Nua e Crua - capítulo dois

julho 12, 2017 0 Comments A+ a-


A mulher encostou a cabeça no apoio da poltrona e mirou o mosaico de nuvens no céu, enquanto esperava o retorno do homem ao consultório. Identificou ovelhas, mapas de países, máscaras japonesas e até mesmo a silhueta de sua marca de nascença. Depois, passou a contar as nuvens em si. Uma, duas, três, vinte e oito. Assim que chegou em setenta e duas, o homem regressou com um envelope violado nas mãos.

— Transtorno de personalidade histriônica. – comentou ele sob um tom metálico, vendo o rosto da mulher se aquiescer e enrugar a sua frente.

— Isso é... grave? – questionou ela. Seus olhos escorregaram para qualquer ponto no chão, e de lá não parecia querer subir tão cedo.

— Veja bem, Joana, esse é um quadro que requer estudos. A psiquiatria moderna não possui muitas bases para agir sobre a TPH, porém, os últimos testes trouxeram esse quadro à luz muito rápido. Suas compulsões... Tudo corrobora.

Uma luz de projetor surgiu na mente nublada de Joana Mayer. Sua cabeça se encheu de imagens recentes, algumas com espaço de um dia para outro de acontecimentos. Tudo corrobora.

— Desde pequena eu sentia essa necessidade por atenção, doutor... – comentou a mulher modulando um fino ranço de dor no discurso. – Parecia me comer de dentro para fora! Sempre senti que era diferente das outras crianças birrentas. Elas birravam por necessidade concreta, a minha era necessidade de alcançar algo distante, como se não tivesse nome, nem calor ou cheiro, ou gosto... E agora a culpa disso tudo tem nome.

— Joana, não se culpe por isso.

— Eu acreditava que a arte, e somente a arte, podia expurgar esse desejo de mim! Mas parece que é mais forte! – A mulher ergueu a cabeça com força, e se pôs a ranger dentes – Eu preciso lidar com essa maluquice que mora na minha cabeça, doutor!

O homem alinhou a aba do seu jaleco e arrastou a palma da mão por sobre a mesa de mogno puro. A ponta dos seus dedos chegou à textura comatosa da pele da paciente. Disse:

— Podemos dar um jeito nisso.

* * *

O motorista do Cherry Tiggo desenlaça de repente o seu braço pelo pescoço do companheiro morto, o deixando cair no asfalto serenado da madrugada. Fica em pé e estica a arma na direção da motorista. Os outros dois abriam os braços e as pernas como estrelas-do-mar assustadas. No lado protegido do Ford Edge, a mulher fecha os olhos e espera pelo contra-ataque.

Ele retira a máscara ninja e liberta seu rosto mortificado. É um homem caucasiano na casa dos quarenta anos, tem grossos pelos e marcas de expressão que definem bem o envelhecimento batendo mais cedo em sua porta. Seu rosto está incendiado e as pálpebras se contraem sob uma força incontrolável, e o mesmo se aplica a seus dentes cerrados.

— Sua desgraçada! Você está me vendo daí de dentro, não está? Está satisfeita? O homem que você matou era um homem bom! Mais um homem bom... Mais um...

Embora o som que penetrava na proteção do carro fosse abafado, a mulher começou a ter consciência do que ali ocorria. Sem a máscara, seus oponentes se revertiam em criaturas humanas, falíveis, animais reativos, e não fantasmas que bloqueiam e atiram em carros de pessoas desconhecidas.

O desmascarado descarrega um segundo cartucho na direção da mulher.

Recuado, um dos companheiros sai de sua guarda e se aproxima dele:

— Que é isso, Barão? Tá louco, porra? Você vai acabar com a operação!

— Eu quero que a operação se dane! Eu vou arrancar essa mulher desse carro, nem que tenha de explodir com ela dentro!

O bandido restante intercalou:

— Não! O homem foi bem claro: sem danos! Ele quer “A Artista” viva, cara. Eu quero receber a minha parte integral!

— “A Artista” matou o Célio, porra... Ela matou o meu irmão. – disse o desmascarado.

A mulher nunca saíra de sua posição de alarme, mantendo a arma na mão direita, abraçada a bolsa com o braço oposto. O som abafado e total ausência de compreensão da situação tornavam nomes como “Barão”, “Célio” (ou seria “Hélio”?, questionava ela) lhe diziam pouca coisa. Ela deduzira que o escandaloso era o chefe da operação, quem ditava a ordem para os outros comparsas – o tal “Barão”. Somente um nome era de sua competência: “A Artista”. Um nome curto, mas de tamanha intensidade que chegava a irradiar em sua mente feito um rubi em chamas.

O líder sem máscara repõe seu disfarce no lugar e acena para um dos subalternos restantes:

— Você, monitore a frequência da polícia, veja se já tem alguma chamada para esta área... Eu não vou mais gastar munição com esse vidro blindado... A gente vai ter que arrancar essa parada na marra. Por que o homem não avisou que essa merda era blindada?

— Acha que ele quis sacanear a gente? – sugere o comandado. Ele caminha até o outro carro e retira do banco traseiro um aparelho de radiofrequência da polícia.

— A gente vai acabar com os dois. Primeiro, com essa desgraçada bem aqui... – seu comentário foi pontuado por toques firmes no vidro do motorista do Ford Edge usando o cano da sua arma. – ... Em seguida, a gente dá cabo desse rato que juntou todo mundo nessa roubada.

O braço da mulher queima por dentro pelos minutos em que ficou teso com sua mão a segurar a Taurus. Ela decide abaixá-lo e aproxima sua boca na proteção de borracha que cerca o vidro, tendo a certeza de que seria escutada. Disse:

— O que quer de mim, Barão?

Barão suspende os ombros quase na altura das orelhas. O pano da máscara penetra em seus vincos, se tornando parte da própria pele, e desenha uma confusa expressão onde estariam agora seus olhos, suas maçãs do rosto, seus lábios. Ele se limita:

— Eu quero a sua morte, Artista.