Para Servir e Proteger - capítulo um

junho 27, 2017 0 Comments A+ a-



Quando eu tinha seis anos, meu pai comprou uma máquina para separar as gemas dos ovos. Uma invenção preguiçosa, mas própria de um par de solteiros criados erraticamente sem a presença materna. Eu tinha seis anos quando meu pai me disse uma frase definitiva: “o homem é quem faz a máquina, mas a máquina também é quem faz o homem”. A máquina nos fazia um par de solteiros criados erraticamente, inúteis em separar a camada amarela e gelatinosa dos ovos sem o auxílio de manivelas e pás de metal.

Agora, deitado no chão frio e ingrato do sótão, eu percebo que a máquina está me fazendo homem outra vez. E não é nada agradável a composição.

Lembro-me bem que a segunda máquina presente em minha vida foi cortesia de minha tia. “Seja grande”, desejou ela – uma senhora gorda que vivia com oito gatos e ostentava uma fina linha preta de pelos no lábio superior –, enquanto me entregava um Macintosh Centris. Eu era o próprio Mágico de Oz abrindo caminhos um tanto quanto incertos e desconhecidos. Jogos, cálculos, ferramentas de texto. Escrevi minha primeira crônica para O Imparcial de domingo durante a ameaça do vírus Ebola, naquele teclado branco-encardido. Se o tecido era de um pequeno jornalista, o meu costume fora trançado na agulha da máquina.

Mais de vinte gerações de aparelhos me acompanharam até chegar na casa. Inteligência artificial integrada, multifunções, foi o que disseram. Preço de fábrica. Conceitos demais, propaganda demais. Foi amor à primeira vista. Segurança, conforto e dedicação exclusiva ao usuário. Todo burguês sonha com as palavras “dedicação” e “exclusiva” no mesmo bojo. Bastou realizar o cadastro na fila de espera e três meses depois veio a proposta.

— O senhor será um dos nossos beta testers. Vamos integrar à Inteligência no domicílio e, dentro de seis meses, entraremos em contato. Caso haja alguma falha, a Norma Soluções Tecnológicas cobrirá todos os custos – disseram. – O senhor aceita?

Foi então que pontuei a frase que marcaria minha sentença.

— Sim! Eu aceito!

A máquina foi chocada em Setembro do ano passado. O verdadeiro ovo da serpente. Ergueram até mesmo uma central de operações com dois geradores embutidos nos fundos do terreno, tudo sob os custos e ordenanças da empresa. Embaixo dos ar-condicionados da sala, os técnicos inseriram duas caixas de som para comunicação interna com a máquina. Ela falaria comigo sobre a temperatura e a umidade do ar, forneceria boletins diários sobre os principais portais de notícia e as redes sociais e faria solicitações de compras no bistrô de minha preferência mediante a um parâmetro das últimas refeições. A máquina seria parte da minha vida. Faria-me homem. Um solteiro criado erraticamente, com muito dinheiro no bolso e preguiça de lavar a própria trouxa de roupa.

— Computador... – Minha relação com a máquina era de extremo distanciamento. Eu era o seu patrão, seu único senhor, ela deveria me servir custe o que custasse. – Rode um diagnóstico.

Pelas caixas de som, um ruído macio de processamento de dados surgia, seguido de feixes de luzes verdes que cobriam meu corpo nu. Essa era a rotina todos os dias quando retornava de alguma atividade estafante.

Em poucos minutos, a vibração do ar-condicionado se confundia ao sussurro quente e delicado da máquina.

— Batimentos cardíacos de 70bpm. Pressão arterial em 130 x 80 mmHg. Probabilidade de taquicardia em 65%. Risco de pressão sistólica em 70%. O senhor já fez uso do Labetalol hoje? Recomenda-se o exercício básico de respiração.

A máquina era infalível. Durante os primeiros dias, eu ainda era capaz de me surpreender em como ela conhecia cada átomo do meu corpo, cada tijolo cimentado daquela construção. Bastava uma ordem simples e pré-determinada. Um estalar de dedos e eu poderia ver as folhas caindo através das câmeras no fundo do jardim. Ou lacrar hermeticamente as portas e disparar o alarme silencioso, e puf, um comboio da polícia me resguardaria.

Ela era a própria sabedoria. “Atena”, o seu nome.

A máquina me atendeu como uma deusa até as festividades de Ano Novo. E por meu próprio descuido, eu poderia ter morrido se não fosse a sua servidão.

Eu tinha uma viagem em Janeiro para cobrir um festival de música alternativa em Dublin, cortesia do meu editor-chefe e amigo mais íntimo. Tinha pulado dois diagnósticos da máquina e me entupido de comida processada, muito mais preocupado com a reserva das passagens do que em saber como andava meu ritmo cardíaco. O estresse é uma arma carregada com tambor entupido, mirando no lado esquerdo do peito. Com as malas na mão e vociferando todo tipo de desgraças ao celular, senti uma agulha invisível penetrando fundo na minha carne.

— Atena... – sussurrei com uma baba espessa no canto da boca, rolando a escada principal da sala, afundando meu rosto no tapete árabe.

O resto é história. Acordei tonto de tanto dormir e com um corpo estranho no meio do peito.

— Isto é um marca-passo, senhor Barreto. A cirurgia foi um sucesso – disse uma enfermeira.

— O senhor sofreu um enfarto agudo do miocárdio – disse outra.

De todas as prosódias repetitivas e as felicitações de boa saúde, a frase mais inquietante foi dita por um funcionário da Norma Soluções Tecnológicas.

— Foi a Atena quem salvou sua vida...

Assim que desmaiei, o sensor da máquina rodou um diagnóstico automático. Depois, enviou uma chamada de emergência para a ambulância e a Polícia Civil, e também uma mensagem de texto ao meu cardiologista e ao meu irmão. Também destrancou as portas e liberou o acesso ao portão, diminuiu a temperatura da sala. Eu não tenho o número de meu irmão salvo na agenda, em verdade, não entramos em contato desde o último show dos Stones no Rio de Janeiro. Eu poderia ter morrido naquele dia e ser esquecido por dias a fio. Mas a máquina não deixou.

Eu fui para o outro lado do microfone após esse dia. “Inteligência artificial salva a vida do dono”, “Milagre da tecnologia”. Até ganhei uma charge do Adão – eu era um homem de cartum com asas feitas de metal e, no fundo, a silhueta da Deusa da Sabedoria. O fato foi retorcido até não sobrar uma gota de verdade pelos investidores do projeto, o número de pedidos da máquina subiu mais que o preço da gasolina.

Voltei para casa após semanas de tratamento e adaptação. A porta principal se abriu com um destranque suave e de minha Apple TV piscava uma singela mensagem no cristal líquido: “Bem-vindo de volta, senhor” e emojis de coração.

Eu sorri, um tanto quanto ressabiado.

Eu começaria a chorar se suspeitasse do que viria em sequência.