Para Servir e Proteger - capítulo três

junho 29, 2017 0 Comments A+ a-


O prédio da Norma Soluções Tecnológicas era uma espada se erguendo alta e vultosa para os céus, uma Excalibur de cinquenta andares de ferro polido e vidros espelhados. A sede ficava nos limites da cidade, longe dos olhares curiosos da imprensa ou dos concorrentes diretos, sendo assim, dirigir por quase duas horas até o meu encontro com o engenheiro-chefe do Projeto.

Durante o trajeto, dois gladiadores batalhavam entre si, disputando a minha atenção: ora o computador de bordo do carro apontando o trajeto pelo GPS até a sede, ora interrompido pelas notificações do celular. Beep, beep, brr, brr. A sinfonia das duas máquinas cegava o meu juízo, e sempre a maldita máquina da Norma se sobressaia. Beep, beep. Eu nunca soube o que era um relacionamento abusivo até coloca-la na minha casa. Brr, brr!

Livrei-me de uma das máquinas quando desci no estacionamento privativo da sede, recebido logo em seguida por um segurança muito servil que me aguardava na vaga coberta. Estava muito inclinado a me livrar da segunda máquina – a pior de todas.

O homem me conduziu ao elevador panorâmico e apertou dois botões. Deslizamos pelos andares observando a construção crescer, passando pelos escritórios do Administrativo, setores pessoais – a Norma tinha até um salão de jogos para os momentos de folga. Pude perceber também tantos engenheiros e técnicos muito jovens de estilo peculiar, pareciam prontos para uma tarde no shopping com suas camisas xadrez, calças coladas e cabelos espetados das mais diversas cores. Esse tipo de modernidade nunca me atingira, nem quando eu mesmo era jovem e peculiar.

No quadragésimo quinto andar, as portas correram suaves para as laterais. Um charmoso yuppie sentava no extremo oposto de uma mesa de mogno, confortável em seu terno verde-oliva e sapatos Mocassim tinindo.

— Muito prazer, senhor Barreto! Eu me chamo Benjamin Prestes, todos os meus amigos me chamam de ‘Ben’. Sente-se.

Eu nunca confiei em pessoas que me oferecem amizade antes do primeiro cumprimento. Repousei na poltrona oposta ao almofadinha, e fui atingindo o nervo do assunto com uma lâmina cega.

— Benjamin, precisamos conversar sobre aquela máquina...

— A Atena? – Sua interrupção soou mais como um ríspido corte pelo meu tratamento à sua criação.

— E existe outra máquina que me envie mensagens de cinco em cinco minutos, pior do que uma ex-namorada ressentida?

A graça não atingiu nem o engenheiro-chefe da Norma, muito menos a mim.

— Senhor Barreto... Qual é a sua reclamação, de fato?

Eu saquei o celular e mostrei as últimas mensagens, mais a lista de chamadas.

— “Senhor, hora da sua medicação”. “Senhor, recomendo o uso do exercício de respiração”. “Senhor, recomendo balancear a refeição para suprir a carência de vitamina B12”. Desde as oito da manhã foram dezoito mensagens. Número de telefone criptografados. Eu devo esperar mais o quê até a máquina me enviar bilhetes de batom no guardanapo?

Benjamin Prestes engolia um sorriso desconcertante. Seus dedos nervosos alisavam os vincos da roupa italiana.

— Entenda... Isso não está fora da programação acertada em contrato. O senhor sabe que nossa Inteligência tem acesso aos seus registros e sincroniza todas as contas e aparelhos eletrônicos, como celulares, computadores, tablets, televisores, até mesmo câmeras de vigilância.

— Eu li as letras miúdas, Benjamin – respondi com os dentes cerrados. – Mas esse comportamento me assusta! Sabe o que sua preciosa máquina fez comigo hoje de manhã? Ela invadiu o meu e-mail e desmarcou uma reunião importante com o meu editor! Percebe o que estou contando? Uma máquina com iniciativa própria entrou na minha conta pessoal e digitou uma mensagem replicando a forma como escrevo! Até mesmo eu cheguei a duvidar se escrevi aquilo ou não!

Novamente me passo para o celular e abro um arquivo de áudio.

— Esse é uma gravação que fiz assim que questionei o sistema sobre essa patifaria do e-mail... Ouça com atenção.

“Atena, você entrou em minha conta de e-mail?”.
“Sim, senhor”.
“Atena, essa reunião é muito importante! Porra! Com que... Com que direito você fez isso! Digo... Essa permissão não foi autorizada por mim!”.
“Senhor Barreto, o sistema Atena SYNC 1.5 usou um algoritmo para identificar e replicar a sua narrativa de forma a evitar uma atitude danosa ao usuário”.
“’Danosa’... Como assim ‘danosa’?”.
“O trajeto até o local previsto para a reunião está comprometido devido à visita do presidente em nossa cidade. Todas as vias na região estão inacessíveis. Isso implicaria no atraso de sua medicação noturna, bem como o último diagnóstico. Isso comprometeria a nossa operação”.
“Nossa? A sua operação?”.
“A nossa, senhor. Minha, da Atena SYNC 1.5, e da sua”.

Benjamin Prestes sincroniza seu olhar ao meu e o restante do rosto se enche de sobrancelhas relaxadas e marcas de expressões mais naturais a que no início da conversa. Eu não precisava ler os Pease para compreender que esta era uma reação de previsibilidade.

— Benjamin... – disse. – Eu exijo o cancelamento desse contrato! A continuidade do seu projeto depende muito da aprovação de todos os beta testes... Eu não estou me sentindo mais seguro com essa máquina obcecada pela minha saúde. Fui bem claro?!

Ele se ergue de sua poltrona reclinável, com as mãos nas costas, e passa a caminhar na direção onde estou.

— Senhor Barreto... Essa é uma informação confidencial. Há oito anos, eu lancei este projeto em homenagem à minha mãe, Calipso. Ela era uma professora de Literatura Inglesa e morreu antes de ter visto o meu trabalho reconhecido. Minha mãe e eu tínhamos uma relação muito próxima, éramos quase gêmeos... Se um tomasse uma forte chuva de manhã, o outro espirrava à tarde! O Projeto Atena é uma forma de homenageá-la, de tornar viva a sua presença e o seu cuidado para comigo... E aos outros usuários. Durante a fase de programação, eu construí a interface logarítmica sutilmente baseada nela. Traços de personalidade, padrão vocal até mesmo quotes linguísticos foram moldados a partir de como minha mãe era. Entende?

Eu seguro firme nos braços da cadeira a ponto das unhas romperem o estofado, enquanto o filho de Calipso Prestes cresce em cima de mim feito uma lua gigante.

— Entende o que quero dizer, senhor Barreto? Ir de encontro ao Projeto Atena é ir de encontro à memória da minha mãe... Sugiro ter um pouco mais de fé ao meu trabalho.

— Até restaurar a minha fé, terei de conviver com essa invasão de privacidade? – respondi sem esconder minha ansiedade.

— Bom, encare isso como o padrão de proteção do Projeto, afinal, a casa é programada para proteger o seu dono de qualquer ameaça... Mas, em todo caso, o senhor é nosso consumidor. Enviarei meu melhor técnico no final da tarde para avaliarmos a situação. Mais alguma queixa?

— Não. Eu tenho um problema com a cafeteira, mas acho que isso não é da sua alçada. Passar bem. – Retiro-me da sala com um breve aceno de mão, evitando ter de cruzar o caminho daquele homem obscuro outro momento.

Podem me chamar de covarde, mas decidi não voltar para casa até o tal técnico dar um jeito naquela máquina. Desliguei os celulares e ativei o modo manual do carro. Fui dar uma volta na orla para espairecer, e também para manter o ritmo biológico nos eixos – os últimos dias aumentaram minha resistência com o marcapasso. Um delicioso almoço de mariscos, uma bebida fraca, boa música. Dei conta dos prazeres honestos da vida, longe de toda superficialidade que impomos para nos sentirmos absolutos.

O sol foi caindo no horizonte, e lembrei de ligar o celular para entrar em contato com o técnico. Para minha surpresa, não havia mensagens da máquina, nem ligações. Nada de recomendações sobre o que fiz ou deixei de fazer. Minha fé foi restaurada.

Liguei para o Serviço de Atendimento da Norma sobre a visita técnica. O funcionário estava a caminho, o que me daria uns vinte minutos da praia até a minha casa para recebê-lo. Assim que avistei o portão automático, encontrei o carro com o símbolo da empresa estacionado na calçada oposta, porém, não havia nenhum técnico fardado dentro. Dei uma boa olhada na rua deserta, nem sinal de qualquer pessoa. Com um clique no controle, o portão se abriu, e entrei, passando pelo jardim até a entrada da casa.

O diabo testou a minha fé quando avistei um homem de farda azul e branco jogado no chão da minha sala, ao lado da sua caixa de ferramentas.

— Não pode ser... Não pode ser...

Senti um repuxo no peito ao empurrar a porta de vidro e chegar mais perto do homem. Sua respiração sumia aos poucos, já sem nenhuma reserva de oxigênio, e do canto da sua boca se espalhava uma baba espessa, grossa.

— Não toque nele! – O grito de uma mulher esganiçada cobriu o silêncio inquietante da sala.

— Quem está aí? Oh, não... Você! – Por um segundo, não reconheci quem dava as ordens. A voz que saía das caixas de som acopladas nos ar-condicionados.


— Fique onde está, senhor... Eu odiaria ter de perdê-lo desta forma... – ameaçou a máquina.