Nua e Crua - capítulo três

julho 13, 2017 0 Comments A+ a-


Joana Mayer abriu o cadeado que protegia o galpão 87 na rua Tamarindeiro. Um baque de destranque e o vibrar maquiavélico de correntes recebiam os jornalistas para o brunch na véspera do seu vernissage, uma ideia ousada para amaciar a carne dos críticos antes da sua noite triunfal. O homem via tudo no canto da instalação, sentado em uma cadeia de plástico e observando a forma da mulher receber outras criaturas humanas.

Em pé, duas modelos de peitos duros e costelas sobressalentes moviam seus corpos com gestos enferrujados, em transe, salpicadas de tinta aquarela de tons avermelhados, e os riscos mais firmes lembravam cortes entre uma mancha e outra. Deitada no chão poeirento, uma jovem ruiva cobria seus seios com as mechas onduladas do cabelo, segurando um coração de metal derretido apoiado no lado esquerdo do tórax, mais umas tranças de plástico bolha vermelho acima da barriga.

Joana esticou um traço sorridente de uma ponta a outra da boca, com gestos graciosos para receber os jornalistas. Todos viam tudo com ares de plenitude. Menos um.

O desdenhoso comentou:

— E esta mulher no canto da escada?

Os outros se viraram para fotografar a modelo nua, sem qualquer proteção, deitada sobre uma tela gigante que era suspensa por um cavalete de três metros da base ao topo. A perfeição dos cortes e ferimentos em sua pele suscitavam tantos olhos arregalados e bocas nervosas quanto possível.

— Não me parece grande coisa... A senhorita ganha pelo choque, pelo impacto, não pelo conteúdo...

Aquele jornalista fez crescer em Joana um sol causticante a partir do seu coração. O bombear do sangue enviava correntes de fogo pelas veias e culminou em uma onda de tremor em suas mãos. Aproximando-se dela, o homem cobriu seus punhos cerrados e sorriu educadamente para os jornalistas:

— Com licença! Tenho de roubar a artista por um minuto. Sirvam-se, a refeição está na mesa!

Joana engoliu um soluço e piscou para enxugar uma lágrima. Tinha apertado tão fundo a ponta dos dedos que marcou a palma da mão.

— Minha pequena, você não pode se exaltar assim! Você sabe que esses infelizes não perdem uma oportunidade para tirar o artista de sua bolha de conforto! Uma ruga fora de lugar, e pam! Lá estará sua raiva na foto de capa.

— Ou os odeio! Odeio todos eles, Alfredo! Eu quero a cabeça daquele puto!

O homem abraçou a mulher e lhe beijou na testa. Disse:

— Isso será providenciado.

* * *

O hálito quente da mulher embaçara um ponto fixo do vidro, onde sua boca afilada encostou e falou em um dialeto sibilado. Barão suspende a máscara ninja até a altura do nariz, exibindo seus lábios graúdos e um conjunto de dentes amarelados, chegando perto do rosto da mulher obscurecido pelo fumê.

— Por que você quer me matar? – questiona ela. Seus dedos desenham contornos e borrões na região embaçada.

O bandido usando o aparelho de radiofrequência se encosta na tampa da mala do Ford Edge da mulher, ora sintonizando os canais de escuta da polícia, ora vigiando as vias de acesso de quem ia ou saía da praia. Barão refreia seu último fiapo de lucidez antes de responder, devolvendo a resposta no tom exato ao dela:

— Porque você merece... Eu sei do seu diagnóstico. Transtorno de Personalidade Histriônica? Agora estão chamando os perturbados disso agora? E o que dizer daquela merda de vernissage? Sabe o que as pessoas te chamam quando não te veem? De louca! É isso o que você é, “Artista”. Louca!

A mulher sente um sol queimar a carne por dentro dos ossos. Barão estava lhe atingindo justo no nervo mais exposto. Ela respira todo o mormaço do carro e finaliza seu desenho no vidro. Visto bem de perto, lembra uma aquarela, com seus espaços profundos para a tinta e o apoio do dedo na lateral. Poderia ser também uma máscara, ou uma silhueta de pavor.

— O que está vendo? – questiona ela. Diante da boca pasma e do silêncio do seu inimigo, ela repete. — Diga-me, o que está vendo agora?

— Chega desses jogos! – Barão recarrega a arma usando um cartucho pendurado ao cinto. Com a coronha, acerta um golpe certeiro no vidro do motorista. Em seguida, destrava e dispara nos quatro pneus do Ford Edge, um tiro de cada vez. Ele retorna e se agacha até o campo de visão de Joana, com ar emproado e as mãos na cintura. — Você não tem como sair, vagabunda! Você é minha! Eu esperei essa oportunidade todos esses anos, e nada vai me tirar do caminho! Eu vou te arrancar desse carro e te fazer implorar pela sua vida desgraçada!

As engrenagens da mente da mulher iniciam um rápido processamento de signos. Todos os quatro, agora três, usam coletes e máscaras, armas de alto calibre para as duplas e um deles está escutando a frequência da polícia. A intervenção quando cercaram seu carro requer estratégia. Eles têm uma operação montada para pegá-la, ela só ainda não mediu, e nem se sabe, o custo.

Então, um fluxo de códigos explodiu diante dos seus olhos. Ela pensou rápido em diminuir o número dos seus inimigos. Tinha de agir pela surpresa. É assim que ela amacia o painel do sistema de som do Ford Edge e dedilha seu próximo estratagema. Inicia:

— Sabe o que eu vejo, Barão? Eu vejo um homem nervoso... Assustado. Um homem que usa uma máscara para esconder seu verdadeiro medo. Eu não sei o que fiz para você... Digo, pelo menos antes de ter matado o seu irmão essa noite. Ele é seu irmão, não é? – Seu dedo médio dobrado bate na película, simulando a direção onde Célio está estirado, com uma bala destroçando o crânio. Continuou. — Você usa uma máscara para não mostrar que é fraco e arredio. Eu ainda não sei o que fiz para você... Mas pela forma como fala, foi algo muito bem feito...

— O que?! Ora, sua...

— Antes de continuar seu repertório de palavrões, me permita uma observação... – A mulher abre a bolsa e começa a tirar seus produtos, as latas de tinta óleo, os recipientes de tinta spray, como se estivesse em um caixa de supermercado. — O ponto de vista do capturado é o mesmo do peixe com a boca na linha. Mas imagine por um momento que o peixe seja maior do que o captor?

— O que você está dizendo?

A mulher retira o lacre do spray e borrifa aos poucos no vidro ao lado esquerdo.

— Veja bem, se o peixe é maior, ele tem poder não só de romper a linha, como de virar o barco. E o pescador se torna a presa. Compreendeu? O pescador vira o jantar do peixe.

Os borrifos se intensificam e logo cobrem o vidro com a densidade grossa do spray. Barão e os outros começam a esmurrar as portas do Ford Edge. A mulher abre as latas de tinta e derrama no vidro da frente, transformando seu carro em poça multicolorida e de desagradável cheiro ocre. O plano é descoberto. Ela tinge todos os vidros laterais, o da frente e o traseiro, ocultando com tintas os seus gestos dentro do carro.

— O que essa maluca fez? – perguntou um dos demais.

— Eu fiz o peixe crescer! – oculta por camadas e mais camadas de cor espessa, ela grita e gargalha como uma harpia esganiçada, enquanto liga o rádio do carro na estação mais barulhenta que pôde lembrar – Quando vão perceber que vocês é que estão presos comigo?