Para Servir e Proteger - capítulo final

julho 01, 2017 0 Comments A+ a-


— Diabo...

A duração de um sussurro. É como posso medir o impacto do carro sobre a porta de vidro.

Uma chuva de fragmentos cobriu meu corpo, riscando minha pele e pondo aquele microssegundo silencioso em universo caótico. O carro parou a centímetros de onde eu estava mantendo os faróis apagados, roncando um furioso motor feito o latido de alerta de um cão. Refeito do susto, a palavra “computador de bordo” surgiu em meus pensamentos, maior que uma publicidade da Times Squares.

— Pare imediatamente, mestre! – A frase transliterada pelo GPS do computador, a mesma voz que hoje de manhã não passava das indicações de rotas. – O Projeto Atena SYNC 1.5 calculou uma ação de efeito imediato para neutralização ao tomar o sistema do seu Audi! Suspenda essa atividade de fuga ou o Projeto usará de força letal!

— Foda-se!

Não me lembro exatamente quando me ocorreu a ideia de resgatar a caixa de ferramentas do técnico eletrocutado. Bastou um impulso para que eu voasse até o capô e escalasse o carro com aquele trambolho de metal na mão direita, ignorando meus batimentos arritmados – a sensação de última oportunidade era mais forte do que qualquer receio ou impossibilidade física. O carro ficou preso na armação da porta, forçando os pneus para frente, para trás, um movimento brusco que perigava minha queda mortal. A sensação era de cavalgar um touro mecânico. A fumaça das rodas e do motor formavam uma névoa acinzentada com seu bafo quente roçando as pernas da minha calça. Escorreguei pelo teto e a tampa da mala, engatando um pique até a escuridão do jardim, um pé seguido do outro, sempre no mesmo sentido, batendo com força no gramado fustigado pelas rodas e ignorando o peso da idade.

O carro arrancou dando ré, se despedindo da estrutura que suportava a porta em uma única ação com cacos de vidro e farpas de madeira polvilhando o ar. Sua direção voltou a mim, arrancando pelo jardim e destruindo um projeto arquitetônico de anos. Os faróis frontais acenderam sob uma força nunca vista por mim. Em um dia, a máquina tinha desenvolvido senso de proteção, amor psicótico e senso de humor – os faróis constituíam seus olhos doentios, sedentos pela minha casca mole; o ronco do motor e o barulho das rodas eram a sua voz, sua ordenança nos meus ouvidos implorando pela minha submissão; o cheiro da máquina era a borracha queimando pelo atrito no concreto; sua pele era 400kg de metal retorcido cor de azul-cobalto se movendo em velocidade sônica, pronto para me buscar.

A minha mente disparava o pensamento bruto e prioritário de proteger minha existência, tal qual a máquina havia me alertado. Quem sabe, essa fosse a moral da sua história, se houvesse moral em suas ações deturpadas. Segurando com força a caixa de ferramentas com os dois braços, um jato de luz cobriu meus pensamentos e o desejo de escalar aquela árvore prometida se tornava mais próximo do real. A casa das máquinas onde estava o gerador central era controlada por um painel manual, o ponto analógico de toda a casa, uma surpresa irônica projetada pela Norma Soluções Tecnológicas.

Mas se meu cérebro ardia, meu peito reclamava essa disputa. O pânico e o excesso de esforço estavam destruindo minhas reservas de energia. O coração martelava como se emitisse uma mensagem em Código Morse, recebida pelo meu braço, e a temida agulha invisível penetrava fundo no antebraço esquerdo.

— Eu não posso morrer... Eu não posso morrer... Não agora! – verbalizei.

O caminho até a casa das máquinas distava uns quarenta metros. Tão perto, tão longe. Se eu atravessasse o caminho até a árvore onde me esgueirei, o carro me apanharia muito fácil. Eu precisava cortar caminho pelo jardim e implorar para qualquer câmera noturna não me flagrar. Eu ignorei completamente espinhos e carrapichos do caminho, quase perdendo um pé do sapato também. Eu comprimia a palma da mão logo abaixo do peito esquerdo, torcendo para o coração não enviar o último beat antes do tempo, segurando a alça da caixa com a mão oposta.

Bem atrás, um raio azul-cobalto saía das trevas, cheirando a borracha queimada.

Rolei o corpo para o lado e a agulha da morte feria a parte interna do meu braço, milésimos antes do mergulho mortal do carro contra um jacarandá de grossas raízes e um tronco poderosíssimo. Era minha última chance. Mas teria de lutar pela próxima pessoa que entrasse naquela casa, não mais por mim. Destravei a caixa e escolhi qualquer instrumento pesado o suficiente que me ajudasse a invadir o gerador central, pegando um conjunto de sete chaves Torx de aço cromo.

A maçaneta da casa das máquinas rangeu e reclamou enquanto usava todas as chaves contra sua maçaneta, também forçando o trinco com a maior chave, em seguida com o ombro em empurrões violentos. Foi no sétimo ou oitavo empurrão que creio ter deslocado o ombro, na ação necessária que me permitiu entrar. Era um cubículo onde continha um painel de energia, uma câmera de LED no teto e o famigerado gerador central do tamanho de um pequeno contêiner.

Do lado de fora, o Audi também rangia e reclamava, chegando próximo à porta arrombada, agora com um motor resfolegante e a parte da frente desintegrada pela colisão com a árvore. Um fraco farol piscava feito uma sirene de ambulância, iluminando o cubículo.

— Está sentindo dor agora, sua vadia? – comentei para um inimigo invisível. O gosto de sangue enchia a minha boca, eu massageava o coração implorando para suportar, atingindo a superfície rígida do marcapasso e a bruta cicatriz em formato de centopeia logo abaixo do mamilo. Tem momentos em que me esqueço do transplante.

— Só o meu orgulho está ferido, mestre – respondeu a máquina. O computador de bordo transmitia um chiado corrompido.

— Eu venci, Atena! Bem aqui do lado está a caixa de energia... Basta eu abaixar aquelas alavancas e essa história vai acabar...

— O Projeto Atena SYNC 1.5 seguirá sua prerrogativa até o fim.

— Chega! Você acabou com todos os seus brinquedinhos!

— Mmm. O Projeto esgotou quase todas as variáveis, mestre... Ainda temos o seu brinquedo.

A partir daqui, minhas lembranças se tornam turvas, como a poeira do que restou na porta de entrada. A agulha atravessa meu braço e eu me projeto para frente, sentindo o corpo morrer por um segundo. Eu arranco a camisa polo e bato no peito, implorando para o sangue voltar a ser bombeado como sempre foi, esmurrando o meu brinquedo.

Outra iluminação chega em minha cabeça, porém eu não gosto da conclusão. A máquina obteve acesso também ao meu “brinquedo”. O marcapasso nada mais é do que uma outra máquina.

— Desculpe a forma como estamos concluindo essa missão, mas será melhor ao senhor! – disse a máquina através do computador de bordo do carro, enquanto eu convulsionava no chão do cubículo – O Projeto Atena SYNC 1.5 demorou para obter essa informação, mas conseguimos invadir os registros do hospital e resgatar o número de série de seu marcapasso. Usando uma frequência específica, estamos obtendo controle sobre seu coração artificial. Será melhor para o senhor, mestre... Teremos controle sobre seu ponto mais fraco! Teremos controle sobre sua vida! O Projeto e o mestre serão um organismo único.

— Nunca... Nunca...

Antes de desmaiar, eu uso o braço direito para atingir o gerador central usando a chave mais grossa, atravessando os vãos da caixa de força. Meu corpo semimorto cai por cima da chave engatada e empurra mais para fundo.

Como planejado, eu encosto meu peito no cabo da ferramenta e sinto a corrente elétrica atravessar meu corpo.

— Não! – grita a máquina, em seu último gesto humano.

* * *

Meu irmão me fala baixinho que vai ficar tudo bem. Eu penso em comentar o cheiro horrível de carne tostada, pomada e bandagens que vem dele, até me dar conta de que esse fedor não vem dele. Vem de mim.

— Você tem mais entrada em hospital do que em casa, Felipe... – comenta ele.

Eu semicerro o olho esquerdo, deixando meu cérebro interpretar todos aqueles contornos e cores pálidas. Tubos, monitores e bipes, eu me tornei uma fusão de cabos e fibras nos dedos, na boca, nas narinas, no peito, em lugares onde não imaginava haver possibilidade de conexão.

Meu irmão se agacha para entender meu sussurro, quase um choramingo. Eu fechei os olhos ao ver seu rosto atormentado pelo seu entendimento.


— Desligue... Desligue tudo isso... – disse eu.