A Sagrada Família - Capítulo I

abril 17, 2017 0 Comments A+ a-


“Equipe Alfa, na escuta?”. Na outra ponta da comunicação, o coronel Tagliaferro dava as últimas ordens a sua força-tarefa. “Quero uma operação limpa e sem danos. O vírus já está rodando no sistema, todas as defesas e sistemas de monitoramento estão desabilitados. Temos carta branca para abrir fogo contra tudo o que se mexer... Eu pago um engradado de cerveja pro primeiro que me trouxer a cabeça do Bispo ainda quente. Vão! Vão!”.

A operação era o gosto do Paraíso tilintando no céu da boca de Miguel Tagliaferro. Seu estratagema infalível durou cinco anos. Cinco anos dos quais perdeu a sanidade mental, a saúde, três costelas, dois dentes da frente e um casamento. E o que importa? Não existia maior prazer do que arrancar a cabeça do chefão do crime de Acrópole com os olhos ainda virando por dentro das órbitas.

Miguel monitorava as spycam acopladas nos visores da força-tarefa, acolhido no furgão há dois quilômetros da base da Camarilha. A coloração verde das câmeras noturnas dava forma aos contornos obscuros do galpão, exibindo pilastras, caibros de madeira no teto, as paredes sujas de cal ressequido para eliminar impressões digitais, além das pilhas de corpos dos soldados menores fuzilados em legítima defesa. Jovens mutantes dotados de poderes menores, utilizados como bucha de canhão na guerra criminosa entre os super-humanos e a Polícia Federal. “Mutantes... Pff!”. O coronel os odiava. Eram canalhas que trocaram as armas de fogo por dons da modificação corporal para obter ganhos pessoais à força. “Como aquela psicóloga esquisita chamava? Ah, sim... ‘Gradientes’”.

Os agentes chegaram até o último nível do galpão, uma sala inexpugnável sem vedações externas, com um acesso biométrico à esquerda. O ponta-de-lança utilizou um aparelho do tamanho de um celular e acoplou na bandeja, ativando pequenos circuitos aderentes ao mecanismo. Dois minutos foram necessários para o clique revelador até a porta se arrastar com dificuldade.

Usando fuzis modificados para curta distância, os agentes abriram fogo com as trevas no cômodo.

“Parado, Bispo! Polícia Federal! Mãos na cabeça e não reaja!”.

Debruçado em uma imensa mesa oval, estava uma criatura de dois metros de altura e uma pele vermelha feito sangue falso de cinema. Seus dedos grossos e peludos enrijeceram em um espasmo de dor. De sua cabeça, duas protuberâncias ósseas se projetavam quase para fora da testa, semelhante a um par de cornos. E no meio destas, um bruto ferimento de bala escorria pedaços de ossos, massa cinzenta e sangue – este, sim, de verdade.

“Coronel... A missão foi comprometida...”, sussurrou um agente ao tocar um comunicador na base do capacete. “O Bispo foi assassinado”.

Joyce Drummond tomou o Uber saindo do Distrito Sanderson até a sede da Polícia Federal, na Avenida Larsen. Era um dos únicos serviços privados que não abandonaram a Acrópole depois da “Fortificação”. E dos mais confiáveis também.

Nas ruas transversais, marchas em prol da paz e da segurança pública enchiam as ruas, trabalhadores braçais segurando cartazes enquanto outros acendiam rojões e gritavam a plenos pulmões sua felicidade com a queda de um império criminoso. Joyce via tudo com muito cuidado por trás dos óculos Rayban. Mesmo especialista em seres com poderes além da compreensão, seu objeto de estudo ainda era o fator humano.

“A senhora viu o que aconteceu ontem?”, comentou o motorista. Joyce e todos de Acrópole sabiam. Era impossível ficar alheio a brutal morte do Bispo. Desde que a Camarilha reclamou a cidade para si em abril de 2007, esse dia parecia tão distante quanto o juízo final. Desde quando o primeiro mutante ergueu o dedo em sinal de coação e descobriu que balas e lâminas não se comparavam à força descomunal e os jatos de fogo vomitados das mãos. Ninguém sabia como eles vieram, porém todos sentiram a ambição se erguer tão alto quanto os telecinéticos e os antropomórficos.

Foi para conter a explosão de crimes com motivação mutante que surgiu a Acrópole em novembro de 2010. Quando não pode combater o que não conhece ou o que teme, o poder público se isola em sua própria desgraça – eles estouraram o cofre público levantando trinta metros de altura de muro sob uma extensão de doze quilômetros, mais uma guarita fortemente armada e vigiada. Ninguém entrava ou saía. Seja por terra ou por ar, sob o risco de levar projéteis de mercúrio ou glicerina. Joyce Drummond se recorda de quando atendeu um batedor de 16 anos que tentou escapar de uma blitz e calculou mal o salto, passando o cordão de tolerância na entrada, e sentiu a perna virar carne moída depois de um tiro de alerta. O trauma foi tão absurdo que o pirralho pediu sua emancipação para sair da cidade e se converteu ao protestantismo.

Joyce saltou no jardim da sede no horário combinado. Cederam-lhe o crachá de visitante e a entrada até o escritório de Miguel Tagliaferro. Assim que chegou, poucos cumprimentos. Recusou a água e o café. “Vamos direto ao assunto, coronel?”, questionou ela.

“Calma, senhorita Drummond... Seu irmão está para chegar”.

Lucas Drummond atrasou em doze minutos a sua participação. Ao contrário da sofisticação nas roupas seventh, do coque amarrado na cabeleira escura e nos adereços de metal de Joyce, Lucas se vestia com um fardão folgado e cheirava a almíscar.

“Lucas...”, gemeu a mulher.

“Bom dia, mana”, respondeu ele, cabisbaixo.

Miguel Tagliaferro alinhou os botões da farda oficial, e principiou: “Desculpe a forma teatral como organizamos essa situação... Na noite de ontem, estouramos a base da Camarilha e, ao invés de um mutante mafioso algemado, encontramos um corpo com tiro na cabeça. E um material sensível endereçado à psiquiatra Joyce Drummond e ao padre Lucas Drummond, cidadãos da cidade de Acrópole. Os senhores confirmam suas identidades?”.

Ambos assentiram com a cabeça, ouvindo apenas suas respirações cansadas.

“Muito bem...”, continuou a autoridade. “Quando removemos o corpo do Bispo, encontramos um pendrive em sua boca. Analisamos o tal objeto e encontramos apenas um único arquivo de vídeo, uma gravação na qual o Bispo afirma que devemos garantir a segurança dos irmãos Drummond contra a vendeta do restante da quadrilha... Os senhores possuem alguma ligação com o Bispo?”.

Joyce e Lucas giraram a cabeça de um lado para o outro, em negativa.

“Os senhores possuem alguma ligação com a Camarilha? Ou com algum dos outros membros?”.

Eles repetiram o gesto.

“Nem com Fractal? Ou Doutora Morte? Executor?”.

Não. Não.

“A mensagem está sendo analisada pelos nossos técnicos, mas eu acredito na sua autenticidade... De alguma forma, o Bispo acreditava que a vida de dois cidadãos comuns corre perigo”. Miguel Tagliaferro se aproximava de Joyce Drummond, encostado de forma displicente na quina da mesa. “A senhora é uma psiquiatra de renome, especialista na análise de comportamentos desses criminosos com habilidades extraordinárias”.

“Gradientes”, resumiu ela.

“Sim... ‘Gradientes’. Não é um nome muito comercial, doutora”, seu sorriso tinha tanto escárnio que poderia escorrer pelos lábios. “Sua pesquisa foi única no assunto e projetou o nome de Acrópole nos compêndios de psiquiatria moderna... O 'gradiente' é um recurso de tonalidade usando duas ou mais cores diferentes para pintar um elemento, enquanto gradualmente desaparece entre eles. Dois elementos que se juntam formando algo único...”.

“’Como a transição entre humano e super-humano’! Okay, já entendi que o senhor pesquisou a fundo meu trabalho sobre ‘xeno-psiquiatria’”. Joyce jogou a sutileza para baixo de sua voz ferina.

“Com licença, coronel...”, Lucas ergueu a mão solicitando a sua contribuição ao debate. “Se de fato minha irmã e eu sofremos alguma ameaça desses... Gradientes... Então, vamos ter proteção policial?”.

“De fato, padre. Assim como a doutora Joyce, o senhor também terá patrulhas em sua residência e vigilância diária. Até o momento, não sabemos a extensão dessas ameaças... Mas a Camarilha já foi muito longe em seus planos. Lembram-se a morte do prefeito Estevão? Do diretor William? Do atentado na Praça da Matriz?”.

Joyce Drummond sentiu o telefone vibrando no bolso frontal da calça jeans. Esperou o celular parar com o repetido alarme para redirecionar sua atenção no oficial falastrão.

“Eu nunca tive contato com esse criminoso em especial, coronel...”, respondeu ela. “Meus estudos se limitam a observação sem intervenção direta, além disso, todos os meus contatos com presos foram aprovados e registrados pela polícia. Eu não tenho nada a esconder”. Sua mente traía tal discurso assim que olhou para seu irmão, abaixando a cabeça e soterrando uma culpa no ponto final.

“Muito menos eu”, interviu Lucas. “Minhas atividades no monastério jamais incluíram o contato com essa população...”.

O celular de Joyce outra vez insistia em atrapalhar sua concentração. Quando foi impossível ignorá-lo, a especialista pediu licença e caminhou até o corredor. O visor indicava uma sequência de números inexata demais para celulares, nem mesmo o código de área era local. Joyce retornou o contato, mas a gravação indicava uma caixa postal. Ela aguardou um bom tempo até receber a chamada impertinente.

“Doutora Joyce Drummond falando... Quem gostaria?”.

“Olá, doutora”, seu interlocutor tinha voz de águas subterrâneas. “Não temos muito tempo. Mesmo que o tempo seja uma coisa que já não me resta mais... Eu sou o Bispo. E se meus cálculos estiverem certos, a essa hora eu já estarei morto”.