Prompts 2018 #2

junho 26, 2018 0 Comments


Julguei logo a capa. Minimalista, toda preta com uma inscrição prateada ao centro – parecia bordada à mão. Beirava as quinhentas páginas, mas para um leitor onívoro como eu, ia ser consumido em uma sentada. Comprei, paguei.

Comecei a ler ali mesmo, naquele banco de shopping. A escrita fluida engoliu meu tempo. No prólogo, um corte de tempo mostra que a campanha do bravo guerreiro se viu encurralada pelo guardião do tesouro – um imenso e carrancudo dragão com tantas asas quanto letras em seu nome. Eu sempre fui meio clássico. O clássico sempre me atraiu muito.

Só parei de ler quando uma bola de fogo varreu o corredor que dava para o banheiro. Vazamento de gás, alegaram. Ninguém saiu ferido, só um pouco chamuscado.

Tomei o ônibus com a suspensão da descrença lambendo minha mente. Segui para o primeiro capítulo, onde o Herói nem de longe parecia o inspirador protagonista que deveria ser. Estava reunido com mais três comparsas mequetrefes em uma taberna, e são pegos em uma briga com os guardas do local. De repente, ouço uma movimentação nos bancos atrás do meu – um grupo de amigos compram briga com desconhecidos no meio do corredor. Três caras. Mais dois vigias à paisana.

Assim que desci no meu ponto, já não pensava naquele livro com a mesma admiração. Coisas estranhas nunca me perseguiram dessa forma, por que só agora? Folheio a metade das páginas e paro justamente no plot twist. O Feiticeiro cruel e o Herói. Ele invoca um colosso com partes de cadáveres usando suas energias malignas para impedir o Herói de chegar ao tesouro.

Abri a porta de casa e um odor putrefato tomou conta da sala.

Paralisado de medo, eu fecho à chave e corro o mais longe que posso. Era esse livro. Só podia ser ele – ou, então, o universo preparou uma brincadeira sincronizada de péssimo gosto. Mas, o quê? Sim! O tesouro. Todo Herói clássico sai vitorioso e conquista o tesouro. Quem sabe ele conquista também uma bela mulher. Eu ia desafiar esse livro. Abri logo na última página. A honra e a glória me esperariam!

Li na última linha: “o Guerreiro cai em desgraça em sua cova rasa, profanado pela magia da morte do Feiticeiro”.

Odeio contemporâneos.

Leandro Leal

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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