Os Últimos - Capítulo I

abril 10, 2017 0 Comments A+ a-



Vamos! Acorde!

Tente se lembrar de como tudo começou!

O problema de viver na corda bamba de uma mentira é não lembrar qual é o nó do começo e do fim. Bambeando um pé após o outro, tonteando identidades e históricos que nunca foram meus. Minha história tem vários começos, nem sei se ainda pertence a mim, questão esfíngica martela o peito e desfigura esse rosto desfeito e refeito a cada cumprimento. Se tiver um tempo para me ouvir e se viva eu chegar ao fim do relato, quem sabe, sou um pouco verdadeira contigo.

O meu nome não importa muito. Não tive uma origem certa, por isso, preenchi minhas lacunas com histórias interessantes e um pouco mais rebuscadas. Em São Paulo, eu era a professora de matemática divorciada e com uma tatuagem na nádega esquerda. Descendo a serra, eu forcei meu sotaque caipira e fugi da cidade grande para me tratar da dependência alcoólica. Pela interestadual, eu era Keylla, tatuadora praticante do amor livre. Não sei como cheguei à Goiânia, só lembro que era Lourdes, católica, viúva, auxiliar de contabilidade e de boa formação moral. Hoje, sou fotógrafa – tenho até uma câmera, juro! – e estou a trabalho para a Revista “Zeitgeist” – isso também é verdade, as leis trabalhistas para freelancers estão um tanto quanto frouxas nesse país.

Os livros de psiquiatria tem um nome para isso. Mitomania. Eu não me considero uma pessoa doente,  não, apenas alguém que flerta com múltiplas realidades distantes. Eu me vejo como um paralelepípedo de calçada, aqueles blocos de concreto fraturados no chão formando um mosaico que se repete a cada passo. O desenho só é bonito se visto de longe. E você só me entenderia se chegasse perto de mim.

As imagens voltam à cabeça e o gosto de sangue já é menor agora. Acho que o nó inicial desta última corda foi amarrado em Espelho D’Água, um descampado que corta a Transamazônica.

Quem tem mais de trinta anos deve se lembrar das chamadas sensacionalistas do Globo Repórter: “conheça a cidade-fantasma no coração do Brasil”, “qual o destino dos desabrigados?”, “a cidade vai sobreviver?”, etecetera, etecetera. Meus colegas do ginásio morriam de medo dos repórteres cobertos com capa de chuva e galocha, sujos de barro e sangue, surfando pelos caibros das casas. Minha única fixação de menina era saber o quão forte foi aquela tempestade para varrer uma cidade do mapa. E o quão nojentos eram os militares por desligar Espelho D’Água do território nacional e abandonar os desabrigados à própria sorte.

Décadas depois – com o declínio da bala-puxa e das calças boca-de-sino –, a cidade continua a mesma. O barro secou se tornando tão rígido quanto os rebocos das construções, fazendo parte também do relevo, como um monumento de agonia se abrindo aos céus. A base do Exército no fim do que era o município foi desativada e o rio que dividia um local ao outro é hoje apenas um oco de grama e terra. Ninguém se atreve a chegar no local, quem sabe um ou dois viajantes desavisados. Eu sei disso, porque eu fui um desses viajantes.

Vamos afrouxar um pouco o ato da corda.

Espelho D’Água era somente uma curiosidade de infância até ela tomar forma e conteúdo durante uma passagem por Altamira. Tudo o que tinha de fazer era cruzar a Transamazônica em um comboio, registrando as comunidades ribeirinhas para a edição comemorativa de Zeitgeist. “Vai ser um trabalho fácil”, disseram. Dois dias de viagens, pés inchados e o rosto marcado por mosquitos. Nem uma suspeita de febre amarela podia ser mais surpreendente a que um acidente no caminhão que me ofereceu carona. O motorista derrapou na pista molhada e capotamos uma, duas, três vezes. Senti os ferros comprimindo minha cabeça como quem faz com uma abóbora no Dia das Bruxas. Tudo bem, confesso que o calor deste monólogo estimulou meu exagero... O caminhão não capotou muito e só bati a cabeça contra o vidro – mas minha dor foi genuína, juro por Deus!

Nunca pensei que o corpo humano produzisse tanto sangue. Minha cabeça latejava de dor e o máximo que conseguia era grunhir umas interjeições raivosas. Refeitos do susto, o motorista me recomendou esperar até passar uma formação de tempestade, mas ser mulher em uma rodovia em dia de chuva é pintar um alvo no meio dos peitos. Sendo assim, tomei coragem e exprimi minha última força para acenar a uma Variante entulhada de caixas.

“Preciso de ajuda, por favor...”.

“Você está sangrando!”, assim como era muito gentil, o motorista tinha a obviedade como brasão. “O posto médico fica há quilômetros daqui”.

“Perdi muito sangue... Tem como me deixar nesse posto?”.

O motorista analisou o corte no rosto. Eu te garanto que era uma cicatriz profunda entre o olho e descia até a bochecha, quase uma caricatura dos vilões do Rambo.

“Puxa, como isso está feio!”, gentil, óbvio e dono de uma sinceridade cáustica. “O posto é bem longe e com essa chuva, tenho medo do carro atolar... Eu tenho uma sugestão...”. Seus olhos tinham um brilho esquisito.

“Diga”.

“Minha esposa é enfermeira! Eu tenho um kit de primeiros socorros na bagagem”, apontou para as caixas amontoadas no banco de trás. “Ela pode fazer uma gambiarra e lhe dar uns analgésicos até a chuva passar, e depois seguirmos viagem até o hospital. Eu moro na próxima entrada”.

Se naquela altura eu soubesse das circunstâncias e a dor não tomasse conta de mim como uma onda de choque, certamente eu seria calma e plena em recusar o convite. Mas a resposta que meu cérebro programou foi o contrário.

“Okay, eu topo... Onde é a sua casa?”.

“Eu moro em Espelho D’Água... Já ouviu falar?”.