Flora - capítulo três

novembro 16, 2017 0 Comments A+ a-



"Rosamund. Mia cara...".

Chegou o grande dia. O capitão Isla retirou o invólucro e mostrou para sua amada a sua magnum opus. Um ramo de estrutura fina, com cinco pétalas de um dourado intenso como os raios de sol e um tom vermelho feito o mais grosso vinho de barril. Tinha cheiro de terra.

"Ma che bello, Isla!".

"Questo fiore porta il tuo nome... Rose di mondo".

Isla imprimiu todo o seu amor naquele beijo. A "rosa do mundo" que esperou dois anos para germinar selaria para sempre o amor de Rosamund. Isla seria de Rosamund para todo o sempre. Queria sair do Exército e abandonar a iminência de guerra, comprar uma casa no campo, cultivar um anel de flores pelo terreno – um flor para cada criação inspirada em sua amada. Seus filhos teriam seu rosto. Escreveria poemas a ela e se amariam no jardim, provocando os vizinhos. Essa era sua meta de vida.

Isla saiu da estufa carregando uma muda da "rosa do mundo". Choveu naquele dia a ponto de ensopar os vãos no chão de barro, transformando seu fardamento em um pesadelo de lama. Da estufa até o seu alojamento distavam cinco quadras. Tudo o que deveria fazer era pegar uma linha reta até deixar a flor em cima do criado-mudo, tomar um banho, trocar de roupa e ir até o gabinete do coronel. Seu pedido de deserção já estava redigido de próprio punho e todo um discurso sobre seguir a vida civil fora treinado exaustivamente nas horas de folga.

Até o minuto seguinte chegar.

A figura translúcida através das gotas de chuva confundiu a visão de Isla. Mas assim que se esgueirou por trás de uma cerca, veio o veredicto. Aquela moça de cabelos vermelhos grudados no rosto, seios de fora e calcinha na altura das coxas era mesmo Rosamund, envolvida por um soldado qualquer, em cima do canteiro. Amassando flores e gramas. Dois animais entregues à carne.

Dali em diante, uma parte de sua existência escorreu pela tempestade e nunca mais encontrou o caminho de volta. Isla espremeu a flor por entre os dedos, obliterando o trabalho de uma vida inteira. Rosamund tinha feito o mesmo com seus sentimentos.

Era justo que ela lhe pagasse o mesmo.

"Come sta tua madre?", perguntou o Alto Comandante Isla, trinta e dois anos no futuro ao seu sócio, durante o jantar.

Os convidados na imensa mesa de carvalho não escondiam a visível atenção do seu anfitrião pela família do conde de Terranova. Perguntas dessa natureza são próprias de um sogro intencionado para com o genro, não para figuras ilustres que negociam a compra de terrenos. Mas ninguém ousava questioná-lo por sua indiscrição. O assunto monopolizou sobre a condessa de Terranova. Onde está? O que fazes?

"Lei è morta, Comandante...", respondeu o conde.

Morta. Rosamund estava morta. Um bolo sólido se formava na garganta do Alto Comandante. Voltava à carga:

"Causa principale della morte?".

Uma das socialites não conteve a insatisfação, e pedia com maneiras dóceis para o Alto Comandante evitar esses assuntos durante a refeição.

"Silenzio, puttana!". O dedo do anfitrião apontava rente à moça, que mordia os lábios para evitar uma descarga emocional. "Compagno, dimmi, qual è la causa della morte di tua madre?".

Empurrando as porcelanas e as taças de cristal para o centro da mesa, o Conde de Terranova se erguia sem qualquer cerimônia, e disse:

"Cancro".

Sem apetite ou oportunidade para truques, restou ao Alto Comandante Isla ir direto ao assunto com conde de Terranova. Pediu um minuto para ficarem sozinhos. O conde gentilmente recusou, mas sentia a rígida mão de seu sócio lhe comprimir o ombro. Não era mais um pedido intimista. Era a ordem do líder do Exército italiano.

"Un momento, per favore", pediu o conde de Terranova, que sentiu o peito afundar feito a pedra em um lago profundo. Estava em uma casa que não era sua. Sem aliados ou maneira de pedir ajuda. Com soldados em cada porta e janela.

Escorregava uma das facas de prata em cima da mesa e pôs no bolso do terno sem o alarme de nenhum convidado. O Alto Comandante estendeu o braço em direção à sala de visitas, dando espaço para que o conde fosse na frente.