O homem abriu os olhos e encarou apenas a escuridão. O ar quente ficou comprimido ao restrito espaço entre seu rosto e o capuz. Tent...

Prato que se come frio




O homem abriu os olhos e encarou apenas a escuridão. O ar quente ficou comprimido ao restrito espaço entre seu rosto e o capuz. Tentou retirá-lo, mas em vão – as mãos estavam tão bem amarradas nas costas e dobradas de tal forma que o menor movimento quebraria os pulsos. Os calcanhares também, presos um ao lado do outro. Sentia os pés descalços tocando o chão frio de cascalho. Poderia jurar que ouvira uns arfados atrás de si.

Um gesto brutal arrancou o capuz de sua cabeça.

Dormiu bem, Roberto?”.

Uma moça de grandes e pesados olhos emoldurados nos cabelos pretos escorridos se impunha em sua frente. Dona de uma voz macia, o mesmo não se aplicava às mãos – ossudas e de unhas grandes, calejadas como as pedras do chão, com falanges grossas, que agarraram o rosto de Roberto como um polvo.

Velho filho de uma puta...”.

Ela arranhou o seu rosto com as unhas, marcando sua pele cor de bronze e os malares prolongados. Quando o sangue escorreu para a palma das mãos, ela moveu o rosto de Roberto para trás. Lá estavam outros cinco homens cativos com as mãos e os pés amarrados em cadeiras assim como ele.

Não fala nada...”, recomendou o segundo homem na fila atrás de si. Em seu rosto, cinco marcas em carne viva cobriam as bochechas. O mesmo padrão nos outros cativos.

Ouça o seu chefe”, disse a mulher.

Roberto girou o pescoço para ter a noção do espaço. Era um galpão enorme para estoque de material, com janelas vedadas com lona e suporte para lâmpadas fluorescentes no teto de madeira. Próximo da mulher, uma mesa de ferro sobre uma bolsa de mão.

O último homem da fila olhava para baixo. Era o único sem expressão de pânico, de angústia ou mesmo de raiva dos seguintes. Seu rosto ferido foi lapidado por um vazio que saía dos olhos e caía nos ombros baixos, rendidos por um sentimento neutro muito mais forte que as cordas.

Roberto controlou a respiração entrecortada e acumulou energia na voz.

Onde estou, senhorita?”.

Um lugar entre o ‘era uma vez’ e o ‘nunca mais’”.

... Eu estava no Fasano! Como me tirou de lá?”.

Uma boa dose de logística e força de vontade. Ah, e óxido nitroso”.

A memória de Roberto embaralhou as imagens, tão embaçadas quanto a visão após a sobremesa. A taça de Saint Emilion escorregara de suas mãos antes mesmo de reparar no cheiro ocre vindo da tubulação do ar-condicionado. Cumins, maîtres e seguranças, senhoras obesas e deputados sem conseguirem suportar as próprias pernas caíram feito peças de dominó.

Roberto disse:

Minha cara, tenha calma… Você precisa recuperar o controle. Eu te entendo, sei como foi difícil para entender que...”.

A moça encarou cabisbaixa a bolsa em busca de um objeto importante. Rangeu os dentes emitindo um barulho agônico de molar roçando no outro. Só parou quando o discurso do homem se provou inútil.

Achei que não fosse acabar esse falatório”, disse ela ao pegar uma seringa térmica da bolsa.

Roberto ganiu movimentando o corpo preso à cadeira, enquanto a moça pôs a agulha em direção ao seu olho.

Você sempre foi um homem inteligente, Roberto”, principiou ela. “Eu me lembro bem… Nas reuniões, se vangloriava por sua ‘imensa cultura’. Sua educação tradicional. Seus diplomas e palestras. Do que adiantou ter tanta cultura, se o máximo que conseguiu provocar nos outros é puro tédio?”, riu.

A projeção da agulha lhe doeu bem menos do que ser diminuído.

“… O que tem nessa injeção?”.

O big one da Companhia”.

Corteximax?!”, gritou.

Sabe, tem uma coisa que esses lambe-botas inúteis esconderam… Por que o Corteximax foi suspenso?”.

Roberto olhou para trás e encarou o quinto homem da fileira. Voltou à moça, e respondeu:

Corte de recursos na Companhia...”.

A moça agarrou a nuca de Roberto de uma vez e enfiou a agulha no olho esquerdo de Roberto. A dor excruciante correu em seu corpo feito uma corrente elétrica, comprimindo os músculos. A aplicação da substância causou uma linha de dor que encheu o cérebro. Seus gritos alarmaram os outros cativos.

Seus compinchas encerraram o Projeto Corteximax pelos efeitos colaterais na alteração da fórmula. As cobaias apresentaram uma reação devastadora à primeira aplicação… Pobres ratinhos. O Corteximax não funciona como um ‘anabolizante para o cérebro’ como vocês queriam, ele provoca uma degradação nas cadeias sinápticas em vez de protegê-las”.

Um líquido viscoso escorria no local de aplicação. Roberto começou a babar e inclinar a cabeça para frente.

Claro que eu dei uma melhorada na fórmula, Einstein...”, completou a mulher. “Em vez de cinco horas, a degradação começa em cinco minutos. Para o homem sábio, eu ofereço a demência”.

Roberto definhou, e sua baba se estendia para fora da boca em uma linha espessa que ia até a perna. O – agora – quinteto saíra do transe anterior. O segundo da fila rosnava de raiva forçando os braços para escapar, enquanto o terceiro gritava, mas acabou sufocado pelo eco do galpão, e aquietou. O quarto murmurava uma reza com os olhos fechados. O último ergueu o pescoço a para alcançar o horizonte.

Nada abalou a moça. Nem os berros, os xingamentos, protestos ou preces. Voltou à bolsa de mão, retirando um saco de luvas plásticas e uma tesoura de jardinagem.

Vamos conversar, Albérico?”, girou o rosto tentando encarar o segundo cativo.

O quer de mim, sua puta?!”, respondeu ele trincando os dentes.

Ela pôs as luvas, depois abriu e fechou a tesoura com força, um ato que se repetiu por um tempo. Roçou um dente no outro como quem come uma castanha.

Chega!”, gritou Albérico. Grandes bolsões embaixo dos olhos verdes cresciam de ódio. “Termine logo com isso, sua débil mental. Enfia essa porra no meu olho!”.

Sempre apressado… Chegando cedo nas reuniões, cortando os colegas nas explicações. Você costuma gozar rápido também quando sai com aquelas vagabundas?”.

Albérico sorriu sem uma só vontade.

Quer experimentar, Alexandra? Quer saber como eu fiz com as estagiárias? Me tira daqui que eu te faço gritar como elas...”.

Alexandra agarrou o cabo da tesoura e partiu para cima de Albérico. A ponta foi de encontro ao volume entre as pernas do cativo. Ela respondeu:

Você vai se arrepender de eu não ter enfiado isso no seu olho...”.

Alexandra abriu o cinto e o zíper da calça social de Albérico, tirando a peça e depois uma cueca branca. Para um homem de meia-idade, ele tinha um corpo bem aproveitado pelas tardes de corrida no calçadão da praia. O mesmo não se aplica ao estado de seu órgão flácido e desquarado, em especial ao reagir ao contato da tesoura.

Para o homem viril, eu ofereço a castração”, comentou. Ela abriu a tesoura em um gesto rápido, cerrando com força um pedaço da carne de Albérico. Um esguicho de sangue quente empapou as pernas do castrado, onde tal sofrimento se mediu pelo alcance do grito, maior e mais intenso que o do caolho Roberto.

Constatando ser o próximo a perder algum naco importante do corpo, o seguinte apelou para a diplomacia:

Alexandra, pare com isso! Pelo amor de Deus... O que ganha com isso?”.

Ela arrancou a luva das mãos com um embrulho na garganta pelas postas de sangue impregnadas na borracha.

Cui bono? Lembra dessa expressão, Ricardinho? Era o que você sempre cobrava da gente...”.

Alexandra se aproximou do terceiro com pés macios. Um passo de cada vez até chegar para ele como um sol eclipsando a Terra. Parecia um porquinho amarrado no espeto – a barriga sobressaindo na camisa social, as papadas suadas se movimentando enquanto tentava se justificar, era cronologicamente o mais novo e o mais burguês dos enfileirados.

Tudo o que fiz foi por trabalho, Alexandra! Você em meu lugar teria o feito o mesmo!”.

Não sei se teria, Ricardo Neto... Seus sócios não me deram tempo de descobrir”.

Ricardinho aquiesceu com um tom de vergonha. Buscou uma forma de negociação – era o seu trabalho. Mas diante de uma pedra irremovível nem mesmo sua força irresistível seria capaz de encarar. Pediu que Alexandra terminasse seu ato seguinte, e recebeu um comentário inesperado:

Eu já fiz”.

Com os lábios secos, brancos quase sem sangue e vibrando, Ricardinho perguntou o que fez.

Ela foi à bolsa de mão e puxou um celular, digitou alguns comandos e mostrou uma sequência de fotos ao terceiro cativo – um apartamento de luxo engolido por chamas.

Essa é a sua cobertura de frente para o mar. Um patrimônio avaliado em quase um milhão, não é? Há duas horas, um incidente na fiação elétrica queimou tudo o que tinha lá dentro. É o que os bombeiros vão constatar, claro... Móveis, roupas, objetos, recordações. Seu cofre pessoal. Dinheiro lavado. E documentos. Tudo perdido no fogo”.

Nem o remédio ou mesmo a tesoura produziram um efeito tão potente quanto àquelas palavras em Ricardo Neto.

Isso é desumano...”, murmurou ele.

Para o homem que tem tudo, eu ofereço a miséria”, Alexandra fechou o punho e acertou um golpe no maxilar de Ricardinho. Ele arfou aos poucos, enquanto se entregava a dor de um osso quebrado, desmaiando ao final.

O quarto homem da fila ergueu a voz. Alto, magro, barba bem-feita e de cabelos alinhados, seus olhos azuis ardiam no meio de órbitas vermelhas de cansaço e estresse.

É disso que se trata? Castigo? Punição? Quem pensa que é para dispor da vida de todos dessa forma?”

Ora, ora. O pilar da família brasileira. O que tem a dizer em sua defesa?”.

Não tenho nada para conversar com uma neurótica! Uma infeliz que não tem ninguém, não tem um macho, um filho, nem mesmo um pai, sua enjeitada! Ninguém gosta de você! Nem seu irmão gosta de você!”.

Alexandra correu para a saída do galpão, o que deixou o quarto cativo satisfeito por ter atingido a moça em seu nervo exposto. Logo, o sorriso sumiu da face ao ver quem ela puxava pelas mãos.

Filha!”.

Entrou uma garota franzina de cabelo curto pintado de vermelho e um rosto lascivo para a sua juventude. Ele se agoniou ao vê-la naquele cenário de tortura e sofrimento e implorou para que Alexandra poupasse sua vida. Então, caiu em si em um fato trágico: sua filha não parecia rendida como os presentes.

Está vendo, Henrique?”, disse Alexandra. “Aprenda com os meus erros... Nem sempre se pode confiar nas próprias sementes”.

Meu Deus... Filha...”.

Sabe quantos dias levou para sua filha confiar em mim? Três dias. Três míseros dias que derrubaram toda a sua pose de pilar da moral e dos bons costumes”.

Eu já não aguentava mais sua repressão, seu caráter. Seu cheiro podre – cheiro horroroso!”, completou a filha. Ela recebe de Alexandra uma arma de pequeno calibre escondida na bolsa, engatilha com cuidado e mira na testa do pai.

Os olhos de Henrique se enchem de lágrimas e um grito ameaçou escapar. Em vão. O tiro varou a sua cabeça, incrustando um pequeno ponto escuro no centro de uma mancha escarlate.

Para o homem de família, eu ofereço a desonra”.

A menina fechou os olhos em um lamento silencioso ainda mirando o pai. Alexandra puxou a arma de sua mão.

Muito bem, querida. Você agiu como combinamos”.

É assim que é se vingar de alguém? Por que eu não me sinto satisfeita, Alê?”. Ela beijava Alexandra e seus lábios passeavam ao longo do rosto, caindo no pescoço. “Vamos acabar com isso! Vamos embora, largar tudo isso aqui e partir para uma vida tranquila? Por favor...”.

Alexandra encostou a arma embaixo do seio esquerdo da jovem. Apertou o gatilho e amparou sua queda com o braço direito em volta do seu quadril.

Odeio mulher que gruda...”, comentou.

Primeiros sinais de claridade surgiram lá fora. Alexandra guardou a arma na calça e cobriu com a barra da camiseta.

O penúltimo manteve os olhos fixos no chão, nem resmungou ou incitou humilhações sem sentido.

Está arrependido, Augusto César?”, perguntou ela.

Eu aceito de bom grado o que for fazer comigo. Se isso aplacar a sua fúria e diminuir os meus pecados, então...”.

Que são muitos”. Ela suspendeu a cabeça de Augusto César com as mãos em suas bochechas murchas. Afastou os cabelos grisalhos da testa, lhes enxugando o suor. “Quantas pessoas tiveram as vidas destruídas na Companhia? Quantas, além de mim...”.

O último cativo olhou para Alexandra e percebeu sua mudança brusca de temperamento. Se perfurar os olhos de alguém, castrar, incendiar a residência ou atirar à queima-roupa não quebraram sua constituição emocional, a ligeira menção do passado dissolveu a costura de sua máscara.

Pai nosso que estás no céu...”, murmurou Augusto César.

O único Deus que você reza é o Deus da gula! O Deus de fome insaciável que sempre quer mais, e mais e mais! Você não roubou apenas o meu projeto... Roubou a minha vida junto!”.

Alexandra puxou da bolsa um gordo pacote enrolado com plástico e preso por fitas. De costas para Augusto César, balançou o pacote e disse:

Há quanto tempo não se droga, diretor?”.

Puxou também um funil de ferro com tamanho médio e um prolongamento fino. Abriu uma brecha no pacote usando a tesoura.

Augusto César forçou o nó que lhe prendia os pulsos na tentativa de escapar, sentindo os braços formigarem pela dormência. Alexandra socou a sua cabeça, que caiu para trás, e enfiou o prolongamento do funil por uma das narinas. Ele se debatia em agonia. Ela penetrou a cavidade nasal com uma força tamanha que quebrou a cartilagem, permitindo ao funil chegar a uma extensão maior que o esperado. Então, ela abriu o pacote, despejando um pó branco e espesso direto nas vias respiratórias.

Esta é sua última ceia, diretor! Para um homem de vícios, eu ofereço o exagero”.

Augusto César tossiu com o próprio sangue atravessando a garganta misturado à cocaína, formando um caldo viscoso cor de vinho. Em seus espasmos, o funil pendia para fora de sua cabeça, e ele se entregou à convulsão. Desfaleceu quieto e mordendo a língua.

Sentindo apenas o silêncio presente no galpão e o ruído de sua respiração, Alexandra correu as mãos pelo rosto e caiu no choro. Arranhava o próprio rosto com as unhas, se estapeava, chutava as cadeiras e abria a boca em gritos inaudíveis. O último dos cativos acompanhou a sua dança de sofrimento e também chorou. Ela se ajoelhou diante o rapaz, que usava uma regata florida e exibia braços tão fortes e rígidos quanto um tronco de árvore.

Alexandra pousou a cabeça no torso do homem, e confessou:

De que adiantou tudo isso, Marquinhos...”.

Me perdoa, Alê! Isso tudo é culpa minha. Eu que me coloquei aqui... Eu te coloquei aqui...”.

Por que me trair, Marcos? Você se prostituiu por tão pouco! Patenteou e cedeu minha fórmula do Corteximax para a Companhia pelo quê, uma cota de ações? Uma oportunidade de crescer? Ambição era mais importante do que ser justo com a sua própria irmã?”.

Marcos deu vazão para os soluços e gestos nervosos, com o rosto queimando de vergonha.

Dediquei minha carreira inteira em busca da cura de pacientes como eu! Anos com uma bomba-relógio no cérebro! E tudo o que o sociopata do meu irmão viu foram cifras...”.

Eu entreguei o seu projeto por medo! Fui fraco... Achava que... Que eles iam passar a gente na carne se não cedesse! Essa Companhia é muito grande, Alê, tem trânsito com o Ministério da Saúde, com o setor internacional...”.

Não, não foi por medo. Nem proteção. Você sempre foi ambicioso... E eu, a cega, a estúpida em não perceber que estava chocando o ‘ovo da serpente’. Foi mais conveniente roubar a irmãzinha retardada e encher o rabo de suborno para dormir com a consciência tranquila. Corromper minha única salvação em uma droga para concurseiros. Faça-me o favor...”.

Alexandra se afastou e empurrou a cadeira de Augusto César, lançando seu corpo morto ao chão. Fez o mesmo com Henrique, Ricardinho, Albérico e Roberto, em baques violentos que tremeram o chão. Retirou da bolsa uma faca de caça de tamanho médio, e também a arma por baixo da camisa e a empunhou para o ar.

Mas agora acabou... Chega de bancar a irmã boazinha”.

Marcos fechou os olhos esperando a sangria de Alexandra entre palavras de ordem e a sua aproximação. No entanto, quando abrira, notou a corda que prendia as mãos se romper – ela o soltara usando a faca. Depois, recebeu de suas mãos a arma.

Parada em frente a Marcos com a rendição expressa nos braços suspensos e no rosto sereno, empunhando somente a faca na mão direita, Alexandra disse:

Esse é meu último teste... Quero provar um ponto antes de terminar por aqui”.

Diga...”.

O dever de um pesquisador é estar a par de todas as variáveis ao defender uma hipótese. Quando o incluí neste experimento, meu irmão, eu tinha duas variáveis muito claras... A primeira era você aceitar uma chance de rendição sob uma forte pena. Isso provaria seu arrependimento e o voto de confiança de que não me vingarei”.

E a outra hipótese?”.

Você tentar me matar e ter uma chance de escapar, já que não confiaria em minha rendição. Só que também me daria chance de defesa. Faça sua escolha e prove que estou errada... Para o homem traidor, eu ofereço a dúvida”.

Os irmãos polarizaram olhares no tempo suficiente para as mãos escolherem a melhor das hipóteses. O dia amanhecia longe dali de forma calma e inocente. Dentro do galpão, entretanto, podia se ouvir um tiro e o brandir de uma lâmina cortando carne.

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