Shipper - Capítulo II

fevereiro 01, 2017 0 Comments A+ a-

Foto por http://weheartit.com/entry/236465479/in-set/106718448-art-and-fantasy?context_user=gegetaha&page=81 - Reprodução
O homem saboreava um cigarro na varanda do quarto, brincando com a geometria da adocicada fumaça tragada por seu nariz. Tinha a cabeça pesada de tantos cálculos sentimentais acumulados nos últimos meses. Mais atrás, uma mulher de olhos inchados e expressões faciais que pareciam entupidas de arame chegou junto daquele ato solitário. “Como foi que chegamos a isso, Sam?”, comentou ela. Ele disparou o cigarro no chão, cuspiu e apagou com a sola nua do pé. Resmungou e rebateu: “Vai se foder, Debbie...”.

“NÃÃÃÃOOOOOO!”.

Por toda a tarde e toda a noite, só se ouvia esse clamor invisível despontando do apartamento 76 do Edifício Galaxy, no Centro. Dentro dele, uma garota mortificada se retorcida no chão frio, devorada por seus pensamentos de fúria. De fúria e tristeza. Sentia-se traída, ludibriada, como uma esposa. Como Débora Finnegan, escondida pelas telas castanhas dos seus óculos de sol na coletiva de imprensa de horas atrás. Como as centenas de milhares de fãs postos em uma fase terminal de sofrimento puro. A separação é outra forma de traição. Karla Neramani era a órfã, a viúva, a mãe acendendo uma vela para os filhos mortos, frutos da devoção para com Samuel e Débora Finnegan.

“Por que deixaram isso acontecer...? Por quê?”, perguntava Karla para a sala solitária. Vez ou outra os porquês vinham em forma de vocábulos rudes, outras, em um choro minúsculo, contido pelo riscar das unhas na madeira do chão. Isso durou uma, duas, quatro, oito horas, varou madrugada adentro e só terminou quando o sol rompera as frestas das janelas. Karla teve coragem de pegar o celular e reafirmar se seu pesadelo tinha mesmo tomado forma. “O diretor Samuel Finnegan anuncia divórcio com Débora”, “Saiba por que o casal Finnegan anunciou divórcio na tarde de ontem”, “O fim de Deboel – internet se comove com separação de diretor e atriz”. A premissa não mudava.

Karla umedeceu os olhos secos quando a dor pulsava já devagar em seu corpo e espírito. Passou-se até a estante da sala e retirou de uma das gavetas um grosso livro empoeirado e carcomido pelo tempo, folheando suas páginas sem o cuidado de proteger algumas páginas avariadas pela ação do tempo. “Mm, mm...”, resmungava ao ler as linhas avariadas do texto. Fixando-se em uma só página, abriu outra gaveta da estante e pôs para fora um pacote com sal mineral, seis velas escuras, um pequeno jarro feito de osso e, enrolado por um pano, um punhal dourado.

Ela desenhou um círculo perfeito usando punhados cuidadosos de sol e completou com o arranjo matemático das velas já acesas. Depois, estudando a quadratura da sua sala, puxou o punhal e o brandiu. Encostou a lâmina no pulso e lambeu sua pele macia com aquela ponta fina do metal, sentindo seu líquido vermelho e quente escorrer pelo braço. Juntou uma quantidade digna de sangue fresco no jarro e se sentou com ele no meio da alegoria. A ponta dos dedos foi molhada com o sangue, e dele compôs uma sequência de cifras arcanas, revivendo uma linguagem morta expressada no chão, um mosaico imagético e falado há muito esquecido pelos arquimagos da Babilônia. O protocolo estava pronto. Karla Neramani olhou para o abismo, e rezava para que ele também a visse.

“Nghlanman’dr porft’mha. Iggh ibrilh iggh”, disse a língua maldita da bruxa. “Eu sou Neramani, filha de Augusta, neta de Isidora Augusta, bisneta de Maria Mão-de-Ferro. Sou a sombra da noite, sou fogo-fátuo, a última da minha linhagem. Quem quer que esteja no oitavo círculo do inferno, que se apresente agora! Eu preciso de sua ajuda... Eu exijo justiça! É só um pouco de justiça que essa magista precisada exige, não há nada de mal nisso... Não deixe uma filha do mundo clamando por isso! Se puder me ajudar, apareça, ou pelas entidades supremas, não me atrapalhe!”.

Karla se viu sozinha por doze horas. Na última badalada às seis da tarde, o tecido da realidade começou a desfiar. “Demorei, mas cheguei, pequena...”, disse a escuridão. Karla não estava mais sozinha.
“Qual a sua graça?”, perguntou a bruxa.
“Lilith, a-primeira-de-todas, a primeira traída, sacerdotisa dos desejos soturnos, obrigada a parir mil criaturas demoníacas por dia, metáfora viva da cólica e de toda dor mundana... Ouvi sua dor longe, lá de longe, por isso demorei para lhe atender. Espero que seu pedido e seu sacrifício esteja à altura de minha viagem”.
“Senhora da dor e do descontentamento, ouça o clamor dessa humilde serva que definha a cada toque do relógio! Um rei cruel desgraçou a minha vida ontem. Eu exijo uma resposta... e um pedido!”.
O ébano das sombras atrás de Karla se moldou a contorno da anêmica luz saída das velas. Ganhou a forma de uma melindrosa com longos cabelos.
“Magia é sacrifício, pequena...”, comentou Lilith. “Para sua pergunta, eu exijo um objeto de igual importância. Para seu desejo... uma parte do seu corpo que lhe faça falta...”.
Karla girou os olhos duas vezes antes de tomar a decisão fatal.
“Eu lhe darei o segundo masbaha de Rose Kelly Crowley, se me disser por qual motivo... por qual motivo Samuel e Débora Finnegan se divorciaram!”.
“Ah!”, ponderou a entidade. “Anseios humanos... Eles me alimentam até hoje, sabia? Quer saber o gosto do sofrimento dessa fêmea humana?”.
“... Debbie sofria?”, Karla sentiu seu coração afundar dentro do peito feito uma pedra no lago.
“Todos os dias. Ela tem gosto de frango frito... Mmm”.
“Samuel traía Débora?”.
“Indiferença também é uma forma de traição. Todas nós já fomos traídas alguma vez na vida. Nascer com um útero pinta um alvo de sofrimento na sua testa com sangue de menstruação”.
“Ah, não... Eu preciso fazer alguma coisa a respeito. Me ajude, senhora! Me ajude...”.
Karla pegou outra vez o punhal e encostou na linha graúda do calcanhar. “Eu vou fazer um se apaixonar pelo outro de novo”.