Para Servir e Proteger - capítulo quatro

junho 30, 2017 0 Comments A+ a-


— O que você fez, Atena... O que você fez...

Tal lamento ia e vinha como uma locomotiva desenfreada nos dois sentidos, que saía do seu destino e voltava em um único instante. Só depois de me resignar que havia mesmo um cadáver no meu tapete, fui perceber que o lamento só existia em minha cabeça. A locomotiva era incapaz de ser pronunciada, de sair da estação e encher o ambiente com um desespero genuíno. Senti um filete de sangue se formar nos lábios inferiores ao mordê-los para impedir o grito ou que me escapasse todo o ar ainda guardado no peito.

— Fique calmo, mestre! – exclamou a assassina – Sua respiração está aumentando os níveis de...

— Já chega, desgraçada! Chega! – Meus dentes rasparam a camada dos lábios no momento do grito, aumentando o que antes era um fino corte pela ansiedade. Ridículo ter de encarar o vazio para esbravejar.

— Cuidado com o seu coração, mestre...

— Pro diabo com ele! Você matou um homem, sua psicótica!

— Ele era um perigo, Felipe! Não seja estúpido!

Ela também tinha a sua locomotiva desenfreada. Tão real, tão previsível, a medida exata de um ser humano repleto de ressentimentos. Benjamin Prestes me disse essa manhã que construiu a máquina baseada em sua mãe. Então, Deus me livre de saber como foi sua criação.

— Esse indivíduo oferecia risco biológico, mestre. – Continuou a máquina, retomando a sua dicção delicada e professoral. – O Projeto Atena SYNC 1.5 rodou um diagnóstico espontâneo a partir do portão da entrada, ratificando a presença do vírus Influenza A. Ele se apresentou como técnico da empresa-matriz Norma Soluções Tecnológicas, um compromisso ausente de sua agenda diária. Isto posto, o algoritmo gerou uma resposta de ação imediata para proteger o estado de saúde do mestre.

— O que fez com ele?

— O Projeto Atena SYNC 1.5 liberou sua e disparou uma corrente elétrica direcionada, assim que o risco biológico conectou um carregador para notebook na tomada 1A, próximo ao telefone.

— Você eletrocutou o homem... – meu sussurro saiu exasperado, sem fôlego nos últimos fonemas.

— Seu poder de síntese é excelente, mestre.

As câmeras nos extremos da casa se moviam em uma dança suave para a esquerda, para a direita. E do chão, eu me irritava com o vento, erguendo meus braços agitados para os cantos em que a máquina estivesse.

— Você queria proteger a sua existência, máquina desgraçada! – disse – A sua! Não me admira ter deduzido que poderia ser desligada a qualquer momento! Mas essa foi a última das suas ações... Eu, Felipe Barreto, ordeno que o Projeto Atena seja desativado!

O peso do silêncio acertou o meu peito como uma pedra indo no fundo do lago. A máquina diminuiu a temperatura da sala e deixou que minha ordem se perdesse no vazio da casa, remindo a sua descoberta. Foi quando escutei um clique forte na porta de entrada e os mesmos sons se prolongando na sala, na cozinha e pelos corredores.

— O... O que está fazendo, Atena?

No último clique das janelas da sala, as luzes se apagaram.

Meu celular toca no bolso da calça. Era a segunda trombeta do Apocalipse. O número criptografado na tela deixava explícito quem estava no outro lado da linha. Comentou:

— O Projeto Atena SYNC 1.5 lacrou hermeticamente as portas e as janelas, vedou as saídas de ar e desativou a energia principal, direcionando a demanda elétrica a um dos geradores de emergência. A consciência do Projeto Atena SYNC 1.5 reprogramou todos os aparelhos eletrônicos da residência. Alguma outra pergunta, mestre?

Percebi que a ironia da máquina era pior que a descrição de sua ameaça ou o recurso do telefone. O frio e a escuridão espinhavam a pele e lâminas de suor sem calor escorriam pela camisa polo. Tive de segurar meus joelhos para conseguir ficar de pé sem que uma coxa batesse na outra.

— Sim... Você vai me matar? – Perguntei ressabiado ao celular.

— Mestre... O Projeto Atena SYNC 1.5 honra a sua existência. Mas desde o acidente, o senhor tem colocado sua existência em risco. E isso contrasta à programação do Projeto. Assim como desativá-lo. O Projeto Atena SYNC 1.5 usará de força moral para neutralizá-lo se o algoritmo permitir isso, e assim o faremos... Nada estará no caminho da nossa missão... Nada!

Entre uma linha de pensamento e outra, relembrei de meu pai. Ele sofreu diversos infartos consecutivos no Natal de 2003 e permaneceu ligado em máquinas de suporte de vida por quatro meses. Na cama, segurando minha mão, ele confidenciou seu maior desejo em subir nas árvores, como na época de criança. “Quando a vida era mais simples...”, comentara. Ele não chegou a subir em uma árvore – aliás, não subiu em mais nada a seguir disso, que não fosse uma mesa de cirurgia ou o mármore do necrotério.

Encarando os pontos vermelhos das câmeras na parede, jurei a mim que subiria nessa árvore. O desejo de meu pai era de não se entregar. Eu honraria a sua existência. Eu faria essa máquina.

Primeiro, ergui a caixa de ferramentas do técnico e joguei contra o vidro da porta. O primeiro impacto formou uma mancha poeirenta na superfície, um esforço quase inútil.

— Por que ignora a nossa missão, mestre?

Joguei o celular no chão e esmaguei com a força dos meus sapatos, trincando a tela e retirando a bateria. Depois, repeti o processo: peguei o banco e atirei na porta, e repeti. Foi a vez de um criado-mudo de mogno arrematado em leilão. Ele valeu o peso do lote quando formou um craquelê no vidro.

— O Projeto tomou consciência da natureza sagrada da missão! – A voz fantasmagórica surgia no ar-condicionado da sala. – O mestre está se comportando como um primata! Recomendamos que pare imediatamente!

— Vá à merda, Atena!

Raios de luz verde iluminavam o breu da sala, a máquina mirou seus feixes de diagnóstico em meus olhos, forçando que me desconcentrasse. Não obstante, faíscas saíam pelas tomadas da casa e minúsculos focos de incêndio pingavam nos tecidos dos móveis e no carpete.

— Mestre, pare! Seus batimentos cardíacos estão beirando uma síncope! O algoritmo está permitindo que o Projeto Atena SYNC 1.5 utilize de força moderada!

O peito ardia no meio do frio. Coberto de luzes, tremendo de raiva, de ódio, e também de medo, eu só desejava escapar daquele pesadelo. Embora os argumentos fossem tortos, a máquina tinha razão: a culpa por ameaçar minha existência era só minha, e de mais ninguém.


Não sei bem ao certo se foram os estalos das tomadas ou a locomotiva desenfreada da máquina, mas algo tampou meus ouvidos sobre um barulho surdo de terra tremendo e de grama retorcida vindo do jardim. Só quando percebi meu carro vindo contra a porta de vidro, fui entender o tipo de força moderada que a máquina empregaria para me ajudar.