Todas as besteiras que aprendemos sobre direitos e deveres perdem o sentido quando descobrimos as leis invisíveis que coordenam a soc...

Apenas Uma Questão de Honra



Todas as besteiras que aprendemos sobre direitos e deveres perdem o sentido quando descobrimos as leis invisíveis que coordenam a sociedade. Cordas sutis que passam despercebidas, mas nos puxam todos os dias pelos ombros para cima e para baixo, tão acostumáveis que nunca nos damos conta. Como a passagem entre os carros para os motoqueiros apressados, a diferença higienista do elevador social e o de serviço, enfim.

Só quando enterrei o meu namorado que fui me dar conta da mais antiga de todas. Bem resumida pelo Homem de Preto naquela tarde em “se você recebe, você retribui”. O Homem de Preto disse isso com as mãos em meus ombros. Vejam bem, eu tinha o peito pesado de dor, a cabeça fervendo e as mãos tremendo com um cigarro entre os dedos. Seu toque não era um consolo. Era uma promessa.

Tem certeza disso?”, perguntou ele. Só a palma de sua mão podia cobrir aquela minha protuberância ossuda que vagamente lembrava um ombro.

Se for por falta de benção, então, tome a minha”, respondi com a arrogância de quem está com razão, ou pelo menos acha que está. Joguei o cigarro ainda pela metade no gramado do cemitério, apaguei com uma pisada, acendi o seguinte tragando a fumaça como uma descarga de caminhão. Era o vigésimo terceiro cigarro do cortejo ao sepultamento.

Tudo bem. O serviço está em andamento”, ele ameaçou se virar e ir. Mas parou o giro na metade, e completou: “Um dia, eu voltarei para a retribuição. Esteja preparado”.

E lá para cá foram cinco anos esperando um telefonema, uma mensagem ameaçadora pelo celular, mas não recebi sequer uma pedra enrolada no papel. O pedido foi realizado – com excessos, confesso –, mas a paga demorou a chegar.

Foi no comecinho da manhã no Hospital Geral. Com um gordo banco de horas extras, meu único pensamento era largar aquela madrugada de merda, dropar um comprimido sem registros no estoque e assistir o canal de leilão de jóias, e isso se repetindo nos quinze dias de férias. Isso sempre se repetiu já tem cinco anos. Com meu namorado era fácil suportar a ressaca dos plantões noturnos, o olhar atravessado, até mesmo subir a quebrada às seis da manhã. Sem ele, me restou chapar e engasgar na saliva até o turno seguinte.

Bati o ponto e desci correndo as escadas, enfiando o jaleco na mochila, enquanto equilibrava um passo tonto sobre o outro. Eu trabalhava no último andar, e sempre gostei de pegar as escadas para conferir as novidades dos setores abaixo do meu. Era um exercício antropológico ver as famílias esperando um milagre na UTI ou as crianças inquietas na traumatologia. Só evitava os perturbados no terceiro andar – com os cortes na pasta da saúde, um bocado de pacientes com transtornos foram espremidos no Hospital Geral até a Secretaria decidir o que fazer com eles.

As sirenes anunciavam a chegada de mais um infeliz, e eu sorri satisfeito acreditando que aquela conta não era minha. Fiz até um sinal da cruz em respeito ao ferido, com um cigarro entre o indicador e o médio e o isqueiro preso no polegar.

Da porta para a rua, vi o Homem de Preto do outro lado da calçada.

O cigarro caiu dos meus dedos e uma corrente de energia me atingiu da base da coluna até a testa. Cinco anos esperando a sua visita e ele apareceu quando decidi relaxar meu esfíncter.

Ele fingiu que estava arrumando o cabelo e acenou para mim. Olhei inutilmente a meu redor e me dei conta de que o cumprimento teve destinatário certo.

Demorou...”, iniciei.

Achei que não fosse se lembrar de mim”, sua voz era um eco no centro de uma caverna.

Claro que eu lembro”, minha boca trêmula se encheu com a súbita vontade de fumar. “Você demorou para aparecer”.

Não podia dar as caras na época. Seu pedido deu muito trabalho”.

Eu não pedi para castrar ninguém...”.

Ele arfou algo entre o riso e a tosse.

Fique tranquilo. Sua retribuição será mais fácil”.

Ele avisou isso sem qualquer cerimônia. Acendi o cigarro tão depressa antes que os pensamentos se ligassem de uma sinapse a outra.

O Homem de Preto apontou com o queixo gordo e chapiscado de pelos grisalhos para o acesso de entrada das ambulâncias:

Esse que acabou de chegar é um condenado da justiça. Percebeu a escolta atrás da ambulância? Então, com os ‘homens’ na cola dele, eu não posso entrar. Mas você pode”.

E onde eu entro nessa história?”.

Você vai matar esse homem”.

O segundo cigarro caiu no gramado. Meu peito se encheu com todo o ar possível e tonteei antes de me apoiar no poste.

Quer outro cigarro?”, falou entre um sorriso satisfeito e outro, oferecendo um maço enrolado no plástico da embalagem.

Eu não gosto da marca, nem desejei por outro pedaço de câncer naquele instante. Mas ergui o braço de forma involuntária e apanhei um cigarro preto. Disse:

Não será tão ‘fácil’ quanto parece. Estou de saída do meu plantão... Entenda que um pedido desses...”.

Foi fácil arrancar as bolas dos homens que mataram o seu namorado, não foi?”. O Homem de Preto comprimiu meus ombros como fez há cinco anos. Se antes foi uma promessa, hoje foi um recado. “Agora retribua. Você tem até às seis para dar cabo desse homem, ou vai passar de enfermeiro à paciente”.

Eu encarei o Homem de Preto e desviei o olhar para as ambulâncias. Os olhos vibrantes e molhados por dentro das órbitas, vez após vez.

Por que agora?”, sussurrei.

Se ele morrer, não se perde quase nada... Ele é um rato. Um delator, sacou?! Ele tem de ser silenciado antes que abra a boca. Agora vá”.

A ordem disparou um gatilho que moveu minhas pernas para a entrada do hospital. Minha mente ficou naquela beira de calçada, meu coração esteve no cemitério onde firmei meu pacto – só as pernas se encontraram no tempo presente. A retribuição seria matar uma outra pessoa. Eu tinha o poder sobre a continuidade ou o fim de alguém, igual aos homens que mataram o meu namorado. Um poder que eu não queria. Mas era ele ou eu, um desconhecido, um marginal que com certeza já "descontinuou" alguém. Eu tinha de pôr isso na cabeça se quisesse seguir com a ordem natural da retribuição.

Então, por que eu não me sentia mais confortável pensando assim?

Voltei para a entrada e me escondi no banheiro. Eram cinco e vinte e três. Lavei o rosto com tanta força que poderia arrancar a pele. Parei e me fixei em um ponto imaginário na parede. Imaginei a cena. Precisava saber onde o meu alvo estava – chutei que seria na Observação. Tinha de saber quem era o plantonista da manhã e impedi-lo de chegar ao setor, e depois me oferecer para assumir o plantão. “Fair play”, poderia alegar. E a arma do crime? Bastava uma seringa vazia. Bang! Injeção de ar na carótida provoca embolia aérea. Morte invisível – só teria de encorajar os meus dedos antes. Fiz um sinal da cruz em respeito ao Ferido.

A garganta borbulhou querendo uma dose maciça de nicotina, a única coisa que faria minhas pernas obedecerem. Vesti o jaleco, guardei meu maço no bolso e entrei no primeiro corredor à direita. Um policial com tensão no rosto e nos braços circulava na entrada da Observação, sem tirar a mão do coldre. Cinco e vinte e nove.

O que está fazendo aqui?”.

A voz quebrou minha concentração, e em contrapartida acendeu um holofote de suspeitas em mim. Era o plantonista da manhã – jovenzinho de cabelo vermelho ensebado e caspa pelo pescoço. O policial me coloca em seu radar e forma um paredão na porta com seu torso.

Que susto, Ruivo...”, comento. “Estou dando uma”.

Como disse?”.

Uma volta...”, sorri. Pus as mãos no bolso do jaleco, era mais fácil esconder o terremoto nas mãos do que fingir o autocontrole.

Eu te manjo... Eu sei o que veio fazer”. O Ruivo cresceu em mim feito uma lua cheia. “Veio saber quem é o Ferido, não é?”.

Tirei um continente dos ombros com aquela provocação. Respondo:

Claro. Sempre tive uma queda por homens à margem da lei”.

Então, perdeu seu flerte, mana. Esse daí só está esperando o efeito da anestesia passar para ir embora. Perfuração no intestino, sabe? Mais um pouco para baixo e ia passar nas tripas, por sorte, só perdeu sangue. Não deu trabalho para remendar... Mais uma hora e acho que ele sai daqui direto para o Plantão Geral”.

Cinco e trinta e seis. Meu estômago se contorceu e o suor intenso banhou minha testa e a palma das mãos. Eu tinha de entrar naquele quarto a qualquer custo! Ou desistir – também é uma opção –, e esperar a morte chegar pelo Homem de Preto. Talvez fosse a saída. Pensei no meu namorado, ele era o rei dos truques. Foi por ele que estive aqui. Não, não por ele, eu me pus nesta situação porque quis, porque meu rancor, minha decepção por perdê-lo há cinco anos só ia sumir com violência. Ele sempre disse que eu era um caminhão sem freio descendo a ladeira.

Às cinco e quarenta e dois, o telefone público ao lado da recepção tocou. Aquela tranqueira só funcionava para acumula ferrugem, mas emitia um ruído mordido de chamada. O vigia atende meio surpreso e, em seguida, passa para mim. O homem na outra ponta da linha se apresentou como um agente funerário.

Quase seis”, disse. Reconheço essa voz de águas subterrâneas. “Está com algum problema?”.

Não... É que eu não... consigo”.

Então, te falta motivação. Sua vida não é o suficiente?”.

Pelo amor de Deus, eu preciso de mais tempo!”.

Ele não pode abrir a boca. Acredite, nós não vamos gostar do que ele vai dizer... E você não vai gostar do que iremos fazer. Portanto, corra”, terminou o Homem de Preto.

Soltei o telefone sem pôr no gancho e fui cambaleando até as escadas, gingando os dedos entre o vácuo do bolso e o maço de cigarros. Meu corpo sem obedecer ao juízo vai subindo os degraus, quis chorar, mas gastei toda minha cota de sofrimento há cinco anos. O respirar se tornou pesado como se subisse uma montanha. Eu queria desistir. Cair no chão, esperar o que o Ferido contasse seus segredos sórdidos à polícia e iniciar a contagem regressiva.

Mas, veja bem, eu sou um caminhão sem freio. E parei bem no terceiro andar, o andar dos loucos, dos perdidos, dos degredados. Tudo o que eu tinha era de me reconectar com o lar.

Seis da manhã. Parti para a Observação à galope. De longe, comecei a gritar:

Fogo no terceiro andar! Fogo no terceiro andar!”.

O policial me amparou com as mãos, impedido de argumentar sob os meus gritos.

Um dos pacientes incendiou o terceiro andar. Vai acontecer uma desgraça se o fogo chegar no depósito”. Ele falou que não podia sair, que estava guardando uma pessoa de interesse, e outros jargões do ofício. “Eu preciso entrar e trocar os curativos do Ferido, sua liberação já foi autorizada. Mm, ele está algemado? Ótimo, não vai me fazer mal. Está na sedação. Me ajude lá em cima que eu te ajudo aqui embaixo... É uma questão de retribuição”.

O policial concordou. O jaleco é como uma toga para os leigos. Espero que não tenha sentido o odor do álcool em meus dedos e dos pelos queimados no braço. Deixei os louquinhos cuidarem do resto da encenação. O caminhão sem freio abriu essa porta à força.

Entrei na Observação com uma falsa coragem no andar. Cabeça reta e mãos retesadas. Abri as cortinas uma por uma e encontrei o Ferido. Cabelo raspado, tatuagem de palhaço no peito, brancura esquálida – poderia me quebrar com um braço. Na barriga, a gaze cobria boa parte da barriga. Não morreu, mas sentiu uma dor miserável. Eu quis muito que esse infeliz não sentisse nada naquele instante.

Você... é um deles, não é?”. O homem agarra no meu pulso. Seus dedos escorrem um suor tão quente que ferve minha pele.

Eu tenho de retribuir”, disse. E repeti. E repeti em um ritmo hipnótico até sentir meus olhos inchando, e gaguejei. “Eu só queria justiça... Eu só queria ter ele de volta. Mas fui errando, e errando… Descendo a ladeira. Igual a um caminhão sem freio”.

Retribuição… É só isso que esses fanáticos sabem”, a conversa me incitou a encará-lo de frente. Ele percebe meus olhos molhados e vermelhos, e me solta o pulso. “Sabe porque estou aqui, parceiro? Porque não retribuí. E agora estão me caçando. Decidi abrir a boca por proteção, mas pintei um alvo ainda maior no meu rabo. Eles têm capangas em todos os lugares...”, disse isso travando seus olhos nos meus.

Ele era mais um degredado que foi vendendo sua alma aos pedaços a qualquer diabo. Senti o sangue subir junto à vergonha para a cabeça. Só que entre a dor de cabeça, o caos martelando no coração e a tensão no pescoço, surgiu uma ideia sedutora. E perguntei:

O que você recebeu deles?”.

Não lembro agora se era oito ou nove da manhã. O que está tão claro nessas recordações foi o Homem de Preto reaparecer no mesmo lado oposto do Hospital Geral, abrindo sua mão de pedra por sobre meu ombro.

Ele saiu do hospital direto para a delegacia. Está em depoimento”, resumiu com a voz ainda mais cavernosa. “Você tem noção do que deixou de fazer?”.

Senti um volume apertando o abdome. Se não fosse alegria em me ver, era o silenciador de uma pistola de porte médio. Levei o cigarro até a boca e me permiti saborear uma longa tragada – era o cigarro preto que ele me ofereceu. Constatei que era horrível mesmo. Respondi:

Não se preocupe, ele não vai abrir a boca. Está me retribuindo”.

...”.

Veja bem, esse ciclo desnecessário de oferta e demanda só trouxe desgraça. Tudo o que fiz foi amarrar essas pontas soltas. Eu não o matei. Ele me deve uma… Como retribuição, não vai abrir a boca sobre a organização”.

O Homem de Preto desarmou os músculos e forçou as engrenagens do cérebro.

Ele implorou pela sua vida como um cão de rua!”, menti com ar de melodrama. “Com a agulha perfurando o pescoço, me prometeu que ficaria calado! O preço para esse perdão era que não o matasse… Sendo assim, eu mantenho as mãos limpas, ele mantém a vida intacta e a organização se mantém nas sombras”. Dou outra tragada. “Todos saem ganhando”.

Não...”. Ele encosta a arma de novo em meus quadris. “Que garantia eu vou ter que esse rato não vai nos trair? Ele falhou em sua retribuição. Depois, se tornou um delator. E você cometeu os mesmos erros!”.

Em primeiro lugar, ele só aceitou delatar por medo, e por acreditar que essa bosta de polícia iria proteger a ele e a família. E, depois, o plano era silenciá-lo. Lembra? Sua morte era um... efeito colateral. Eu não faltei com a retribuição! Apenas... alterei o sentido”.

Fumei até o filtro, sentindo o calor queimar a ponta dos meus dedos. Gosto horrível de canela. Fui com as mãos na cintura de frente para o mafioso.

Eu apelo um segundo pedido. Deixem a família desse homem em paz. Esqueçam a sua dívida… e eu me comprometo em retribuir no futuro”.

Outra dívida? Você enlouqueceu...”.

Ele fechou seu capote cor-de-poeira e disse:

Um dia, eu voltarei para a retribuição. Esteja preparado”.

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