Os Últimos - Capítulo II

abril 11, 2017 0 Comments A+ a-



Olá. Você continua aí?

Que bom.

Achei que tinha desistido de mim como fizeram todos os outros. Quando se conta muitas histórias – e muitas versões dessas histórias –, a humanidade tende a perder a fé no cronista. Você vira um estorvo, um ponto de referência. “Olha quem vem lá! O mentiroso!”“Onde é a Rua 7 de Setembro? Entrando ali onde está aquele mentiroso”.

E aprecio muito a sua confiança em mim, apesar de todas as ressalvas. Se quiser continuar comigo, eu agradeço. Caso contrário, pode disfarçar e me deixar falando sozinha. Esse é um costume de infâncias solitárias. Assim como não precisei de amigos quando criança, não espero a sua compaixão agora depois de adulta.

Nesse momento, eu tento desfrouxar a corda molhada dos meus pulsos. Dói feito o diabo, e quanto mais se força, mais ela aperta. É uma técnica de guerra usada na captura de fugitivos: molha-se a corda e ata com muita pressão nos pulsos; com o avanço do tempo, a corda seca e adere ao pulso como se nascesse com ele. É um princípio científico. Eu odeio coisas exatas.

Mas calma. Isso está acontecendo agora.

O que aconteceu quando entrei no carro do homem veio muito antes. Ele me encontrou sangrando na estrada, me resgatando e dividindo o reduzido espaço em sua Variante cor-de-poeira com as dezenas de caixas de papelão no banco traseiro e no porta-malas. “São provisões! Nós moramos muito longe de tudo, então, é bom garantir comida por meses a fio...”, respondeu ele sobre a quantidade absurda de estoque. Entregou-me uma flanela de aspecto minimamente limpo para conter o jorro que saía da testa à boca.

Ele se apresentou como Herbert Garcia, um aposentado policial que nasceu e cresceu na cidade de Espelho D’Água. A família Garcia foi um dos últimos clãs a permanecer nas redondezas depois da calamidade. “A água derrubou tudo, minha filha...”, comentou o senhor. Tinha traços orientais e uma pele corada entremeando os pelos grisalhos, as linhas de expressão e melanomas no rosto. “Você tinha de ver a chuva cobrindo as casas. Deus parecia estar com tanta raiva da gente! Levou tudo, casas, carros, pessoas... Foi muito triste ver meus amigos morrendo ou perdendo tudo o que construíram”.

“Sinto muito, senhor...”, me limitei a dizer. “Desculpe perguntar, mas o que motivou o senhor a continuar em uma cidade abandonada?”.

“As raízes. Eu sentia que era importante continuar onde a minha família começou. Os militares penduraram as botas e fugiram da cidade, como os covardes que são... Desativaram a base e notificaram a região como uma ‘zona desmilitarizada’, fora do território nacional. Ninguém até hoje ousou invadir ou mesmo comprar o terreno, ele foi considerado infértil e a lama cobriu os campos verdes. Não podemos plantar ou criar nada por lá, por isso estocamos provisões a cada três meses”.

Meus olhos cresciam de fascinação com aquilo. Uma comunidade no meio do nada, resistindo a todas as adversidades. Era incrível. Parecia uma mentira! Naquele banco de carona, ouvindo relatos de sobrevivência e recuperação, a nuvem negra do medo e da dor se dissipou e pude apreciar cada segundo ao ver os monumentos de lama seca e a placa desgastada onde há trinta anos se lia “Bem-vindo a Espelho D’Água”.

Os pneus da Variante pareciam ganhar vida nos contornos do chão acidentado. Cinco minutos de paisagem opaca me deu conta das casas reduzidas a pedaços de madeira de cor semelhante às rochas, parecia uma pintura depois da guerra. Herbert e eu paramos junto a um poço artesiano recepcionando uma casa de alvenaria com charmoso estilo americano. “Construímos tudo sozinhos, minha mulher e eu”, se orgulhou o ex-policial.

De dentro da casa saía uma senhorinha magra com cabelos mal pintados de preto, típica caricatura dos filmes antigos. Ainda não consegui me decidir se seu gritinho de susto se deu pela minha visita ou pelo ferimento na testa.

“Sônia, eu encontrei essa caronista na estrada! Pegue o kit de primeiros socorros em uma das caixas e faça milagre com esse machucado, okay?”, exigiu o marido.

Ela lhe beijou o rosto e garantiu de forma inútil que seu comentário fosse sussurrado. “Quem é essa moça? Você não acha que deveria ter comunicado... os outros?”.

Herbert pouco comentou ‘dos outros’. Se ele tinha ficado e tem esposa, de certo, tinha filhos. E esses filhos tinham outros filhos. E suas ramificações tinham mais parentes. Tinha a família da esposa Sônia. E dessa forma, os Garcia repovoaram Espelho D’Água. Antes mesmo de qualquer dedução, eu era a serpente do paraíso.

A mamãe Garcia me sorriu com toda polidez e me colocou para dentro de casa. Parecia uma casa de bonecas toda ornamentada com miudezas, objetos de decoração da época e papel de parede florido. Sentei em um estofado rosa e esperei que a ex-enfermeira limpasse a ferida com água, sabão e iodo. “Use isto”, disse ela. “É uma compressa embebecida em álcool. Pressione a ferida. Assim que estancar, verei a necessidade de pontear. Não se preocupe, eu sou muito cuidadosa”.

Antes de agradecer, Herbert passou para a parte de trás da casa, sumindo pela luz solar que fugia de uma porta aberta na cozinha. Pela principal, um tipo nórdico usando camisa de flanela e a fronte brilhando de suor cumprimentava com um sonoro “boa tarde”.

“Filho... Temos visitas...”, Sônia não primava muito pela descrição. Não precisei ver seu rosto para saber que ela encontrava uma forma constrangedora de indicar a minha presença.

“Oh... Boa tarde”, ele me entregou sua gigantesca mão.

“Olá”, respondi.

“Desculpe o mau jeito”, justificou o filho. “Não costumamos receber visitas nessa cidade”.

Vindo da cozinha, quase a galope, um menino rechonchudo usando uma jardineira me recebeu falando a maior quantidade de frases por segundo. A mãe e o filho se entreolharam, comentando a surpresa do mais novo ao ver uma pessoa que não fosse da comunidade. “Você é uma celebridade agora!”.

Eu sorri amarelado. Outra característica dos contadores de história é se manter longe do radar de pessoas curiosas. A verdade não carece de explicações minuciosas, mas para fantasiar é preciso uma quantidade massiva de informações.

Refiz a mim mesma do sentimento ruim e comentei, tentando me desviar da rota: “Quantas pessoas moram aqui? Afinal, se vou ser uma atração, eu tenho de saber quem estou enfrentando, não acham?”.

Os três se entreolharam como se precisassem de uma aprovação invisível para responder. A mãe se antecipou: “Somos quatro famílias. Nós, os Garcia, somos quatro pessoas. Os Esteves são em três, eles e os Loretto vivem depois do que era o rio...  E os Alencar vivem no começo da cidade. Muitos morreram pela febre amarela ou desistiram de viver longe da civilização”.

“Bom, ‘mom’! Por que não convidamos os Esteves para comer conosco? Hoje é um dia de festa! Temos uma convidada!”, o garotinho ria e se mexia como um boneco de massa. Analisando a interação dos Garcia, notei que o quarteto possuía trejeitos, maneirismos, estavam sempre um tom acima do que deveriam ser. Quase como uma interpretação da interpretação.

Eu sabia disso.

Sabia, porque sou desta forma quando interpreto alguém que invento no mesmo segundo.

Que saudável encontrar alguém que saiba contar histórias – como eu!