Prompts 2018 #1

junho 25, 2018 0 Comments


Há tempos que Miguel não pragueja dessa forma. Todos os dias suas maldições se resumem ao fato de xingar o despertador, tomar um banho rápido, engolir um café ralo, vestir uma roupa puída e pegar o primeiro ônibus que desça no trabalho.

Mas hoje ele despertou de um sonho bom. Um sonho daqueles onde é moralmente ofensivo acordar – tinha uma bela mulher, uma imensa casa, um séquito de bajuladores, a estabilidade impressa em como dava ordens. Talvez alguns cabelos brancos fora do permitido e os dentes brancos demais. Sabia apenas que acordar hoje confirmava a desgraça da sua sobrevida suburbana.

Abriu um dos olhos e esperou o campo de visão alinhar as formas e contornos do seu quarto. A cama parecia maior e as roupas de cama, macias. As paredes tinham um tom azulado onde deveriam ser de bege mucoso. O quarto também não parecia o mesmo da última recordação. E a falta de reconhecimento se aplica ao pijama. Em seguida, ao corpo. 

Isso não era Miguel. Não naquele cômodo, nem vestindo roupa de dormir no calor nordestino, ou mesmo com o corpo maior, mais alvo e envelhecido. E os dentes? Ah, os dentes… Tratados com clareamento, alinhados de forma militar – um ao lado do outro –, como se nunca estiveram em atrito com uma chupeta.

Saltou da cama espalhando os lençóis pelo chão de madeira. Em vez da vista concretada da favela, um imenso avarandado banhado pelo sol, mirando um jardim colorido das revistas de arquitetura. Tocando o corpo que não reconhecia, viu uma barriguinha pendendo para baixo, pelos brancos no peito e um pênis flácido entre as coxas bambas. Demorou para reunir a coragem de encarar o espelho e pôr fim a análise. Enquadrou o rosto na superfície refletora. Sufocou um grito com as mãos.

“Bom dia, querido.”

Uma mulher entrou no quarto e pegou suas bochechas – no mesmo rosto que custou a entender que agora era seu. Deu um beijo em sua testa. Era tão linda quanto nunca vira antes. Beleza europeia no rosto e no corpo, na forma como anda e sacoleja os quadris e se senta na cama. Ela resume um sorriso tímido.

“Acho melhor você se vestir, querido… O Jônatas não ganha para ver o presidente nu.”

Não que o rosto no espelho contestasse a afirmação, mas Miguel só caiu em si quando a mulher disse a palavra. Presidente. Miguel – a forma como acordou – era o presidente da nação. Ele abriu o closet e retirou qualquer terno que sua alcançasse. Vestiu com pressa e saiu do quarto.

“Senhor presidente...”, cumprimentou o assessor. 

Miguel olhou a inscrição no crachá. Jônatas. Assessor.

“Bom dia, Jônatas”, devolveu o presidente. “Qual a minha agenda para hoje?”

Leandro Leal

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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