O Tempo do Medo - capítulo três

agosto 23, 2017 0 Comments A+ a-


‘Don't you see me prayin'?’. ‘Don't you see me down here prayin'?’ But the Lord said: ‘Go to the devil!’.
(trecho de “Sinnerman”, uma tradicional canção gospel afro-americana)

Os repórteres do “Quarto Poder” rivalizaram com os focas do “Agora!” pelo maior espaço atrás da cancela do estacionamento. Uma fonte muito pontual de dentro do Hospital Geral deu a largada para a notícia do mês: “o menino acordou”. Logo, uma romaria de jornalistas entupiu as calçadas atrás do melhor ângulo. O “Quarto Poder” acertara em cheio o momento em que o carro dos Szczepaniak – mas errou cinco vezes a escrita do sobrenome polonês em sua versão digital. Já o “Agora!” flagrou a expressão de torpor dos enfermeiros ao ver a família. “Quem é aquele bebê?”, perguntaram. “A mãe é muito jovem para a sua idade!”, disseram outros.

Pendurado na grade, só um sujeito demonstrou uma atenção morna para o fato, ora regulando o zoom da câmera, ora tirando fotos inúteis da paisagem. Tanto faz como tanto fez estar ali. Era muito alto e curvado, seu longo nariz formava uma ponta arrebitada e seus dedos longos poderiam cobrir facilmente sua Instax Wide 300. Vestia um casaco de camurça mesmo naquele verão torrente e punha um fedora cor-de-poeira por cima dos cabelos desgrenhados de suor. E quando ria, sem explicação aparente, exibia uma coroa de dentes alinhados, e seus ombros subiam até a ponta das orelhas.

Oton Szczepaniak saiu do carro e todos avançaram pela grade, incitando os seguranças a formar um cordão atrás das linhas permitidas. As duas crianças foram logo depois, os pais mais atrás. O sujeito aproveitou a amplitude do seu corpo e escalou os aros da grade até uma altura permitida. Tirou as piores fotos da sua breve carreira. Dispensado por um segurança mais impaciente, ele se contentou com ato. Isadora Szczepaniak percebeu a movimentação e só conseguiu abaixar a cabeça, tomada pela vergonha.

Com um sorriso ofídico pela sua conquista, o sujeito atravessou a avenida, se tornando tão anônimo quanto qualquer outro cidadão. Assobiou uma cantiga muito antiga da sua cidade, mas já não lembrava a letra.

* * *

Oton saía do banheiro e punha as mãos dentro dos bolsos, ou qualquer outro vão fundo o suficiente para escondê-las.

Ojcze! – gritou Cecyl, saindo do apartamento 61, driblando duas farmacêuticas fora de seus setores – Pai! Pai, o que houve? Suas mãos...

— Cecyl, me deixe em paz! Eu preciso ir embora... Fique com sua esposa e seus filhos.

— O senhor nunca me conta nada... Vai embora como se fosse um ladrão!

Em tempos passados, Oton mostraria sua autoridade paterna sob um punho fechado entre os dentes de seu filho. Mas são outros tempos. Disse:

— Lute pela sua família. Eu já lutei muito pela minha... Deixe-me só.
O diretor Eurico permitiu mais cinco minutos da companhia da família com Eryk Szczepaniak. Sem plateia ou interrupções, Isadora aninhava o filho do meio entre seu busto, um gesto de carinho com quase dez anos de atraso. Entre os seus, era a única com a felicidade pura moldando o corpo. Murmurava a cantiga folclórica e tocava a ponta do nariz do menino, estimulando o seu riso.

— Essa música, meu dziecko – disse ela –, eu cantava para te trazer para mais perto de mim... Foi com ela que ninei cada um dos seus irmãos, e também você. Ah, como Pietro odiava essa música... Lembra, Pietro?

O tilintar da tampa do isqueiro Zippo era a única resposta do adulto infantilizado. Zip, zip, zip.

— Pietro? Eu estou falando. Demonstre respeito pelo seu irmão...

Zip, zip, zip.

— Por que você teve de voltar? – comentou ele para o vazio de um canto do quarto. Zip, zip!

— O que quer dizer? – Isadora parecia pequena diante a sombra nos olhos de seu próprio filho.

— A senhora sabe quando tudo começou, não sabe? Foi quando esse daí quase morreu! Há nove anos nossa vida virou um inferno, desde que esse come-e-dorme quase morreu! A culpa é desse aí, mamãe! – Pietro lançou o isqueiro na direção de Eryk, rebatido pelo ângulo no corpo de Isadora. Ele se espatifou com força no chão a ponto de derrubar o fluido no piso. Continuou: – Você roubou nove anos das nossas vidas, seu puto! Eu vou torcer pra você pagar por isso!

Eryk cruzava os braços sobre o rosto e sentia o medo gelar a corrente sanguínea. Camila começava a chorar, sem entender a repentina mudança de humor e entonação no quarto, e Isadora guardava Eryk com seus braços e mais um punhado de força, ignorando o ombro inchado de dor. Ela enchia os olhos de tristeza ao perceber o rascunho que sua família se transformara. E via que também era uma eterna criança, assim como Pietro – mas de uma forma patética, produto de uma peça sem qualquer graça.

Pietro não se desculpou. Também não brigou. Nem xingou a família ou mesmo recolheu o isqueiro do chão. Apenas saiu do quarto para encontrar o pai e voltar para a casa, enquanto massageava os quadris e as costelas que doíam de repente, como se quisessem crescer e furar a pele.

* * *

Caía a noite. Os Szczepaniak tomaram rumos divergentes: o pai e mãe ficaram no hospital para acompanhar a recuperação de Eryk; o avô e os netos, em um hostel no Centro, no conforto suburbano de um ar-condicionado e a TV a cabo.

Pietro oferecera a Oton uma garrafa de Shadow extraviada do bar do hotel, ao que ele recusava. Ainda mortiço, escolhia em uma animação hipnótica para Camila e se movia ao banheiro.

— Não quero ser incomodado – se limitou.

Oton Szczepaniak conferia a tranca da porta. O que ia fazer precisava de total concentração e sigilo. Primeiro, abria o armário em busca de um objeto pontiagudo o suficiente. “Acho que isso vai servir...”, pensava ao segurar uma pequena tesoura. Depois, pressionava a ponta na veia mais grossa do seu pulso, se entregando a dor. Um jato de sangue salpicava pela pia, e Oton murmurava versos impronunciáveis, antigos, até obscuros.

Wzywam was, Bies... Wzywam was, Bies... Wzywam was, Bies...

Quando não havia mais o que extrair daquela veia já esverdeada e seca, o box do banheiro se enchia de cinzas e enxofre. Uma forma translúcida crescia por detrás do vidro, com uma voz grave a perguntar:

— Quem ousa?!

— Eu ouso – respondeu Oton, que sentia o coração bater mais fraco e as pernas perderem o vigor desde que saiu do hospital – Já não se lembra mais dos seus antigos servos, Bies?

O sujeito corria a porta do box para a direita. Retirava os longos dedos submersos nos bolsos do casaco de camurça para segurar a câmera instantânea pendurada no pescoço.

— Sorria, velho amigo.