Nua e Crua - capítulo um

julho 11, 2017 0 Comments A+ a-


Alta madrugada. Antes. O homem aguardava na sala a sua mais nobre visitante. Ele correu a porta principal para a esquerda, torcendo para que o motivo de sua insônia lhe trouxesse boas notícias. Lá fora, uma formação de tempestade tinge a aquarela dos céus com nuances semimortas, pesadas, anunciando muito bem a noite mais escura do ano. Ele acendeu um cigarro, ignorando as rajadas de vento frio e contundente disparadas pela natureza rumo à sala.

É quando entrava a mulher. Seu avental puído tinha manchas de tinta vermelha ainda lívida no tecido surrado, multifacetada pelas gotas de chuva que lhe atingira. Entrou em um galope, com os braços retesados presos ao passado de sua última ação. Havia respingos também em seu rosto, nos pulsos, nos visgos das unhas, um borrão ambulante de Rorschach de músculos duros e expressões faciais entupidas de arame. Fedia a thinner que a água não conseguira encobrir. Descabelados pincéis fugiam pelo bolsão frontal do avental.

— Você está deslumbrante... – disse o homem ao vê-la. – Como foi no trabalho hoje?

* * *

Alta madrugada. Agora. A mulher desliza seu Ford Edge suavemente sem se importar com a permissão para superar o limite de velocidade nesse período. Ela não se importa com nada. A vernissage foi um sucesso absoluto, nunca apertara tantas mãos ilustres em uma única noite, ainda estava no êxtase dos sonhos realizados que se tornaram concretos. Todo o resto lhe parecia uma ilusão para a verdadeira realidade: que os nus artísticos de Joana Mayer estarão nas telas das mansões, dos hotéis, das galerias de alta roda.

Antes da rotatória, no sentido de quem vai para a praia, a mulher percebe o celular tocar em uma espaçosa bolsa retangular, que dividia espaço com seu equipamento de trabalho enfurnado: latas de tinta acrílica e óleo, tecidos, pinceis chanfrados, espátulas losango, uma paleta godê e muita tinta spray. Ela diminui ainda mais a velocidade em uma manobra arriscada, esticando seu braço seco para trás, apalpando a bolsa até apertá-la com força e arrastá-la para mais perto de si.

Um par de faróis de xênon anunciam a chegada de um indivíduo com muita pressa. A mulher liga seu alerta e acena para o motorista luminoso seguir o caminho sem interromper a sua ação. Ela ainda teve tempo de encarar os vidros escuros do Cherry Tiggo, que passa a seu lado e volta para a mesma faixa, agora quase equiparando à sua velocidade. Mais atrás, outro carro diminui o ritmo para se adequar à busca da mulher pelo celular, adivinhando de maneira pontual que ali existe uma motorista agoniada.

É quando o Cherry freia de uma vez, dando uma guinada para direita, forçando uma parada brusca no carro da mulher. Atrás de si, um utilitário se encaixa na traseira da mulher e se lançando como a última peça do quebra-cabeça.

O celular parou de tocar, porém, outro alarme disparou dentro da mulher. Através de suas conexões cerebrais, esse incidente forjado ligou a sua chave responsável pela sobrevivência. O incidente forjado é um ataque gratuito. Por isso, ela suspende os vidros e bloqueia as portas.

De dentro dos carros, dois pares usando coletes militares e máscaras pretas com furos nos olhos surgem, bloqueando a saída da mulher pelas portas. Apenas os motoristas empunham armas de alto calibre com suas luvas escuras.

— Abre essa porta! – gritou o motorista do Cherry Tiggo.

O corpo de Joana Mayer endurece e esfria, feito uma chapa de metal forjada há dias. A chave geral da sobrevivência bloqueou qualquer ação prudente de obediência. Ela puxa a bolsa de uma vez, luxando o ombro direito graças ao movimento brusco, e abraça o tecido grosso como se aquilo lhe trouxesse uma paz de espírito imprópria e um tanto quanto leviana ao momento.

Juntos, os quatro malfeitores começam a bater nos vidros da frente, ora usando as coronhas das armas, ora preenchendo com chutes e socos que faziam o carro gemer e chacoalhar.

— Não adianta... – sussurrou o carona do Cherry – Essa merda é blindada. “A Artista” não vai cair tão fácil.

— Que se foda! – respondeu o seu motorista.

Ele empunha a arma na direção da mulher e dispara o seu primeiro cartucho. Seis tiros seguidos na direção da sua cabeça, protegida pela benção da superfície inexpugnável do vidro blindado. Mais uma sequência de golpes na direção da mancha cinzenta da deformação do vidro. Joana comprime os lábios e pressente uma lágrima se misturar a amedrontada gota de suor que escorria das têmporas. Sentira um jato de refluxo queimar as pregas vocais e o conteve com uma das mãos, enquanto a outra vasculhava o fundo da bolsa.

— Não gasta toda a munição, porra! – aconselhou um dos comparsas – A gente vai tá fazendo barulho por nada! Não teremos muito tempo se a polícia chegar, Barão...

Sem compreender a linha de diálogo, a mulher encara os mascarados movendo os braços com gestos nervosos, brandindo suas armas para alvos invisíveis no céu. O atirador ia de um lado para outro do raio da ação, seguido por seu carona, que parecia menos agitado. Se um tinha o braço, o outro tinha o cérebro. O atirador saía da porta à direita e seguia para posição onde ela estava – era um pêndulo alto, armado e encapuzado, tendo o companheiro há quatro passos de si. Os outros dois guardavam a avenida e verificavam o menor sinal de aproximação.

A chave geral da sobrevivência gerou uma pane no cérebro de Joana Mayer. O que estivesse apta a fazer, deveria fazê-lo agora.

A mulher estica o indicador até o painel dos vidros, depois, põe a mão no fundo da bolsa e retira um segredo muito bem enterrado sob as espátulas sujas por gesso seco. O pêndulo maior está agora à frente e, em breve, seu rabicho seguirá o mesmo rastro, e os outros dois continuarão de costas. Ela amacia o dedo na opção para abaixar o vidro e agarra com firmeza o conteúdo da bolsa. Tudo o que ela precisa é que um deles perceba a fresta aberta na linha dos seus olhos.

— Ei! A vadia está abrindo o vidro! – disse o pêndulo menor, parando rente aos olhos de Joana.

Ele não viveu o suficiente para perceber a arma que Joana Mayer retirou da bolsa. Bang! Com a arma posicionada na parte entreaberta do vidro, a bala encontrou a testa do carona do Cherry Tiggo e lançou o restante de sua cabeça para trás, explodindo em mil filetes de sangue e pedaços de crânio a partir do ferimento de entrada na máscara ninja. O motorista do utilitário saca sua arma e dispara duas vezes na porta à direita, um reflexo pelo tiro da mulher que a esta altura subiu a fresta do vidro.

— Não! – grita o pêndulo maior. Ele apara o corpo do companheiro ainda em convulsão, externando o último movimento ainda em vida.

Os ecos dos tiros somem pela madrugada, substituídos pelas gotas de chuva que batem nos carros e farfalha as árvores das calçadas e das matas nas áreas de mangue do acostamento.

— Eu vou te pegar, desgraçada! – ele jura com um grito bruto, embora abafado pela máscara. – EU VOU TE PEGAR!

Joana responde, pressionando sua Taurus 838 com tanta força a ponto de congelar o sangue na ponta dos dedos:

— Pode vir.