Contágio - Capítulo II

fevereiro 15, 2017 0 Comments A+ a-

Foto: Alexey Kljatov - http://chaoticmind75.blogspot.com.br/2013/08/my-technique-for-snowflakes-shooting.html


HOSPITAL GERAL, ASA SUL. 18h46
O pai atravessou a recepção com as filhas apoiadas em cada ombro, abrindo com força nórdica os caminhos até a junta médica. Nem mesmo a simbiose entre a pele das meninas e o suporte do pai pôde evitar o choque convulsivo vindo de seus corpos magricelos. “Um demônio possuiu as minhas filhas!”, exclamou ele. Não era ilógica tamanha proposição em um ambiente de pura racionalidade, já que há duas horas suas gêmeas não tinham conchas e bolhas deformadas no rosto ou a cor leitosa das mais asquerosas, nem gemiam de frio despropositado.

Mas bastou um giro em seu próprio eixo para se dar conta de que o “demônio” havia feito estragos em outros corpos. No final do corredor, roçando a palma da mão no interior dos braços, estavam um simples motorista, um motociclista acidentado, até mesmo um deputado federal e uma conhecida prostituta da Asa Norte. Expresso no rosto do pai, uma legítima pintura de Bosch.
“Senhores, deem espaço para os socorristas!”, o grito da enfermeira feriu o cenário. Como nos seriados americanos, um time emparelhado a uma maca vertia todas as atenções. “É o sexto só na última meia hora...”, disse o clínico-geral, com destino à emergência.

COMANDO DA 11ª REGIÃO MILITAR, MINISTÉRIO DA DEFESA. 19h08
“Pelo amor de Deus... É muito difícil dos senhores entenderem isso?”. O doutor Felipe Barreto sofria de todos os clichês catastróficos dos pilares da ciência, em especial à inabilidade para a diplomacia.
O luto precoce por Sônia calçou seus sapatos e o levou para prestar uma queixa formal na junta militar de Brasília, imbuído do seu cargo como coordenador de pesquisas da Secretaria de Vigilância em Saúde e seu know-how em doenças endêmicas. Entretanto sua autoridade aqui era tão plausível quanto um conspirador usando escorredor de macarrão na cabeça.
“Doutor... Felipe? Correto?”, o capitão ergueu uma sobrancelha duvidosa por cima dos óculos escuros. “O senhor afirma ter informações confidenciais da sua esposa sobre uma... infecção?”.
“Ex-esposa, capitão, E vendo a gravidade nas fotos e vídeos que acabei de mostrar ao senhor, isso configura como endemia... E pela progressão geométrica com a qual se expandiu, não dou uma semana até chegar em Brasília!”, respondeu o bioquímico nivelando o cinismo do seu interrogador sob uma voz exaltada.
“Em primeiro lugar, fale baixo... E depois, tudo o que tem é um conjunto de fotos sem sentido. Se é mesmo um profissional da saúde, que garantias isso me dá em ser mesmo uma doença?”.
“Eu lhe mostrei o vídeo da minha ex-esposa...”, Felipe conteve um nódulo emocional pela garganta. Alisou os vincos da camisa polo antes de continuar. “Ela não estava saudável na data da gravação da mensagem. Por favor, mostre esse material a um superior, alguém responsável por crimes com gravidade à nação. Eu trabalho para o Ministério da Saúde! O senhor está agindo de má vontade”.
Felipe não percebeu tantas palavras escapando da sua língua como um trampolim, e quando foi tarde demais, se vira conduzido de forma sutil pelo capitão em exercício até uma sala escura.

Duas batidas na porta anunciaram a chegada do dono da granja. Felipe Barreto se levantou e saudou o coronel.
“Perdoe o capitão... O que falta ao rapaz em traquejo, ele compensa em servidão ao Estado”, comentou Adriano Muller, retirando o quepe e estendendo a mão bronzeada e rígida ao cientista detido.
“Podemos dispensar as apresentações, coronel Muller? Eu tenho sede de um assunto muito importante...”.
“Eu vi o material. Sinto muito pela sua esposa... Eu também sou casado, sabe?”, Muller resolveu saltear o argumento sentimental e atingir o nervo do assunto. “A sua denúncia tem validade, doutor”.
Felipe Barreto assombrou o rosto e as mãos.
“O contágio chegou em Brasília?”.
“Sim... Perdemos um dos nossos, vítima dessa peste. E várias pessoas deram entrada no Hospital Geral nesta tarde com os mesmos sintomas”.
“Congelamento espontâneo”, Felipe semicerrou os olhos diante o mistério.
“Justamente. A temperatura corporal dos infectados cai de maneira drástica, é como se um aquecedor elétrico de uma hora para outra se transformasse em um ar condicionado!”. 
Felipe não fez menção à péssima metáfora, e deletou essa situação agridoce de sua mente.
“Eu não consigo fornecer uma base lógica a essa doença... A infecção precisaria agir em cima do hipotálamo e interferir nos centros termorreguladores sensíveis às variações de temperatura do ambiente. Veja bem, estou trabalhando com especulações... Nenhum elemento presente na biologia influenciaria no controle da secreção de hormônios da glândula pituitária”.
“Seria uma síndrome conjunta?”.
“A Síndrome de Shapiro é, em uma escala infinitesimal, a mesma desregulação paroxismal dos centros termorreguladores. Mas seria um raio caindo mil vezes na mesma árvore...”.
O coronel Muller juntou as mãos embaixo do queixo quase que em uma prece – um movimento natural que fazia para rolar as engrenagens do cérebro. Repôs o quepe na cabeça raspada, assinalada por cicatrizes de anos de treinamentos e operações. Parecia um mapa da América Central em formato oval.
O bom doutor intuiu que o oficial precisava de uma lacuna para entrar em assuntos nebulosos.
“O senhor tem informações sobre o contágio, coronel?”.
“Sim. Estive estudando arquivos extraoficiais referentes ao ‘congelamento espontâneo’”.
“’Extra’?”
Muller limpou a garganta para o prólogo.
“O que o senhor sabe sobre a Corporação Gaia?”.
Felipe gastou alguns segundos ao organizar um caótico mosaico entre a doença e uma superpotência da tecnologia, mas preferiu colocar os dois pés bem fixos na realidade.
“Fabricante latina de recursos tecnológicos. Escritórios nas principais capitais, uma fundação de apoio filantrópico, propaganda bonitinha de Natal. Nada que não esteja na capa da ‘Exame’”, se limitou. “Mas tenho certeza de que a sua resposta não está nas revistas... correto?”.
“Felipe, preciso saber se estou falando com um civil ou um servidor público... Tudo o que for dito a partir de agora será um aperto de mãos no abismo... Você é a segunda pessoa, além de mim, que está perto de abrir uma caixa de Pandora sobre as forças de segurança nesse país e o setor privado”.
“Se sobrevivermos ao contágio...”, interrompeu o doutor, “... não teremos nem mesmo o que repor na caixa, coronel. Qual a participação da Corporação Gaia nessas mortes?”