Corpo e alma

abril 23, 2018 , , , 0 Comments





O pesadelo se repetiu como o da última dormida. Mesmo cenário, mesma situação – as cores e os barulhos ganharam maior qualidade desde a madrugada, mas o restante que Renan consegue se lembrar permanece igual.

Ele sente que está descendo a escadaria principal da universidade, uma leveza percorre cada ponto do seu corpo, os pés descalços são capazes de tocar cada átomo do piso de madeira, sua textura e constituição. Renan está pleno, satisfeito, imenso como uma lua cheia, uma energia alegre eletrifica seu corpo. Corpo este que está sem roupas. Nu sem qualquer peça de roupa lhe cobrindo o peito com poucos pelos, a barriga saliente, as teias de varizes subindo pelos quadris, as nádegas mais pálidas que o resto da pele ou o pênis frouxo. Nesse instante nada parece ser motivo de vergonha. A sociedade acadêmica o observa com olhos e bocas alargadas, ao que ele ignora. É tão dono de si quanto um regente.

Renan passou a gostar da sensação de recordar do sonho. Ali ele está tão absoluto quanto nunca pôde ser, subvertendo as convenções sociais e provocando uma catarse com seu porte físico miserável exposto pelo campus. Seria uma bela resposta ao Conselho da universidade que sempre o tratou feito uma peça de suas escavações: antiga, obsoleta, sem valor ou importância para a sociedade. Mas o que repousa dentro dos baús fará aqueles janotas repensarem seus modos de tratamento.

Renan sai da cama e vai ao banheiro, lava o rosto para criar um ânimo que não consegue acompanhar sua excitação. Olha para as unhas – roídas até o toco com pequenos filetes de sangue e cutículas descascadas. Todo dia tem sido assim. Até os baús chegarem com segurança ao Brasil, cada hora é um pedaço de dedo a menos. Do banheiro, vai ao criado-mudo e pega o celular. Assédio da imprensa nos e-mails e nos números pessoais, a maioria das mensagens em inglês. Três chamadas perdidas de um mesmo número, mais uma SMS: “o senhor é mesmo difícil”. Renan resmunga algo entre o árabe e o brasileiro, e deleta a mensagem – ele reconhece o número e ignora a provocação.

Então, alguém bate à porta. Toc, toc. Renan prenuncia o serviço de quarto, mas é surpreendido:

O senhor é mesmo difícil”.

Uma voz de porcelana, com açúcar e pimenta com uma mistura de sotaque aportuguesado e nativo vem do outro lado. Renan espia pelo olho mágico. É uma jovem acobreada usando um casaco rosa-choque e uma boina marrom que se equilibra com graça no volumoso cabelo crespo. Os óculos redondos de estilo oitentista escorrem pelo nariz empinado, quase metafórico à sua apresentação. Mascava um chiclete com a boca aberta em uma simbiose esquisita da língua ao doce.

O que quer?”, pergunta ele um pouco tonto pela sua presença.

O senhor me conhece, professor. Sou Jamile Hayala. Entrei em contato o mês inteiro”.

Renan limpa a garganta e respira profundo.

O fato de ignorar suas mensagens já não é uma resposta satisfatória?”.

Eu sou uma mulher persistente”.

“’Mulher’...”, ele grunhiu. “Vá para a casa, menina. Quem te deixou entrar? Já disse que não trabalho para uma ratazana capitalista”.

Renan tentou dar um giro completo e voltar para o banheiro, quando ouviu um clique de destrave. Jamille Hayala abre a porta até a altura da tranca de corrente e põe o braço direito em forma de vara para dentro do quarto, com a mão fazendo um sinal positivo.

Essa também é minha casa, professor. Eu comprei esse hotel”. Ela gira a mão e o sinal com o polegar de torna negativo. “Mas essa não é minha forma de persuasão… O senhor sabe como me procurar”.

***

Renan abre os olhos e está nu. A satisfação é sua camada protetora – cada poro respira liberdade. Caminha de braços abertos, descendo a escadaria da universidade. Sente o vento frio roçando sua pele em uma dança erótica com a natureza – o pênis se enrijece com a sensação, seus mamilos petrificam, o sangue gela e espeta sua pele em arrepios de plenitude. O magnífico reitor reprime o gesto com os braços, e Renan lhe responde com o dedo médio das mãos. Porém, agora nota um portão por entre a visão embaçada fornecida pelo inconsciente, com brilhos vazando pelas frestas. Ele gira a maçaneta e entra.

Quando sai, a pele vibra em camadas de arrepios. O vento parece cortar o seu corpo de uma ponta a outra. O desequilíbrio lhe encontrar nos braços e nas pernas. Renan ainda está de olhos fechados, e quando os abre percebe que o cenário mudou entre um relance e outro. Agora, Renan está nu no saguão do seu hotel, pendurado no parapeito de um dos balcões que projeta o janelão para rua. Há andares abaixo, os passantes riem da situação, tiram fotos, fazem gestos obscenos para o seu órgão flácido. A sensação é real demais. Quase se congratula por sua imaginação vívida.

Ele abre os olhos e se dá conta de que não é um sonho.

***

Recomposto do transe, Renan passou a tarde no quarto. Ignorou o serviço de quarto, a visita do gerente do hotel, alguns vizinhos curiosos. Só saiu da cama quando reconheceu a voz agridoce por trás da porta.

Sou eu, professor”.

Renan gira a chave e abre a porta. Jamille Hayala vestia uma camisa branca com o olho de Hórus estampado em neon, com um blusão de algodão enrolado na altura da cintura, mais uma calça xadrez. Os óculos desta vez tinham armação em formato de coração.

Ela abre passagem e se senta com as pernas abertas. Renan se passa para o banheiro e começa a brincar com os sabonetes, a pasta de dentes, a escova, o kit de primeiros socorros, o papel higiênico – truques para soterrar o nervosismo.

Que bom que me recebeu, professor! Pensei que teria de demolir o prédio com o senhor dentro...”.

Ouça, menina...”, Renan responde com uma paciência fabricada. Decide escovar os dentes. “Eu não entendo sua obsessão comigo. Mas alguns eventos que ocorreram hoje… Me fizeram reconsiderar a sua visita. O que quer de mim?”.

Os pesadelos já começaram?”.

Renan parou a escovação bem ríspido. Só cuspiu a espuma quando sentiu a natural queimação na boca. Sai do banheiro com uma mancha pastosa no canto dos lábios.

Repita”.

Os pesadelos, professor? Já começaram?”, Jamille desce os óculos de coração até a ponta do nariz e abandona a postura despojada. “Aconteceu o mesmo com o pai do meu avô. E com o pai do meu pai. Com meu pai... Só parou comigo, porque a maldição não gosta de mulheres”.

Maldição…?”.

Sim. O que traz nesses baús só tem desgraça, dor e sofrimento. Por que acha que a família mais abastada do Cairo teria interesse na sua pesquisa, professor, se não fosse de interesse pessoal? Por que uma Youtuber que só entende de moda, cabelo, maquiagem e Dua Lipa estaria atrás de um arqueólogo de meia-idade, se não fosse para salvar sua linhagem?”.

Ele para no meio do quarto, desprovido de reações. Ela também, desarma a postura fashionista e transparece quem realmente é – ou está.

Okay… Tem meu interesse”, disse Renan.

Meu pai, Samir, tem negócios por todo o Nilo. De tecelagem a hectares de terra. Isso é com o que ganhamos dinheiro. Nosso interesse mesmo é pela arqueologia… Nosso clã é amaldiçoado desde a aurora da humanidade por causa de Sankh”.

Renan sussurra o nome e Jamille o repete com o temor de quem olha as frestas antes de dormir.

Professor, há dois meses o senhor descobriu uma necrópole próximo ao sítio arqueológico de Tounah el-Gebel, e segundo suas investigações, lá possuem registros de um sumo sacerdote dos tempos de Thoth… Oculto pela História por um motivo inexplicável”.

Como soube disso tão… depressa?”.

A explicação, professor, é que Sankh precisa ser esquecido”.

Renan abre um sorriso cheio de veneno para a declaração de Jamille. É coerente uma ficção desta vinda de uma figura tão personalística.

Isso é algum tipo de brincadeira para os seus seguidores? É impossível ter existido um ‘Sankh’ nesse período! Os hieróglifos e os vasos mortuários são claros a uma presença importante na ressurreição de Osíris, mas sem identificação...”.

Sankh foi responsável pela vigília que trouxe o deus Osíris de volta ao Além”, Jamille se levanta da cama e cruza os braços, circulando o letárgico Renan. “O processo enlouqueceu o sacerdote, que passou a estudar a purificação do espírito, a eliminar qualquer coisa que estivesse entre a matéria e a alma. Nós, os Hayala, pertencemos a uma linhagem responsável por derrubar os avanços de Sankh… Mas ele apodreceu nosso sangue! Isso passou de homem para homem, até alcançar o meu pai. Graças a mim, por ser mulher, a maldição pulou uma geração. Mas pode condenar um filho meu…”.

O que aconteceu com sua família?”, Renan pergunta entre dentes.

Suicídio...”, Jamille dá uma vírgula emocionada escapar da fala. “Das formas mais cruéis possíveis. Primeiro, foram os sonhos, influenciados por seus desejos mais ocultos. Depois, o sonambulismo”.

Renan põe a mão no coração, sentindo a constatação pesando no peito.

Eu soube de sua aventura hoje, mais cedo, sem roupa nas vistas do público. Meu pai começou assim, andando pelado no jardim, em frente dos empregados...”.

E depois do sonambulismo?”.

A morte pelas próprias mãos. Tinham a necessidade de causar mutilações. Nunca se sabe como começa... O que sei é que a maldição influencia a quem profanar o nome e o passado de Sankh, como os homens Hayala...”.

“… e a mim”.

Renan olha para baixo e toma o próprio corpo. Sente vergonha, impotência diante algo que não conhece. Agora o que escapa de Jamille soa como uma verdade incontestável. Sente vergonha por sua nudez, e por sua ignorância. Mira as unhas e percebe que está intactas agora, o torpor lhe impediu até mesmo de roer nos momentos de tensão.

Jamille põe as mãos nos ombros de Renan que reage a seu toque com os olhos molhados.

Professor, me deixe ajudar o senhor”.

As mãos da Youtuber circulam os braços do arqueólogo, massageando e desatando nós em seu corpo. Ele experimenta o mesmo prazer o que vento frio e a sensação de liberdade dos sonhos lúcidos. Ele questiona o que está fazendo, ao que ela responde com um sussurro miado:

Eu tenho uma teoria… E se eu casasse com um outro amaldiçoado?”.

Casar?”, pergunta ele com os olhos fechados e a boca aberta em um espasmo de prazer.

Sim… Casar. Se uma Hayala casasse com um outro de sangue podre, nosso filho seria amaldiçoado?”.

É… uma teoria interessante”. Renan se volta para Jamille e encara seu corpo. “Mas precisa mesmo de um casamento?”.

Acho que podemos pular esta parte”, responde ela antes de encher a boca com a língua do arqueólogo.

***

Renan abre os olhos e está descendo a escadaria principal da universidade. Colegas de profissão se amontoam nos corredores para encarar a atração principal do corpo docente. Eles gritam palavras de ordem e contorcem os rostos de agonia. Renan, ao contrário dos primeiros delírios, quer sair dali. Suas pernas agem sob uma gravidade superior e o caminho até a tal porta brilhante se torna dificultoso. Ao cumprir seu trajeto, Renan surge no quarto do hotel, também sem roupas. Jamille Hayala está imersa em sono profundo na cama ao lado, cobrindo suas costas com os lençóis.

À sua frente, um homem alto e decrépito, coberto por tiras de tecido decrépito, sorria com dentes desgastados escorrendo um líquido viscoso. Seus olhos mortos cor de leite se mexiam por dentro das órbitas cavernosas. Suas mãos convulsas faziam mesuras com unhas grandes e imundas. O cheiro de corrupção tomava o cômodo. Sua fala sibilava um dialeto enterrado pelas areias do Cairo. Renan parecia entender cada palavra, cada ordenança. Dizia-lhe que Renan foi escolhido como seu próximo sucessor, que o segredo para a imortalidade se encontra na purificação da matéria primordial que constitui o ser humano – nada poderia se interpôr entre a carne e o transcendental. Nada.

Nada.

Nem adornos. Nem vestimentas.

Nem pelos.

Nem a pele.

Faça”, disse a Sankh.

Jamille acordou com um grito agonizante rasgando o quarto, um grito agudo, borbulhante no final do fôlego. Renan enfiava as unhas nos globos oculares, e assim que chegara a uma posição firme, forçava as mãos para baixo, repuxando as pálpebras em um ferimento imenso. Esguichos de sangue corriam dos flagelos. Renan golpeava o rosto, depois ia com a cabeça de encontro a parede, convulsionando de dor – queria quebrar os ossos da face para arrancar a pele sobressalente. Rompeu um osso malar entre um baque e outro e despedaçou a pele, que era rasgada das mãos como postas de filé.

Jamille grita de desespero e um jato de vômito queima a sua garganta. Seu corpo despido lhe trai – o terror inimaginável paralisa sua reação. Porém, precisa agir antes que Renan se desfaça na sua frente. Jamille pega o globo de vidro do criado-mudo e acerta com tudo o que puder na cabeça de Renan, que cai se debatendo no tapete. Ela sente o vento frio da morte bater na janela.

***

Não falava em outra coisa no dia seguinte. Muita informação, pouca precisão. Comentavam sobre um arqueólogo estrangeiro que sofreu um surto psicótico, nervoso por seu trabalho atual ou pelo calor. Foi internado às pressas em uma clínica pública em Midan Tahrir e seu trabalho foi recolhido pelo governo egípcio. Espera-se auxílio diplomático.

Se tivessem um pouco mais de precisão, entenderiam que a famosa Youtuber e herdeira bilionária dos Hayala telefonou para seu pai na madrugada anterior. Homens chegaram ao hotel vestidos como representantes do governo egípcio para interditar o professor brasileiro Renan Galhardo e confiscar seu equipamento de trabalho. Jamille recebeu um fardamento e se disfarçou como membro da equipe, saindo do hotel com discrição e se escondendo em um dos furgões. Renan foi removido para uma ambulância com destino a um home care na mansão Hayala – lá receberia transfusões de sangue, enxertos de pele e um tratamento por coma induzido.

Com um pouco mais de informação, também saberiam que Jamille telefonara outra vez.

Tudo certo, papai. O alvo segue para a mansão”.

Ótimo, filha minha. Acredita que o estrangeiro consumou o ato?”.

Jamille riu com a formalidade.

Ainda é cedo, papai… Farei o teste de gravidez em duas semanas. Enquanto isso, veremos como o corpo do professor reage à maldição. Intervimos a tempo”.

Excelente, Jamille… Se essa criança for gerada, teremos uma chance de descobrir como sobreviverei à maldição”.

E se eu não estiver grávida?”.

Bom… Passamos para o próximo arqueólogo”.

Jamille ignorou a gargalhada ruidosa do pai. Alisou a barriga esfregando um ponto invisível e fez uma prece silenciosa.

Leandro Leal

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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