inteligência.
“A Polícia Federal autorizou o grampo telefônico de um grupo de suspeitos na Operação Pandora, são policiais desligados da corporação que se envolveram com milicianos em São Paulo e Rio... ‘O cabeça’ do esquadrão recebeu uma demanda! O senhor não vai acreditar...”
“Diga logo, homem! Deixe de arrodeio!”, Muller bateu o punho cerrado na mesa.
“O nome do responsável pela Febre Gelada vazou para a milícia, coronel. Vazamento interno de informações. Eles querem a cura... ou o linchamento do cientista!”, o analista levou a mão até a boca, interrompendo um susto.
Desde que acordou, Adriano Muller fora traído – seja por seus sentimentos, por pessoas de índole corrupta ou um desdobramento de ações. Todos têm interesses, todos seguem suas agendas, a pressa de um sempre se sobrepõe a do próximo. A vida do pai do Projeto Zero corria risco por um ato destemperado. Mas quem dentre todos não teria nada a perder? Alguém sem perspectiva, desesperançado, sem fôlego. Sem família.
Sem motivação.
Alguém que perdera uma pessoa especial.
Alguém que perdera seu amor ressentido há pouco tempo.