Assim que bati os olhos em Aleph tive a pura e a inevitável certeza de que ele era um assassino. Em verdade, primeiro notei suas...

Oferta e Demanda




Assim que bati os olhos em Aleph tive a pura e a inevitável certeza de que ele era um assassino.

Em verdade, primeiro notei suas pinturas, depois, seu jeito. Artes grotescas reproduzidas em telas de tamanho médio e emolduradas em carvalho. Pessoas em poses e formas que me fizeram desviar o olhar – mulheres com cavidades abertas, homens empapados de vermelho vivo a escapar da garganta. Em um dos quadros, quis ter a certeza se a figura eviscerada era de uma criança ou de um anão.

Questionado por mim nas duas visitas anteriores a sua galeria, o artista apenas se limitou ao “uma questão de demanda”.

“Tem quem procure por… isso?”, perguntei já um pouco mais inclinado a analisar sua obra.

Aleph somente ergueu os ombros em uma displicência, e me entregou o seu cartão. Aleph van Haas, artista visual e corpóreo, seguido do seu celular, e-mail e portfólio no Behance. Apertamos as mãos e voltei para minha casa com a sensação de ter cumprimentado o demônio.

Por longas madrugadas as pinturas de Aleph corroeram o meu juízo. Eu via as mocinhas degoladas nos vitrais do banheiro ou no reflexo do computador. Isso sem contar os sonhos. Baques espantosos durante a noite que me faziam acordar, ir até a cozinha e tomar uma água ou lavar o rosto no banheiro. O gosto por sangue de Aleph não poderia ser produto de uma mente artística em ebulição. Era real demais, primoroso demais para um mero estudo anatômico de jorros e mutilações. Fora a questão da demanda. Mais demente que o artista, apenas quem financiava esse tipo de ilustração.

O estúdio de Aleph ficava na saída do VLT, em direção ao Centro, descoberto por mim enquanto esperava a próxima conexão. Um pé-direito alto, bonito, com a fachada branca asséptica feito o seu dono – um magro exíguo de dedos largos como um alienígena e coloração desquarada com cabelos castanhos colados na testa. Passei a primeira vez por tédio, na segunda por incitação. Na terceira, fui disposto a prestar uma queixa formal sobre o trabalho do artista.

Só voltei atrás quando notei o quadro. Ilustração ainda no cavalete, disposta no canto da galeria de uma forma mal-arranjada, mas posicionada para receber as atenções dos passantes. Lá, uma mulher deitada em um gramado com as mãos agarrava um punhal que atravessara seu esôfago, tinha os cantos dos lábios cortados, formando um sorriso cavernoso que ia de uma ponta a outra – a boca ensanguentada cobria a maior parte das gengivas sem dentição. O título etiquetado na madeira: “Sorria”.

Meu senso de moral me impedia de apreciar aquilo, mas o senso estético apitava como um alarme de furacão, ofuscando qualquer ideia. As cores eram vivas e o cenário rebuscado por um tipo de coloração tão forte quanto filtros de cinema.

Tão diabólico quanto belo.

Eu não podia denunciar Aleph por sua conduta sem antes descobrir a origem daquele quadro. Já não tinha tanta certeza da acusação contra o artista – nenhuma mente humana poderia tirar aquilo do mundo das ideias e reproduzir no mundo real. Voltei para a casa no mesmo instante e pesquisei as referências do quadro. “Mulher morta sem dentes”, “jovem esfaqueada na grama”, tentei todas as combinações possíveis. Só dei sorte na décima aba do Google em diante. Um vídeo em um blog de notícias do interior. Jovem estudante de medicina morta por um punhal e com a boca mutilada, despejada na pracinha. Toda a plasticidade daquele quadro se desfez em um nojo profundo, só diminuído quando um refluxo quente me subiu à garganta.

Já tarde da noite, reuni os pedaços de pesquisa sobre essa morte. Três suspeitos foram apreendidos, mas liberados por falta de provas; a menina não tinha relacionamentos, morava com a mãe e voltara do trabalho para a casa; sem sinais de violência sexual, apenas a extração completa dos dentes e o rasgão nas bochechas.

Com os olhos ardendo, fui para a cozinha e preparei um café bem forte para espantar o sangue nos quadros de Aleph van Haas. Então, fui assombrado por uma ideia. Ignorei a cafeteira borbulhando e o cheiro ocre de grãos invadindo meu apartamento, e forcei a memória, um a um dos quadros da galeria. Mulheres sangrando, homens sangrando, crianças – ou anões – sangrando. O chão imundo de poças pretas e o clarão lá fora anunciaram o fim da minha pesquisa. De oito quadros descritos na pesquisa, quatro eram crimes bárbaros registrados pela imprensa.

Tomei um comprimido colorido, um café e ignorei o horário na repartição. Peguei o VLT até a linha final e saltei na galeria no sentido do Centro.

“Não costumo abrir tão cedo”, me cumprimentou Aleph van Haas com seus dedos gelatinosos.

Meu olhar dançante não escondia a ansiedade de encontrar o quadro dos meus pesadelos.

“Onde está aquela ilustração da moça ‘sorrindo’?”, perguntei.

“Ah… Já foi entregue ao dono. Estava reservada para um cliente muito especial”.

Caminhei pelo salão em busca de um gancho para iniciar meu texto batido.

“E esse quadro, quanto está?”, apontei para o penúltimo quadro à direita da mesa de Aleph ao fim da galeria. Um homem espancado com fraturas expostas nos braços, quadris e pernas.

Ele juntou as mãos nas costas e parecia flutuar para chegar a mim.

“O que mudou da tua primeira visita em diante? Não parecias muito interessado quando nos conhecemos...”

“… você me reconhece?”.

“Reconheço o bastante para saber que criaste uma obsessão sobre meu trabalho”

O alarme de sobrevivência sobrepôs o meu senso estético. Minhas pernas foram tomadas por um medo tão profundo que esqueci de meu personagem – queria correr para longe da presença obscura de Aleph van Haas, das suas mãos viscosas, seu forte sotaque do Sul e suas pinturas amorais.

Acenei de forma educada e saí da galeria trocando os pés e o ar esmagando os pulmões, rarefeito. Decidi esquecer artista e obra, e voltei à vida normal. Em semanas, as mortes sumiram da minha cabeça e já não eram mais do que uma imagem ruim que o cérebro descartara.

Foi então que soube da última morte.

Motorista de táxi assaltado e morto com três tiros na cabeça pelo passageiro no banco traseiro – o repuxo de sangue manchou o vidro da frente com bolhas vermelhas enormes e gordurosas. A foto no jornal bastou para que minha mente complementasse a ação. Forte o suficiente para ser reproduzida em tela.

O dragão da curiosidade voltou a me morder. Nem café, nem água no rosto, a imagem da morte do taxista era deliciosa demais para que Aleph van Haas não pintasse sobre. Eu estava disposto a arriscar tudo para saber se ele apenas pintaria, ou se teve maior participação que isso.

Lembrei do perfil no Behance. Construí em pouco tempo um perfil fake, um marchand interessado nos seus trabalhos e no apreço por violência. Trocamos breves palavras e lhe pedi uma amostra da pintura recente para fins de apreciação. Levei a mão na boca quando carregou a foto de um rascunho de um painel de carro – pela visão no banco traseiro – sujo com esguichos de sangue. O material já estava indo para a arte-final, um tempo cronometrado da morte do taxista até a reprodução em tela, impossível não saber disso antes dos jornais. A não ser que soubesse antes de todo mundo. Que estivesse no local do crime. Que estivesse enquanto o crime ocorresse.

Aleph van Haas não apenas ilustra. Ele também engendra o objeto de reprodução. Ele mata, pinta e vende.

Marcamos um encontro – entre o marchand entusiasmado e o artista visual e corpóreo. Não tinha a menor ideia de como me reapresentar a ele. Eu precisava colocá-lo contra a parede. Não que essa conta fosse minha, mas eu, e apenas eu, tinha posse dessa informação. Erro bruto de investir contra ele sem um plano prévio. Tinha apenas uma identidade falsa e o seu interesse capturado. Poderia forçá-lo a mostrar outras obras mortais.

“O que acha de conhecer o meu processo de trabalho?”, perguntou ele. Aceitei, e recebi de volta: “Venha à última plataforma antes do Centro. Tenho uns amigos interessados em seu investimento”.

Na hora e local decididos, fui ao lado oposto esperando aquele carniceiro aparecer com sua trupe. O movimento de pessoas entrando e saindo de seus destinos ora tirava minha concentração, ora ajudava a distribuir a tensão de me encontrar com um assassino. Meus olhos procuravam um sujeito esguio pela plataforma. Meia-hora depois, suspirei ao acreditar que Aleph desistira, e o destino tinha me poupado de uma desgraça.

Um minuto depois, eu vi que o destino era filho da puta.

Senti uma dor aguda na base da coluna, em seguida, filetes de dor se espalhando pelas costas até atingir os músculos, feito um relâmpago que atravessa os céus e, assim como não sabemos como chega, ele desaparece. Fui desmaiando até encontrar o chão, com as pernas moles, os braços sem força e a cabeça pensa para o lado. Os ouvidos também foram dormindo, perdendo a audição por entre as vozes e gritos nervosos. Um par de braços musculosos me ergueu e pude ouvir palavras de ordem para se afastarem de mim. No começo da escadaria, Aleph seguiu o homem que me resgatou e subiu com ele até a próxima parada. Eu desisti de lutar antes mesmo do mundo cair na escuridão.

Só revi as luzes quando também notei meu corpo amarrado a uma poltrona reclinável. Em minha frente, Aleph van Haas – vestido com avental, usava máscara cirúrgica, mais os cabelos atados em um coque. Estávamos em um ateliê com paredes de proteção sonora, um cavalete, caixas com equipamentos de pintura e uma maleta de ferramentas mecânicas.

Aleph já sorria antes mesmo de tirar a máscara.

“Na vida, ou tu és oferta ou tu és demanda.”

A língua ainda morria dentro da boca, mas com coragem infantil o suficiente para discutir com meu captor.

“Você arrancou os dentes daquela mulher! Você matou o taxista ontem à noite!”

“Houve uma alta oferta por dentes naquela época”, refletiu ele. “Lembro-me daquela garrota ter coroas tão lindas… Tão lindas...”

Aleph repôs a máscara e retirou pincéis de cerdas grossas da caixa e um alicate de pressão grande. Firmando meu pé com uma de suas mãos, ele agarrou meus dedos com o alicate. Esmagou um por um enquanto meu corpo se desdobrava em dores. Com uma placa de acrílico, apanhou os dedos que caíam dos tocos sangrentos dos ossos, e separou três deles. Os outros dois foram depositados em um saco transparente com vedação.

“Dedinhos têm muita oferta atualmente.”

Aleph apanhou os três dedos e os banhou com meu próprio sangue. Depois, pincelou a mancha vermelha na tela branca. Para cima e para baixo, usando meus dedos esmagados até o talo. Eu sentia meu pé atormentado por longas fisgadas. Para cima e para baixo.

“Sabes como potencializei a cor no quadro da garrota desdentada?”, Aleph puxou a máscara do rosto, mostrando um sorriso esticado, teatral, tão falso e cômico quanto aquela cena. Para cima e para baixo. “Arranquei os dentes ainda quentes e triturei em sal de prata. Eles têm propriedades quase mágicas...”

Oferta e demanda.

“Quem são… os seus clientes?”

“Estão em todos os lugares. Em qualquer lugar. É provável que já encontraste a minha obra em consultórios médicos, galerias alternativas, faculdades...”, Aleph  retirou uma tesoura de ponta redonda e chegou perto da minha cabeça. “Esse quadro é para o gabinete de um senador da República”. Cortou tufos do meu cabelo e os espalhou pela umidade sanguínea do painel.

“Me mate… Me mate...”

“Não. Preciso da tua matéria-prima. Teu corpo renderá uma ótima fazenda de utensílios. Depois da arte, eles sentem fome.”

Os dedos separados no saco transparente. Fome, ele disse?

“E depois… da fome?”

Aleph forçou uma gargalhada ruidosa.

“Espero que gostes de sexo anal.”

A risada do artista corpóreo com seu deboche era desproporcional aos meus punhos fechados, quase furando a palma das mãos.

“Sabe o modelo eviscerado que vistes na primeira visita?”, ele pausou aguardando uma resposta. “Não era de um anão...”.

“Seu… filho da...”.

“Preciso de mais tinta”. Com um gesto rápido, passou a lâmina da tesoura em minha garganta.

0 comentários: