Para Servir e Proteger - capítulo dois

junho 28, 2017 0 Comments A+ a-


Acordo com uma vibração constante embaixo do travesseiro. Fisgo o celular ainda morno pela fronha, e observo a mensagem: “Medicação. 8h00. Bom dia”. Saio da cama com um sorriso ainda crescendo nos lábios, abrindo a gaveta do criado-mudo e retirando uma cápsula de Labetalol.

— Bom dia, Atena – comento a plenos pulmões, enchendo o vazio do meu quarto.

Pelo alto-falante no ar-condicionado, o vazio me responde:

— Bom dia, senhor.

Era desta forma, todos os dias, que passei a acordar. Sempre no segundo alarme. Deus não permitia que eu desobedecesse ao terceiro toque da máquina. Logo após o acidente, ela me lembrava de forma rígida todos os meus horários. Passou a rodar o triplo de diagnósticos espontaneamente. Eu não me recordava de ter programado essa função.

No outro dia, o mesmo recado. Medicação, oito horas. Bom dia, Atena!, eu cumprimentava. Bom dia, senhor, a máquina respondia. A qualquer sinal de estafa ou ar entrecortado na garganta, os cômodos se enchiam daquela entediante iluminação verde, a malha de luzes cobria meu corpo e assinalava meu estado atual. Recomendo isso, senhor. Melhor fazer aquilo, senhor. Passei a ouvir mais as caixas de som do que o barulho do vento ou os boletins meteorológicos. Passados trinta dias, eu queria desfibrilar aquela máquina e sua vozinha irritante de secretária virgem – uma secretária que mantinha na linha dura todos os meus passos em minha própria casa.

O cardiologista fora específico quanto às caminhadas logo após a recuperação do implante. Mal tinha calçado os tênis de corrida naquela manhã, quando a máquina disparou pela comunicação interna:

— A temperatura externa não favorece exercício físico. Formação chuvosa em vinte minutos com margem de erro para mais dez minutos.

Descalcei na mesma hora e pus um chinelo de dedo.

— Eu odiaria ter de perdê-lo, senhor... – disse a máquina. Passei a manhã analisando essa sua mudança tonal de secretária virgem para uma mãe lactante. A tempestade caiu, de fato.

Nas vezes em que cumpria minhas obrigações fora de casa, era quando a máquina enlouquecia. No trânsito, o computador de bordo do carro tilintava as notificações do celular – de cada dez mensagens, quatro eram da máquina, sempre envolvendo previsões metafísicas sobre os cruzamentos e os melhores trajetos para se chegar nos encontros. Desgraça de tecnologia integrada.

— Eu adoraria que você tivesse piloto automático – comentei certa vez.

— Podemos providenciar isso, senhor... – respondeu a máquina. Ela estava agora fazendo piadas, uma nova fase em nosso relacionamento. O mais espantoso de tudo é que nada disso veio no manual de instruções.

Parei de tratar o assunto com brincadeira no jantar de lançamento da Revista Casa Forte, na antessala do museu. Eu realmente havia sentido um incômodo na região do marcapasso e dei ordens expressas para pular os últimos diagnósticos – sim, cheguei a ponto de me justificar para minha secretária meio imaculada, meio ama-de-leite. No instante do evento, com toda a nata da editoria brasileira reunida, e os olhos atentos dos meus inimigos para uma eventual síncope, o celular no bolso esquerdo da calça de linho dispara.

Ignoro a mensagem brindando com meu melhor sorriso amarelo, e lido com a situação da forma mais madura. Tudo até a segunda mensagem. A terceira. E uma ligação. Rejeito a primeira chamada, num espaço de tempo improvável até vir a chamada seguinte, e a seguinte, e a seguinte.

Corri até um corredor mais reservado e encarei a tela do celular com um nervosismo quase cego, feito a criança que descobre que Norman Bates guardava o esqueleto da mãe no sótão Todos os reclames vieram de números criptografados, daquelas sequências numéricas de spam de operadoras telefônicas. Outro número imenso brilhava na tela. Atendi.

— Boa noite, senhor. Volte imediatamente para o último diagnóstico.

Eu desliguei ainda um pouco tonto pela apreensão dessa manifestação invasiva. De repente, comecei a olhar para cada lente fotográfica e cada flash de celular da recepção, imaginando todos aqueles olhos invisíveis capturando meus momentos ou mesmo me vigiando feito a máquina. Uma fina camada de suor gelado cobre a minha cabeça, e eu me sinto tão ruim quanto há cinco meses.


Eu não queria esperar para ver qual o próximo passo daquela máquina esquisita. Foi de bate-pronto que decidi procurar o engenheiro-chefe da Norma Soluções Tecnológicas.