O Tempo do Medo - capítulo dois

agosto 22, 2017 0 Comments A+ a-



“O sono da razão produz monstros”
(pintura de Francisco de Goya, 1797–1799)

Os Szczepaniak foram abrigados no escritório da diretoria. Primeiro, as crianças. O garoto pousava a irmãzinha em uma das cadeiras e tomava o doutor Eurico de baixo para cima, pondo as mãos nos bolsos da calça jeans, indiferente a polêmica instaurada no lado de fora. A menina principiara um choro, e ele selava os lábios da menina comprimindo o polegar com o indicador, sussurrando:

— Cale a boca, peste! Essa menina chora por qualquer coisa... – Virou-se para o diretor – Posso acender meu cigarro?

Oton entrava em seguida. Erguia a menina pelos braços e lhe conferia o apoio necessário para não abrir o berreiro. Tomava o cigarro da boca do garoto com um visível olhar de repreensão, como se dissesse “Aqui não...”.

Cecyl Szczepaniak e Isadora foram os últimos a entrar. Fecharam a porta e se serviam das duas cadeiras em frente ao gabinete do diretor.

Dziękuję. Obrigado por nos receber, Eurico... – iniciou Oton com forte sotaque do velho continente – São esses olhares que decidimos evitar desde que Eryk... Enfim.

— Bom... – o diretor limpou a garganta – Todos esses anos, temos evitado que a imprensa caia matando em cima dos senhores. Primeiro, a fatalidade do acidente. Depois, o envelhecimento retardado do menino. E agora... Vocês aparecem ‘assim’.

Os Szczepaniak, do mais novo ao mais velho, se entreolhavam em busca da coragem inexistente para as devidas explicações. Vendo que nem o pai, a mãe, e menos ainda as crianças contariam os prólogos dessa situação, Oton tomou a palavra:

— Acreditamos que tudo começou desde o acidente com Eryk. Como você sabe, a família voltava de uma viagem no interior. Um motorista irresponsável veio pela contramão e acertou nosso carro em cheio... Eryk foi projetado para fora, todos sofremos escoriações... Mas o menino foi o que mais sofreu. Cholera! Quando internamos Eryk, e vemos que ele não ia se recuperar do coma tão cedo, levamos nossa vida à medida do possível... Eu trabalhava como professor de História, meu filho tinha bons contratos de aluguel fora daqui, Isadora era jornalista, as crianças iam para o colégio. Até...

— Até acontecer ‘isso’ – completou Eurico.

— Foi de repente! – interrompeu Cecyl Szczepaniak – Com um ano, meu ojcze notou que Camila tinha crescido muito pouco. Enlouquecemos! Procuramos diversos especialistas, não conseguiam entender como um bebê era incapaz de crescer.

— Depois, notamos que Pietro também estancou no mesmo tamanho. – completou o avô, limpando um rastro de baba na boca de Camila – Ele é... Era um garoto em plena fase de desenvolvimento, mas também não crescia um pingo que fosse. Meu pobre wnuk...

— E isso é uma merda. – A voz de Pietro Szczepaniak parecia entorpecida de gás hélio. Apesar do tamanho diminuto, falava e se comportava como um adulto tanto quanto os pais ou o avô. Um adulto com voz entorpecida de gás hélio.

— Pietro, por favor... – Isadora repreendeu o filho sem tônica, tão mecânica e desprovida de animação.

— Com dois anos, desistimos de procurar pediatras e endocrinologistas. Os comentários vinham de todas as partes... – disse Oton – “Sua neta tem algum problema?”. “Seu neto parece tão jovem!”. “Deveriam procurar ajuda”. Quando confirmaram o distúrbio do crescimento em Eryk, achamos que fosse causado pelo acidente! Mas demoramos para entender que ele também se estendia a nós...

O doutor Eurico corria os dedos pela testa molhada de suor e passava a viscosidade pelos bigodes antes de perguntar:

— Foi quando decidiram se esconder da sociedade?

— Sim... – a resposta veio da mãe – Não podíamos esconder que nossos filhos pararam no tempo. E nós também! Decidimos nos mudar para um dos nossos terrenos no interior. Seu Oton passou a cuidar do restante da educação das crianças, sempre foi ótimo professor de colegial, e com os netos não seria diferente... Cecyl e eu trabalhamos como autônomos para manter os custos, sempre longe dos curiosos...

— E o bebê... Camila, correto? Nunca aprendeu a falar? Andar?

— Acreditamos que seu cérebro também tenha... ‘congelado’ no tempo – foi a vez de Cecyl – Ela permanece um bebê. Bodeja algumas palavras, mas seu cérebro não acompanha o crescimento normal. Já em Pietro...

O pai fazia uma mesura com a mão para mostrar o filho. Nesse instante, ele abrira um vão da imensa janela atrás do gabinete e acendia um cigarro mentolado com um isqueiro Zippo. Dava uma tragada gostosa, apertando o cigarro com a ponta dos dedos, como se fosse um autêntico baseado.

— Céus... – o doutor Eurico não conteve sua indignação.

— Como dizia, em Pietro, o processo foi mais danoso. Ele tem um cérebro de vinte anos, mas está eternamente preso a um corpo de onze! Nem imagino o impacto disto em uma pessoa...

— Seu neto fuma mesmo, Oton?

— Todos os dias. E bebe também. Tem dias em que bebo com ele para esquecer essa situação.

Eurico Fragoso comandava o Hospital Geral por longos anos, e acompanhou a esteira dos acontecimentos que levaram ao coma de Eryk Szczepaniak. O envelhecimento retardado do garoto consumiu todo o seu estoque de pensamentos nebulosos e expressões descrentes quanto ao surreal no campo da medicina. Porém, ao ver a estrutura familiar danificada dessa família, foi obrigado a girar a maçaneta da porta que dava para o sobrenatural, e retorcer sua boca em uma surpresa legítima.

— Eu tenho certeza de que foram... Foram forças ocultas sobre a nossa família! – Isadora alisou um rosário em seu pescoço sob um grito de ave de rapina.

Cecyl batia a palma da mão no apoio da cadeira, rompendo o transe de sua esposa:

— Ah, Isadora! Não comece com esses delírios de novo! Porra!

— Não diga palavrões, Cecyl!

— Minha querida... – Oton chegou próximo de Isadora – Já conversamos sobre isso... Não vamos fraquejar agora, querida. Nosso Eryk acordou! Eu sei que esse não é o seu, nem o meu conceito de família perfeita... Mas é a família que temos! E vamos lutar para que ela resista a tudo. Nie?

O avô esticara o braço e alcançava as mãos de seu filho, enlaçando com as mãos de sua nora, oferecendo também abrigo para a netinha em seu colo. Distante, o neto fechava os olhos e se entregava à vertigem da nicotina, ignorando àquela fortificação familiar.

Dois toques na porta avisavam que era a hora do reencontro. A enfermeira-chefe chamava a família Szczepaniak para receber o pequeno Eryk no apartamento 61. Fila de pessoas nos corredores, lágrimas contidas enxugadas nos rostos. Um forte cheiro de pinho e álcool conduzia um por um até o cômodo. A enfermeira mais nova entregava máscaras e luvas para evitar um risco de contaminação.

Eryk se encostava no apoio da cama, ereto, um porte de pequeno príncipe. Seus cabelos pretos caíam pela testa, cobrindo parte da sua visão. Primeiro, Cecyl. O pai tocou a pele sensível das mãos do filho e escorregou para um abraço confortável, até esquecendo a partícula portuguesa e lhe sussurrava “mój syn...”, “mój syn...”. Isadora explodiu em um choro que já ardia na garganta por uma década, segurando o menino entre seus braços secos, embalando uma canção de ninar que lhe acompanhou desde pequeno.

Infant holy, infant lowly, for his bed a cattle stall; oxen lowing, little knowing, Christ the babe is Lord of all – cantava a mãe, com um mel nos lábios de apagar toda amargura da existência.

Camila pousava na cama com a manobra do avô, balbuciando algum idioma que só ela entendia. Eryk sorria para a menina, sem entender o reflexo nela de que os anos não passaram. Pietro, por sua vez, abaixou a cabeça e mirava seu irmão do meio como quem toma um estranho. Mesmo com o pai empurrando o ombro, ele ficava estático ao pé da cama.

E, então, chegou a vez de Oton. O “Vovô Apolo” tão bem feito e talhado no grosso tinha máscara mortuária no lugar do rosto, logo substituída por um choro baixo, travado, que explodiu em um grito muitos tons acima. Apertava a mão do neto e só exprimia uma palavra:

— Perdão… Perdão…

Oton encostava a mão esquerda no apoio da cama e confessava para si uma fraqueza muito forte.  

— Vovô… - gemeu Eryk, devolvendo o gesto do avô com a ponta dos dedos. Era a primeira palavra que ouviam do garoto em tanto tempo. O que viria a seguir? Um agradecimento? Um lamento? O menino disse: – Suas mãos…

Oton gritava e cobria uma mão sobre a outra. A enfermeira mais nova tinha dado o alarme para as costas das mãos do avô.

Ele saíra do quarto sem qualquer cerimônia e procurava o banheiro à esquerda do corredor a fim de evitar perguntas desnecessárias. Abria a torneira e deixava toda a água jorrar, refrescando o rosto e limpando uma ou outra energia ruim que surgia dali. Oton Szczepaniak refletia suas mãos no espelho, sem entender como suas mãos estavam tão enrugadas, disformes, ossudas, com manchas de sol e esquálidas de uma hora para outra.