Atravessei a rua com Samuel logo atrás, enquanto ouvi a moça discutindo com seu namorado – ou marido, ou amante ou qualquer outro re...

Queime a bruxa




Atravessei a rua com Samuel logo atrás, enquanto ouvi a moça discutindo com seu namorado – ou marido, ou amante ou qualquer outro relacionamento. Pela forma como gritava com ela, parecia seu dono. Agarrava em seu pulso e dizia para ela não sair de casa ou “ia se arrepender”. Não tive nenhuma reação. Notei a forma como Samuel puxou a barra da camisa e mostrou sua Taurus pendurada no coldre na direção do casal, pondo uma ordem silenciosa na situação.

Esse pessoal é fogo, né, Aquiles?”, o que é Samuel me diz quando entramos no prédio.

Com a pasta na mão, Samuel revisita as últimas fotos. Dois corpos carbonizados até o último pedaço de gordura, amarrados com os braços em uma estaca de madeira. Demoraram semanas até a perícia técnica identificar as vítimas – duas mulheres. Duas mulheres mortas da mesma forma. Era difícil ir dormir com a ideia de que um mesmo crime aconteceu em um curto espaço de tempo.

Subimos ao segundo andar e Guilherme nos recebe. Pálido, movido por cordas invisíveis, ele nos recebe. Seus olhos são duas granadas que pouco fazem menção à nossa presença. Eu me apresento e inicio as formalidades.

O apartamento é simples e há resquícios da falecida por todo canto. Lugar propício de jovens felizes que casaram há pouco – infelicidade típica de quem teve a noiva queimada até o talo. Georgiana Reis foi a segunda vítima, desapareceu no início do mês e só ligamos o nome à segunda carbonizada pelo exame da arcada dentária.

Guilherme entende o proceder e relata para Samuel o passado da noiva, enquanto ele toma notas. Passeio pelo local em busca daquela aresta mal aparada, a ponta solta que puxamos e nos revela todo um tecido por baixo dos segredos. Guilherme emprega os verbos no presente. Para ele, a noiva nunca morreu. Não reajo a isso.

Ela é um anjo… Trabalhadora, um coração maior que o peito… É até voluntária na igreja, incapaz de uma maldade”, comenta o noivo.

Saímos do apartamento tão perdidos quanto entramos. Sem relações importantes, inimigos ou conexões com a primeira vítima. Muriel Sampaio foi o início de tudo – psicóloga, divorciada, encontrada por um flanelinha em um estacionamento abandonado no Centro. Mesmo fim angustiante de Georgiana.

Não temos quase nada”, Samuel bate com força no painel da Saveiro, resgatando minha atenção ao trânsito. No ponto de ônibus, um idoso fita de cima a baixo uma colegial ainda sem peitos. Eu não reajo.

Mulheres...”, sussurro. “Sempre elas. É preciso surgir uma terceira pro secretário de segurança arregaçar as mangas, cacete?”

Eu me pergunto como ele captura as vítimas… Ele tem a confiança delas. Pode ser um taxista, alguém que possa estar em qualquer lugar e agir sem desconfiança.”

Muriel tinha carro… E Georgiana, a carona do noivo”, respondo firmando minha mão no volante.

Samuel bate em meu ombro.

Calma, Aquiles. Você é um exemplo pra mim. Não é à toa que eu te devo a minha vida.”

Dois anos de parceria e meu parceiro sempre encontra as formas menos sutis de demonstrar sua admiração. Minha relação com ele, na verdade, começou há vinte anos, quando Samuel não se chamava Samuel, vivia com os pais adotivos em um rancho no fim do mundo. Nas fotos do juizado de menores parecia um conto de fadas. Assim que arrombei a porta, uma parte de mim perdeu a fé na humanidade.

Meu pai fazia… ‘coisas’ comigo, Aquiles. Não tinha nome para essas ‘coisas’. Se você não tivesse a mesma coragem de hoje, coragem de atirar no meu pai e proteger minha mãe, eu não estaria aqui...”.

Eu dou um sorriso amarelo e o devolvo batendo em seu ombro. Antes que ele continue o resto da história – que foi tutelado ao padastro até completar a maioridade, e depois seguiu a carreira na polícia por influência minha –, eu paro em frente a Homicídios e interrompo o monólogo.

Dois oficiais estão na recepção entre risos escandalosos e gestos obscenos enquanto assistem um vídeo no celular. Lembra mais uma mesa de bar que uma divisão da Polícia Civil. Deduzo o motivo da diversão pela intensidade dos gemidos que saíam do alto-falante.

Mulher besta confiou no namorado… Mulher tem cada uma, né, Aquiles?”, me diz um dos colegas. Respondo sem reação com um aceno de cabeça.

Samuel me pergunta se quero almoçar, respondo um “sim” frouxo, já que meu estômago não aguenta nada sólido. Releio a transcrição dos depoimentos do noivo de Georgiana e dos pais de Muriel, como linha por linha para encontrar a minha ponta solta.

Eu grito por Samuel. Ele volta com uma marmita nas mãos, e eu descubro o tecido escondido. Mostro para ele um quadro branco com anotações em todos os cantos, um organograma que inicia no topo com os nomes de Muriel e Georgiana e finalizam com um ponto de interrogação na base. Entre elas, a palavra “grupo de apoio” destacada de outra cor.

O noivo de Georgiana disse que ela era voluntária em um grupo de apoio…”, explico. “Muriel era psicóloga. Liguei para todos os grupos da região entre elas, e confirmei com suas famílias. Grupo ‘Segunda Chance’, Samuca! Achei a conexão.”

Samuel não se contém e bate na mesa, pondo para fora todo um léxico de palavras chulas que desconhecia. Quase sorrio.

O Segunda Chance fica em um edifício alugado depois do aeroporto, um lugar discreto em meio ao entra-e-sai de veículos e transeuntes. Chegamos e ainda está trancado, batemos no portão de ferro da entrada e não ouvimos uma resposta. Há uma escadaria que dá acesso a uma porta de vidro mais a frente.

Acho que eles só abrem à noite...”. Samuel limpa a testa banhada de suor e fala com dificuldade. “Fica tranquilo, parceiro. Nós vamos conseguir.”

Meu telefone toca, eu afasto as mãos amistosas de Samuel. Com o celular em riste, vejo uma sequência de números indecifráveis para mim na tela. Atendo.

Olá, detetive… Muito me alegra em te ver na direção certa. Uma pena que esteja olhando pelo lado errado da sua lupa. Queime a bruxa, detetive… Queime a bruxa!”

A palavra morre no caminho da garganta. Samuel se esforça para me tirar do transe, mas meus ouvidos se fecham a uma única frase. Queime a bruxa. Queime a bruxa. Tentando olhar pelo tal lado certo da minha lupa, forço a visão pelo gradeado de ferro e enxergo pela porta posterior as nuances de uma saleta.

Uma imagem translúcida se foca, e eu grito em desespero:

Tem uma mulher lá em cima!”

Bem atrás da segunda porta está uma mulher com as mãos amarradas nas costas a um pilar de madeira, usando mordaça e venda nos olhos. Parece estar desmaiada – ou rendida demais para implorar ajuda.

Samuel se afasta para pedir reforços, enquanto reúno os últimos vestígios de ação no cérebro para resgatar a estranha. Saco minha Taurus e arrombo o grosso cadeado que protege a entrada, e com um chute arrombo o portão. Salto os degraus de um a um para chegar à recepção. Sinto meu pé engatar em um obstáculo invisível, que apenas meus sapatos percebem – um grosso fio de náilon preso às duas paredes do corredor. Tropeço e antes de cair do chão ouço um clique brutal. É a última coisa que eu lembro antes do edifício se encher em uma bola de fogo.

Sou arremessado para trás, rolo a escada e me encontro com a calçada. Samuel se abaixa para escapar dos pedaços de piso e tijolo que voam pela rua, encharcados de sangue. Ele me protege das labaredas e me apoia até o outro lado do passeio público.

É… uma armadilha”, reajo quando sinto meu próprio sangue quente escorrer por uma brecha aberta na têmpora. Desmaio.

Minha recuperação foi lenta. A imprensa alcançou orgasmos múltiplos com a explosão de um prédio comercial ligado ao terceiro crime do assassino de mulheres. Como esperado, o secretário de segurança arregaçou as mangas. A terceira vítima era Natália Roma, mediadora do grupo de apoio. As meninas, as jovens, as mulheres, as idosas – todas não saem de casa.

Apenas Samuel me visita – só nos hospitais é quando nos damos conta de que não temos mais ninguém.

Eu vou me retirar do caso”, aviso ao meu parceiro assim que recebo alta. “Eu agi por impulso… Certeza que ela estava viva antes da explosão.” Esmurro o curativo na altura da minha cabeça seguidas vezes, reprimido pela proteção de Samuel. Uma poça vermelha se forma entre o curativo e minha pele costurada. Pela primeira vez em anos eu choro, e o que dói mais é meu orgulho do que o corpo. Ambos, corpo e orgulho, não são nada.

Confesso para Samuel que o assassino me ligou minutos antes de pôr um edifício abaixo.

Ele me conhece… Mas eu não posso fazer o jogo dele. Nem quero.”

Samuel é que me ajuda a redigir um documento de punho próprio. Ele sempre foi bom com as palavras. Peço uma licença por tempo indeterminado e deixo o meu parceiro em meu lugar, se a secretaria quiser me afastar, tanto melhor. Na saída, aviso que se Samuel chorar dou um tiro em sua boca.

Minha última ação como detetive da Homicídios foi ir ao banheiro. De costas para mim no mictório, um oficial discute com a ex-esposa pelo celular por conta da pensão atrasada – afirma que vai vazar suas fotos íntimas no grupo da família. Meus músculos queimam e eu agarro a sua nuca e esmago a sua testa contra o piso branco.

Escute aqui, companheiro. Isso não vai ser nem perto do que vou fazer se ameaçar sua ex-mulher novamente. Ou se atrasar a pensão das crianças. Por precaução, eu fico com isto”, e tomo o celular de suas mãos.

A sensação de reagir é esplêndida.

Eu conto os meses como se fossem horas, e logo o “Inquisidor”, o cheiro de carne feminina tostada e as pontas soltas são lembranças de um passado intenso. Até o contato com Samuel tem diminuído a cada Natal e aniversário. Foi em um corredor de shopping que reencontrei meu ex-parceiro. Ostentava uma barba, vestia roupas maiores que seu corpo, não tinha mais a penugem de um aspirante. Pegou minhas mãos com vigor e me convidou para tomar um café.

Sabe, Aquiles… Tem uma coisa que eu sempre quis te perguntar esses anos todos.”

Fique à vontade”, respondi limpando uma linha de cappuccino do bigode.

Samuel pôs os cotovelos na mesa e apoiou o queixo entre os punhos cerrados, me encarando.

Você continua vendo pelo lado errado da lupa, detetive?”

O copo escorrega pelos meus dedos e o líquido quente transborda pela mesa. Meu cérebro completa a frase que eu preferia esquecer:

“’Queime a bruxa’…. ‘Queime a bruxa’...”

Samuel sorri como nunca testemunhei antes, vejo a camada de suas pálpebras vibrarem.

Você sempre enxergou pelo lado errado. Sempre! Um animal covarde que nunca tomou uma atitude certa na vida.”

Eu… salvei sua vida!”

Você desgraçou minha vida, imbecil! Matou o meu pai e me deixou sozinho com minha mãe… Uma vaca inútil que nunca levantou a voz para o meu pai. Deixava fazer o que quisesse comigo… Ela foi a primeira bruxa, depois vieram as outras. Vacas inúteis que só ocupam lugar no espaço.”

Samuel discorre uma a uma de suas mortes, descreve com perfeição mnemônica todo o sofrimento, toda a dor em cada grito de agonia das mulheres carbonizadas. Bem como maquinou todo o plano, de como gravou previamente a ligação para forjar um álibi ao estar comigo, como conheceu as mulheres, como se infiltrou no grupo de apoio.

Eu juro como me escrevi naquele grupo de apoio para me recuperar… Isso não deixa de ser um vício! Mas quando vi aquelas mulheres… Peças de carne empaladas. Minha mente ficou em chamas.”

E recomeçou a matar...”, completei.

Continuar na Homicídios foi oferecer um balcão cheio de carne para um açougueiro. É difícil abandonar certos vícios.”

Filho da puta! Por que esse jogo comigo?”

Samuel abaixa a cabeça e o canto dos seus lábios tremem.

Você me lembra… ele. O único homem que eu amei. E odiei. Eu também te amo e te odeio da mesma forma, Aquiles.”

Sinto minha cicatriz latejar na têmpora. Passo a mão pelo peito, inquieto, parece que vai explodir de pânico. O copo pende em minhas mãos e o equilibro de volta à mesa, com um restante de café ainda fumegante no plástico.

Não é hora para desmaiar, detetive. Há uma disputa pela frente! Nesse momento, uma bruxa está escondida em um local que só eu tenho conhecimento”. Ouço um gatilho por baixo da mesa. “Estou segurando uma pistola com munição explosiva próxima a seus genitais… Você tem a opção de salvar uma vadia que não conhece e arriscar a sua vida, ou me deixar ir embora, mas com o peso na consciência por libertar um assassino.”

Há um certo tempo, eu me ouso dizer que deixaria o assassino ir embora para poupar minha insignificante vida. E me envergonho disso – não adianta se permitir viver carregando tanta mediocridade assim. Samuel é um assassino meticuloso, confesso. Reúne todas as qualidades para ser um maníaco em potencial. Mas ele me subestima, está fixo em um Aquiles que não existe mais. Um Aquiles que não arriscava. Um Aquiles que não reage. E o Aquiles que segura o copo de café quente reage.

Eu prefiro queimar”, comento.

Eu lanço o copo para frente e o resto de café acerta a bochecha e parte do pescoço de Samuel. A arma brande para um lado, enquanto jogo meu quadril para o oposto, evitando a pressão involuntária do seu dedo no gatilho. Empurro com a palma das mãos a mesa por cima de Samuel, que tomba para trás. Desnorteado e com a pele do rosto em carne viva, ele me vê montado em seu corpo, acertando seu crânio com a última força presente em mim.

Queima! Queima!”, grito. De repente, ouço um clique e meus punhos encontram uma massa sem forma, imunda de sangue e pedaços de osso. Os seguranças do shopping entram na cafeteria e puxam suas armas, ordenando que eu me entregue. Peço para telefonarem para a Homicídios. O resto é história.

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