Shipper - Capítulo III

fevereiro 02, 2017 0 Comments A+ a-

Foto por https://www.instagram.com/p/h_kUJeqEvI/ - Reprodução

O medo absoluto de Débora Andrada Finnegan era ser clichê. Na vida artística e pessoal, se considerava uma mulher que rejeitava o clichê, toda forma de representação previsível e sem nenhuma potência. Desde interpretar Cicciolina no curta-metragem vencedor do Festival de Berlim ou quando fechou um cruzeiro no Rio Sena, na esteira de um choroso pedido de casamento – feito por ela. Portanto, a autodestrutiva sensação de incômodo de ver o álbum das bodas doía como uma agulha a espetar o olho.

O telefone não parava de apitar, amigos, jornalistas, fãs indiscretos, uma matilha roendo o tutano dos ossos em busca de respostas. Ela jogou o aparelho para debaixo do travesseiro e rezou a um deus ex-machina na sua trama torta.

Toc, toc.
Débora deu de ombros ao ruído fora da casa.
Toc, toc.
Mas não era fora. Era dentro.
Toc.
No seu quarto. Na porta?
TOC, TOC!
No closet.

A mulher se armou em posição de combate ao lado da cama, sentindo a seda pura dos lençóis roçar nos pelos claros da coxa esquerda já eriçados. Dois anos de krav maga e duas horas diárias de fitdance postos à prova no instante em que destrancou o paraíso das peças de alta costura. Um odor de carne queimada e sangue fresco vazava através da fissura mal iluminada do closet, causando um rebuliço no seu estômago vegano.

“Quem... quem está aí?!”, gritou Débora, deslizando a porta de correr.
A sua frente, uma emissão cor-de-rosa cintilava pouco a pouco, criando um mosaico de luzes e criptogramas minúsculos no ar, parecia fumaça. Antes de qualquer emoção correr pelas espirais do cérebro, um impulso fantasmagórico agarrou o corpo de Débora e o lançou para trás, deslocando o quadril contra a parede do quarto, sob um crec, bang! angustiante de escutar.
A porta abriu com força, liberando aquela flama rosácea pelo cômodo inteiro, que esticava e envolvia cada móvel planejado, cada poeira no tapete cor-de-poeira, cada bibelô no criado-mudo, nas gavetas, embaixo das unhas ou nos poros da testa. Do closet, uma garota magricela de bermuda jeans e uma longa camiseta branca rompia a gravidade em seus passos flutuantes, cavalgando os átomos do quarto, envolta pela representação inteira do seu poder. No final da sua perna esquerda, um toco amarrado a sacos plásticos e papel-folha escorria postas de um repugnante sangue seco e queimado.
“Eu era a sua maior fã...”. respondeu.

Samuel girava os dedos indicados e médio em um suculento copo de uísque, brincando com as pedras de gelo. Ativou o aquecimento da casa por comando de voz, depois ordenou que o computador fechasse as janelas, evitando o contato com as trevas noturnas e o vento penetrante do lado de fora. "Como o tempo mudou de repente?", pensou consigo. Então, veio o baque no andar de cima. Crec, bang! Seu pescoço fez um movimento tão forte para saber a origem do estrondo que lhe doeu o tronco. Um bruxulear neon saía do corredor contíguo à escada central, como uma pepita incandescente indo e vindo do quarto que compartilhou por 15 anos com Débora.

Se a atenção pela integridade de Débora não despertasse algum interesse, sua curiosidade, porém, era maior que tudo. Caminhou degrau por degrau até chegar o corredor com acesso ao quarto do Senhor e Senhora (em breve, não mais) Finnegan. Um par de olhos abertos como a ferida nos pés da bruxa presenciou a esposa suspensa no ar, serpenteada pela mesma emissão brilhante no trajeto até esse ponto.

“Meu Deus...”, grunhiu Samuel Finnegan.
A mulher flutuante torceu o rosto e deixou a mostra um par de dentes agressivos no discurso: “Deus está longe dessa história, ‘Sam’!”.
O gosto acre da fumaça colorida tomou as suas narinas e ouvidos, preenchendo o vácuo dos pulmões, do cérebro e do estômago. Cheio de algo que não deveria existir em uma dimensão racional, o homem sentiu os sinais vitais diminuírem de ponta a ponta. A derradeira imagem antes do desmaio se confundia com um borrão feminino de boca sinuosa, cheirando a enxofre e coágulo, comentando: “Meu sonho era te conhecer...”.