Cova Funda

maio 20, 2018 , , , , 0 Comments


Eu digo para o pai está tudo bem. Digo que sim, depois digo que não, em seguida repito que sim, e que está tudo bem. Como em toda ligação, ele não acredita.

“Você não está metido com amizade errada, não é, André?”

Sinto minha garganta secar e fechar, o ar passando por um tubo estreito. Respondo:

“Não, pai.”

O eufemismo em “amizade errada” só se aplicava a tudo que poderia levar uma dura da polícia pelo simples fato de existir.

Vou tossindo por todo o caminho até o canteiro central com o pai em meus ouvidos. Mesmo com o sol rachando, uma fina linha fria cresce da testa para baixo. A equação geral dos seus assuntos caíam na mesma ordem: cumprimento, questionamento, acusação, dúvida, parábola bíblica, despedida. Eu preferia ser acusado por mais tempo do que saber o que Abnoã fez no vilarejo de Canaã – ou qualquer outro nome engraçado e brega. O coração e o pulmão se afrouxam quando ele se despede, e volto a respirar.

O filho único vir trabalhar na capital não estava nos planos do pai – se dependesse dele, eu passaria o resto da vida em seu regime militar, atrás de um balcão de repartição e casado com a filha do prefeito. E o que está nos meus planos é tanto manter distância de suas neuroses quanto ele não ter a mais remota ideia de que não me atraio por mulheres.

“Fala, babalu”. É o que comenta um dos rapazes da manutenção ao me ver entrando na área selada com a fita vermelha. Babalu é a forma mais sutil como me chamam na firma.

Sair do interior como André Galhardo e me transformar em “Babalu” não estava em meus planos. E tenho certeza que nem nos planos do pai.

Passo pelo operário escondendo as mãos no bolso da jaqueta, coluna erguida e o olhar fixo à minha frente, me armo com os equipamentos de proteção. O cronograma está atrasado e só temos esta tarde para pôr a baixo dez andares de concreto puro. Confiro os explosivos nas colunas de sustentação nos dois andares iniciais – o passo inicial que vai garantir o restante da implosão. A rede de contenção cobrindo a fachada do prédio e o material antiperfurante nas colunas estão impecáveis. Dinamites em ordem e na posição que garantam a explosão nos andares inferiores e na parte central. Tudo em ordem.

Só o detonador A3 que apresenta com mau funcionamento. Logo o primeiro no fosso do elevador. Bato com raiva na testa pelos brutos da demolição que deixaram isso passar. Idiotas! Homens são animais biologicamente programados para causar destruição sob o menor esforço. Puxo o rádio preso à calça e repasso à central para suspender a implosão até a segunda ordem.

“Engenheiro André, qual a solicitação?”

“Suspenda a operação. A3 comprometido. Solicito equipe técnica.”

“... Esse é seu parecer final? A firma tem até às cinco para implodir o prédio.”

“Escute...”, é tudo o que consigo responder.

Um chiado de isqueiro seguido por uma explosão contínua de bombas de São João surgem atrás de mim, vez após vez, bem no fosso do elevador. O detonador A3 acionou trezentos gramas de explosivo ligados a um emaranhado de fios saídos do cabo principal. Para a alegria da firma, o prédio ruiria antes das cinco da tarde. O incoveniente seria o corpo do seu funcionário no meio de toneladas de concreto.

As cargas são acionadas de baixo para cima e do meio para fora com diferenças de milésimos de segundo. Boom! Boom! É o mundo caindo aos pedaços na sua cabeça feita de carne, não de titânio. Se a espoleta queimasse no detonador principal, nem se eu fosse feito de titânio. Grandes pedaços do teto do térreo caem e uma nuvem espessa de poeira flutua, as colunas centrais encontram o chão e tudo o que tenho é uma ideia insana. O fosso do elevador é um grande pilar que segura parte do prédio, por isso é o que precisa de maior quantidade de explosivo. Mas o efeito dominó da sua explosão precoce me traria uma vantagem.

Eu me lanço para a direita fugindo de uma coluna e salto até os destroços do fosso do elevador, entulhado de concreto, focos de incêndio e vigas de ferro. O resto do mundo cai junto comigo para a escuridão e o desconhecido. Só entendo que o buraco tem fundo quando a lateral do meu corpo encontra o chão. Ouço o craquelê de ossos quebrandos. Sinto uma teia de dor cobrindo meu calcanhar e gosto de sangue na língua. O que tinha de luz foi coberto pelos andares superiores, afundando as camadas de parede e reboco acima de mim. É um jogo de tetris com peças cubistas – o prêmio principal é a sobrevivência.

A cabeça pesa e não consigo focalizar onde acabei parando. Toco minha perna esquerda e alcanço pontas afiadas saindo da carne como se fossem os destroços furando minha pele. Com bom esforço me dou conta de que são meus próprios ossos atravessando a pele do pé e do joelho. Um jogo de tetris com ossos humanos.

“Calma, André... Calma”, sussurro. Respiro aos pouquinhos para não perder todo o ar. Também não grito – o procedimento é que a Defesa Civil se prontifique a retirar os destroços em uma hora. A temperatura aumenta, a pele reage ao pó do cimento que escorre no meu rosto, formando um caldo viscoso e quente que cobre os olhos. Arde. Balanço o rosto e o encanamento vazado arranha minha bochecha lascando a pele. O grito é obrigatório. O metal afunda na carne e meus músculos cedem à dor, por ali eu estaciono para evitar encontrar outra desgraça. O ar é pouco, a garganta ameaça fechar e busco bolhas de oxigênio onde não existem.

O rádio se perdeu pelas camadas da implosão. O celular ficou no bolso de trás da calça, nem me arrisco a me mover para buscá-lo. Uma hora. Em uma hora meus colegas horríveis vão notar o meu sumiço, chamar a equipe de resgate e me desenterrar daquele túmulo. Quando era guri, respondi para a coordenadora pedagógica que tinha medo de ser esquecido pelas pessoas. Ela chamou meu pai, perguntou se eu sofria o complexo do abandono. Levei uma surra inesquecível. Desde então, troquei minha prioridade de medos – era ele. Ele, e as pessoas que agem como ele.

Eu choro quieto na escuridão. Só chorava assim quando não podia sair com os meninos na época do Ensino Médio, ou quando ouvia escondido os lançamentos atrasados da Jovem Pan, porque “essas músicas não são de homem”. Eu já era enterrado desde a adolescência. Aqui no fundo da Terra, me encontro tão frágil, feito de materiais frágeis, rachaduras e dores. Sufocado.

Enterro o pedaço do encanamento fundo na bochecha para acordar, a dor relembra que estou consciente. Os minutos passam e descarrego a pouca energia que ainda resta. Acabo ferindo a bochecha e o rastro de sangue desce para a minha boca. O gosto ferroso me relembra que estou consciente. Pisco. Caio no sono. Se afundar no rosto, o metal pode atravessar meu rosto e vou apagar de vez. Então, a luz aparece no fim do túnel.

“Capitão, encontramos uma vítima!”

A equipe de resgate retira pedra por pedra e um caminho se forma para o mundo dos homens. Desmaio. Quando me dou um lampejo de consciência, percebo meu corpo atado a uma maca sob a luz da lua e erguido pelo equipamento dos bombeiros. Salvamento à reboque.

“Que susto você deu na gente, Babalu...”, avisa um dos operários. Ergo o dedo do meio antes do mundo escurecer.

Um bipe irritante me acorda de um longo sono. Passo a língua na bochecha e sinto toda a linha da costura que pôs o talho do meu rosto no lugar. A perna lateja onde antes havia buracos e hoje é coberto por ferros, gazes e costuras. O cheiro de éter entrega o lugar onde estou, mas não a companhia ao lado da cama.

“Filho? Você acordou?”

O pai não poupa tempo e descarrega seus conceitos sobre minha estadia na capital, minha profissão. Diz que quer me levar de voltar, que tem um lugar confortável atrás de um balcão para mim em um lugar onde as mulheres voltam para casa antes das sete.

As imagens e sensações da implosão retornam para minha cabeça. Quando cresci, ergui uma construção sobre mim para não morrer, e continuo tão sufocado quando não sabia o que – ou quem – era. Eu não quase morri para continuar sufocado. O que corre em mim não é mais sangue, é diamante. Eu sou indestrutível.

“Pai...”, sussurro. “Eu tenho que te contar uma coisa.”

Leandro Leal

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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