Babilônia - Capítulo II

março 01, 2017 0 Comments A+ a-

Fonte: http://chamosan.tumblr.com/ - Reprodução
A mão de concreto se prendia no meu calcanhar como a peça de uma ratoeira. Eu era presa fácil daquele evento anormal, assustada, com o pânico e a adrenalina amargando o céu da boca, o coração latejando dentro da caixa e um meio fio de lágrima correndo no bolsão dos olhos.

Atrás de mim, três gorilas de academia se aproximam e seguram meu braço, feito as barras de ferro ou pesos de musculação. A carne e a pouca gordura ficam amassadas na minha pele branca, e a dor nem parece tão escrota quanto sugere minha cara. Vou me mantendo em pé como posso, escorada em um canto de parede dos casarões da Rua do Ribeirão. Um mendigo chega junto daquela curra, inclinando sua cabeça para ficar rente comigo. Mãos na cintura, uma posição empombada. Ele sorri por trás dos dentes podres e tem olhos mortos, tão mortos, não tinha vida naquele pacote de ossos.

“Você não vai muito longe, Pandora...”, cumprimentou o mendigo.
Puta merda. Tonteando outra vez, fui obrigada a fechar os olhos. Botei pra fora as últimas reservas de fôlego, e respondi:
“Que palhaçada é essa? Quem são vocês? Como você sabe o meu nome, cara?!”.
Ele sorriu e pôs as mãos nas costas, feito um supervisor carrancudo de colégio. Eu tive experiências péssimas com todos eles, por isso, sempre evitei ensinamentos gratuitos e sermões.
“Sou muito antigo. Estou aqui bem antes da fundação desta cidade, fui sentinela e testemunha de todas as edificações, de todos os imigrantes e suas reproduções”, disse ele. O mendigo com ar de professor me ronda, contando um monte de baboseiras sobre eras e a construção da cidade, pouco se tocando se fazia ou não sentido para mim. Nunca deixou de me notar com aquele par de bolas brancas dentro dos olhos, iguais a duas gotas de leite. “Eu sou o Espírito da Cidade. Eu nasci com esta cidade, vivo e sinto cada coisa que aqui acontece, nas minhas veias pulsam a ordem e o caos desses residentes. E só você é o meu problema sem solução...”.
Eu começo a pensar em uma resposta rápida. Algo que consiga bater de frente com aquele mendigo franzino e de roupas puídas, fedendo a cigarro e sebo de outros dias. Mas o que se faz sentido nessa situação?
Antes que eu complete o pensamento, ele avança com seus dedos ossudos nas minhas bochechas e trinca os dentes de ódio.
“Você é um verme na fruta podre! Tem matado todo o meu progresso, sabia? Sempre tentei colocar coisas boas em seu caminho, mas sua natureza é incapaz de ser domada! Te pus um lar, uma família, coloquei até uma menina linda e angelical para ser sua filha...”.
Mila. Ela está no bangalô esperando a minha volta. Prometi que a gente ia viajar de ônibus e tomar todos os sorvetes possíveis que ela conseguisse manter na barriguinha branca e sem gordura igual a minha.
“Não fala da minha filha, seu merda...”, fui direta. O enjoo e a tontura estão mais fortes. “Você é um drogado! Tá pirado, louco, encheu o rabo de solvente, você e esses sacanas aqui... Me soltem!”.
“Eu poderia te soltar, entretanto para alguém cuja vida é repleta de mentiras e crimes, isso seria abrir as portas do galinheiro à raposa...”, sorriu novamente. “Não estou disposto a tolerar suas atividades corruptas! Esqueça daquele dinheiro surrupiado... Se quiser sair deste círculo com vida, terá de abandonar sua corrupção, Pandora”.
Penso e repenso nos dez barões enfiados na caçamba de lixo, que tanto trabalho me deram para arrancar daquelas madames cheias de frescura. Eu peço que os machões afastem os braços musculosos de mim, mais um espaço para respirar. O mendigo Jesus Cristo faz um gesto com as mãos e todos se afastam. Ele espera a resposta sincera que tanto quer escutar – um pedido de rendição. Só consigo pensar em vazar, mas tenho medo que o “Espírito” emproado consiga ler os meus pensamentos. Eu sinto a cabeça ser invadida por um porrão de ideias. Que são minhas, somente minhas.
Penso na grana e em tudo que posso dar à minha filha. Penso no cheiro de suor masculino que me embrulha o estômago e no quanto os homens precisam de aulas de higiene corporal. Lembro dos dias no orfanato. Começo a inclinar levemente minhas pernas e lembro da infância assistindo os filmes do Bruce Lee. “Eu sou um problema sem solução”, foi o que disse o mendigo. Sorte a minha. É a vontade de matar que me manteve viva todos esses anos de cão. Entupo meus pensamentos com todas as lembranças úteis e inúteis. Vai ver, o “Espírito da Cidade” não é essa Coca-Cola toda. Mila, dinheiro, Bruce Lee, músicas bate-estaca, Mila, raiva, infância, Mila, cidade, Mila.
É quando jogo todo o peso do meu corpo para os braços esticados, os punhos fechados mais fortes do que uma pedra, e arremesso o mendigo pra trás. O vão da queda e o espanto daqueles babacas me dão tudo que preciso para correr.
Amém, Dragão!
Minha carreira passa pela Pousada Beira-Mar até cair na Rua do Egito, os pirralhos do Santa Teresa só faltam saltar da janela quando me olham, escondidos por seus professores. Os machões ficaram pra trás, duvidei mesmo que qualquer um ali me perseguisse com aquelas pernas finas. Dou um giro e desço para a Beira-Mar.
Ali, parada no cruzamento entre os sinais, cheirando a maresia e caos, sinto as informações entrarem com muita dor. O “Espírito da Cidade” – isso me torna mais retardada quando repito em voz alta – quer entrar na minha cabeça, bagunçar os meus pensamentos, colocar um cabresto na minha forma de ser e de agir. Antes disso, eu prefiro meter uma bala na cabeça e sujar o seu precioso asfalto.
Coloco as mãos ao redor da boca e grito, grito, grito: “Venha me pegar, seu monte de merda!”.
Vim me dar conta um tanto quanto tarde demais do vapor subindo pela tampa de esgoto e do motorista com olhos de leite vindo da Ponte José Sarney.