Flora - Capítulo I

novembro 14, 2017 0 Comments A+ a-





Por toda a Itália, apenas um nome tomava conta do rumo das portas dos vizinhos, das notas de jornal, das mesas de bar, das quinas das bibliotecas, dos sermões na igreja e dos cochichos nos cabarés. E isso orgulhava o conde de Terranova.

O carro de aluguel subia com toda força a colina, uma projeção de seu carona. “Più veloce, più veloce”, dizia o conde de Terranova ao chofer, bradando qualquer resmungo com a mão direita. Na esquerda, segurava um jarro de barro cercado de berloques e babadinhos tão delicados quanto destoantes da sua personalidade. Mas o que importa? Assim que o destinatário recebesse tal oferenda, cairia de quatro no chão.

A fortaleza crescia diante às vistas do conde. Uma sólida e opaca construção de pedra, um resquício das antigas guerras que se manteve firme para ser a morada da figura mais iminente de todo o velho continente. Desta forma, eram compreensíveis seus dedos convulsivos correndo pelo terno e a garganta seca. Era a sua primeira visita formal como sócio do homem do castelo alto.

Assim que terminara o conflito, o conde de Terranova teve uma bem aproveitada estima com a parte vitoriosa da Potenze dell'Asse. Desde então foi possível ver a sua figura nos bailes bem servido da mais fina flor do militarismo, falando de ideais nazifascistas em três línguas diferentes. O último acordo era sua jogada mais ambiciosa, ao dispor de terrenos a preço de banana para o alto comando italiano. Uma troca justa: o conde entrava o capital, o alto comando com a projeção. E todos saíam felizes – ao diabo uma dúzia de refugiados expulsos à base de Zyklon B!

O conde respirou fundo antes de descer do carro. Dois oficiais retiveram o carro, mas logo pediram desculpas ao identificar o semblante do visitante. Abriram espaço com as metralhadoras e escoltaram o conde para dentro da fortaleza.

O imenso portão de ferro se abriu para os lados com dificuldade. Aos poucos, foi liberando espaço para exibir o interior da fortaleza. O salão primordial estava enfeitado com faixas e arranjos tão espalhafatosos quanto o embrulho nas mãos do conde. Parecia que ambos os sócios tinham o mesmo gosto duvidoso para ornamentos. Se o anfitrião era péssimo com seus enfeites, o mesmo não podia se dizer dos arranjos florais. Parecia que cada pétala era milimetricamente posta em seu lugar. As papoulas brancas ganhavam vida com as rosas, que dançavam junto aos lírios brancos e as margaridas gigantes. Um espetáculo sinestésico que somente um homem em toda a Itália poderia propor.

L’alto Comandante Isla!”, anunciou um oficial menor ao abrir a porta da sala contígua. Atrás de si, a figura talhada do anfitrião tomava o espaço, indo em direção ao conde de Terranova.

“Matteo”.

“Isla”.

Trocavam cumprimentos com as mãos ainda enluvadas. Em seguida, o Comandante Isla conduzia seu sócio para mais perto dos outros convidados amontoados na sala de visitas. Apresentava um a um, fazendo pequenas referências ao histórico de cada. Quatro oficiais maiores e suas esposas, três investidores estrangeiros, duas figuras do clero, jornalistas, e duas socialites em trajes menores.

“Piacere, piacere”, respondia o conde para cada aceno e mãos chacoalhadas.

Uma mocinha indagava sobre o embrulho nas mãos do visitante. Rindo e se desculpando pela distração, ele deflorava o presente na frente de todos, vocalizando um monólogo chato e pretensioso sobre a obsessão íntima do Alto Comandante. Um presente que certamente agradaria o homem e lhe encheria de felicidade. Quando o último pano caiu, surgiam uma dúzia de prolongamentos dourados com contrastes encarnados sustentados por uma haste firme no centro.

“Un fiore!”. Todas as mocinhas soltavam gritinhos de excitação com o presente.

Os urros cessaram quando o Alto Comandante Isla caiu no chão com as pernas moles por dentro da calça de tergal.