Os Últimos - Capítulo III

abril 14, 2017 0 Comments A+ a-


De onde paramos da última vez?

Ah, sim. Papai Garcia, mamãe Garcia, filhinho e filhão. Os últimos membros de uma comunidade semimorta no seio do Norte brasileiro, um grupo que permaneceu oculto do radar do governo, da polícia e da imprensa colorida por quase trinta anos. Muita coisa aconteceu dos anos 80 para cá. Mas Espelho D’Água parece um rascunho ridículo do que estava em voga na época. Tenho um medo profundo de ligar a televisão e o Bozo ou os Menudos saltarem da tela.

Eu devia ter continuado naquela estrada. Sangrando feito um porco, mas as chances de sobreviver seriam maiores. Não estaria aqui na sala dos Esteves, amarrada a uma cadeira com os braços nas costas, vendo aquelas três criaturas gemendo nas sombras a meu respeito. “O que faremos com ela?”, “Por que não picamos e damos aos cães”, “Foi uma ideia estúpida trazê-la para cá!”, etecetera. É o que sou obrigada a ouvir, enquanto minha cabeça só piora com a atmosfera.

Estarei nessa posição há mais ou menos duas horas.

Cento e vinte minutos no passado, eu descia as escadas da casa dos Garcia, usando um robe de chambre rosa e uma toalha amarrada feito uma colmeia na cabeça. O machucado latejava menos agora por baixo da gaze, Sônia Garcia era mesmo muito boa com as mãos – as mãos que remendaram a minha testa seriam as mesmas que atariam meus pulsos no futuro. Ela me cedeu as acomodações para que eu me tomasse banho e usasse suas roupas até o dia seguinte. O dia seguinte que nunca viria.

“Uau...”, o mais velho era Paulo Artur, tinha o dobro do tamanho e dos músculos do restante da família. Fez um assobio elogioso quando me viu na sala. “Você é mais bonita limpa e descansada”.

“Obrigada”, lhe ofereci um meio-sorriso. “Eu só continuo tonta desde a hora que cheguei. O clima daqui é sufocante...”.

“Não se preocupe. Com certeza foi o acidente. E ainda bem que não precisou pontear o seu ferimento! Ah, tomou suas medicações?”.

“Sim. Aliás, onde está sua mãe?”.

“Na cozinha com o pai, preparando o jantar. O Tommy subiu para o quarto, entretido com alguma revisa que o pai trouxe da cidade. Estamos esperando o restante do pessoal. Hoje é a noite do Gamão”, respondeu.

“Gamão...”, como eu queria poder disfarçar minha agonia com entretenimento tão morno. “E então, quando os outros chegarão?”.

Não demorou muito para os outros chegarem. Um após o outro, vieram os pilares da oculta sociedade de Espelho D’Água, recebidos apenas por Paulo Garcia. Primeiro, Amanda e Felipe Esteves – eram muito bonitos naquela representação simbiótica de casal perfeito, o típico casal de amigos que serviriam de exemplo em como ser marido e mulher. Amanda era bonita com sua pele cor de oliva, mais um vultuoso coque amarrando os cabelos, e segurava de maneira macia as mãos de Felipe, um colosso semelhante a Paulo, mas negro e calvo. Trocamos breves cumprimentos, um era o experimento social do outro.

“E onde está o menino? Tommy tem um edição nova dos Novos Titãs que ele está louco para mostrar!”, disse Paulo com felicidade plastificada.

“O Lucca está vindo em breve... Tem muita lição de casa, estamos pegando pesado com ele esse ano”, respondeu o senhor Esteves com a entonação mecânica e os gestos de quem ensaia muito mal o seu texto.

Eu não tinha me dado conta do silêncio na cozinha até o encontro dos Esteves e dos Garcia naquele local, um burburinho de múltiplas vozes sem sentido tomou conta quando Amanda e Felipe seguiram até lá.

Paulo continuou fazendo as vezes de anfitrião tentando me tornar parte da comunidade, relatando que Felipe Esteves ajuda Herbert Garcia a trazer coisas de Altamira, no Pará, até Espelho D’Água, ele possui conexões com atacadistas e distribuidoras de bens não-duráveis. Amanda foi professora durante muito tempo e contribui na educação das únicas crianças do local: seu filho, Lucca, o pequeno Tomás “Tommy” Garcia e a filha adolescente dos Loretto.

Os Alencar chegaram com arruaça, abraçando Paulo Garcia e ignorando um certo tempo a chegada de uma forasteira. O silêncio na cozinha voltou a tomar minha atenção, logo ignorado pelos aspectos mais sutis de Artêmio Alencar e sua irmã, Emília: eram gordos, rosados, com cabelo liso escorrendo na testa suada e o mesmo gosto para roupas extravagantes. Repeti o cumprimento já sem o mesmo interesse de horas atrás.

Os Alencar foram ao encontro do casal Garcia e o murmúrio alegre voltou com força. Desta vez, não eles sumiram feito os Esteves, permaneceram na sala. Quem se retirou foi Paulo, atrás de um saca-rolhas para esgotar a garrafa de vinho que Emília Esteves trouxe na bolsa. “Foi cortesia da última viagem de Herbert a Altamira... Tenho guardado com muito carinho para um encontro como este”, justificou a moça.

Dois toques na porta anunciavam a chegada de Ulisses Loretto, um raquítico que mantinha com muito cuidado um bigode grosso por cima dos lábios finos. Acenou para mim com quem agrada um cachorro. Artêmio partiu para a então silenciosa cozinha, obrigando o próprio Ulisses a receber a esposa Marisa, que era mais alta e robusta que o companheiro, dona de uma seriedade emoldurando o rosto latino, e a filha Sofia, uma réplica pubescente da mãe, com um lindo cabelo negro e liso até a cintura e cobrindo o seu tédio por trás dos óculos de aros grossos. Ambas ignoraram minha presença, o que a esta altura era confortável.

Sofia Loretto subiu sem nenhuma permissão para o quarto de Tomás Garcia. Fiquei na sala sozinha com Ulisses e Marisa, torcendo pela aparição fantasmagórica de qualquer morador de Espelho D’Água. Até então não tinha me dado conta de que nunca consegui vê-los juntos, todos, reunidos como em uma foto oficial. A chegada de um excluía a presença do outro, um jogo de resta-um humano que me incomodou pelas próximas horas.

Enfim, Herbert Garcia saía da cozinha estendendo a mão aos vizinhos, contando seus feitos heroicos em Altamira para conseguir água e comida. Contou que me resgatou na beira da estrada e que está ansioso pela noite de hoje. Blá, blá, blá.

“Meninas...”, disse o senhor Garcia para a senhora Loretto e eu. “Eu vou com Ulisses fumar um cigarro lá fora com Artêmio. Daqui a pouco, as meninas saem da cozinha e fazem companhia para vocês!”.

E saíram os meninos pela cozinha, atrás de Artêmio, para fumar um cigarro imaginário. Sempre em grupos de três.

Não se ouvia nada pela casa. Nem no quarto de cima, nem onde deveria ser um antro de falatório, calor e cheiro de comida. Ou mesmo lá fora, sem fumaça de cigarros ou conversas sobre futebol e piadas machistas. A alegoria desse pessoal havia se esgotado.

Minha tontura só aumentava, senti meu estômago comprimido por um enjoo dos meus agoniantes. Marisa Loretto esticava seu pescoço de mola para me tomar por inteiro.

“Está se sentindo bem, menina?”, perguntou.

“Não muito... Meu enjoo está muito forte. Preciso... Preciso vomitar”, respondi.

“Não acho que deva sair daqui”, sua voz tinha uma imposição tão forte quanto as cordas que agora me prendem a uma cadeira. “Não tem a permissão para andar por aí”.

“Quer que eu vomite no tapete? Dona Sônia não ia gostar nada, nada...”, foi o que disse, sem ter a noção do perigo.

Marisa acenou para que eu entrasse no banheiro:

“É a primeira à esquerda, se você não sabe...”, concluiu a estúpida vizinha.

Segui até o caminho indicado esperando que Marisa Loretto desistisse de me acompanhar com os olhos. Fui me esgueirando por trás dos móveis até ter certeza de que ela não me vigiasse, e consegui. O primeiro impulso que tive com a liberdade visual foi ver o que tinha de tão misterioso na cozinha.

E, como dizem, a curiosidade matou o gato.