Flora - capítulo dois

novembro 15, 2017 0 Comments A+ a-



Há trinta e oito anos.

Isla ainda não era o Alto Comandante da frente militar Italiana. Não era um oficial importante, sua imagem não era impressa nos selos. O pan-germanismo andava a passos de tartaruga e os rumores de guerra, bem, eram apenas rumores.

Era um jovem de pernas finas sobrando nas barras da calça, cabeça baixa e voz soando quase como um ruído branco. Não tinha demais pretensões, a não ser atender às obrigações do quartel, e passar o resto das horas de folga na estufa improvisada no terreno ao lado da casa das máquinas. A estufa era o seu santuário. Um lugar de pertencimento. Sentia-se bem ao lado de sementes, folhas, galhos. Seus dedos ossudos eram exímios na poda. Suas narinas eram treinadas a filtrar o agridoce perfume de suas criações.

Isla tinha um dom natural para cuidar dessas belezinhas. Pequeninas, dóceis. Um reflexo distorcido do lado de fora do distrito militar. Seus colegas o chamavam de "bruxo". Faziam pouco da sua atividade. Questionavam sua sexualidade. Para ele, pouco importava. As flores eram sua vida, e a si só bastava essa explicação.

As flores e Rosamund.

A paixão por Rosamund veio bem antes das flores. Os perigos desse relacionamento, depois.

Começou como um encontro inocente. Afinal, Rosamund era esposa do superior imediato de Isla e de todos os soldados rasos do distrito. Estar próximo de pessoas importantes poderiam lhe trazer benefícios. Em dois meses, a promoção não tinha chegado. Entretanto, Isla e Rosamund já tinham desfolhado um ao outro com a mesma facilidade da poda de uma rosa silvestre.

Trinta e oito anos depois

"Isla!".

"Isla!".

As milhões de vezes lançaram o Alto Comandante Isla de volta ao tempo presente. "Foi emoção demais!", disse uma. "Que presente fabuloso!", comentou outra. O conde de Terranova segurava o seu eminente sócio pelo braço. Ainda com as pernas vibrando, o homem se afastou com modos brutos para se manter em pé sozinho. Pediu uma cadeira e um copo de água.

O Alto Comandante encarava a imensa flor no jarro de barro. A expressão mortiça no rosto só denunciava que a intenção do presente foi bem atendida. Seus colegas comentavam ao pé do ouvido que nunca o encontraram tão abalado desta forma – embora soubesse que a botânica era uma devoção de longas datas. Um mordomo chegou com um copo de água e um comprimido em cima de um guardanapo.

Desfazendo-se da figura de senil ou de uma mocinha histérica, o Alto Comandante Isla pedia uma conferência com o conde de Terranova.

"Grazie", agradeceu pelo presente.

Em seguida, perguntava como tinha encontrado tão bela flor, agarrando seu pulso com uma força morna.

"Está em minha família há anos, meu caro amigo! Minha mãe cultivou esta flor quando ainda era moça, pouco antes da Primeira Grande Guerra. Foi engendrada de forma artificial com o misto de mais duas outras plantas, se a memória não me falha. Minha mãe nunca me disse qual o seu nome comercial, se é que existiu um dia... Apenas o gênero, é um nome complexo...".

"Paphiopedilum rosamundianum", completou o Alto Comandante.

O Conde de Terranova abria um imenso sorriso com o conhecimento de seu sócio. Pondo a mão em seu ombro, completava o prólogo:

"Questo fiore ha il nome di mia madre, Comandante. Rosamund. La Contessa di Terranova".