O Tempo do Medo - capítulo um

agosto 21, 2017 0 Comments A+ a-


“Com medo do tempo que passa, passa por mim o tempo do medo”
(poesia do filme “Febre do Rato”, de Cláudio Assis, 2012)

Nuvens pesadas cobriam os céus bem acima do Hospital Geral, formando desenhos incompreensíveis a partir daquele epicentro. Cinco andares abaixo do telhado, duas enfermeiras do turno da manhã caminhavam pelo corredor da Ala Marfim, sem darem conta ao homem da televisão que predizia o tempo ruim por toda semana. Entraram no apartamento 61.

O vento frio enchia o cômodo estreito, obrigando que a mais velha das enfermeiras fechasse as persianas, enquanto a iniciante tomava seus apontamentos em uma prancheta. O vibrar sutil de um trovão anunciava a tempestade, estremecendo as estruturas de gesso e os metais da cama.

— Então, esse é o garoto? ‘Eryk’... Eryk, o quê? – perguntou a enfermeira novata.

Sua superiora cruzara os braços, se pondo em uma posição clínica que inspirava confiança pelos anos de serviços prestados à instituição. Era um embuste para disfarçar o corpo contorcido pela baixa temperatura. Respondeu:

— “Szczepaniak”. Pronuncia-se “Spaniak”. E, sim, esse é o nosso paciente mais antigo.

Era um garoto de estatura pequena, cabelos muito escuros contrastando a pele clara, seus braços dispunham paralelos ao corpo, tão inertes quanto o peito que inflava e se esvaziava de ar pesado. Vestia um pijaminha com listras verdes e a monograma do hospital.

— Senhora... Eu me recuso a acreditar que esse paciente tenha quinze anos. – A novata cresceu os olhos ao relacionar as datas no histórico. – Seu desenvolvimento é de, no mínimo, uma criança de seis!

— Eu parei de me questionar assim que ele saiu da puberdade. O caso Eryk Szczepaniak desafia qualquer ciência conhecida... – comentou a outra.

A enfermeira iniciante deu de ombros à resignação de sua superiora. Mexeu os papeis do laudo repetidas vezes atrás de uma pista brilhante, aquele detalhe revelador que desvendasse o segredo sustentando tal anomalia.

— Desista... – disse a chefa – Eu também me recusei a aceitar o simples fato de que esse garoto não desenvolveu um só centímetro desde que entrou em coma.

— Isso é impossível, senhora! Veja, aqui diz que...

— Sim, sim, eu também cogitei essa possibilidade. – A mais velha tomava a prancheta das mãos da moça, ressaltando com ar enfadonho as informações – Eryk sofreu uma lesão no tálamo depois do acidente, um traumatismo que levou ao coma... A junta médica relacionou esse evento com a produção de GH e uma possível atrofia muscular e no seu desenvolvimento, mas nada foi comprovado. Afinal, o processo de envelhecimento ocorre a nível celular.

— Ele continua com o mesmo aspecto de nove anos atrás, senhora?

— Sim. Mesmo corpo, mesma estrutura óssea. Até o cabelo parou de crescer, enfermeira... É como se ele...

— ... estivesse cristalizado no tempo. – completou a jovem, levando sua mão à boca.

O mais sepulcro silêncio baixara nas enfermeiras. Os únicos sons presentes no cômodo eram dos bipes do maquinário que garantia as funções motoras de Eryk Szczepaniak e o encontro do vento e das gotas de chuva sobre a superfície da janela. Os pulmões de Eryk emitiam ruídos muito particulares, era preciso chegar o ouvido contra o seu peito para compreender que ali existia um traço de vida soterrada por toneladas de traumas cranianos e atrofias musculares.

A novata descrente voltava à carga:

— E sua família? Ele tem parentes conhecidos?

— Sim. – respondeu a enfermeira crédula – Nós temos notícias apenas do seu avô, Oton. Ele visita o moleque toda semana, fica um tempo sozinho aqui no quarto... Depois, vai embora. É um homem muito resignado. – De repente, ela abaixa a cabeça e se entrega em um sorriso desajeitado.

— Qual a graça, senhora?

— As enfermeiras da pediatria o chamam de “Vovô Apolo”. Ele é um homem muito bonito. Alto, ombros largos, mãos grandes... Típico polaco do sul. Esse é outro para qual o tempo não passou nem nos fios de cabelo.

— E os outros ‘polacos’? Ele só tem o avô?

— Não, ele tem uma mãe, um pai e irmãos. Mas nunca os vemos desde que o quadro dele foi considerado irreversível... Acho que jogaram a toalha. Lembro-me que havia uma garotinha.... Ah, a irmã mais nova! Era um bebê na época do acidente.

O que aconteceu dali em diante ao cair da tempestade só pode ser descrito por um observador criterioso e pouco emocional. O céu se chapava de nuvens e manteve o brilho do sol opaco por detrás delas. Um jorro maciço de chuva batia nas vidraças, assustando as enfermeiras. A mais jovem deixava cair a prancheta, se agachando para pegá-la, mas logo parava com os joelhos arqueados ao notar as luzes piscando repetidas vezes, sincronizadas às batidas do seu coração nervoso. Lâmpadas fluorescentes acendiam e apagavam em uma oscilação que tomara os maquinários de suporte vital e, depois, os corredores do Hospital Geral.

— É uma queda de energia... É só uma queda de energia – sussurrou a enfermeira mais velha, mais para si do que para a sua estagiária.

Quando Eryk abrira os olhos, um raio cortava os céus e lançava vinte e oito andares na mais completa escuridão.

Ao meio-dia, a Ala Marfim não teve um só espaço que não fosse ocupado por curiosos. Médicos, enfermeiros, farmacêuticos, acompanhantes – até pacientes – brigavam por um metro cúbico livre para observar “o menino que acordou”. Eryk Szczepaniak mexia seu corpinho em agonia e gemia pelos pais, ainda cego pela luminosidade e paralisado do pescoço aos pés.

O diretor do hospital dividia sua atenção em dois celulares, o corporativo para o setor técnico com boas notícias sobre a queda de energia e o reparo de emergência nos dois geradores; o pessoal com uma linha direta com Oton Szczepaniak.

— Sim, senhor, Eurico Fragoso falando... Seu neto acordou às oito da manhã! É um verdadeiro milagre! Peço que venha para cá agora! – Ele limpava a imensa testa porosa e umedecia os bigodes secos em sinal de total aflição – Tenha cautela... Acreditamos que um vazamento interno chegou à imprensa, o estacionamento está apinhado de jornalistas! Por isso, vamos garantir a entrada do senhor e de sua família pelo acesso aos fundos. Já acionamos o controle de crises da assessoria... Nada mais vai passar pelo nosso filtro sem o consentimento da família.

O sol rasgava determinados vãos mais fracos no céu, ainda de forma fraca, nem pareciam duas da tarde, menos ainda que fosse começo de ano. Longe dali, no gradeado principal do hospital, flashes à distância pontuavam uma chegada há muito esperada.

O utilitário escuro entrava pelo acesso alternativo do Hospital Geral, parando no setor de ambulâncias, conforme especificado. Da porta traseira, um garoto emburrado de calça jeans e camisa de time carregava uma menina pequena de jardineira e chapéu florido, seguido de um senhor tão alto que foi obrigado a abaixar a cabeça para sair, arrumando seu capote cor-de-chumbo. À frente, o motorista de barba fechada batia a porta com força, prendendo a camisa polo.

— Porra! – reclamou o motorista, abrindo a porta e retirando o pedaço de tecido engatado – E vamos logo, Isadora! Deixe de frescura!

— Não! – respondeu a única voz ainda dentro do carro – Todos vão nos ver, Cecyl... Não percebe que isto é uma insanidade?

O homem contornava o carro e parava à porta do carona, destrancando. Estendera a mão, e disse:

— Acha que isso importa mesmo agora? Vamos, Isa... É o nosso menino.

Isadora Szczepaniak não teve coragem de erguer a cabeça. Viu de longe um fotógrafo se escanchar na grade em busca do ângulo perfeito – ele era a síntese de toda a publicidade evitada pela família nos árduos anos em que Eryk dormira seu sono.

O diretor Eurico e seu séquito de funcionários surgiam na saída de emergência e reproduziam o mesmo burburinho do lado de fora do hospital.

— Oh, meu Deus... Vocês... Oton, essa é a sua família? – comentou ele.

A enfermeira novata notara o quanto Oton era mesmo bonito e conservado para a sua idade, como descreveu sua chefa. E a mãe também parecia muito nova para a sua idade. Gravidez precoce, imaginou. O pai fazia uso visível de produtos para cobrir o rosto de uma barba grossa e tingida de forma ridícula, bem como roupas maiores que seu número atual. Só os filhos pareciam adequadas para a cronologia atual, e a criança de colo tinha expressão serena e destoava do nervosismo concretado de seus pais. Mas... espera!, confessou para si. Criança de colo? A irmãzinha era um bebê na época do acidente!

Quando entendeu tantos porquês, a enfermeira deixava cair outra vez sua prancheta.