A Sagrada Família - Capítulo II "A mesma face"

abril 18, 2017 0 Comments A+ a-



“Gradiente. Uma estrutura onde duas ou mais cores são sobrepostas, cada uma com suas intensidades, formando uma transição suave entre elas. A comparação com o zênite de seres com poderes sobrehumanos não é nem um pouco injusta. Estamos no alvorecer de uma era repleta de possibilidades, com criaturas na transição entre a cor opaca da humanidade e os tons vívidos da mutação gênica. Entretanto, ressalto: qual o impacto psicológico que isto se aplica no ser Gradiente? O seu conceito de moral permanece firme ou se torna elástico quando se é capaz de atravessar os céus num salto ou transpassar uma parede de chumbo?”. (“O Alvorecer Gradiente – Um estudo sobre a psiquiatria mutante”, MD PhD Joyce Drummond)

“Isto é uma mensagem, doutora. Não se assuste... É um pouco tarde para acreditar em manifestações espirituais, um pouco cedo para acreditar em conspirações”.

Tão cavernosa era a voz de Bispo que saía pelo telefone, legítima e cheia de força mesmo em uma gravação. Isso não impediu que Joyce Drummond falhasse nos ossos das pernas e no baile confuso das pálpebras.

“Isso o que está ouvindo é um moderno mecanismo de transmissão, ligado a um roteador pirata cujo sinal é direcionado para outros quatro servidores. Virtualmente impossível de ser rastreado! A gravação encontrada pela polícia era um... embuste. Uma forma de colocar você e seu irmãozinho mais próximos de Miguel Tagliaferro. Mirem-se nesse homem. Ele é animal selvagem, tosco, mas será de grande valia para os nossos planos”.

“Nossos? Como assim nossos?”, Joyce temia que seus pensamentos tomassem forma nessa linha de diálogo. “Louco... Louco!”.

“Joyce, existe alguém de dentro da Camarilha que quer a minha destruição. Mesmo depois de morto, esse inimigo nas trevas vai tentar esmagar tudo o que construí nesses anos de facção. O meu projeto de vida. Minha força e minha motivação... Tudo será arrastado, varrido, e tomado por um ser que é muito, mas muito pior do que um dia fui. A altura desta mensagem, os planos de meu inimigo desconhecido terão sucesso. Mas para a nossa sorte, os meus planos também estarão bem encaminhados...”.

Há alguns metros recuados dali, o coronel Tagliaferro pousava o olhar sobre o padre Lucas Drummond. Jovem, adunco, curvado feito um velho corvo, mantinha um olhar sereno diante às potestades. Seus traços eram impressos em Joyce, entretanto apenas no padre que o aspecto angélico lhe era ressaltado – na psiquiatra, a miudeza no rosto e na espessura dos dedos e a qualidade da pele morena funcionavam como uma armadura orgânica de arrogância e misantropia.
Miguel questionou, forjando uma intimidade:

“Posso chamá-lo apenas de Lucas? Veja bem, quando chamo de “Padre”, parece que estou na missa... E já faz cinco anos que não me confesso”.

“Pode sim...”, disse.

“Então, Lucas... Qual é a história entre você e sua irmã? Pela forma como se cumprimentaram, vocês não se telefonam no Natal”.

Lucas encolheu os braços por dentro do blusão, buscando uma forma de sumir dentro de si e evitar o assunto.

“Desde o monastério que não converso com Joyce. Temos algumas... contas antigas. Muitos ressentimentos. Meu coração está aberto para dar o seu perdão, mas esta ação tem de vir com ela. Eu sou o ‘irmão mais velho’. Um minuto e meio a frente dela. E toda a vida, Joyce fez questão de me atravessar em tudo...”. 

“Vocês são órfãos?”.

“Sim. Nossos pais morreram ainda muito cedo. Meu pai trabalhava na usina nuclear, morreu de leucemia quando ainda éramos crianças. E minha mãe...”, Lucas não queria ser traído por sua garganta. Por isso, abriu uma longa pausa até recuperar a sobriedade. “Minha mãe morreu durante um assalto. Um Gradiente matou todos os adultos e deixou as crianças vivas. A partir desse dia, cada um escapou da forma mais conveniente... Eu procurei a religião. Minha irmã, a psicologia”.

“Cada um tem o Deus que merece, não acha?”, Miguel murchou um sorriso na boca. Lucas virou o rosto e encerrou o assunto com uma lufada de ar.

A porta se abriu com lamento. Joyce vinha com o celular ainda nas mãos suadas.

“Lucas, vamos embora...”, foi a sua ordem.

“Espera, doutora”, interviu o coronel. “Ainda não iniciamos os procedimentos! Vamos enviar um destacamento em suas casas”.

“Não tenho tempo, coronel! Eu tenho uma vida lá fora e não posso deixar que um sociopata me atrapalhe! E já que os senhores forçaram um reencontro com Lucas, eu preciso de mais tempo com ele. Com licença”.

Joyce foi puxando a mão de seu irmão como ainda tivessem oito anos e brincassem nas poças de água do bairro da Vila Vintém, no jardim da casa número 59, em frente a uma amendoeira seca. A amendoeira foi podada, a casa foi vendida para uma companhia petroquímica – nem o bairro existe mais, varrido no mapa após o sequestro por um piromaníaco que explodiu quatro quadras. Miguel discou um ramal no telefone, e repassou: “Siga os gêmeos. Não perca os suspeitos de vista”.

A mão de Lucas sentia o calor esfriante de Joyce penetrar em sua camada. Com a outra mão, os dedos frenéticos deslizavam na tela do celular, ignorando os obstáculos à frente, os funcionários, os degraus da escada e a indignação moldando o rosto de Lucas.

“Pode me dizer o que acabou de fazer?”, perguntou ele.

“Estou pedindo um Uber”.

“Eu falo desse show ainda pouco...”.

Joyce girou seu corpo e jogou todo o seu pouco peso nos braços contra o peito de Lucas. O gesto pôs o irmão contra a parede, tão logo quanto uma metáfora.

“Isso tudo é uma armadilha! Não existe ameaça alguma... O Bispo armou para colocar a polícia na nossa cola. A gente precisa trabalhar com o coronel”.

Lucas segurou o pulso de Joyce, aproveitando o olhar alarmado e a maciez de seus gestos. Foi afastando um pouco mais para baixo, até tocar seu coração pulando por dentro da caixa. Disse:

“Que estupidez é essa?”.

“Escute! Eu só vou falar uma vez. Eu recebi uma ligação do Bispo! Uma mensagem gravada, a bem da verdade... Esse filho da puta afirmou que sabe sobre a gente! Sobre os nossos pais! Disse que conhece todo o passado da nossa família. Tudo o que a gente sempre quis saber! Sobre o papai! Sobre as conversas de madrugada...”. Joyce recusou a pressão da mão tépida de Lucas, e manteve uma distância segura para não ser tocada. “Ele só quer uma coisa em troca...”.

“É claro que esse favor não sairia de graça”, resmungou.

“Nós dois devemos descobrir quem planejou o assassinato dele. É alguém de dentro da Camarilha e que já vinha há muito tempo aplicando esse plano! Cada membro do círculo interno da quadrilha é um suspeito em potencial... E o Bispo deixou uma sequência de gravações contendo informações sobre esses Gradientes, e no final delas, um segredo sobre a nossa família é revelado! Mas para termos acesso a elas, temos de nos infiltrar na base de cada suspeito, vez após vez... Investigar a sua participação na morte do Bispo, extrair a gravação escondida e seguir para o suspeito seguinte”.

“Uma caça ao tesouro... Isso é psicótico!”.

“Sim! Mas foi a única forma de nos enredar neste jogo! Eu estou disposta a fazer qualquer coisa para descobrir quem somos de verdade. Até mesmo me sujar nesse mundo nojento que essa cidade nojenta se meteu!”.

Alguns fiapos da máscara nervosa de Joyce Drummond escapavam no remendo cuidadoso que a psiquiatra costurou sobre o seu rosto. Nesse aspecto, Lucas reconhecia a mesma garotinha tão furiosa e magra quanto um cachorro de rua da Vila Vintém.

“Você precisa me ajudar, ‘Luc’”.

“Há oito anos você não me chama disso... Isso tudo é porque precisa da minha ajuda nesse jogo doentio?”.

“Primeiro, você me ajuda... Depois, me julga, padre!”.

Lucas Drummond correu as mãos na cabeça raspada e fechou os olhos, deixando seu corpo estremecer com a gravidade dos últimos acontecimentos. Meneou com a cabeça, e respondeu:

“Eu estou dentro... Quem é o primeiro?”.

Joyce atou outra vez sua mão no pulso de Lucas, com o manejo bem mais gentil – a forma da vida dizer “muito obrigado pelo sacrifício, meu irmão!”. Saíram juntos do prédio, aguardando o servil motorista do carro preto lhe levar até o destino seguinte.

“Você lê jornais? Sabe de algo sobre ‘Fractal’?”, perguntou Joyce.

O padre fechou os olhos e parecia saborear uma comida amarga, enquanto recordava o nome. “’Fractal’, ‘Fractal’... Um dos bandidinhos da quadrilha do Bispo, não é?”.

“Ele é ‘o’ bandidinho agora. No telefonema, o Bispo me passou o histórico do infeliz... Segundo-em-comando, seu braço-direito e, por consequência, o esquerdo. Há cinco anos, pertencia a uma comunidade hippie na estrada principal e despertou a habilidade Gradiente de abrir vórtices no espaço-tempo... Pode estar em qualquer lugar, a qualquer hora, mas ao custo limitado de um forte stress físico! Hoje, controla as altas operações da Camarilha e é responsável direto pela ascensão do Bispo ao poder”.

Lucas avistou o carro ao longe e acenou para o motorista. Comentou:
“Se o rei está morto, Fractal pode muito bem ser um candidato ao trono...”.

“Justamente. Ele está com a primeira gravação...”, Joyce desfez mais fios de sua máscara. “Você tem de ser forte agora, Luc. O Bispo comentou sobre o que se tratava essa revelação, chamou de ‘um aperitivo’ para o que vai chegar... Aquele nojento!”.

“Diga...”, Lucas abaixou a cabeça e esperou a véspera de um soco na cara.

“A morte do nosso pai. O Bispo vai explicar como o nosso pai morreu. E quem foi o culpado por isso”.