Duas e meia. Ela ouvia o barulho dentro do quarto. Eram passos macios, pés de almofada que encontravam o chão e faziam um ruído s...

A travessia invisível da madrugada



Duas e meia. Ela ouvia o barulho dentro do quarto.

Eram passos macios, pés de almofada que encontravam o chão e faziam um ruído sedoso de paciência e destreza, abafado pelo ruído do ventilador e do ronco ribombado de seu marido. Mas só ela ouvia o barulho dentro do quarto. E tinha medo disso.

Duas e vinte e oito. Parecia uma impressão fortíssima, um pós-sonho ruim, um resquício que ficou em sua mente e foi expurgado assim que abrira os olhos. Porém, com o passar dos segundos, o barulho ficou mais forte em seus ouvidos. O arrastar suave daqueles pés contra o chão de madeira. Chegando mais perto, e mais perto, e mais perto, um eclipse sonoro cobrindo a atmosfera do cômodo.

Ela dormia do lado direito da cama – um feito inédito, pois era preferência do marido dormir com a esposa bloqueando o tufão do ventilador. Cobriu-se da cabeça aos pés com o lençol, deixando apenas um espaço nas narinas para respiração. Quando acordara às duas e meia, tinha o rosto afundado no travesseiro, a boca entreaberta e uma marca seca de baba no antebraço. Estava virada de costas para a aparição, e permaneceu congelada daquela forma, evitando qualquer movimento brusco que denunciasse seu estado de alerta.

A cama king size ensanduichava a porta e o ventilador, estando quase ao centro do quarto. Os pés macios começaram andando de um extremo ao outro do quarto. Quando a mulher acordou, eles estacaram rente ao lado da mulher – talvez o andante admirasse o seu sono. Ela fechou os olhos com força e segurou nas extremidades do lençol, cobrindo todo o rosto como se usasse a manta da Chapeuzinho Vermelho. Evitou a curiosidade de abrir os olhos e desfazer a farsa da sua posição inofensiva.

Tudo o que ela queria era mirar o dono dos pés macios. Descobrir como era, qual sua altura, seu peso, se tinha arma nas mãos. Queria acordar o seu marido, fazer um escândalo. Mas se ele estivesse armado? Usasse uma faca? Ela seria esfaqueada antes do inútil do marido tomar alguma atitude. O passante poderia ser maior do que ela, lhe render, causar algum ferimento grave. Poderia até mesmo abusar dela. Não. Deveria se manter estável. Lúcida. Com o corpo e a cabeça cobertos, de costas para o passante e os olhos lacrados.

Os roçar dos pés se afastavam da cama para fora, indo um pouco mais longe. Estaria o andante indo embora? Duas e trinta e quatro. Momento perfeito para acordar o marido. Seus dedos iam devagar, escorregando pelo lençol até os ombros do homem. Caminho curto, mas tortuoso. Tudo o que precisava fazer era arranhá-lo com um pouco mais de força, suficiente para romper sua sonolência e deixar o resto da ação com ele.

Quando os dedos indicador e dedo médio da mulher encontraram a metade do caminho, o andante chegou tão perto que ela pôde sentir hálito quente. Duas e trinta e cinco.

Almíscar. Duas e trinta e sete. Ele tinha cheiro de almíscar e cigarro de palha.

Às duas e trinta e cinco, o andante de pés gatunos ficou observando para onde os dois dedos da esposa terminariam seu passeio. Ao menos, ela imaginou isso, porque sentira a respiração pesada e toda a infusão de cheiros que iam e vinham daqueles pulmões. Ela parou onde estava, mantendo um semblante de inércia e um ar de quem pensava em gestos firmes do outro lado do muro do sono. Duas e trinta e sete. O perfume ácido tinha saído de perto dela.

Ela queria gritar, mas deveria garantir sua sobrevivência com o mais diluído dos gestos. Era importante que continuasse coberta, de olhos fechados e estática como uma pedra de mármore. Mas como lutar contra algo que não se enxerga? Quando os olhos vão embora, resta apenas a imaginação. Pensou em seu andante como alguém alto, com tesouras no lugar dos dedos, cabelo escorrido de suor na testa profusa. A fragrância amadeirada era certeza. Almíscar em persa significa “testículo”. Longe de qualquer simbologia ruim, mas aquele ser tinha más intenções.

“Por que esse inútil não acorda?”, pensou ela sobre o marido, eternamente de costas para ela. “Estou ficando louca? Deus, não me deixe ser louca… Mas… Se eu não estiver louca, isso quer dizer que esse invasor é real! Oh, Deus, me deixe ser louca, me deixe ser louca, por favor!”.

Ver a figura do seu pesadelo vivo seria um perigo mortal, mas de igual importância para entender se valia a pena temê-lo. Era uma mulher muito visual. Tudo possui um rosto, aquela coisa tinha um, sabia disso. Tinha de mirar no fundo dos seus olhos e analisar o ponto de fervura da sua coragem. Ou do seu pânico.

Duas e quarenta. Os pés voltaram a ritualizar com o passeio de um lado a outro do quarto. “Que diabo de dança era essa?”. “Por que no meu quarto?”. “Por que comigo, seu filho de uma puta?!”.

Agulha de tricô. Tem uma agulha na primeira gaveta do criado-mudo, ao lado da cama, junto ao material de costura. Mas está longe da sua posição atual. “Calma… Isso é o plano B”, imaginou ela. Duas e quarenta e um.

De repente, um ligeiro barulho metálico surgiu no quarto. Vinha da mesma posição dos pés macios e da nuvem de almíscar e cigarro de palha. “Meu Deus, as tesouras nas mãos…”. Estava próximo do fim.

Meia-noite e vinte e dois. Esposa, artista visual de classe média, trabalhava com esculturas, pinturas, bricolagens. Nos últimos meses, se dedicara a todo tipo de bordados. Camisas, toucas, meias, luvinhas. Guardou o material de tricô na primeira gaveta há algumas horas, quando fazia um árduo ponto cruz para um pano de prato, e assistia “Twin Peaks” pelo computador. O marido dormia como um urso no inverno, capotando no lado esquerdo da cama. Ela não reclamou. Apenas dava cutucões com a agulha na barriga imensa quando seus roncos superavam o volume do seriado.

Agora, duas e quarenta e dois, a agulha terminaria o mais importante dos seus serviços.

Um metal suspenso – provavelmente nas mãos do andante – vibrava em contato com o ar, o mesmo barulho quando as lâminas de uma tesoura ou de uma faca se encontram. O barulho que prenunciava o medo.

O impulso até o criado-mudo era heroico demais para condicionamento físico da costureira. Ela sentia o coração explodindo dentro da caixa. Seus dedos não respondiam os comandos naturais. Mas o esforço era necessário, maior do que tudo que já tenha feito. Duas e quarenta e três. Primeiro, ela enrijeceu os músculos do corpo, preparando um rolamento tranquilo e sem danos para a posição na qual o andante parou. Girou os quadris para a direita, recebendo impulso dos pés apoiado a cama. Duas e quarenta e quatro. Descobriu o rosto, exibindo os traços firmes da adultice, o cabelo talhado bem curto e os olhos fechados cobertos pelas pálpebras, fingindo um sono que há muito desaparecera. Duas e quarenta e seis.

Aconteceu o esperado. O invasor com cheiro ácido e lâminas nas mãos respeitou o movimento da mulher, um comportamento predatório típico de esperar que sua vítima encare o atacante. Ela deveria ser rápida. Se abrisse os olhos e sua perna não estivesse torneada o suficiente para dar o impulso até o móvel, tudo seria perdido. Dois minutos seguintes. Empurrar o invasor, abrir a gaveta, pegar a agulha de tricô e acertar no lugar mais macio.

“Deus me ajude… Por favor, Deus, me ajude…”.

Ela explodiu em uma raiva cega em direção ao criado-mudo, ainda coberta com parte do lençol. Quem sabe, se por reflexo ou por continuar com a farsa, não abriu os olhos um só instante. Jogou-se para cima do móvel e puxou a gaveta com força para fora. Retirou a bendita agulha, segurando como um punhal, e se virou para o invasor.

Tudo possui um rosto.

Ao reconhecer o invasor, não queria que ele tivesse um.

Duas e cinquenta e dois.

Ela perdeu a noção dos minutos quando viu o rosto de seu marido.

“Você… Não pode ser…”. Seus dedos agarravam com tanta força a agulha de tricô que as unhas arranhavam a palma das mãos.

Se as feições e o corpo gordo eram indistinguíveis do homem com quem foi casada esses anos todos, apenas seus olhos lhe traíram. O invasor tinha olhos profundos, não apenas em metáfora, como em estrutura também. Grandes olhos sombreados, enterrados no rosto ovalado de humano, único elemento irregular daquela cópia.

E também as unhas. Projetadas para fora das falanges menores, estacas pequenas que encostavam umas nas outras produzindo aquele barulho metálico infernal.

“O que você fez com ele?”, questionou a mulher.

“Homem dorme…”, respondeu a criatura. “Queremos o que temos vontade”.

“'Queremos’? Quem?”.

“A Tribo da Madrugada. Muitos, somos. Queremos o que temos vontade. Hoje queremos esse rosto”.

A perna da esposa ia vacilando pouco a pouco. Seu oponente não era apenas um passeador de madrugada, como imaginara, e sim uma criatura de muitas outras com necessidades muito além de sua compreensão. E se de repente “eles” quisessem ela? Seu rosto? Sua vida?

“Feche os olhos e aceite”, disse ele.

“Nunca…”.

A criatura abria os braços e expandia os dedos espalmados para oferecer resistência. Ela, por sua vez, brandia a agulha como um punhal e não vacilou diante o primeiro gesto, indo com tudo até seu atacante. Foi tudo muito rápido. Não caberia contar em segundos. Quando deram por si, a agulha de tricô acertava em uma parte que ela conhecia bem.

A criatura dava passos para trás, exprimindo um grito tão fino de agonia. Tinha dificuldade em retirar a agulha da imensa barriga. Envergava os joelhos e relaxava os músculos até se estirar no chão.

Morto, afinal. Ela abria os dedos, sentindo o cansaço pela pressão que pôs ao segurar a arma da sua vitória. Mas, então, se lembrou de que era apenas uma mortal, e caiu no choro. Correu até o marido e lhe descobrira o rosto, constatando que tudo estava no lugar. Até mesmo os olhos, normais, sem deformações.

Ele acordava com o burburinho. “Está tudo bem…”, ela disse. Ficou de joelhos, agarrada ao marido, controlando a respiração e a comoção. “Foi apenas um sonho ruim…”.

Permaneceu assim uns vinte minutos. Às três em ponto, ela adormeceu.

Às três e um, ela ouvia um barulho dentro do quarto.

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